quarta-feira, 3 de março de 2010

PEDRO ALMODÓVAR | TUDO SOBRE MINHA MÃE

TUDO SOBRE: TUDO SOBRE MINHA MÃE

Desde o filme anterior, o ótimo/excelente CARNE TRÊMULA (1997) que PEDRO ALMODÓVAR já demonstrava que, além de grande criador, de um cineasta inteligente com incríveis referências, brilhante, autoral, bem humorado, capaz de inventar um universo que ao mesmo tempo era muito particular , as cores berrantes, figuras exóticas e temática sexual, também era muito espanhol usando figuras de melodrama e sem medo de passar da comédia à tragédia praticamente na mesma cena.


Em TUDO SOBRE MINHA MÃE , seu filme mais premiado e louvado , conta a história de uma enfermeira espanhola que perde o seu filho adolescente num acidente de automóvel. Abalada, vai procurar o pai que agora é um travesti aidético que atende pelo nome de LOLA, que ainda engravida uma jovem freira. Torna-se amiga e assistente de uma atriz lésbica que interpreta UM BONDE CHAMADO DESEJO e atrás de quem o filho correu em busca de um autógrafo na noite em que sofrera o acidente. Com esta premissa foi o suficiente para o filme ganhar a Palma de Ouro em Cannes na direção, depois acabou sendo o filme mais premiado do ano, inclusive com o Oscar de fita estrangeira consagrando Almodóvar como o maior cineasta da Espanha (depois de CARLOS SAURA) e também ajudando a estrela PENÉLOPE CRUZ a deslanchar uma carreira internacional. E dito e feito.

O filme conclui com uma linda dedicatória que vem antes dos chamativos letreiros dizendo: " PARA BETTE DAVIS, GENA ROWLANDS, ROMY SCHNEIDER... A TODAS AS ATRIZES QUE INTERPRETAM ATRIZES, A TODAS AS MULHERES QUE ATUAM, AOS HOMENS QUE ATUAM E SE CONVERTEM EM MULHERES, E A TODAS AS PESSOAS QUE QUEREM SER MÃES. À MINHA MÃE".

A carreira de ALMODÓVAR é repleta de fitas sempre magistrais, temas interessantes e decorrentes. Antes dessa, sua fita mais bem sucedida, fez outra ainda mais Gay, A LEI DO DESEJO (1987). Mas foi aqui que ele conseguiu o equilíbrio perfeito entre os diversos ingredientes, reunindo um elenco de velhos parceiros, incluindo a fotografia que é feita pelo brasileiro AFFONSO BEATO, aliás de grande qualidade, dentro do estilo que o diretor gosta. Além da ligação que mantém com o Brasil, o roteiro começou a ser escrito na casa de Caetano Veloso, na Bahia. Aqui, Pedro fugiu um pouco da farsa que dominou muitos de seus filmes, procurando mais melodrama, deixando a comédia um pouco mais de stand by - equilibrando-a, numa história sensível, muito feminina mas também ao mesmo tempo diferente. Digo farsa, porque Almodóvar no fundo sempre foi um diretor emotivo e nos anos 80 estavam lá aquelas comédias deliciosas que poderiam ter um melodrama mais acertado. De perto mesmo apenas ÀTA-ME! Ele explora a emoção, vejam a dedicatória final do filme, que explica tudo, inclusive o choque que foi a morte de sua mãe. Que sempre fazia uma pontinha em seus filmes. Ele inspira-se em duas obras- primas do cinema por acaso, ambas também ditas aqui no Cinema Rodrigo: A MALVADA/ALL ABOUT EVE (1950) de Joseph Mankiewicz e UMA RUA CHAMADA PECADO ou preferivelmente UM BONDE CHAMADO DESEJO, a peça de Tennesee Williams que foi filmada por Elia Kazan, em 1951.

O filme começa com a mãe, a argentina e uma das atrizes de Almodóvar (principalmente em LABIRINTO DE PAIXÕES) - CECILIA ROTH e seu adorável filho loiro, e adolescente, assistindo pela TV, dublado, ao clássico A Malvada, e mais tarde, como o personagem, ela própria assumiria um papel na peça. Ambos reclamam da mudança de títulos do filme a que assistem e conversando sobre a precocidade do menino que escreve muito e que, como presente de aniversário, irá assistir com a mãe, uma montagem da peça Um Bonde Chamado Desejo com uma atriz famosa, que depois ficamos sabendo que é lésbica e tem problemas com a amante e companheira de cena, que é viciada em drogas.

Enquanto eles esperam na saída da peça por um autógrafo, chove muito, e o rapaz corre atrás do táxi em busca da atriz. Mas vem a fatalidade, ele é atropelado e morto numa das cenas mais interessantes já filmadas - o rosto do rapaz é a perspectiva da câmera. No entanto, mesmo assim, a mãe consegue doar os órgãos (uma campanha que estava engajada) sem conseguir, obviamente, ocultar sua dor. Tentando reconstruir sua vida, retorna à sua cidade natal, Barcelona, onde reencontra uma amiga travesti , que é feita por uma mulher, uma comediante que o diretor descobriu para o filme, a esquisita ANTONIA SAN JUAN que se prostitui. Passam a morar juntas enquanto ela se aproxima também da atriz , a excelente parceira atriz de Almodóvar - MARISA PAREDES de filmes como A FLOR DO MEU SEGREDO. A mãe vira confidente e amiga desta atriz - Huma Hojo. Eventualmente irá descobrir a moça drogada num personagem da peça. Mas sua missão é encontrar o pai do menino, que ao final das contas não apenas virou travesti como também está nos últimos estágios da Aids. Para complicar e transformar num ótimo melodrama espanhol, ele, o travesti, engravidou uma jovem freira - Cruz (como pode ser tão boazinha? - É bom demais!), que tem uma mãe severa e um pai velho e senil.

Fiz questão de ampliar o resumo para melhor entender a complexidade deste universo tão ambíguo e inusitado, orquestrado com maestria e nenhum moralismo idiota - é milagroso Almodóvar conseguir fazer a platéia aceitar os tipos e situações tão bizarras, numa narrativa lírica, sem tropeços, de tal forma que, quando realmente se conclui com a dedicatória, só resta: chorar ou aplaudir. Ou ambos.

TUDO SOBRE MINHA MÃE
'TODO SOBRE MI MADRE'
DE PEDRO ALMODÓVAR
ESPANHA/FRANÇA- 1999
DRAMA/COMÉDIA
100 min. 
FOX
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



 UMA PRODUÇÃO EL DESEO S.A / RENN PRODUCTIONS/ FRANCE 2 CINEMA
um filme de
A L M O D Ó V A R
TODO 
SOBRE
MI 
MADRE
fotografia AFFONSO BEATO
direção de arte ANTXON GOMEZ
produção ESTHER GARCIA e AGUSTÍN ALMODÓVAR. 
música de ALBERTO IGLESIAS
montagem JOSÉ SALCEDO
estrelando:  
CECILIA ROTH
 MARISA PAREDES
PENÉLOPE CRUZ
ANTONIA SAN JUAN
CANDELA PEÑA
 ROSA MARIA SARDÁ
com: ELOY AZORIN  FERNADO FERNAN-GOMEZ  
FERNANDO GÚLLEN TONI CANTÓ
e CARLOS LOZANO
   roteiro e direção
   PEDRO 
ALMODÓVAR

12 comentários:

JB disse...

confesso que detesto Pedro de Almodovar... é dos meus ódios maiores do cinema... este é mais um do mesmo

Amanda Aouad disse...

Foi o primeiro filme de Almodóvar que assisti, lembro bem que fui ao cinema quase em um impulso. Adorei. Vi Mulheres, Ata-me e os seguintes, mas este continuou sendo meu preferido, talvez por ser o primeiro, não sei. Só vendo hoje com outros olhos.

Rodrigo Mendes disse...

João: Que pena! Gosto é gosto. Abs!

Amanda: O meu primeiro foi logo A LEI DO DESEJO. Bjs!

Santiago. disse...

"Tudo sobre a minha mãe" foi o filme que me fez conhecer Bette Davis, e por isso só, já é um motivo para eu aclamar a película e, claro, o Almodóvar.

É bem interessante como o maestro espanhol consegue fundir várias histórias paralelas, aparentemente, desconectadas, em uma obra forte, cheia de paixões e dramas. Sem falar da sua estética, com cores chamativas, exaltando o calor latino.

Além disso, ele tem feeling para escolher seus atores/atrizes. Ou seja, é um conjunto de coisas que o fazem um dos mais influentes da sua era. E este filme aqui discutido, é um dos bons exemplos da sua capacidade em fazer boas escolhas. No mais, vida longa ao Almodóvar!

Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

"É bem interessante como o maestro espanhol consegue fundir várias histórias paralelas, aparentemente, desconectadas, em uma obra forte, cheia de paixões e dramas".
SANTIAGO; faço coro à você!
E que presente conhecer a Davis neste filme!
Obrigado, abs!

Cristiano Contreiras disse...

É, é surpreendente como Almodovar recria-se aqui e consegue definir mais um filme inesquecível de seu estilo, de sua marca própria, da sua criatividade inabalável.

Eu confesso apreciar totalmente este diretor, totalmente, digo: eu gosto de toda a filmografia, obviamente há filmes menos interessantes mas eu não descarto - como Kika.

Este Tudo sobre minha mãe eu gosto pela simplicidade, pelos diálogos bastantes naturais e pela contextualização dos personagens. É incrível como ele concebe a criação de seus personagens, tudo tridimensional, incrível e delicioso ao mesmo tempo.

Este é um dos meus favoritos dele, em breve falarei!

E o que falar, também, dos posteres dos filmes de Almodovar? puro charme!

Abraço!

Dewonny disse...

Taí um filme do Almodovar q ainda ñ vi, mas pretendo!
Abs! Diego!

Paulo Alt disse...

Rô,

Tá vendo, um post seu que eu gostei bastante pq vc colocou, além do enredo e curiosidades [sabia eu que tinha sido escrito um aparte da casa do Caetano?], um pouco do que achou dele, teve uma boa dose disso.

Ah.. e eu também ri bastante com esse ADOROONN ahahhahahahahaha. Você tá todo sério falando do enredo e de repente quebra falando uma coisa dessas, adorei kkkkkk.

A cena do atropelamento e perto do final são as minhas preferidas... adoro saber q meu pequeno box tá lá na estante, qualquer coisa é só e ver de novo... e tô precisando.

"é milagroso Almodóvar..." o último parágrafo tá show e concordo em tudo que disse.

Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

CRIS: Charme e elegância. As referências que o Almodóvar tem de cinema é um luxo. Adoro o diálogo da Paredes, por exemplo, falando da Davis, ABS!

DIEGO: Que bom você aqui de volta amigo. Assista e vai se surpreender. ABS!

PAULO: ADORONNN seus comentários. Adorei sua observação, fiz essa quebra de gênero no meu texto, igual a um filme do Almodóvar: seriedade e escracho na mesma cena. No bom sentido, hahahahaha
ABS ^^!

Roberto Simões disse...

Falar do universo de Tudo Sobre a Minha Mãe é falar do típico, rico, polémico e colorido universo de Almodóvar. Que é como quem diz: o universo do feminino e dos temas fracturantes das sociedades ocidentais. Em Tudo Sobre a Minha Mãe dá-se, pois, o encontro e cruzamento, a jeito de corso carnavalesco, de prostitutas, toxicodependentes, travestis e transsexuais, seropositivos e doentes com Sida, freiras pecadoras, mães solteiras e doentes de Alzheimer. E, provavelmente, outras tantas personagens nada convencionais. Desta amálgama exótica, sai um filme de humor rasgado e lágrima sincera. Com uma mise-en-scène cuidada e um argumento imprevisível, eis uma homenagem maior à mulher, à mãe e à figura e representação de ambas.

4/5

Cumps.
Roberto Simões
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Rodrigo Mendes disse...

ROBERTO: Gostei do que disse: "sai um filme de humor rasgado e lágrima sincera."

Almodóvar além de híbrido é puramente espanhol.

Mas o seu 5 tinha que ser 10, Abs!

J. BRUNO disse...

Confiram a minha resenha crítica do filme: http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2011/08/tudo-sobre-minha-mae.html
.
Abraços fraternos a todos!

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