SESSÃO DINOSSAURO
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NÃO ERA A CIDADE DO SUPERMAN
Por mais que o blogue já tenha exibido outras sessões clássicas do cinema, hoje começa oficialmente a sessão dinossauro, isto é, exibições de filmes ainda mais clássicos, verdadeiros monumentos da sétima arte. As relíquias dos deuses, os testamentos da era jurássica do cinema.
Começando com um pouco do expressionismo alemão não poderia começar esta nova sessão do Cinema Rodrigo sem este celulóide monstro que é a obra fantástica do diretor alemão Fritz Lang (1890-1976), o inspirador “Metropolis”, a fita-dinossauro da fantasia e ficção-científica. O filme do futuro realizado nos tempos em que os gigantes dominavam a Terra.
Em uma cidade futurista existem duas classes: a dos trabalhadores e a dos planejadores. O filho do rico idealizador da cidade se apaixona por uma moça da classe trabalhadora, que além de tudo é uma profetisa que prediz a chegada de um salvador.
O filme tem uma duração original de duas horas (para os padrões da época [1927] era algo inimaginável). METROPOLIS é o primeiro filme épico de ficção-científica. Tataravô de Matrix, Bisavô de Star Wars e avô de 2001: Uma Odisséia no Espaço. Com imensos cenários magistrais (é de encher os olhos), centenas de figurantes, efeitos especiais (que ainda impressionam), sexo, violência, moral nada sutil e atuações grandiosas, a fita é um dinossauro de proporções titânicas! Nota-se um ar de terror em meio à fantasia futurista que tem aquele sabor de gótico retratado por um expressionista cinema alemão em um filme que também foi controverso e que curiosamente se revelou à época um desastre de bilheteria que por pouco levou o estúdio (UFA) à falência. Pode-se dizer que Lang era uma espécie de James Cameron, gênio ainda mais difícil com ar de superioridade nazista (embora ele fosse meio-judeu), que tinha todo aquele desprezo por custos de produção e assinava o seu nome em praticamente todos os departamentos na realização de um filme.
A premissa é simplista que beira ao conto de fadas, um gênero que era a especialidade de Lang. O personagem de GUSTAV FRÖHLICH, Freder Fredersen, era o filho riquinho do idealizador e mestre da cidade de Metropolis (ainda sem um Superman), feito pelo ótimo ALFRED ABEL. O rapaz acaba descobrindo a situação miserável em que vivia a classe trabalhadora, as pessoas que garantem o funcionamento periódico daquela assustadora e luxuosa megalópole. Freder passa a compreender o sistema quando se apaixona por uma moça misteriosa, bela e angelical, Maria – a estonteante BRIGITTE HELM que faz outros papéis – uma pacifista e profetisa que serve como mediadora entre as disputas industriais, protetora das crianças da classe pobre e que mede todas as massacrantes horas de trabalho naqueles dias infernais. Com o tempo, o mestre da cidade consulta um engenheiro louco chamado Rotwang, interpretado por RUDOLF KLEIN-ROGGE, que cria um robô feminino (a cara do C3PO) que ele faz com que seja uma versão/cópia má de Maria e assim, solta a lata ambulante pela cidade.
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| O cinema e suas inspirações |
Há inúmeras seqüências clássicas como quando a robotrix começa a dançar nua em uma boate de quinta categoria e termina provocando uma violenta rebelião, momento na qual o diretor Lang vira um garoto em loja de brinquedos, destruindo os seus magníficos sets seja inundando ou explodindo. Um show de imagens numa fita muda em preto e branco. Evidente que o mal acaba se dando mal. Assim, a verdadeira Maria salva o dia resgatando as crianças da enchente que ocorreu na cidade em decorrência das catástrofes da andróide e quando a sociedade finalmente se entende após Maria decretar que o coração de Freder precisa ser o mediador entre o cérebro – o mestre- e as mãos dos trabalhadores. É, no “The End” acaba tendo uma mensagem bonita. Só que mais bonito é poder se deslumbrar com o visual da fita, que se expressa apenas por titulagens e fundo musical, uma verdadeira orquestra sinfônica.
Quando “Metropolis” fora lançado, a distribuição do filme (estranho para a época) foi interrompida e a fita remontada, ação que deixou Lang furioso, mas esta versão a gosto do distribuidor continuou sendo a mais conhecida. Depois o filme foi relançado no começo dos anos 1980 em uma cópia reconstituída com trilha sonora pop (Queen, Barbra Streisand e outros) e com algumas seqüências coloridas feitas no computador. Um trabalho vigoroso e interessante de um admirador da obra, o produtor e compositor GIORGIO MORODER. Esta montagem parcial restaurada com sutis interlúdios de ligação da trama para substituir lindamente as cenas que foram cortadas, outras perdidas (cerca de 40 minutos) chegou bem mais perto da visão original de Fritz Lang. É uma oportunidade conferir momentos do filme que passaram décadas, praticamente meio século, inéditas. Assim como restaura a ordem delas na versão original com o acréscimo de interlúdios corretos.
O filme é considerado uma ficção espetacular no campo da ciência e fantasia, o mais notório celulóide da sic-fic. Mesmo simplista “Metrópolis” se mostra profundo e impressionante. A impressão que fica é que os cineastas das futuras gerações ainda não conseguiram chegar ao nível de expressão imagética que alcançou esta obra-prima. Também não é ridículo afirmar, como faz muitos críticos, de que o filme é uma “nova-velha versão” ambientalista do futuro. Muitos também dizem que o filme nunca teve a intenção de ser profético. Eu particularmente nunca li uma aspas dita pelo próprio Lang a respeito, muito pelo contrário. Do jeito que era a figura que estudei, era capaz dele dar o crédito a si dizendo que previu muitas coisas neste seu futuro megalomaníaco.
O filme, em minha opinião, é muito mais místico do que profético. Muitos amigos cinéfilos também concordam com isso. Há tantos elementos fantásticos no quesito arquitetônico, industrial, no design de todos os âmbitos e na própria política dos anos de 1920 que faz um híbrido com uma sociedade e política medieval. Além do mais, o fator bíblico é fortemente corrente na história. Ele produz imagens com toques extremamente estranhos que culminam em um olhar crítico a Deus (me arrepia). Reflitam... Pois no filme tem uma robô-mulher que é queimada na fogueira em pleno futuro, um cientista mad e mão-de-ferro que é também um ser humano alquimista com ideais do século XV, os trabalhadores se arrastando como gado as “mandíbulas” de uma máquina que é representado pelo Deus Moloch, cruzes!
A fita é esta salada mística. Não sei dizer se Lang era um religioso ou ateu, mas o seu filme, além de ser um magnífico e grandioso olhar futurístico, é também um pesadelo que graças a Deus não tem sonoridade. É possível fazer inúmeras leituras da fita. Cada uma mais interessante. Eu só fico boquiaberto, sempre, e penso assim sobre Matrópolis.
Acho a interpretação de Fröhlich como o herói, esplêndida, sem exageros. Aliás, deve-se dar um desconto na época em que se foi produzido o filme e como as performances tiveram sua evolução ao passar do século. Imaginem o filme, atualmente, em uma nova versão protagonizada por Brad Pitt como Freder? Quem sabe como Pitt faria um jovem que representa o coração? Assim sendo, não noto os exageros de ator com aquelas expressões corporais e gestos que podem parecer piegas porque estamos em um filme mudo de 1927!
Igualmente magníficos estão o engenheiro (Rotwang), o mestre da cidade (Abel), e, sobretudo a estrela (Helm) no papel duplo da angelical e bondosa Maria e da femme fatale/Vamp de metal. Ela tem outros papéis na fita com cargas místicas: “The Creative Man”; “Death” (como a Morte) e “The Seven Deadly Sins”, além de ser estupenda como Maria e a robô.
É possível assistir ao filme de várias maneiras. Algumas pessoas o vêem como um bizarro drama familiar (também há muita carga dramática na premissa), outros apenas como um épico de ficção que representa a depressão de um período negro ou simplesmente como uma revolução da reconciliação humana (detalhe: era a época do nazismo em ascensão). Acho válidas todas as camadas de gêneros acima apresentados. Lang, mesmo com a sua arrogância, não faz um filme para ser interpretado de uma maneira preguiçosa como sendo apenas um filme de ficção-científica. Seu filme passeia pelo sobrenatural em meio às descobertas científicas. Certamente que muitas das engenhocas apresentadas nesta ficção são apenas possíveis de compreender neste passado tão negro e nazista que vivia a Alemanha, que imaginava o futuro da humanidade. Não é a toa que Metrópolis era o filme favorito de Adolf Hitler. Ele identificava, sem dúvidas, o poder do mestre da cidade com o seu próprio e enxergava os judeus e negros na classe trabalhadora. Será que Lang realizou um filme de encomenda para agradar o Führer?
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| FRITZ LANG |
A vida de Lang merece destaque aqui em um breve perfil de cineasta. O diretor de Metrópolis nasceu em Viena e era filho de um importante arquiteto (influente em sua obra). Lang estudou pintura em Munique e depois Paris e lutou na Primeira Guerra Mundial. Treinado como pintor, artista gráfico e figurinista no início da carreira, sempre usou a formação para conseguir o máximo de efeitos, particularmente em pesadelos e fantasias, sua marca registrada. Começou a escrever roteiros quando estava ferido, trabalhando para Joe May e depois com THEA VON HARBOU (co-autora de Metrópolis). Quando chegou a Berlim foi para Os estúdios da Decla, onde aprendeu sobre cenografia e iluminação. Estreou na direção em 1919 e acabou se tornando a figura mais importante do Expressionismo alemão quando realiza METRÓPOLIS. Outra fita sua, mais cult, o simbólico MABUSE, já em 1922 satirizava alguns costumes nazistas e OS NIBELUNGOS, idem. Apesar de sua ascendência judaica, em 1932 Goebells lhe teria oferecido a direção de todo o cinema nazista. Fugiu na mesma noite, e que segundo ele, com a roupa do corpo e foi para França (Paris) e depois se radicou na América (EUA). Sua mulher, Thea, a roteirista, apoiou a causa nazista e assim eles se divorciaram em 1934. Nos Estados Unidos Lang fez carreira tão notável como em sua fase alemã. Eram os mesmos temas: ódio, vingança, assassinatos... Apesar de problemas com os produtores, de seu gênio difícil e da lista negra dos estúdios, por causa de sua amizade com Bertold Brecht, ele proseguiu com os projetos da maneira que sempre quis, mesmo com uma carreira até um tanto desigual nos Estados Unidos.
Seu filme predileto era M: O VAMPIRO DE DÜSSELDORF, que já exibi aqui, um filme que lançou internacionalmente o ator PETER LORRE, e também FÚRIA, seu filme favorito na fase americana. Lang também foi ator. Faz uma participação no filme de Godard, O DESPREZO, no papel dele mesmo dirigindo ULISSES da obra de Homero que na verdade sempre teve desejo de realizar mais nunca o fez. No término da carreira retornou para a Alemanha, onde não fez mais nada de importante, em parte por causa de problemas de visão. Lá terminou a trilogia MABUSE, em 1960, que acabou sendo o seu outro testamento.
O primeiro é esta obra chamada METROPOLIS, este posso dizer que é uma obra notória de Fritz Lang que era também um contador de lorotas, autor de tudo, um homem que sabia também ignorar os amigos. Só que é inegável não dizer que o fóssil velho, este filme e este cineasta, fazem parte da minha coleção dos dinossauros do cinema.
ALEMANHA-1927-MUDO
FICÇÃO-CIENTÍFICA/DRAMA
FULLSCREEN
PRETO E BRANCO
LIVRE
CONTINENTAL versão 124 min.
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
UNIVERSUM FILM – UFA APRESENTA
UM FILME DE FRITZ LANG
METROPOLIS
ESTRELANDO:
ALFRED ABEL. GUSTAV FRÖHLICH. RUDOLF KLEIN-ROGGE
FRITZ RASP. THEODOR LOOS. ERWIN BISWANGER
HEINRICH GEORGE
E
BRIGITTE HELM
Produzido por ERICH POMMER
Fotografado por:
KARL FREUND. GÜNTHER RITTAU e WALTER RUTTMAN
Direção de Arte:
OTTO HUNTE. ERICH KETTELHUT. KARL VOLLBRECHT
Figurinos de AENNE WILLKOMM
Efeitos Especiais por ERNST KUNSTMANN
Escrito por THEA VON HARBOU
Dirigido por FRITZ LANG
Metrópolis ©1927 by UFA
















6 comentários:
Começou muito bem, Rodrigo, METROPOLIS é monumental, marcou definitivamente o gênero ficção-científica.
O Falcão Maltês
Comprei esses dias na coleção da Folha, ainda não assisti, mas verei ainda esta semana!!
Esperando ansiosamente pelo resto dos "dinossauros" aqui no teu blog.
P.S.: Preciso falar algo sobre o texto? Uma maravilha, Rodrigo!
Um marco, sem dúvidas.
bjs
Grande Rodrigo, Ótimo texto, Parabéns. Metropolis além de ser um ótimo filme, se tornou a muitos anos um grande clássico realmente,muito bom apesar de ter na minha opinião um pequeno defeito: ser alemão e ter em seu cerne ideais nazistas.
Abração.
Que resenha sensacional, se o filme era mudo e consegue transmitir tudo isso, palmas verdadeiras para Fritz Lang.
O interessante é que hoje vemos muita coisa que segue o mesmo perfil.
Vou me divertir com os Jurássicos. Aguardando.
Abs
Obrigado Antonio. Metrópolis é realmente marcante!
Abs.
Alan: Assista! poxa faz tempo que não compro filme na Banca de jornal, rs! Obrigado querido. Curtiu "os dinossauros"? haha Abs.
Sim Amanda! Bjs.
Jefferson: sabe que a obra nem me incomoda. O período retratado é o futuro, mas o presente era o nazismo só que Lang não chega a ser agressivo no filme neste sentido. Claro que ele era um egocêntrico e falastrão, mas sua obra foge do estilo (nem muito cinematográfico) de Goebbels que mais fazia propagandas descaradas para Hitler.
Abs.
G: muito obrigado! Creio que irá gostar da série.
Abs.
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