Seria exagero colocar A Batalha de Argel como um dos melhores filmes políticos de todos os tempos? A luta do exército francês entre 1954 e 1957 no combate aos guerrilheiros que lutavam pela independência da Argélia.
Este filme foi o grande vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1966. Anos depois o diretor Gillo Pontercorvo foi o diretor desse mesmo evento. A Argélia nos últimos anos tem sofrido problemas com outra guerra civil igualmente trágica promovida pelos fundamentalistas islâmicos.
Como o filme posterior do cineasta, 'Queimada'(1968_vide abaixo), A Batalha de Argel é de extrema clareza e objetividade. Engajado certamente (em todos os lados e opiniões), e de forma alguma panfletário ou simplório.
Pela época de lançamento, obviamente o Brasil sofria a Ditadura Militar, portanto o filme esteve proibido aqui por muitos anos, sendo liberado tarde demais (1982) e tendo sua cópia requisitada para o adestramento de técnicas antiguerrilheiras nos cursos da Escola Superior de Guerra (ESG).
O problema com o filme é que ele é um verdadeiro manual didático das táticas de Guerrilha. Ao descrever os argelinos contra os dominadores franceses, entre 1954/57, mostra-se todo o comportamento de um grupo militante em plena ação.
O grande achado no filme de Pontercorvo é que, embora veja com simpatia a ação dos argelinos, ele nao deixa de mostrar o outro lado com isenção.
Pela primeira vez os militantes não aparecem caricaturados. O coronel Mathieu, chefe dos pára-quedistas, é um homem inteligente, sóbrio, consciente e até com certo humor, como na observação que faz sobre Sartre, dizendo que não gosta de tê-lo no lado oposto.
Se o filme mostra como agem os guerrilheiros, ele também é muito preciso ao descrever como agem os homens das forças antiguerrilhas. É igualmente didático mesmo, ao mostrar a Teoria das Pirâmides, a comparação do movimento a uma tênia; senão eliminar a cabeça voltará a germinar, e a técnica do interrogatório em massa, selecionando e torturando as pessoas ao acaso, até encontrar suspeitos e chegar às cabeças da organização clandestina.
Não é preciso ser muito esperto para notar as semelhanças entre o processo argelino e a nossa falida tentativa de guerrilha urbana. Aliás, o próprio filme se encarrega de explicar as razões do fracasso da guerrilha no Brasil, afirmando do que ela teria de ser apenas uma primeira fase, que teria de ser seguida pela revolução do próprio povo. E o líder rebelde (aqui não tem Marlon Brando, rs) diz com muita segurança: " Se é difícil começar uma revolução, as verdadeiras dificuldades só surgem quando ela sai vitoriosa."
Um letreiro no começo do filme (típico de Pontercorvo) previne que não há cenas extraídas de documentários, segundo o roteirista, Franco Solinas, são rigorosamente autênticas, pontilhadas por comunicados oficiais das Forças de Libertação e dos próprios militares encarregados da repressão. Militares que, porventura, em um situação complicada, respondem às críticas contra o uso de tortura, afirmando: " Vocês não querem que a Argélia continue a ser francesa? Pois essa é a única maneira de conservá-la".

Em todo o numeroso elenco, há apenas um ator profissional, Jean Martin, que faz o coronel e o líder Kadar é interpretado por um autêntico líder da Força de Libertação, Yacef Saadi, também co-produtor do filme. Não há o que avaliar as interpretação aqui. Indiferente, o conteúdo do filme é bem mais interessante e entorpecente. Mas, nem por isso as interpretações deixam de ser homogêneas e até convincentes.
Agora, a verossimilhança das sequências que, para os desavisados, poderia ser um cinejornal é uma mistura intrigante de cinema verdade com as melhores tradições do neo realismo.
Todo o filme tem um incrível ar de autenticidade, de um processo histórico inexorável, que Pontercorvo pontua com a música dele e de Ennio Morricone, às vezes em tom quase religioso, como nas torturas e na morte de Ali La Pointe
Evidentemente que toda concepção do filme é marxista e tem conotações óbvias com os problemas em todos os países que têm conflitos internos revolucionários. Mas é um filme realizado com maestria que conclui sua história com uma imagem inesquecível, o povo dançando nas ruas, emergindo finalmente em busca da liberdade.
de Gillo Pontercorvo
Itália/Argélia - 1965
Drama/Político
134 min.
Preto e Branco
Roteiro: Pontercorvo e Franco Solinas
Produção: Igor Film & Kasbach
Fotografia: Marcello Gatti
Música: Pontercorvo e Ennio Morricone
Estrelando: Jean Martin, Brahim Haggiag,
Yacef Saadi, Fusia El Kader, Samia kerbash,
Ugo Paletti, Tommaso Neri e Franco Morici


6 comentários:
Boa noite!
Estou pedindo que assistem meu vídeo no site http://connectcontest.state.gov/contests/change-your-climate-change-our-world/entries/we-can-make-it-better
E se sentirem que é um bom vídeo e que atende ao tema “Mude sua comunidade, mude o mundo”, por favor, votem nele. Se não, muito obrigada por apenas assistir!
Ro,
Cara, você continua colocando uns filmes aqui que eu nunca nem sonhei que existisse.
Pra quem não viu vale clicar na ilustração do encarte do dvd, que eu inclusive procurei por ai e não consegui encontrar, pelo menos até agora.
De verdade não seria um filme que correria atrás de imediato. mas esse teor ai que vc apontou como um "cinejornal" praticamente foi algo de destaque. ah, e a trilha do Ennio Morricone também, que até então eu não conhecia muito.
obs. continuo não conseguindo pronunciar o nome do diretor certo na primeira tentativa. lá pelo quarto ensaio de "Porr.. Poten.. Porter... Ponter... corvo" ai sai certo, rs.
Abraçoo! ^^
é! realmente você conhece cinema.
A cada dia me impressiono mais com o blog.
continue assim!
Abraço.
Olá!
Não é um filme que me atrai, digo em relação à premissa, sabe. Mas, tua resenha bem sintética e focada torna interessante o conhecimento deste filme, claro.
Sem falar na trilha do Ennio Morricone que considero excepcional, sempre!
Abração!
Paixão por filmes antigos, é isso?=D
abraços!
Não conhecia. Gosto deste tipo de filmes. Vou ver se o consigo assistir.
Abraço.
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