segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ARTHUR PENN | BONNIE E CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS

É MESMO UMA RAJADA DE BALAS!

O filme é um belo romance marginal passado nos anos 30, onde um ladrão de carros e sua namorada unem-se  para formar uma dupla de assaltantes - a mais famosa de ladrões de banco da época, neste filme caipira inspirado em fatos, dirigido pelo artesão, o diretor Arthur Penn (1922-2010) que realizou outra obra-prima, "O Milagre de Anne Sullivan (1962). Outra cinebiografia. 

"Eu sou Bonnie, ele é Clyde...nós roubamos bancos"! Com esse slogan, a fita causou polêmica. Na ápoca foi um baita escândalo, mas finalmente encontrou o sucesso. Quando estreou foi massacrado pelo seu excesso de violência, mas o público que estava apoiando fitas como Easy Rider (Sem Destino) de Dennis Hopper e The Graduate (A Primeira Noite de um Homem) de Mike Nichols, descobriu e aprovou também a nova película , baseado numa história verídica, de tal forma que a Revista Time lhe deu uma matéria de capa e o crítico do New York Times, Bosley Crowter, que havia falado mal do filme, acabou sendo despedido porque foi considerado desatualizado!

É bom ressaltar que foi o primeiro dos grandes projetos do valente ator e produtor Warren Beatty, e era um projeto pessoal. 

- Poucos lembram Warren como sendo irmão de Shirley MacLaine. 

O filme passou por várias versões e em determinado momento iria ser dirigido pelo francês Jean Luc Godard e até passou pelas mãos de François Truffaut. Porventura, os franceses recusaram. Mas houve problemas também com o elenco feminino, Bonnie foi recusada estupidamente por Jane Fonda que seria prefeita para o papel, em minha opinião e também por Tuesday Weld. Beatty não queria sua então namorada, Leslie Caron, que achava errada para o papel, e fora ela que o encorajou  a comprar os direitos do script de dois jovens jornalistas então desconhecidos, respectivamente David Newman e Robert Benton (futuro cineasta - ele faria o aclamado Kramer versus Kramer, ganhador do Oscar).


Pensaram até na Lolita Sue Lyon para o papel de Bonnie, porque não aprovava, em princípio, a então iniciante Faye Dunaway (admito que sempre gostei dela), que perdeu vários quilos no papel que a transformou em estrela. Hoje em dia Faye é a face mais lembrada da própria Bonnie. 

No roteiro original, acredite, Clyde era homossexual e tinha um caso com o ajudante personificado por Michael J. Pollard, mas Beatty preferiu transformá-lo  em um impotente sexual.

Com Arthur Penn na direção, a cena do tiroteio feita em Lemmon Lake, perto de Dallas, consumiu três mil cartuchos e levou três dias para ser realizada. Levou mais dias, filmada com quatro câmeras simultâneas, a cena da emboscada que fora toda coreografada em que eles são mortos em slow motion. A perna de Faye estava amarrada no carro para ela não cair e há na cena um take subliminar do crânio sendo arrebentado que não dá para se perceber tao facilmente a olho nu. Os parentes de Bonnie Parker querendo ganhar dinheiro, chegaram a processar a Warner, assim como a viúva do homem-da-lei, Frank Hamer. Há um trechinho na fita de Cavadoras de Ouro de 1933 com um número de Busby Berkeley

Ganhou os prêmios da Academia para Atriz Coadjuvante (a escandalosa Estelle Parsons) e Fotografia realizada pelo mago da luz Burnett Guffey (1905–1983) de obras-primas como A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity, 1953) seu trabalho mais lembrado.  Todavia, o filme também revelou o ótimo Gene Hackman e o Willy Wonka Gene Wilder, até então desconhecidos. Foi indicado aos Oscars de: Filme (Warren Beatty sendo o produtor), DiretorAtor, Atriz, Ator Coadjuvante (Hackman competindo com Pollard), Figurinos e Roteiro Original.

É preciso situar o filme num momento histórico determinado. Havia uma guerra impopular e estúpida envolvendo os EUA e o Vietnã e uma nova geração de jovens começando a se manifestar, olhar o mundo, dentro e fora da sétima arte. Na música, no movimento hippie, no uso de drogas (LSD), na criação de um pensamento não mais utópico, era próprio e executado na rebeldia. Na desilusão com a própria falência do sonho do Camelot do Presidente Kennedy - que então fora assassinado, aliás como seu irmão e amigo Luther King. Era o momento em que filmes como Easy Rider (mais que seria lançado pouco tempo depois, 1069) e The Graduate, como foi dito, faziam sucesso entre os jovens. 

Quando leio sobre esse período, vejo uma época de queda dos velhos senhores dos grandes estúdios da Era de Ouro. Era como se o Império Romano caísse, e dos velhos valores, mas, sobretudo, da criação dos novos. Foi quando Warren Beatty um rapaz bonito e muito ambicioso (e que chegou a dizer de brincadeira, assim contou, numa anedota ao próprio Jack Warner, o chefão do estúdio, que aquele logotipo WB significava; Warren Beatty!) teve a intuição artística de fazer uma revisão de um grande mito americano: o do fora- da- lei, e que ao invés de passar no Velho Oeste, atualiza o conceito para a época dos grandes gangsteres e assaltantes criminosos com chapéus, metralhadoras automáticas e carros de luxo (e ainda com a diferença de ser em um ambiente interiorano). Era inédito. Isso só comprova que no fundo, Warren era um rebelde que se levanta contra as normas que ele acha injusta na sociedade e a premissa perfeita não poderia ser outra do que a romântica saga trágica do casal Bonnie e Clyde. Hoje isso pode parecer piegas, mas naquela época a dimensão era outra. Neste quesito, de buscar projetos e realizá-los por detrás das câmeras, Beatty sempre foi bom, aliás acho ele melhor produtor-diretor do que ator/estrela, merecendo o prêmio Irving Thalberg que ganhou em 1999.



Percebendo os novos ares, ele conseguiu um roteiro revolucionário simplesmente por recontar sem censura, e em forma de lenda, quase nostálgica, a história real de uma dupla de ladrões de banco famosas pelas tiras de jornais sensacionalistas. Mas houve outra sorte; a de chamar o diretor certo - Arthur Penn no momento de sua maior criatividade como um ótimo artesão do cinema, um diretor que concerta e resolve problemas e, óbvio, de pulso firme (outros exemplos de cineastas pouco autorais e mais diretor pra toda obra: Sidney Lumet, Victor Fleming, ), utilizando recursos, como: a trilha jazzística, cenas como farsa ou como fotografias de época. momentos fora de foco, isto é, qualquer truque e novidade em que pode pensar além de ter conseguido reunir um elenco ideal. Ou quase. Estelle Parsons, justamente a que ganhou o Oscar, é histérica e exagerada e certamente a úica falha do filme e, por isso mesmo, sua carreira não deslanchou (ainda mais que Oscar na estréia é a maldição à la Cidadão Kane, diga-se). O mesmo pode-se dizer de ,Michael j. Pollard (que já havia aparecido em séries de TV como; Alfred Hitchcock Presents e Jornada nas Estrelas, o mais experiente do elenco) que exagera no grotesco catinguento e sujo. 

Até aquele momento já havia a técnica para fazer cenas de violência mais explícitas, como: o exemplo do uso da câmera lenta por Sam Peckinpah (outro contemporâneo no estilo e gênero). Tudo isto fundiu-se num filme que primeiro confundiu, depois arrebatou e, por fim, com a distância do tempo, foi de profunda influência e ressonância no cinema moderno. 




'Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas' - Bonnie and Clyde
de Arthur Penn
EUA- 1967
Policial - 111 min.
✩✩✩✩✩ EXCELENTE





WARNER BROS. PICTURES
Apresenta

WARREN BEATTY    FAYE DUNAWAY

BONNIE AND CLYDE

Com: MICHAEL J. POLLARD 
GENE HACKMAN   ESTELLE PARSONS

Co-estrelando:
Denver Pyle   Dub Taylor   e Gene Wilder

Escrito por
ROBERT BENTON e DAVID NEWMAN

Produzido por WARREN BEATTY

Montagem de DEDE ALLEN

Fotografia de BURNETT GUFFEY   

Música de CHARLES STROUSE

Dirigido por ARTHUR PENN

5 comentários:

Paulo Alt disse...

Rô,
"ficou eu fórico" kkkkkkkkkkkkk Essa foi boa!

Adorei isso aqui! Até hoje acho que só li meu nome em blogs alheios quando fui comentado de algo ou pra receber algum selo... acho... que é, hum, a primeira vez?!?! rs Eu ainda continuo com a minha teoria que às vezes comentar em tais circunstâncias é difícil. Que responsabilidade! Eu não sei pq mas to achando que esse post tem consistência... 8-) Antes de mais nada, obrigadoooooo rs Tô todo envergonhando aqui, kkkkkkk

Deixa eu te contar o motivo deu ter ficado feliz pelo post [e pelo post do Cris também]. Ouço a história desses dois desde pequeno e nunca consegui ver nada relacionado. Na minha locadora tinha um dvd que eu nunca me interessei antes, quando fui procurar por ele afoito... cadê??? Ano retrasado se não me engano estava assistindo Barrados no Baile [o antigo] e fizeram uma menção, a Brenda ia a uma festa a fantasia e tinha se vestido estilo "Bonnie e Clyde". Resultado, me deixou mais curioso ainda e cadê??? nada de novo. Então... eis que eu vejo vcs meus amigos retornarem com isso. Acabo que ainda estou a procura do dvd e não encontro em nenhum lugar, todos estão indisponíveis. Depois as distribuidoras querem se fazer de vitma com os downloads, acho ridículo. Não é???

O que eu mais curti mesmo foram as curiosidade que você colocou. O cara ter um caso com o ajudante foi o ápice do estranho. Mas mudarem para impotência sexual foi uma ironia involuntária sem graça de certa forma. Me espantei quando li no blog do Cris como essa "impotência" era mostrada. E pros anos 60 ainda, achei bem curioso.

O post tá todo recheado, rs. E postou logo em seguida de outro que ainda era novinho! rs Colocou um pouco de parte histórica também... Não acho que os anti-heróis lutando pela realidade seja algo clichê, sendo bem feito funciona até nos dias de hoje. Qual o problema??? Mais uma vez obrogado mesmo!

Abraçooooo ^^

Cristiane Costa disse...

olá
Ótimo post e me deu várias informações antes de eu me marginalizar neste filme de ação marginal (rs). Eu li uma crítica no apimentário sobre este filme, agora estou aqui e sinto que o Bonnie e Clyde querem me conhecer. Só sei de uma coisa, quero ver esta paixão que vence até mesmo a impotência sexual; isso deve ser amor. Parabéns pelo blog!

Red Dust disse...

É um grande filme. Também dou nota máxima. Empolga com a sua boa história e conta com interpretações de enorme qualidade.

Abraço.

Anônimo disse...

Muito bom comentário desse clássico do cinema, realmente bem realista e ilustrativo.

Gostei de estar por aqui, acho que o Paulo, o Cris e você estão ficando um trio difícil de não ler, pelo respeito e troca que vem havendo, fazendo de nós leitores os ganhadores de posts extremamente de qualidade que vem direcionando muito bem o que assistir e o que não assistir. Tenho aprendido muito com os dois e agora estarei te seguindo, que voces revolucionem o mundo do cinema nos trazendo pérolas.

Parabéns e abraços

LuEs disse...

Rodrigo, tenho que dizer que eu ADOREI esse post. Já havia visto outros blogueiros comentando sobre esse filme, mas você se superou.
Não só mostrou com eficiência o quanto gosta do filme, como também argumentou muito bem a favor dele e, como se não fosse suficiente, ainda presenteou com curiosidades interessantes.
Parabéns!

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