DOIS CORPOS EM UM ATÉ O ALVORECER
Depois de cumprir pena e sair da prisão, o jovem Víctor ainda é perdidamente apaixonado por Elena, mas agora, ela é casada com um ex-policial que virou um jogador de basquete famoso, paralítico por um tiro, a arma disparada por Víctor Plaza. Tumultos, reviravoltas em um noir do diretor Almodóvar. Baseado numa autoria original de Ruth Rendell (Mulheres Diabólicas).
“Declaração estado de emergência em todo território nacional. A defesa de paz do progresso da Espanha e os direitos dos espanhóis obrigam o governo a suspender os artigos da lei que afetam a liberdade de expressão, liberdade de residência, liberdade de reunião e associação e o artigo 18, pelo qual nenhum espanhol poderá ser detido exceto nos casos e na forma que prescrevam as leis.”
Com este breve comentário político sobre a ditadura de Franco que assolou a Espanha nos anos 1970 (Almodóvar, raramente faz isso) o inquietante diretor espanhol apresenta o seu primeiro trabalho amadurecido. O filme que o consagrou ainda mais. A importância desta belíssima fita na filmografia do espanhol é pelo fato de ser um registro em película mais sério e até um tanto pessoal. Ele que vinha das divertidas e maravilhosas comédias bizarras de folhetim, com personagens ainda mais berrantes como (Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos, 1988), era hora de fazer algo mais firme e evitar o estilo de filme que ficou lá atrás nas suas fitas vintage. Não que seus filmes do passado fossem imaturos, muito pelo contrário, mas certamente eles não tinham o amadurecimento tão evidente como em CARNE TRÊMULA. Sucesso de Almodóvar e o seu primeiro filme realmente melodramático. Além de ser um thriller delicioso, filme sexy, erótico, é também um romance fervoroso. Baseado no livro da inglesa RUTH RENDELL de obras como “A Judgment In Stone”, que o diretor francês CLAUDE CHABROL (1930-2010) transformou em filme (Mulheres Diabólicas, 1995). Com este material adaptado escrito em parceria com JORGE GUERRICAECHEVARRÍA e RAY LORIGA, Pedro Almodóvar teve a chance de realizar algo um pouco diferente, foi mais ruptura do que em “A Pele Que Habito”, em minha opinião, em um filme fascinante, panfletado politicamente (sua crítica a ditadura de Franco e o medo dos espanhóis de sair pelas ruas em tempos conturbados) e, sobretudo, um filme noir, sombrio, porém apaixonante e extremamente passional.
“Carne” é um híbrido de gêneros, além de ser também uma história com traços pelo tema policial. Lindamente conta a história de uma prostituta – participação especial da estreante PENÉLOPE CRUZ com o diretor -, que em janeiro de 1970 na cidade de Madri, em plena ditadura, acaba dando a luz a um menino dentro de um ônibus quando tentava chegar à maternidade. A criança acaba sendo batizada de Víctor. Passam-se vinte anos, o jovem Víctor Plaza (LIBERTO RABAL) é um homem que esta começando a amadurecer e tenta ser um moço viril apesar de ser um moleque e ganha a vida entregando pizzas. Ele tenta se encontrar novamente com uma mulher problemática que conheceu uma semana antes (mantiveram relações sexuais, mas ela estava tão drogada que não se lembrava). A mulher é Elena (FRANCESCA NERI). Quando ele toma coragem e liga para ela, a moça não tem idéia de quem seja e o menospreza. Mesmo assim, o rapaz não desamina e resolve ir até o apartamento dela para conversar. Pensando ser outra pessoa, Elena abre a porta, mas quando ela o vê fica irritada e violenta. Se para ela aquela relação foi apenas uma transa, para Víctor foi algo muito mais especial, além de ter sido a sua primeira vez. A coisa esquenta e os dois discutem até chegar para agressões físicas, mas ele apenas tenta segurá-la. Ela usa uma arma para ameaçá-lo a fim de expulsar o rapaz de lá. Uma vizinha chama a polícia. Entra na história dois policiais que faziam uma ronda de vigilância: um mais velho, Sancho (José Sancho) e outro mais jovem, chamado David (JAVIER BARDEM). Ao ver os dois policiais Víctor se apavora e faz Elena de refém. Depois de uma luta atrapalhada a arma é disparada acidentalmente e acerta David.
Seis anos depois David vive em uma cadeira de rodas, largou a polícia, e passa a jogar basquete profissional na qual o time é somente de paralíticos. Ele se torna famoso. Elena é sua esposa e tem uma nova vida. Não vive mais na marginalidade e se transforma ao extremo: é outra mulher que passa a cuidar de crianças carentes em um orfanato.
“Carne” é um híbrido de gêneros, além de ser também uma história com traços pelo tema policial. Lindamente conta a história de uma prostituta – participação especial da estreante PENÉLOPE CRUZ com o diretor -, que em janeiro de 1970 na cidade de Madri, em plena ditadura, acaba dando a luz a um menino dentro de um ônibus quando tentava chegar à maternidade. A criança acaba sendo batizada de Víctor. Passam-se vinte anos, o jovem Víctor Plaza (LIBERTO RABAL) é um homem que esta começando a amadurecer e tenta ser um moço viril apesar de ser um moleque e ganha a vida entregando pizzas. Ele tenta se encontrar novamente com uma mulher problemática que conheceu uma semana antes (mantiveram relações sexuais, mas ela estava tão drogada que não se lembrava). A mulher é Elena (FRANCESCA NERI). Quando ele toma coragem e liga para ela, a moça não tem idéia de quem seja e o menospreza. Mesmo assim, o rapaz não desamina e resolve ir até o apartamento dela para conversar. Pensando ser outra pessoa, Elena abre a porta, mas quando ela o vê fica irritada e violenta. Se para ela aquela relação foi apenas uma transa, para Víctor foi algo muito mais especial, além de ter sido a sua primeira vez. A coisa esquenta e os dois discutem até chegar para agressões físicas, mas ele apenas tenta segurá-la. Ela usa uma arma para ameaçá-lo a fim de expulsar o rapaz de lá. Uma vizinha chama a polícia. Entra na história dois policiais que faziam uma ronda de vigilância: um mais velho, Sancho (José Sancho) e outro mais jovem, chamado David (JAVIER BARDEM). Ao ver os dois policiais Víctor se apavora e faz Elena de refém. Depois de uma luta atrapalhada a arma é disparada acidentalmente e acerta David.
Seis anos depois David vive em uma cadeira de rodas, largou a polícia, e passa a jogar basquete profissional na qual o time é somente de paralíticos. Ele se torna famoso. Elena é sua esposa e tem uma nova vida. Não vive mais na marginalidade e se transforma ao extremo: é outra mulher que passa a cuidar de crianças carentes em um orfanato. Viril, macho, amadurecido e cheio de rancor, Víctor cumpre sua pena e sai da prisão. Recebe tudo que tinha de valor material, uma casa e algumas pesetas que sua mãe deixou depois que veio a falecer decorrente a um câncer.
As vidas de Víctor, Elena e David se cruzam novamente em fortes tensões humanas num triângulo perigoso. Ele é sutil, resolve vingar-se deles perseguindo Elena e decide seduzi-la e transar com ela para depois fazê-la se apaixonar por ele (como ele por ela) para depois abandoná-la, além de criar uma crise com David. Mas, outra mulher, mais velha, entra na sua vida e para balancear ainda mais a premissa, Clara (ÁNGELA MOLINA) é por acaso mulher de Sancho.
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| Uma relação perigosa! |
O seu bom gosto pela sétima arte continua no ponto quando se inspira, metafisicamente, no filme de Buñuel – ENSAIO DE UM CRIME (1955) – para conceber a cena do tiroteio no apartamento, o plot point principal do filme. Além é claro, de muito suspense Hitchcockiano, mas sem perder seu toque pessoal, nada mais espanhol. “Carne” passeia pela política, mesmo não sendo o mote da premissa, e me faz crer ser este o filme mais pessoal de Almodóvar (Todo Sobre Mi Madre também), pelo menos no que se diz respeito do início de sua fase “adulta”, mesmo em filmes anteriores como A FLOR DO MEU SEGREDO (1995) com Marisa Paredes e DE SALTO ALTO (1991) com Victoria Abril, já apresentarem elementos mais sérios, pontes para o típico drama. Até mesmo ATAME! (1990) é um filme romântico em meio aqueles fetiches Almodoviano. No entanto, “Carne” é mais consagrado e conhecido por ser um trabalho muito mais primoroso do diretor espanhol. Isso também se mostra pela excelente fotografia do brasileiro AFFONSO BEATO, de outras obras do cineasta como (TUDO SOBRE MINHA MÃE, 1999), com sua fotografia mais puxada para o tom do vermelho-sangue, além de fotografar a Espanha de modo mais realista como era a intenção de Almodóvar. Beato repete o mesmo feito realístico em Tudo Sobre Minha Mãe, fotografa as cidades da Espanha, sobretudo as bocas do lixo das prostituições e corrupções marginais, de um jeito bem cru, como também o faz aqui.
A cena primordial na qual Elena e Víctor fazem amor pela “última vez” se revela uma transa tão excitante: o suor, os gemidos e o close nas zonas erógenas da cútis do casal (planos magistrais). Só com esta cena (Està Amaneciendo), Almodóvar demonstra todo o seu brilhantismo na concepção de uma cena de sexo. Aliás, pela segunda vez, ele faz um filme onde há cena de amor, paixão, excitação e o mais puro romance. A primeira foi aquela com Banderas e Abril em Atame! E agora aqui. Só acho que no primeiro exemplo, o tipo de cena ainda era dirigida por um amador (até no bom sentido) a de “Carne” é dirigida por um profissional.
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| Fazer amor até amanhecer o dia... |
Inicialmente o ator Jorge Sanz (La Niña De Tus Ojos, 1998 – Amantes,1991) faria o papel principal (Víctor), mas depois de uma semana fotografando o ator, Almodóvar resolve substituí-lo pelo italiano Rabal. Na época a mídia exclamava que Liberto Rabal era o novo Antonio Banderas e o futuro ator-fetiche do diretor. Ironicamente sua carreia não decolou muito, por outro lado, o filme ajudou outras pessoas, Bardem que se tornaria astro internacional, assim como sua então esposa e nova Chica Almodóvar, Penélope Cruz. Bardem havia participado em “De Salto Alto.” Portanto este foi seu segundo trabalho com Almodóvar.
Ganhou o Goya de melhor ator-coadjuvante (José Sancho) e foi indicado ao BAFTA na categoria Melhor Filme Estrangeiro, essas são algumas das premiações e nomeações da fita. Poderia ter estado no Oscar, ao menos ganhou o 2º lugar, em 1998, o prêmio dado pelo popular no quesito Melhor filme no Festival de Cinema Internacional de São Paulo.
Os anseios, os amores, as traições e o prazer da carne.
ESPANHA -1997
DRAMA/ROMANCE/POLICIAL/SUSPENSE
LETTERBOX
103 min.
COR
18 ANOS
METRO
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
LETTERBOX
103 min.
COR
18 ANOS
METRO
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
uma produção EL
DESEO S.A./CIBY 2000 FRANCE 3 CINEMA CORPORATION
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A L
M O D Ó V A R
CARNE TRÉMULA
JAVIER
BARDEM FRANCESCA NERI LIBERTO RABAL
ANGELA
MOLINA JOSÉ SANCHO
participações
especiais: PENÉLOPE
CRUZ PILAR BARDEM
ALEX
ÂNGULO MARIOLA FUENTES DANIEL LANCHAS
Música ALBERTO IGLESIAS Diretor de Fotografia AFFONSO BEATO
Diretor de Arte ANTXÓN GÓMES Figurinos por JOSÉ Mª DE COSSIO
Montagem JOSE SALCEDO Produtor Executivo AGUSTÍN ALMODÓVAR
Diretora de Produção ESTHER GARCÍA
Escrito por PEDRO ALMODÓVAR
Com a colaboração
especial de
JORGE
GUERRICAECHEVARRÍA
e RAY
LORIGA
Baseado
no romance de RUTH RENDELL
D
i r e ç ã o
P E D R O A L M O D Ó V A R










9 comentários:
Belo texto quente, Rodrigo! Rs!
Suas pontuações, ao mesmo tempo são emocionais, mas você sabe pontuar com sua escrita mais racional, atentando ao estilo do Almodóvar e todos os sensos mais importantes dessa obra excitante. Concordei com tudo, de fato o filme é bem intenso...muito interessante, pois o tom humano aqui está mais forte que nunca, ainda mais por conta da sexualidade à flor da pele de seus personagens. Bardem está belissimo no filme, bom ator, mas é Rabal que comanda, rs! Um charme...
E a cena citada de sexo é uma das melhores da História do Cinema!
Um abraço!
Parabéns pelo post!
Amo esse filme. Talvez, o que mais goste do diretor.
Só fico na dúvida pela cena final de O Matador que acho poética e linda.
Grande texto, para um grande filme.
abraços
Está na lista. Estou redescobrindo Almodóvar. Assisti "Tudo sobre minha mãe" esses dias...
Estou com ele aqui para rever, é ótimo mesmo, mas lembro de poucos detalhes para comentar mais. E seu texto também está muito bom.
bjs
Esta ruptura até com "q" mais emocional dá a CArne TRêmula uma força peculiar.. distinta na filmografia dele... Nossa, adorei seus comentários sobre o filme achei tudo tão bem pontuado... Adorei (já falei isto?!)
;D
Muito bom o texto, Rodrigo. Considero CARNE TRÊMULA o melhor filme de Almodóvar.
O Falcão Maltês
gosto muito desse filme tb, mas acho q não é o q mais gosto, mas com certeza é bem marcante, rompeu com as comedias, senão me engano
Obrigado por ter gostado do post Cris! Sem dúvidas Carne Trêmula é um filme que excita, estremeça a carne e apresenta as melhores relações humanas que um filme poderia conceber, ainda mais ele sendo de Almodóvar.
Abs!
Renato: A cena final de Matador é outro ponto alto da obra do cineasta, bem lembrado. Ambos os filmes são perfeitos.
Abs.
Alan: Comece a ver a obra do espanhol garoto. Ótima fase da vida para vc descobrir. Abs!
Amanda: Obrigado Nanda. É sempre bom rever este filme. Beijos.
Karla: Que bom! Valeu mesmo moça. Procurei dar um tom confessional a crítica. Um filme marcante e tb acho que foi uma ruptura mais evidente. Bjs!
Antonio: Obrigado dude! É tbm um dos meus favoritos do diretor.
Celo: Esse rompimento com as comédias foi necessário, mas ele nunca deixa o tom humor de lado, mas aqui ele evita mais. Qual é o seu favorito?
Abs.
Rodrigo, link indicado nos melhores da semana. http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/11/links-da-semana-de-14-2011.html
abraço
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