ONDE VIVEM OS MONSTROS
Na Espanha falangista de 1944, a jovem enteada estudiosa de um oficial do exército sádico escapa para um mundo de fantasia sinistro mas cativante.
"O interior da cidade é como o interior das pessoas. Debaixo da superfície, está fervilhando com monstros." E é dizendo isso que o cineasta guillermo del toro ganhou a minha admiração. É sabido que tenho uma paixão de nascença pelo cinema. Isso nenhum cinéfilo consegue explicar, mas, especialmente, tenho por monstros. Adoro filmes de monstros e universos fantásticos. E não foi com um filme de terror (na qual também tenho predileção, diga-se) que del Toro conseguiu a façanha com este maravilhoso filme, que na verdade resume lindamente a sua obra. O LABIRINTO DO FAUNO (2006) é uma premissa dramática que mistura filme de Guerra com Fantasia. Dois lados opostos num resultado realmente bem realizado. del Toro é um mestre na caracterização dos monstros. É capaz de investir financeiramente de modo pessoal a feitura deste seguimento até que sua visão seja concluída nos mínimos detalhes. É um tipo de filme que o deixa feliz, por isso, sempre assumiu projetos que estão distantes da nossa dura e triste realidade, embora Fauno (e posteriormente A FORMA DA ÁGUA) tenham dialogado com o mundo real. Mas, vamos entender mais sobre o diretor abordando um pouco a sua biografia.
Há tempos estava devendo uma postagem sobre ele no blogue. Deste mexicano nascido em 1965 e que conseguiu espaço numa brilhante carreira internacional bem sucedida. E merecedora, okay?! Sua cidade natal é Guadalajara, onde veio ao mundo em 9 de outubro. Entre 1986-92 lecionou linguagem cinematográfica e coordenou alguns laboratórios, na Universidade de sua cidade natal. Foi crítico de cinema e publicou um livro sobre ALFRED HITCHCOCK em 1990, aliás, um dos meus livros de cabeceira. Temos até isso em comum, a paixão pelo Mestre do Suspense! Produziu o filme DOÑA HERLINDA Y SU HIJO (1985, de Jaime H. Hermosillo). Nos Estados Unidos, passou a se dedicar aos efeitos especiais e trucagens com o vencedor do Oscar DICK SMITH (1922-2014), saudoso maquiador de obras clássicas como O EXORCISTA (1973), de Friedkin e AMADEUS (1984), de Forman (ele realizou também o icônico SCANNERS, 1981, de Cronenberg). De volta ao México, fundou uma produtora (Necropia) e foi responsável pelos efeitos especiais de vários filmes mexicanos como CABEZA DE VACA, em 1990 de Nicolás Echevarría e BANDIDOS, em 1991 de Luís Estrada. Sua primeira experiência como diretor foi em três telefilmes feitos para a rede Televisa, no México. Dirigiu para TV em 1986, alguns episódios da série HORA MARCADA. Trabalhou também como maquiador em produções
anteriores ao seu primeiro filme. Seu primeiro longa de cinema, CRONOS passou em Cannes e imediatamente se transformou em um cult ao ganhar o prêmio da Semana da Crítica e o Ariel (Oscar Mexicano) para melhor filme, diretor e roteiro. Por mais que eu goste, na verdade, del Toro não se deu bem na primeira experiência americana para a Miramax, com o filme de terror/sci-fi estrelado por Mira Sorvino: MUTAÇÃO (Mimic, 1997). Continuou fiel as origens de sua preferência no gênero, agora, na Espanha, com o interessante A ESPINHA DO DIABO (El espinazo del diablo, 2001). Mas o sucesso veio mesmo com um personagem das histórias em quadrinhos criada no início dos anos 90: HELLBOY (2002) e sua continuação, "Exército Dourado", em 2008 (mesmo que um tanto irregular). Ainda com o divertido Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013) ressuscitou lindamente os filmes Kaiju com monstros e robôs gigantes. Um filme que bem que poderia ser mais uma produção de rotina de um Michael Bay, mas que já nota-se a trademark do mexicano justamente porque ele entende do estilo proposto. Como roteirista, colaborou na trilogia O HOBBIT, de Peter Jackson, projeto que era destinado ao próprio del Toro de tomar a frente na direção, mas que depois desistiu da ideia (e fez bem!). O seu drama terrificante sobre mansões mal-assombradas, A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015), co-escrito por Matthew Robbins, realizador de filmes como: O Milagre Veio do Espaço (*batteries not included , 1987 - da Amblin de Steven Spielberg) e O Dragão e o Feiticeiro (Dragonslayer, 1981) e também colaborador de Mutação, é um filme que ganhou o meu coração nas revisões. Uma premissa à la Shirley Jackson (A Maldição da Casa da Colina) sobre uma tragédia familiar onde uma aspirante a autora está dividida entre o amor por seu amigo de infância e a tentação de um misterioso forasteiro. Tentando escapar dos fantasmas de seu passado, ela é levada para uma casa que respira, sangra e lembra. Ótimos efeitos e atuações edificantes do trio Mia Wasikowska, Jessica Chastain e Tom Hiddleston. Até que veio o projeto de uma vida, o inesperado, mesmo que esquemático, A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017) um Oscar que já aguardava por ele. E eis que ambos, A Forma e Fauno, dialogam. Tanto que as fitas fazem jus a frase acima dita por ele. Existe um mundo fantástico que não conseguimos explicar, apenas sentir. Existem monstros no interior de pessoas de boa aparência e que na verdade os feios são mais amáveis e gentis. Se em A Forma da Água o cenário real era o da Guerra Fria, Fauno nos transporta para o período da Espanha Falangista.
anteriores ao seu primeiro filme. Seu primeiro longa de cinema, CRONOS passou em Cannes e imediatamente se transformou em um cult ao ganhar o prêmio da Semana da Crítica e o Ariel (Oscar Mexicano) para melhor filme, diretor e roteiro. Por mais que eu goste, na verdade, del Toro não se deu bem na primeira experiência americana para a Miramax, com o filme de terror/sci-fi estrelado por Mira Sorvino: MUTAÇÃO (Mimic, 1997). Continuou fiel as origens de sua preferência no gênero, agora, na Espanha, com o interessante A ESPINHA DO DIABO (El espinazo del diablo, 2001). Mas o sucesso veio mesmo com um personagem das histórias em quadrinhos criada no início dos anos 90: HELLBOY (2002) e sua continuação, "Exército Dourado", em 2008 (mesmo que um tanto irregular). Ainda com o divertido Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013) ressuscitou lindamente os filmes Kaiju com monstros e robôs gigantes. Um filme que bem que poderia ser mais uma produção de rotina de um Michael Bay, mas que já nota-se a trademark do mexicano justamente porque ele entende do estilo proposto. Como roteirista, colaborou na trilogia O HOBBIT, de Peter Jackson, projeto que era destinado ao próprio del Toro de tomar a frente na direção, mas que depois desistiu da ideia (e fez bem!). O seu drama terrificante sobre mansões mal-assombradas, A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015), co-escrito por Matthew Robbins, realizador de filmes como: O Milagre Veio do Espaço (*batteries not included , 1987 - da Amblin de Steven Spielberg) e O Dragão e o Feiticeiro (Dragonslayer, 1981) e também colaborador de Mutação, é um filme que ganhou o meu coração nas revisões. Uma premissa à la Shirley Jackson (A Maldição da Casa da Colina) sobre uma tragédia familiar onde uma aspirante a autora está dividida entre o amor por seu amigo de infância e a tentação de um misterioso forasteiro. Tentando escapar dos fantasmas de seu passado, ela é levada para uma casa que respira, sangra e lembra. Ótimos efeitos e atuações edificantes do trio Mia Wasikowska, Jessica Chastain e Tom Hiddleston. Até que veio o projeto de uma vida, o inesperado, mesmo que esquemático, A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017) um Oscar que já aguardava por ele. E eis que ambos, A Forma e Fauno, dialogam. Tanto que as fitas fazem jus a frase acima dita por ele. Existe um mundo fantástico que não conseguimos explicar, apenas sentir. Existem monstros no interior de pessoas de boa aparência e que na verdade os feios são mais amáveis e gentis. Se em A Forma da Água o cenário real era o da Guerra Fria, Fauno nos transporta para o período da Espanha Falangista.
Assim sendo, este filme se mostra como o seu trabalho mais maduro (enquanto A Forma da Água o mais romântico e sensível) depois de trabalhar muito bem com os efeitos especiais e cenas de ação em Hellboy, e de criar uma atmosfera de suspense e tensão abordando assuntos de outros mundos, como em A Espinha do Diabo, del Toro consegue unificar suas duas vertentes particulares e criar algo extremamente original. Para se ter uma ideia, o ator DOUG JONES, como o Fauno e o Homem Pálido, e que sempre colaborou com o diretor na maioria dos filmes, além de imediatamente icônico neste papel, está completamente singular por detrás das vestimentas e por aquelas camadas de maquiagens. Ele é certamente o ator mais espetacular no seguimento seguindo os passos de lendas do cinema como Boris Karloff, que obviamente del Toro tem predileção e se inspira. A história é ao mesmo tempo sombria e repleta de efeitos, se passando em 1944 no auge da Segunda Guerra e conta com uma garotinha chamada Ofelia, a ótima Ivana Baquero, uma jovem que descobre um mundo fantástico de criaturas silvestres quando sua mãe a leva para o Norte da Espanha para ficar com o padastro, um homem amargo e membro meio pervertido do exército fascista do general Franco.
O diretor reúne uma lista de atores espanhóis de primeira linha para esta produção, que inclui Sergi López (de Coisas Belas E Sujas, Dirty Pretty Things, 2002), Ariadna Gil ( de Alatriste, 2006), Maribel Verdú, do inesquecível E Sua Mãe Também (Y tu mamá también , 2001, de Cuarón e é claro, a pequena e talentosa Baquero que sempre me emociona. Todos acertam em um filme que não se deve em nada as produções Hollywoodianas. Amo a sequência em que Ofelia escapa do padastro selvagem e entra neste mundo de fantasia. Aliás, tudo isso me faz lembrar da Alice perseguindo o coelho branco e caindo na toca que a leva para o País das Maravilhas. Mas, como tudo não são flores, aqui a encenação com pano de fundo sucede no período posterior à Guerra Civil na Espanha, e com isso, o filme oferece muito a admiração de um grande público incluindo àqueles que não apreciam muito monstros. del Toro imprime aqui toda a sua surpreendente beleza e fascinação por monstros e é ajudado com fortes atuações pelas quais se não fossem, o filme iria por água abaixo.
Os elementos alegóricos, sobretudo os Contos de Fadas, em nada atrapalham a história, muito pelo contrário, consegue juntar as peças da realidade com as da fantasia. O resultado é que O Labirinto do Fauno consiste em duas metades separadas que conseguem se unir com força total em um todo que é ainda mais emocionante e admirável em seu clímax, aliás, melancólico, mas que no final das contas, não faz com que a realização de del Toro seja menos extraordinária. Esta obra-prima do cineasta é de encher os olhos e acalentar a alma. Às vezes a vida pode ser um monte de lixo, mas ainda vale a pena recorrer ao escapismo da fantasia. Em tempos atuais, O Labirinto do Fauno é perfeito.
DRAMA/FANTASIA/GUERRA
1h 58 min.
★★★★★
EL LABERINTO DEL FAUNO
um filme de
guillermo del toro
Estrelando:
Ivana Baquero
Sergi López
Maribel Verdú
Doug Jones
Ariadna Gil
Álex Angulo
Manolo Solo
César Vea
Roger Casamajor
Ivan Massagué
Paco Vidal
Juanjo Cucalón
Música de Javier
Navarrete
Fotografado por Guillermo
Navarro
Montagem Bernat
Vilaplana
Casting Sara
Bilbatúa
Direção de Arte Eugenio
Caballero
Figurinos Lala
Huete
Produzido por
Alfonso Cuarón . Guillermo del
Toro
Bertha Navarro . Frida
Torresblanco
Escrito e Dirigido por
guillermo del toro
EL LABERINTO DEL FAUNO © 2006 Estudios Picasso/Wild Bunch
Tequila Gang /Esperanto Filmoj /Sententia Entertainment
Telecinco /CafeFX/ OMM









5 comentários:
É interessante que esse filme pode ser visto por 2 pontos de vista diferentes:
Você pode entender que toda a parte ´sobrenatural` que aparece era só imaginação da menina, pra escapar da realidade infeliz em que ela vivia.
Ou você pode entender que tudo era real mesmo.
Ficam insinuações de ambas as possibilidades.
Olá, tudo bom?
Não seria um filme que eu assistiria, mas adorei a resenha.
Um beijo,
www.purestyle.com.br
Não sou grande fã de filmes que exploram contos ou fábulas adultas, mas concordo que esta obra de Del Toro é sensacional.
Mesmo com bons filmes no currículo, considero este o melhor trabalho do diretor.
Abraço
Leo: ótimo adendo. Exatamente isso. O filme explora isso e instiga os espectadores interpretarem os dois caminhos...
Fernanda: Entendo. nem todos embarcam neste gênero, mas, sigo recomendando o filme.
Obrigado. Beijos!
Hugo: eu também tenho algumas ressalvas pelo tema, mas del Toro sabe explorar bem neste filme. Seu melhor trabalho junto com A Forma da Água.
Abraço.
Olá Rodrigo
Cinema do Del Toro como vc diz, não é pra explicar, é para sentir.
Gênero fantástico, surreal e gótico essa releitura de contos de fadas sombrio (e que é trabalhado nas cores com aquele sombreado azul que lembra um livro de fábulas) é recheado de referências e tb oferece duas vertentes distintas, se vc ama a fantasia não vai se decepcionar e se vc é fã do realismo tb vai assistir o filme feliz da vida.
"Feche os olhos e ouça as vozes da floresta"!
Esse post é um escândalo de mara, uma verdadeira imersão no mundo da Ofelia!
(A propósito fiquei muito chocada com as cores de A Colina Escarlate :( fiquei noites dormindo com a luz acesa :) e tb fiquei muito impressionada com o "apego" que as pessoas tinham com o local)
Bjs Luli
https://cafecomleituranarede.blogspot.com.br
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