ação e não reação
Embora
nunca tenha sido oficialmente proibido pela censura brasileira, que aconselhava
a distribuidora Warner apenas a não apresentar o filme para a sua avaliação,
chegou ao Brasil em 1978 assim mesmo com uma cópia que havia sido feita para o
Japão, com bolinhas pretas para cobrir os pelos pubianos e outros lugares
estratégicos (bizarro).
O mote
desta produção é de fato, o jovem ator Malcolm McDowel, revelado antes no filme IF e reza a lenda que foi ideia dele usar
'Cantando Na Chuva' em uma cena chave da fita. Quem prestar atenção verá uma
citação de 2001: Uma Odisseia No Espaço
(a capa do disco numa loja).
Laranja mecânica, o mais cultuado filme da
história, embora genial e dirigido por um mestre da arte cinematográfica, STANLEY KUBRICK.
Foi apenas indicado ao Oscar de Filme, roteiro e direção. Não ganhou,
na verdade chocou! E o que dizer desta obra? Muito bem, na verdade há um
incômodo que começa pelo título que nunca é explicado com precisão. Parece-me
que o autor Anthony Burgess inspirou-se numa velha expressão popular londrina
" Cockney", que dizia: " Sujeito é doido como uma laranja de
corda". Ou, onde "Orang" quer dizer "humano",
surgiu-lhe a ideia de fazer anagramas (orang- organ = organizar) chegando a uma
conclusão linguística: ou seja, o ser humano, quando organizado pelo poder
dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, ambos, o livro e o filme
utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado
de três maneiras:
Foi apenas indicado ao Oscar de Filme, roteiro e direção. Não ganhou,
na verdade chocou! E o que dizer desta obra? Muito bem, na verdade há um
incômodo que começa pelo título que nunca é explicado com precisão. Parece-me
que o autor Anthony Burgess inspirou-se numa velha expressão popular londrina
" Cockney", que dizia: " Sujeito é doido como uma laranja de
corda". Ou, onde "Orang" quer dizer "humano",
surgiu-lhe a ideia de fazer anagramas (orang- organ = organizar) chegando a uma
conclusão linguística: ou seja, o ser humano, quando organizado pelo poder
dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, ambos, o livro e o filme
utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado
de três maneiras:
1-
Como uma sátira social sobre o emprego de condicionamento psicológico;
2-
como um conto de fadas sobre a justiça e o castigo, e
3-
como um mito psicológico, “uma história construída em torno da verdade
fundamental da natureza humana”.
A
minha interpretação: uma forma grotesca e sátira de aprendizado contra a
violência. A lei inversa de ação e não reação, que para deter a
"ultraviolência" é necessário agir com mais violência.
Basicamente,
o filme se passa em um futuro próximo (o incômodo anos 70 - hoje é um futuro
arrojado), na Inglaterra, num lugar desolado e violento, onde jovens gangsteres
atacam, estupram e matam. Um deles, o líder drug
- Alexander DeLarge é treinado pelo
governo para ficar condicionado num tratamento de lavagem cerebral que lhe traz
repulsa à violência.
Kubrick
adorava satirizar, vide exemplos como Dr.Fantástico
e Nascido
Para Matar . Em Laranja Mecânica a sátira é sobre o condicionamento,
claramente no filme, mostrando que a sociedade se baseia no poder, nas mentiras
e no abuso de usar pessoas para os mesmos fins. Tanto da direita, quanto da
esquerda e, consequentemente, um homem condicionado a ser bom, em todas as
circunstâncias, seria completamente vulnerável. A nossa civilização é altamente
complexa, que requer uma autoridade para surgir a bondade natural do homem, na
qual é um critério utópico e falacioso e, Kubrick deixa explícito esta utopia
no filme. Todos os nossos esforços vão parar nas mãos de desonestos ( o que era
aquele Ministro?) já que a culpa reside na natureza imperfeita do homem mesmo.
Assim,
Laranja Mecânica é basicamente uma parábola sobre a manipulação do Homem pelo
Estado. Conta a história de um jovem revoltado, precursor da moda punk,
interessado na chamada ultraviolência, sexo e Beethoven - que é escolhido para
uma experiência científica ( a sessão colírio parece um filme de Ficção
-Científica) de condicionamento mental e físico, uma verdadeira lavagem
cerebral que o torna refratário à violência, fazendo-o vomitar cada vez que se
defronta com um ato violento. O tratamento é mesmo um sucesso? Por engano, Alex
acaba sendo condicionado a odiar aquilo que mais ama - Beethoven, cuja música (
a bela 9º sinfonia) servia de fundo para um dos documentários usados em sua
cura. E, logo, o anti-herói torna-se vítima da manipulação política dos
partidos, completamente indefeso é levado ao suicídio pela oposição e depois
usado pela situação novamente (sim Alex morre no final, rs).
O que
o filme esta querendo mostrar em seu teor é que, no fundo, todos nós somos
laranjas mecânicas e que estamos sendo submetidos a lavagens cerebrais
contínuas que nos condicionam e governam (como aqueles desenhos hipnóticos
japoneses), às vezes, de forma subliminar a ponto de não tornarmos conhecimento
delas. Por ventura de maneiras mais óbvias, através das solicitações da
sociedade de consumo.
O
filme é um brado de alerta e conscientização contra isso e talvez tenha errado
na dose: ao pedir que nos identifiquemos com um cara como Alex, desordeiro e
irresponsável.
Será
mesmo que todos se alegram? Alguns nem chegam a entender direito a dimensão da
cura de Alex, suponho. Essa ambiguidade é um dos problemas do filme que
provocou as opiniões mais desencontradas em toda a parte. Certas pessoas se
horrorizam com sua violência e a chamam de gratuita. Mas na realidade ela é
toda estilizada, mostrada quase como um balé, ou uma expressão da Pop-art.
Nunca de forma literal. Aliás, a trilha musical é extraordinária, com obras de
Puccini, Elgar, Purcell e naturalmente Beethoven, que dá ao filme muito de sua
atmosfera.
Tecnicamente
o filme abusa e muito bem de grandes angulares, lentes deformantes (como na
cena no Bar Korova). Mas o filme tem um maravilhoso poder entorpecente. Na
enigmática cena vitoriana final, há a busca de uma qualidade ideal, procurada
por Kubrick. Diz ele numa entrevista radiofônica que anotei num curso de
cinema: " A laranja se comunica num nível subconsciente e o público reage
diante de uma configuração básica da história, como se fosse um sonho. E
discursivamente debatem o sentido a cena final. Como os outros sonhos mostravam
assassinato, dor e morte, a erótica cena final sugere que de alguma maneira, a
mente de Alex se transformou e se apaziguou.
Enquanto
o livro de Burgess é uma amarga sátira aos paradoxos do livre arbítrio. Por
isso, o filme continua a provocar discussões. Afinal, tenho que defendê-lo dos
que não gostam dele. Se não, corro o risco de acabar virando uma laranja
mecânica!
'Laranja Mecânica' - A Clockwork Orange
Inglaterra- 1971
Drama
137 min.
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
WARNER BROS. PICTURES apresenta
UMA PRODUÇÃO DE STANLEY KUBRICK
Em associação com
POLARIS
co-estrelando: Michael
Bates Warren Clark
Philip Stone
Anthony Sharp
música de WENDY CARLOS cenografia por JOHN BARRY
assistente de produção JAN HARLAN
fotografia JOHN ALCOTT
produtor associado BERNARD WILLIAMS
produtores executivos MAX L. RABB e SI LITVNOFF
baseado no livro de
ANTHONY BURGESS
ANTHONY BURGESS
Escrito, produzido e dirigido por
STANLEY
KUBRICK
KUBRICK





10 comentários:
Não sabia dessa história sobre a cópia do japão. Cara, isso dá outro filme de tão incrível. Digo, saber os detalhes por detrás de tudo. Haha, principalmente pela hipocrisia brasileira e outras também. Se a idéia do Cantando na Chuva foi do Malcolm eu já não sei mesmo tendo ouvido o mesmo, mas achei que ficou fantasticamente bizarro, hehe.
Só discordo de uma coisinha: qnto ao filme "pedir" que nos identifiquemos com Alex. Não é exatamente... essa sensação de não gostar/sentir dó que move a transformação do filme? Bom.. mas sei lá, interessante o que você disse, não tinha pensado por esse lado. Aliás, tem muitas coisas que você disse, com as quais sim eu concordo hehe, que não havia pensado.
Uma pergunta, ele se cura??? No filme pelo menos? Ou eu fui muito cabeça-oca das vezes que assisti ou parte do quase-final foi meio dúbio.
Enfim, preciso ler de novo o post. Amo o filme e tenho o livro aqui. To precisando ler e ver de novo. De tempos em tempos faço isso. Nota 10. Filme e post.
Abraço ^^
[ainda to precisando ler os posts de baixo, desculpa pela demora, =/]
Eu achei também o final SUPER dúbio e é a cara do Kubrick propor essa reflexão nos finais de filmes dele, né mesmo?
O filme é forte até hoje em dia, super atual, pois podemos fazer várias relações com as vivências e o mundo pós-moderno.
Eu acho o melhor filme realizado por Kubrick e tenho dito!
Sinceramente? seu melhor post!
foi de presente de aniversário, né?
Obrigado! hehehe!
Paulo e Cris: de fato é dúbio.
Opiniões sempre desencontradas. Da para fazer um debate em um café e discutir Kubrick, rs.
É presente de viver sim Cris, rs
Abs!
Rodrigo ;)
Vai ao meu blog: http://nomundodagema.blogspot.com/
que tem la miminhos para ti :P
Bjs
Fala Rodrigo, estive ausente e sem tempo pra net, e q blz de post nesse retorno ao seu espaço, acho 'Laranja Mecânica' sensacional, uma obra prima, meu preferido de Kubrick. nota 10 sem dúvida, parabens pelo texto. abs.
Diego.
Gema: vou lá amiga, bjokas!
Diego: É senssacional mesmo obrigado Abs!
Grande Rodrigo , "Laranja Mecânica" é outro dos meus Cult Movies dos anos 70 . Uma obra impactante do genial Kubrick . Como sou bem mais velho que vcs tive o desprazer de assistir a cópia censurada da fita . Aquela das bolinhas estratégicas . Mas o pessoal tirava sarro da situação e durante a exibição havia torcida para que as bolinhas errassem o alvo . Eram vaias e aplausos sucessivos . Os anos de chumbo tinham essas coisas estranhas . Anos depois assisti o filme integralmente quando relançado no Brasil .
Um abraço .
Tatuador: Isso deve ter marcado a sua vida.Rs Abs amigo!
Um dos melhores filmes de sempre...
É extramente fabuloso e perfeito em vários sentidos...
É com certeza nota 10...
Abraço
http://nekascw.blogspot.com/
Nekas: Bem vindo!!! Sem dúvida uma obra incontestável.
Estarei no seu blog. Abs!
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