quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ROMAN POLANSKI | CHINATOWN

AMOR QUE SE VAI E REVIRAVOLTAS DA VIDA


Em seu livro Manual do Roteiro, Syd Field usa como exemplo o roteiro deste filme o tempo todo, dizendo que fora o melhor script que ele já leu. O filme dirigido por Roman Polanski ( e escrito também, apesar de não creditado) se passa na Los Angeles de 1937, em que um detetive particular Jake Gites personificado por Jack Nicholson, é contratado por uma mulher num caso aparentemente simples que, aos poucos, complica-se.


Essa complicada produção, como na história e como em nossas vidas, teve diversas reviravoltas e pontos de viradas a começar pelas famosas brigas entro o diretor e a estrela Faye Dunaway, no set de filmagem deste film noir que tem crescido de prestígio nos últimos anos. Faye não aprovava os métodos grosseiros do polonês e ele reclamava dela por causa dos atrasos da maquiagem e mudanças no diálogo.

Aliás, Ali MacGraw (estrela de Love Story) estava prevista para estrelar o filme, mas quando largou o marido-produtor Robert Evans, foi despedida da fita. Jane Fonda, a lendária Barbarella, recusou o papel e se deu mal. Polanski, que era ator desde os tempos de moleque na Polônia, faz uma ponta como o gângster (todo vestido de branco e com cara de cafajeste), que corta o nariz do herói. Nicholson, conseguiu fazer em uma única tomada, as famosa cena em que o reservatório é tomado pela água.

O roteirista Robert Towne e Polanski não concordavam com o final previsto. Polanski o reescreveu na noite anterior à filmagem, mas quem ganhou o Oscar foi Towne de melhor Roteiro. O filme foi também indicado nas categorias: filme, direção, fotografia, música (incrível partitura de Jerry Goldsmith), ator; Nicholson- ganharia depois por 'Um Estranho no Ninho' de Milos Forman e atriz para Faye.

Este foi o último filme de Polanski nos EUA. Antes que pudesse completar outro, teve de fugir do país para não ser preso pela sedução de uma menor. Até hoje nunca mais pisou lá, morando, desde então, em Paris - enfim, muitas reviravoltas na vida de Polanski - ele foi preso recentemente (procurem saber mais).

O próprio Jack Nicholson estrelaria e dirigiria a continuação tardia em 1990, A Chave do Enigma - The Two Jakes, que foi um grande fracasso comercial e um apêndice. Muito ruim mesmo! Quando vejo e revejo Chinatown, percebo como muitos cineastas já sonharam em fazer um film noir moderno, ou seja, colorido, com técnica atualizada, respeitando o clima fatalista e em voga no cinema americano dos anos 1940. Estranhamente, ou melhor, perfeitamente, foi um polonês, Roman Polanski, que chegou mais perto com este filme. Ele tem um moral ousado ao extremo, afirmando que " nas circunstâncias certas, qualquer pessoa é capaz de cometer qualquer coisa, seja crime ou pecado". Recusando a facilidade, fez uma fita longa, complicada, com uma historia ótima e cheia de meandros e reviravoltas ( o que Syd Field chama de plot point ) que nem sempre o público é capaz de acompanhar. Aliás, exatamente como deve ser um autêntico film noir apresentado as plateias.

O título é um pouco enganador, o máximo que se vê do bairro chinês são alguns letreiros e um pedaço de rua (a Chinatown famosa é a de San Francisco e não a de L.A, onde se passa a trama). É muito boa a ideia dos letreiros em preto e branco com a tela normal para só depois passar para o colorido, ainda assim, Polanski usa somente tons pastéis e cores neutras, como se estas fossem realmente as cores da década de 1930, da depressão. As vezes tenho a impressão que Almodóvar travestiu o ambiente.

A música é igualmente bem colocada. O belo tema de amor (reparem como todo bom filme tem uma história de amor - cinema vive de amor) só aparece quando os personagens se relacionam de maneira mais séria. A direção de Polanski é fria, sem truques, limpa, direta e ganha muito quando se fixa nos atores. Há algumas cenas que se tornaram antológicas: o momento de amor no banheiro, a confissão aos tapas e o tiroteio (bang bang) final.

John Huston, que na década de 40 fez a reputação em fita do gênero como Relíquia Macabra e À Beira do Abismo, interpreta o velho Noah, como se fosse quase como uma homenagem a ele mesmo. O roteiro mistura corrupção política com crimes misteriosos, capangas sanguinários e finais surpreendentes - o filme é um cult perto de 'O Poderoso Chefão'. O detetive particular, Jake Gites, está na tradição do gênero: ele é honesto, tem seu código de conduta/honra e uma amargura do passado. É curiosa a ideia de fazê-lo usar um curativo no meio da cara em grande parte do filme - para um herói que teria que ser galã, Jack Nicholson não é o ator mais bonito do mundo, diga-se. Mas é galante nas palavras e no talento único que possui. Eu gosto da frase final: "Esqueça é Chinatown!" Mas as revelações finais foram na época um tanto chocantes, tornando o filme um estudo sobre as aparências. Nada é aquilo o que parece ser ( os amigos se mostram estranhos com o tempo),por trás de cada rosa , há um estrume que faz crescer. Tal profundidade, tal fatalismo é fácil de entender vindo de uma figura tão sofrida, tão soturna como Polanski. Este foi o filme que consagrou definitivamente Jack Nicholson e trouxe outro belo trabalho de Faye Dunaway - revelada em 'Bonnie e Clyde' de Arthur Penn, superando uma maquiagem ingrata e um personagem difícil. 

Ao ver o filme, eu sinto exatamente a emoção de se perder um amor, seja aqui em Embu das Artes ou em Chinatown.


EUA - 1974
Policial/Suspense/Romance
130min.
Produtora: Long Road
Distribuição: Paramount 
★★★★★



PARAMOUNT PICTURES APRESENTA
UM FILME DE ROMAN POLANSKI
Jack Nicholson           Faye Dunaway
Chinatown
©1974 UM FILME PARAMOUNT
Com: John Huston   Perry Lopez   John Hillerman
Darrell Zwerling  Diane Ladd   Roy Jenson
 Richard Bakalyan  Joe Mantell   Bruce Glover
Nandu Hinds  Belinda Palmer   e: Roman Polanski
Produção Robert Evans
Música de Jerry Goldsmith
Fotografia de John A. Alonzo
Direção de Arte W. Stewart Campbell
Figurino Anthea Sylbert
Edição Sam O'Steen
Roteiro Robert Towne
Direção
Roman Polanski

5 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Jane Fonda se perdeu...se bem que fora indicada, recentemente aí, por um filme, por sua atuação, não?

Jerry Goldsmith sempre sublime, por mim levaria mais Oscars pelas composições sempre inspiradoras.

O último bom filme que vi da Faye Dunaway foi Joana D'Arc de Luc Besson, por sinal ela está formidável!

Chinatown é um bom filme, sim...mas, eu tenho pouco dele em mim, é porque assisti quando criança, tinha uns 12 anos...minha mãe tinha - acho que possui ainda - o VHS...por isso não tive um bom entendimento, preciso é revê-lo.

Bela resenha!
como sempre!

PS: belos posters, hein?

Paulo Alt disse...

Humm.. Que título é esse? rs Gostei das histórias das brigas dos atores e das curiosidades. Citações também. Se você gosta da frase final, gostei de outra que você colocou sobre o autor: "nas circunstâncias certas qualquer pessoa...". O texto ficu estruturado direitinho.

Sabe, mais um pra eu ir me educando nessa área. Depois de uma aula de almodovar, woody allen e cia., polanski. enqnto isso só vou aproveitando aqui.

É mais fácil eu te ocntar minhas histórias com os dvds do que o próprio dvd rsrs. Eu ouço esse nome do filme desssdee... bom, há muito tempo. Tinha uma idéia meio desviada do que era. Mas maior fui procurá-lo e gostei bastante da sinopse. Ah, e inclusive bastante dos posters [igual o cris ai em cima rs]. Admiro essas coisas nesse estilo que você citou no texto, deu pra visualizar bem esse noir colorido rs. Já tive várias oportunidades de comprar e nada. Quem sabe nessa onda de fim de ano ainda compro? Já fiz isso com alguns que estavam na mesma situação.

Abraçooo

Marcelo Augusto disse...

Chinatown é um filme que não me alcançou psicologicamente como te alcançou. Da última vez que o vi, o achei um pouco pragmática demais em sua tese, mas isso é apenas uma opinião exclusivamente pessoal.

No entanto, preciso concordar contigo quando você diz que muitos autores sonham em criar um filme usando a intriseca arte do fatalismo em voga nos anos 30-50.
Chega a ser um fiasco ver que certos diretores distorcem completamente da alma perdida daqueles filmes.

Relíquia Macabra! Só tive a oportunidade de ver um pouco do filme, acho que no VHS de um amigo, mas eu ainda preciso termina-lo!

Chinatown, como voce mesmo disse, transmite a sensação de desvirtualização das relações e isso me provocou um pouco de intolerância.

Ótimo POST, fazia um tempinho que não comentava, mas sempre li seus textos, inclusive aquele de Woody, que está simplesmente completinho! Pretendo tornar minha visita mais permanente aqui! Abraços!


PS: Lembra-se do Clube do Filme? Estou pensando em finalmente coloca-lo em prática. O que me diz?

Rodrigo Mendes disse...

Cris: Nem sei da Jane Fonda. Recente dela só vi 'A Sogra' e agora num filme do Gary Marshall.

Jerry Goldsmith é meu compositor favorito perto de Ennio Morricone e John Williams.

A Faye está bem mesmo nesse filme do Besson que não foi sucesso.

Chinatown é enigmático e é o melhor filme com reviravoltas. Assista de novo sim e tenha ele de cabeceira. Abs! Tbm adoro estes posters.

Paulo: Não entendeu o título?
Também adoro as fofocas de Hollywood, coloco quando vem a calhar e se tem alguma relevância a resenha.
Tbm não tenho esse filme em DVD. Assisti na TV. Preciso. Fato! Quero a edição especial com o poster bonito, rs! Abs!

Marcelo: Pragmática? Reveja de novo, este filme não pode ser deixado de lado por nenhum cinéfilo. Roteiro formidável e direção precisa. Não é um filme fácil, por isso é diferente.
Não vejo tanto fiasco, neste gênero os cineastas se comportam e fazem uma obra na linha. Até já vi filmes modestos como muitos do Carol Reed e recentes como os futuristas noir de Spielberg - ' A.I.' e 'Minority Report' - eles seguem as normas clássicas. A diferença de Chinatown é a claridade num roteiro noir, tenso e cheio de surpresas. Repare que a obra de Almodóvar tem essa escola. Inclusive ele vive fazendo citações de filmes noir em suas histórias. 'Carne Trêmula', 'Kika' esse ' Abraços Partidos' etc. Assista com atenção!

Quanto a Woody Allen obirgado pelos elogios,procurei falar dele e de dois dos meus filmes prediletos.

Falamos no msn sobre o Clube Do Filme. Abs!

Dewonny disse...

Ótimo filme do Polanski!
Lembro de ter gostado bastante quando vi!
Parabéns pela análise!
Deu até vontade de rever o filme q faz tempo q assisti!
Amigão, indiquei 4 selos pra vc lá no meu blog, pega lá se quiser!
Abs! Diego!

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