domingo, 6 de março de 2011

QUENTIN TARANTINO | BASTARDOS INGLÓRIOS

NO CINEMA TUDO PODE ACONTECER


O MELHOR DE Q.T.

PARTE I

Na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados judeus americanos conhecidos como OS BASTARDOS são escolhidos especificamente para espalhar o terror no Terceiro Reich. Eles escalpelam e assassinam brutalmente os nazistas.




Não é absurdo TARANTINO colocar no último diálogo da fita:


TEM. ALDO
Sabe de uma coisa, Utivich? Acho que essa deve ser minha obra-prima.

Mesmo porque, ele prova do que o cinema é capaz, ou melhor, de que na sétima arte tudo pode acontecer, até mesmo colocar o Terceiro Reich numa sala de cinema e explodi-la. BASTARDOS INGLÓRIOS é um filme de Guerra até mesmo elegante. Dividido por capítulos e aos poucos as histórias vão se entrelaçando à maneira de Tarantino, como já sabemos. O filme começa com um lindo grande plano, depois de apresentar nas titulagens o tema de THE ALAMO, “The Green Leaves Of Summer” de Nick Perito. Estamos na França, no ano de 1941, época da II Guerra Mundial. Vemos um campo e ao longe um homem dando machadadas num tronco e uma garota estendendo um lençol no varal. Em seguida vem um suspense, entra o clássico de ENNIO MORRICONE “The Veredict – Dopo La Condanna” – e ao fundo da tela, um grupo (obviamente Nazistas) se aproximando.

Toda esta elegância e mistério com diálogos maravilhosos e brilhantemente escritos, os melhores de Quentin, para finalmente chegar ao que interessa. Há um grupo de refugiados judeus franceses escondidos no porão desta humilde casa do campo (fazenda leiteira). Depois de muito papo os personagens mostram as suas facetas. O fazendeiro é o ótimo ator francês DENIS MENOCHET (Perrier LaPadite) e a figura nazista é o estupendo, a revelação do ano, CHRISTOPH WALTZ , vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante que praticamente rouba o filme, é o Coronel da S. S. Hans Landa. O cara sem dó nem piedade descobre que esta família judia se esconde no local, assim ele ordena um massacre (BANG BANG à La Tarantino). Todos estão mortos, exceto uma garota judia, ela é SHOSANNA DREYFUSS a francesa MÈLANIE LAURENT (parece uma garota Truffaut). Escapando com vida, ela obviamente (como uma certa Noiva do Kung Fu) só pensa em vingança. Vários anos mais tarde (novamente 4 anos – Tarantino gosta deste hiato) ela mora na cidade e toma conta de um cinema na França. Ai aparece o herói FREDERICK ZOLLER o alemão DANIEL BRÜHL de ADEUS LÊNIN que se apaixona pela judia e resolve escolher o seu cinema para receber todo o alto escalão ariano na première do filme ORGULHO DA NAÇÃO (um divertido curta em preto e branco [de mentirinha um longa metragem] dirigido por ELI ROTH assinando como JOSEPH GOEBBLES). Esta fita é baseada nas proezas de guerra deste soldado que interpreta ele mesmo e, é a estrela do filme. Tudo isso pelo fato do rapaz ter matado vários soldados inimigos no alto de uma torre na Itália. Goebbles foi um cineasta que realmente existiu e fazia propaganda nazista. O filme seria um evento, assim o próprio Fuher ADOLF HITLER resolveu estar presente na sessão. Nunca vi um Hitler com tanto senso de humor e pedindo cliclete, do que este feito pelo ótimo MARTIN WUTTKE.


Sedenta de vingança e com os principais vilões da história da 2ª Guerra em peso no seu cinema, Shosanna planeja um terrível plano diabólico para acabar com a raça nazista. Ela, ajudada pelo negão MARCEL (JACKY IDO) faz um mini-filme e sabota a cópia original do filme que iria passar no projetor na ocasião. Na fita ela dava um recado mortal à platéia antes de incendiar o cinema inteiro. Mas o plano para dar certo teria que sacrificar sua própria vida. O que ela não sabia é que os seus planos iria se chocar com “Os Bastardos” liderados pelo Tenente descendente de indígenas, ALDO RAINE (BRAD PITT em excelente forma). Eles e um grupo de uma operação secreta inglesa chamada KINO, também arquitetam algo que no começo acabou dando errado e depois partiram para um plano B liderado pela atriz alemã, uma espiã que trabalha contra os nazistas, a bela BRIDGET VON HAMMERSMARK (DIANE KRUGER, realmente muito bonita) que não é o que aparenta ser. Enfim, as histórias acabam culminando num desfecho espetacular e Tarantino não exime em mostrar todas as características marcantes de seu cinema. O pastiche de gêneros, que agora remete aos filmes de guerra e à estética do cinema francês (sobretudo Godard), os diálogos loucamente absurdos, engraçados e repletos de humor negro que aqui estão mais afiados do que nunca (supera PULP FICTION – só na cena da Taverna), e os personagens, como sempre, são surpreendentes e cativantes. É um prazer inexorável ler o roteiro original do filme, o último draft de 2 de julho de 2008. Tarantino corta muitas sequências que alucinam ainda mais a história. Só para exemplificar, o personagem “Urso Judeu” de ELI ROTH tem uma cena magnífica quando mostra para uma senhora judia os nomes escritos em seu taco de baisebol que corresponde a um alemão morto (esmigalhado). A atriz de Hong Kong MAGGIE CHEUNG ( de Amor à Flor Da Pele e HERÓI, filme que Tarantino patrocinou) faria a personagem meio francesa e oriental que era dona do Cinema. Tem várias cenas com sua personagem, a Madame Mimieux e Shosanna. Dela acolhendo a moça moribunda e ensinando a jovem a mexer nos projetores e a proibindo de fumar pertos dos rolos de filmes, etc.


Na verdade Tarantino começou a escrever este filme antes mesmo de KILL BILL VOLUME UM e como não sabia definir direito a história e tampouco o final, resolveu engavetar e trabalhar antes na saga com a Uma Thurman. BRAD PITT nem é muito a estrela deste filme, visto as aparições de seu personagem, mas ele aceitou de boa as decisões de Tarantino, Aldo é mais coadjuvante de praticamente todas as situações da trama. A protagonista é a francesa Laurent e o antagonista é, de fato, Waltz.
Mais uma vez, o cineasta tem a capacidade de usar brilhantemente músicas alheias de outras obras em sua obra. Passa por uma seleção híbrida de DAVID BOWIE (CAT PEOPLE) a LALO SCHIFRIN (TIGER TANK) e como sempre referências de fã ao cinema de SERGIO LEONE quando toca as belas composições do italiano vencedor do Oscar honorário, Morricone (UN AMICO é lindo- quando a mocinha atira no herói e o herói na mocinha apaixonadamente até a morte). Como diria Tarantino: “Até o fim baby, até a porra do fim”.




E como não muito de costume este filme de Tarantino é mais linear, tem aqui o último trabalho da editora SALLY MENKE (que morreu ano passado) e também apresenta uma fotografia de tirar o fôlego, feito novamente por ROBERT RICHARDSON (Assassinos Por Natureza, Kill Bill).


Muito dos sets onde foi rodado era no velho estúdio alemão BABELSBERG e Tarantino acabou sendo homenageado na Alemanha, quando colocaram o seu nome em uma rua!
São muitas referências cinéfilas, é o cinema dentro do cinema e para desfrutar melhor da obra, é preciso conhecer a fundo o cinema clássico europeu, já que Tarantino sita a todo o momento nomes de renomados diretores alemães como GEORGE WILHELM PABST um dos maiores nomes do expressionismo alemão que fez alguns filmes que resistiram lindamente ao tempo: LULU, A CAIXA DE PANDORA, A RUA DAS LÁGRIMAS (estrelado por GARBO) e DIARY OF A LOST GIRL.


Foi o filme de Tarantino que mais obteve indicações ao Oscar, mas o resto vocês já sabem. Lamentável.


Uma obra de arte prima do cinema. Este tipo de filme da nova era que resgata o melhor do passado. Só mesmo Tarantino para fazer isso com tanto humor, violência e criatividade.




EUA/ALEMANHA – 2009
GUERRA/DRAMA/AÇÃO
WIDESCREEN
153min.
COR
UNIVERSAL
18 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE





UNIVERSAL PICTURES E THE WEINSTEIN COMPANY APRESENTAM
UMA PRODUÇÃO A BAND APART
E ZEHNTE BABELSBERG FILM GmbH
UM FILME DE
 

QUENTIN TARANTINO
BRAD PITT    CHRISTOPH WALTZ    MICHAEL FASSBENDER
ELI ROTH      DIANE KRUGER
DANIEL BRÜHL      TIL SCHWEIGER
E
MÉLANIE LAURENT
como Shoshana
Co-estrelando 
Gedeon Burkhard   B.J. Novack   Omar Doom
Paul Rust   Richard Sammel   Alexander Fehling
Samm Levine    Sönke Möhring

 Atores Convidados: 
AUGUST DIEHL   JULIE DREYFUS
SYLVESTER GROTH    JACKY IDO
DENIS MENOCHET      MIKE MYERS
ROD TAYLOR
 ...... como Churchill 
MARTIN WUTTKE ..... como Hitler
 Trilha Sonora
NICK PERITO  ENNIO MORRICONE  CHARLES BERNSTEIN
BILLY PRESTON
    THE FILM STUDIO ORCHESTRA
ZARAH LEANDER   SAMANTHA SHELTON  MICHAEL ANDREW 
LILIAN HERVEY   WILLY FRITSCH    JACQUES LOUSSIER 
DAVID BOWIE   LALO SCHIFRIN
Editora SALLY MENKE 
Efeitos Especiais JOHN DYKSTRA
Figurinos por
 ANNA B. SHEPPARD 
Cenografia por DAVID WASCO
Diretor De Fotografia
 ROBERT RICHARDSON
Produtor Associado
 PILAR SAVONE
Produtores Executivos
BOB WEINSTEIN  HARVEY WEINSTEIN 
ERICA STEINBERG    LLOYD PHILLIPS
Produzido por 
LAWRENCE BENDER

ESCRITO E DIRIGIDO
POR
QUENTIN TARANTINO


 

8 comentários:

Mateus Denardin disse...

Concordo sem reservas com a última frase do filme. Tarantino elevou ao máximo sua maturidade como diretor e sua originalidade e inteligência como roteirista. Eu comprei o roteiro de filmagem, mas ainda não li -- deve ser uma delícia.

Rodrigo Mendes disse...

SIM MATEUS, Quentin elevou mesmo ao máximo a sua maturidade fílmica. Eu achava que ele tinha atingido isso em Kill Bill, engano meu até Bastardos surgir.

Eu tbm tenho este roteiro. Já li várias e várias e várias vezes! Rs

Abs.
RODRIGO

Hugo disse...

Outro grande obra de Tarantino, que somente ele poderia ter criado.

É um grande filme, mas meu preferido ainda é "Pulp Fiction".

Abraço

Reinaldo Glioche disse...

Um prazer ler essa tua apreciação de Bastardos. Realmente, tomara que uma versão especial em DVD traga essas cenas cortadas.Embora, diga-se que a versão final ficou melhor do que a exibida em Cannes. Mas e a vontade de consumir esses bastardos como fica? rsrs
Concordo contigo! Os diálogos aqui superam Pulp Fiction. E a cena inicial, meu Deus o que é aquilo?! Das melhores do cinema...
Tarantino fez sua obra prima aqui mesmo. Pelo menos por enquanto...
Aquele abraço!

Sarah disse...

Adorei o teu texto e não poderia concordar mais contigo! Quentin Tarantino é dos meus realizadores preferidos, venero todos os seus filmes. Este é dos melhores mesmo!

Sarah
http://depoisdocinema.blogspot.com

Amanda Aouad disse...

Ótimo texto, Rodrigo, um pecado mesmo Tarantino não ter levado o Oscar por essa obra.

bjs

! Marcelo Cândido ! disse...

Estonteante !!!!!!!!!!

Rodrigo Mendes disse...

HUGO: Exatamente! Somente Tarantino poderia ter criado uma obra híbrida como esta. Pulp é um clássico, mas B.I. já é de longe o melhor dele na minha opinião. Abs.

REINALDO: Um prazer ler os seus comentários! Cara, o roteiro original é fantástico e imagino como seria se tivesse as cenas eliminadas. Esta versão em DVD no Brasil que a Universal lançou é ruim. A importada é melhor...preciso comprar. Rs!
Abs.
E vamos ver se vai sair aquele faroeste spaguetti que ele quer fazer!

SARAH: Obrigado moça. Realmente este é o Tarantino´s the best! Tbm tenho predilação por sua obra.
Bjs.

AMANDA: Um pecado cinematográfico! Obrigadooo Bjs!

MARCELO: Estonteante ²! Abs.

RODRIGO

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