FALEM BEM OU FALEM MAL, MAS NÃO FALEM DE VINCENT PRICE!
Um frustrado ator Shakespeariano usa métodos apropriados de assassinatos - extraídos das peças do mestre - para vingar-se dos críticos que ridicularizam sua performance.
Começar o ano de 2017 com mais uma amostra do poder e magia do Cinema Cult era tudo que eu queria!. Eis um outro aclamado filme estrelado por Vincent Price (1911-1993). E, com um pouco de senso de humor, não seria possível deixar de incluir um filme com uma história dessas propondo um acalorado e cinéfilo início de ano no Cinema Rodrigo. É minha forma de homenagear tanto o artista quanto o critico.
Price era realmente uma figura. Um ator único. Depois de ter sido coadjuvante famoso nos estúdios da Twentieth Century Fox em filmes como "Laura" e "A Canção de Bernadette", ele finalmente encontrou sua vocação nos filmes de terror que lhe deram fama e notoriedade até o fim da vida.
DIANA RIGG, que faz sua filha, foi a esposa de James Bond em 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969) e tornou-se grande personalidade do teatro inglês, onde ganhou o título de Dame. Atualmente é uma senhora irreconhecível e que é mais conhecida mesmo pelo papel de Olenna Tyrell na aclamada série "Game of Thrones".
A pouco tempo publiquei um texto sobre "O Abominável Dr. Phibes". Leia aqui. E Theatre of Blood é um descendente direto. Só funciona mesmo graças a existência de Vincent Price, que é capaz de dar um tom exato de sátira e paródia, que não deixa um filme, basicamente de terror, cair no excesso. Isto é, no fundo é uma comédia-sátira bem à moda inglesa. Infelizmente, o diretor Douglas Hickox (de O Sanguinário, Alvorada Sangrenta, O Monstro Submarino, Fortaleza do Inferno, citando alguns) não soube dar ao filme a mesma mistura de sátira, humor negro e citações camp de "Dr. Phibes". Ao menos para mim, sua direção é um tanto pesada e impessoal, de alguém que cumpre um serviço sem envolver-se. Quando faleceu em 1988 acabou terminando a carreira dirigindo para a TV sem grande ousadia.
Contudo, a história e o roteiro originais são tão bons que o filme sobrevive lindamente. Price é um ator canastrão chamado Edward Lionheart (Coração de Leão), especializado em textos de William Shakespeare, que, ao deixar de ganhar o prêmio dos críticos, resolve eliminá-los um a um. A ideia é genial. Sem mais. E soltarei aqui uma pergunta: qual ator não desejou matar um tipo que o criticou acidamente ( a seu ver injustamente)? No filme, Lionheart realiza seu desejo. Sadicamente egoísta. Como em Dr. Phibes, em princípio o espectador pensa que ele morreu, atirando-se pela janela, no Tâmisa, mas, após meia hora, está quase tudo esclarecido. Por milagre, Lionheart sobreviveu e foi acolhido por um grupo de vagabundos. Assim realiza sua vingança. E as coisas não podem ser simples. Cada uma das vítimas, no caso os críticos, serão eliminados de acordo com um plano.
Em Dr. Phibes eram as sete pragas do Egito. Aqui segue-se a ordem do repertório dramático do ator. As peças de Shakespeare são sempre muito sangrentas e Lionheart e sua trupe vão representá-las ao vivo com assassinatos reais.
O roteiro é tão inteligente que faz uso perfeito das frases de Shakespeare aplicadas ao momento. A efemeridade do teatro. Lionheart começa interpretando Júlio César, Troilus e Cressilda e também Cymbeline. Assim o primeiro crítico é morto como Júlio César, esfaqueado no dia 15 de março (cuidado com os idos de março!) e todas as mortes sucessivas se encaixam perfeitamente à situação.
É muito curiosa a reflexão que a fita provoca. No final, fica-se discutindo qual foi a morte mais sangrenta e engenhosa, mais bem preparada, sem ao menos se pensar na amoralidade da discussão. Mas é dentro da tradição do grand-guignol que o roteiro acaba com todos os críticos londrinos. E nesse ponto ele não poderia ser mais impiedoso. Todas os críticos são pedantes, antipáticos, sacrificando qualquer valor em nome de uma boa piada. Fazer uma profissão da arte de falar mal dos outros, não deixa de ser, por si só, uma ironia!
Fazendo os críticos, a produção colocou um elenco all-star: Ian Hendry (o mais jovem e mais coerente), Dennis Price (o esnobe), Arthur Lowe, Robert Morley ( o efeminado que anda sempre com seus dois cachorros poodles) Jack Hawkins (em seu último filme, fazendo o marido ciumento de Diana Dors, aquela que outrora foi a Marilyn Monroe inglesa), Robert Coote, Harry Andrews (a cena mais cruel: O Mercador de Veneza), Michael Horden e Coral Browne (a ácida Miss Chole e depois casada com Vincent Price na vida real).
A irreverência do filme está em toda parte. Desde os letreiros sobrepostos em filmes primitivos, mostrando representações de peças de Shakespeare no começo do século, até a escolha do elenco. Todos os atores são conhecidos por suas representações de personagens Shakespearianos. E, principalmente, na figura central de Price, interpretando Lionheart. O personagem é reconhecidamente um canastrão e Price não é somente um canastrão perfeito, como também costumava fazer conferências lendo textos de Shakespeare. Ou seja; um papel que lhe coube como uma luva.
Além de ser extremamente maldoso, As Sete Máscaras da Morte tem momentos muito engraçados, como o do policial vivido por Eric Sykes (de filmes como Harry Potter e o Cálice de Fogo e Os Outros) sentindo a aproximação de um trem, e pode ser curtido em vários níveis. Só espero que não seja um mal exemplo para ninguém.
Inglaterra
Comédia – Terror –
Drama
1h 44 min
★★★★☆
VINCENT
PRICE DIANA RIGG
THEATRE
OF
BLOOD
© 1973 United
Artists/Cineman/Harbour Productions Limited
Co-estrelando:
Ian Hendry Harry Andrews Coral Browne
Robert
Coote Jack Hawkins Michael Hordern Arthur Lowe
Robert
Morley Dennis Price Milo O´Shea
Eric Sykes
Madeline
Smith e Diana Dors
Fotografia
WOLFGANG SUSCHITSKY
Música
MICHAEL J. LEWIS
Desenho
de Produção MICHAEL SEYMOUR
Roteiro
ANTHONY GREVILLE-BELL
Produzido
por STANLEY MANN e JOHN KOHN
Direção
DOUGLAS HICKOX








2 comentários:
Confesso, nunca conferi. Vai pra lista e depois volto pra comentar, rs.
bjs
Amanda, é demais! rsrsrsrsrs Aguardo seu comentário.
Bjs.
Postar um comentário