quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

WALTER HUGO KHOURI | AMOR ESTRANHO AMOR

  UMA FITA PERDIDA NO TEMPO...

Amor, estranho amor do cineasta Walter Hugo Khouri, o famoso filme que Xuxa Meneguel, a rainha dos baixinhos e apresentadora, renegou (ela havia sido revelada em "O Fuscão Preto", filme de Jeremias Moreira Filho, - 1982, mesmo ano deste), conseguindo, através de um processo, que a fita fosse proibida.

Só existem umas poucas cópias em VHS (assisti numa cópia dessas embolorada que aluguei na minha vídeo-locadora lançada pela CIC Vídeo), das cópias que já haviam sido distribuídas. A fita não pode ser exibida nem mesmo no exterior, lá o filme fora intitulado 'Love Strange Love' a campanha havia sido feita! Como ela mostra Xuxa em cenas de nudez; a apresentadora ficou famosa em todo o mundo, o trabalho foi apresentado em diversos países da América Latina. Embora Xuxa tenha feito seu primeiro filme O Fuscão preto do diretor de ' O Menino Da porteira' Moreira Filho, neste filme em especial ela tem uma cena diria até cultualmente antológica, com um personagem secindário, que inclui um Strip-tease em que ela aparece de ursinho (não acho esta imagem!).



A premissa do filme é a seguinte: um homem recorda como nos anos 30 - quando ele ainda era "baixinho", numa mansão paulistana, conheceu o amor pela primeira vez, numa casa de mulheres que era dirigida por sua mãe e que serviu a importantes políticos.
Acho uma pena que não possa mais ser visto, embora o filme não seja tão brilhante, é plausível, creio eu, ainda conseguir obter uma sessão deste cult nacional por cópia antiga ou clandestina. Este que é um dos filmes mais interessantes do cineasta Khouri (seu único filme de época) - mesmo sem brilhantismo, pois nao vejo o porque nomeá-lo como uma obra prima, mesmo! Ele foi rodado com um roteiro improvisado, numa tradicional mansão do Ipiranga, da Família Jaffet. Tombada há alguns anos.

O diretor estava em plena forma criativa, devo admitir se for comparar com o seu trabalho anterior, o filme Eros. E se aquele era um filme e até complicado, ele conseguiu aqui uma limpidez absoluta de narrativa e ritmo. Seu filme não tem nenhum dos defeitos costumeiros de sua obra (ironicamente), não há citações pedantes de livros ou pinturas e os diálogos não são empolados, mas também nada brilhantes. A não ser, propositalmente? Será que Khouri queria dar um charme/toque crítico aos políticos? E os personagens não perdem tempo contemplando-se antes de partirem para os conflitos e ou/ sexo.

Eu diria que finalmente Khouri deixou de complicar. Mas nem por isso se tornou óbvio. O filme fornece todos os elementos para várias leituras. Existe até polêmica na situação edipiana levada as últimas consequências. E o mais importante: em momento nenhum o filme não cai nas armadilhas do pornô-chicEmbora Khouri negue qualquer influência, a não ser de forma distante a do escritor Georges Bataille, à primeira vista, o argumento faz pensar em dois filmes em particular de Luis Malle: Pretty Baby e Sopro No Coração. Além disso, possui um clima que, por vezes, recorda os melhores trabalhos do espanhol Carlos Saura (um cineasta com a mesma importância de Almodóvar no cine espanhol), em filmes como: Elisa, vida Minha. Só que já no vigésimo primeiro filme é tempo de esquecer as influências, e falar em coerência dentro de sua obra. Afinal, Khouri é um dos poucos cineastas que pode podem se dar ao luxo de ter uma obra de verdadeiro autor, mesmo admitindo nao ser fãn de seu trabalho. Admito seu estilo, assim como Glauber Rocha e Mário Peixoto.

O ponto fundamental deste filme é o fato dele ser visto pelo viés de um homem maduro (machista), uma sóbria participação de Walter Foster, que recorda as 48 horas que passou, quando tinha tinha 13 anos, no Bordel onde sua mãe era a favorita de um importante político paulista, ás vésperas do golpe de 1937( o mesmo que eu, espectador, assistindo um filme numa cópia vagabunda e que nunca mais assistirei e me recordo). São momentos fundamentais para a sua vida, o despertar de sua sexualidade(provocada por várias garotas entre elas, Xuxa) - a experiência de encontrar uma cópia de um cult perdido verdadeira relíquia- até a iniciação amorosa com sua própria mãe. É importante notar que a sequência incestuosa (complexo de édipo) é vista sempre pelo homem mais velho, inclusive há uma mudança de luz, indicando que a situação (nunca esquecerei, rs) pode não ter acontecido. Pode muito bem ser simbólica. ?.

O importante é que por meio do amor da mãe, ele aceitou sua normalidade sexual que o tornaria um homem bem sucedido: Ministro de Estado e até benfeitor público, doando a mansão à cidade e não destruindo-a (seria o mesmo que destruir seu passado - como ir na justiça e destruir as cópias de um filme ao menos interessante). A ironia é proposital, o bordel é um microcosmo semelhante ao da política, onde joga-se igualmente sujo pela conquista do poder e do dinheiro. Por isso mesmo, não é um filme sobre política, embora possam encontrar-se paralelos com a história, mas onde as situações políticas estão bem colocadas e são oportunas, servindo de background para o tema verdadeiro que é na concepção do diretor: " Um amor, estranho amor, sofrido e perplexo!" Um espécie de analogia do êxtase e da superação - Walter Hugo Khouri querendo realizar seu melhor filme e consegue!

A fotografia e iluminação são esplêndidas e rápidas, a trilha musical de Rogério Duprat até combina temas originais com momentos de Jazz e músicas brasileiras da época. Assim, nada tão brilhante e diferente, porém profissional e eficiente para o enredo.
Possop dizer que a direção de arte é supercompetente e a montagem é muito boa, como: o corte de Tárcisio Meira diante do espelho.

Quem for ver o filme, se acharem, pensando em ver a revelação de Xuxa vai se decepcionar, como eu! Porque sua participação é discreta, nada comprometedora para uma estreante num grande filme, mas, sim, como foi visto acima ela tira a roupa como era seu hábito na época. Mas, o filme é de Vera Fisher, que o coloca debaixo do braço nua e o leva para casa. Não nego a beleza e talento de Vera. De uma grande beleza plástica e espiritual - em certos momentos lembrando até Ingrid Bergman , ela se tornou atriz de uma incrível densidade, neste que foi seu melhor momento no cinema.


De todos os elogios e críticas que se pode fazer ao filme, o maior é constar a maneira exata e Spielbergiana de Khouri, pela eficiência e rapidez, fazendo um filme de rotina em algo a mais. Ele encontrou para fechar a história, fazendo num epílogo, o encontro do velho e da criança, que se vai pressentindo num crescendo durante toda a fita embolorada. E Khouri, que, até então, tinha sido um diretor frio em filmes anteriores, consegue finalmente, com muita polêmica, um momento de grande e genuína emoção.

'Amor, estranho amor'
de Walter Hugo Khouri
Brasil- 1982
Drama
125 min.
Antigamente disponível pela CIC Vídeo
✩✩✩✩ ÓTIMO


ANIBAL MASSAINI NETO apresenta       um filme de WALTER HUGO KHOURI
amorEstranho amor 
Estrelando
Tarcísio Meira  Vera Fisher  Irís Bruzzi Xuxa Meneguel
com: Matilde Mastrangi  Mauro Mendonça  Otávio Augusto 
Walter Foster   Marcelo Ribeiro  Jairo Arco e Flexa 
Rubens Ewald Filho   Pedro Paulo Hatheyer
José Miziara   Rita de Cassia    José Lucas
Linda Vanessa    e Traditional Jazz Band 
Produzido por Anibal Massaini Neto  
Música Rogério Duprat
Cenógrafa Cecília V. Azevedo 
Montagem Eder Mazini
Fotografia Antonio Meliande        Câmera Walter Hugo Khouri
Roteiro e Direção  
WALTER HUGO KHOURI


9 comentários:

Paulo [ALT] disse...

Rô, daonde veio a idéia de postar esse?!?!

Mesmo não tendo assistido, posso dizer que eu não sou lá um entusiasta tão grande do cinema nacional nessa época ai. Acho que você sabe. Não culpo este filme em particular e posso até estar dizendo besteira, mas muito do preconceito que existe hoje querendo ou não vem dessa época, não acha? Ok, esse Amor Estranho Amor não é tão antigo assim como eu pensava, pega o comecinho dos anos 80. Também não conheço o diretor então não tenho como dizer muita coisa não, só que você me surpreendeu! E muito! Por isso eu gostei da sua dedicação de fazer isso aqui de memória, sério. Fiquei impressionado também da maneiro como você elevou o tal "Khouri"comparando ele às formas do spielberg. Vou voltar pra ler os outros comentários depois, hehe.

Deve ser difícil mas na internet sempre tem alguma coisa, não? Ou "não" mesmo?? Enfim, ainda to meio sem reação, hehe. O cartaz é no mínimo curioso e diferente. "Para eles tudo era permitido". Mas post diferente é sempre um post diferente! Que venham! hehehe

Abraçooo!

Anônimo disse...

nossa... esse filme é de fato estranho!

Nespoli disse...

Fiquei muito curioso, já conhecia (é lendário na adolescência de cada um) mas nem imaginava a história, pena que provavelmente nunca verei...

Marília disse...

caramba Rodrigo.. admiro a sua atitude desenterrando e comentando esse filme assim!! por conta da polemica fiquei curiosa e ano passado consegui assistir. mas saí pulando partes, achei meio chatinho o enredo.. mas consegui matar a curiosidade e entender o motivo pelo qual a Xuxa quis extinguir ele! rsrs

Ricardo Martins disse...

Já ouvi a polêmica desse filme! Olha como a Xuxa começou as relações com os baixinhos...

:D

Abraço

Cristiano Contreiras disse...

Sinceramente, acho este um péssimo filme. Muito equivocado, estranho, mal dirigido, as atuações deixam a desejar...o argumento foi até interessante, mas faltou mais cuidado mesmo, em diversos aspectos.

Não vi muito conceito não, e olhe que revi ele tem uns dois anos.

Nem polêmico ou sensual eu achei.

Seu post deu um tom mais belo ao filme, deu charme a ele - coisa que ele não é.

Abração!

Cintia Carvalho disse...

Oi Rodrigo!

Maravilhosa sua "sessão nostalgia".
Seus 3 textos sobre: "o mágico de oz", "a fantástica fábrica de chocolate" e "a noviça rebelde" me fizeram viajar e voltar no tempo. Adorei suas escolhas. Belas e deliciosas.

A fantástica fábrica de chocolate é um filme belíssimo, pelo menos para mim. Não sabia que em sua época ele foi um fracasso. Uma pena, pois é um dos filmes mais tocantes e mágicos que já vi. Ainda bem que depois virou cult e o pessoal começou a apreciar as qualidades dele. A segunda versão com Johnny Deepp não é tão boa quanto a primeira. No entanto, agrada aos fãs.

Agora "a noviça rebelde" é um dos meus filmes prediletos. Eu simplesmente o adora e ja o devo ter visto mais de cem vezes. Inclusive, lembro de um carnaval em que não viajei onde aproveitei para ver alguns filmes. A noviça foi um deles e acredite num prazo de 8 dias e o vi 12 vezes e não enjoei. Sempre que vejo me emociono. A história é bela e cativante e as músicas maravilhosas. Tenho um dvd com a trilha sonora que um amigo conseguiu para mim. Sempre escuto.

Já "a marca da maldade" eu nunca vi. Engraçado como deixamos alguns bons filmes passar. Este é conhecídíssimo e não tive a oportunidade de ver. Vou procurar por aqui para assistir. Sua narrativa sobre ele está bem detalhada e Orson Welles foi um bom diretor. Vi recentemente "Cidadão Kane" e "A dama do Shangai", ambos dirigidos por ele.

Amor, estranho amor assisti quando era uma adolescente. Já faz um tempinho. Lembro que o que mais me chamou a atenção na trama foram as cenas com Xuxa, afinal quando conferi ela já era um fenônemo entre a garotada. Fiquei meio espantada com as cenas e com a forma como ela começou sua carreira. No entanto, não a critico, afinal ela tinha de começar de alguma forma. Quanto ao filme em si, pelo que lembro não gostei muito da história fraca e sem ação. Suas colocações sobre o diretor Khouri estão muito boas. No texto vc exalta as qualidades dele como diretor. Neste ponto gostei bastante de suas observações e análises.

Um abraço.

PS. se vc puder e quiser escolha um outro filme infantil para falar, afinal amei seus textos sobre clássicos infantis. Escolhas acertadíssimas.

Tatuador disse...

Grande Rodrigo , assisti este filme em VHS antes do mesmo ser proibido e banido do circuito . O poder da "rainha dos baixinhos" é muito grande e isso é absurdo se pensarmos que o filme não é uma biografia da Xuxa para que ela se sentisse ofendida pelo seu conteúdo . Trata-se de uma obra ficcional dirigida pelo saudoso Walter Hugo Khouri . A Xuxa na época era apenas uma modelo que fazia algum sucesso e que posou para a Playboy (a revista também foi banida) . No filme ela é apenas um detalhe . Mas ainda bem que existe a internet para possibilitar que as pessoas assistam obras que de certa forma não estão no mercado . O filme em si não tem nada demais . Não chega a ser ruim como alguns súditos da "rainha" sugerem para desestimular sua exibição . Mas isso que aconteceu em relação ao filme só acontece em republiquetas de bananas que se deixam vergar pelos interesses dos milionários em detrimento da sociedade .
Um abraço !

J. BRUNO disse...

Olá Rodrigo, gostei muito do texto e acho que pela primeira vez eu li algo sobre este filme que não mantivesse o foco na polêmica relacionada à Xuxa.

Acho que pela primeira vez ele despertou minha curiosidade, bem como o restante da filmografia do Khouri, da qual eu não conheço nada...

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