segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

OLIVER STONE | ASSASSINOS POR NATUREZA


PODE MATAR QUE A MÍDIA SE ENCARREGA DO RESTO

Dois jovens com traumas de infância se tornam amantes e assassinos em série e acabam sendo glorificados pela mídia. Baseado em um roteiro original de QUENTIN TARANTINO (Pulp Fiction) e direção de OLIVER STONE (The Doors).


Qual é o melhor filme para se debater a questão midiática pão e circo do que esta fita videoclipe dirigida por OLIVER STONE (The Doors, JFK, PLATOON) que causou um furor por toda a parte na década de 90? O auge dos filmes pop americanos e o começo da glória do inglório aspirante a diretor e roteirista, Tarantino. Mesmo ano de PULP FICTION, 1994, ASSASSINOS POR NATUREZA tem uma premissa que é o DNA de Tarantino que havia dirigido Cães de Aluguel e escrito outro script que foi vendido para Tony Scott (AMOR À QUEIMA ROUPA), mas certamente o feito de Stone é o filme dos mais impactantes, irritantes, entorpecentes e violentos até aquele momento. Confesso que não suporto a violência gratuita e demorei um tempo para digerir "Assassinos", mas como o texto é de Tarantino (que assina apenas como argumento porque mexeram tanto na história) eu consegui admirar mais a fita. Porém só Tarantino não é desculpa. O filme se confirma como uma obra de real valor imagético e reflexivo. É o maior filme contra a mídia já feito e com excessos e criatividade.

Não é um filme fácil. São as desventuras em série de um casal de psicopatas que deixa uma trilha de sangue por onde passam e que se tornam celebridades.  Mickey (WOODY HARRELSON) e Mallory Knox (JULIETTE LEWIS). Eles vivem na estrada e trafegam pela rota 66 conduzindo matanças: roubos, sequestros, assassinando pessoas e ganhando dinheiro. Sobreviventes da maldade, por natureza. Não é vingança, é instinto e diversão. O verdadeiro mal acontece quando ambos são glorificados pela mídia, principalmente através de um programa de TV sensacionalista sobre assassinos em série, apresentado, escrito, produzido e dirigido por Wayne Gale – dispensa comentários o incrível ROBERT DOWNEY JR. O cara ajuda criar o fanatismo e o culto através dos Knox quando a audiência e a repercussão começam a criar forma com o número de cadáveres que são deixados pelo casal maníaco (tão lunáticos que juram fidelidade e se casam através de um pacto de sangue). Assim, os jovens passam a ter admiração por eles da mesma forma que tem ao seu cantor de rock predileto e tudo vira um circo absurdo. Rede de mentiras, sensacionalismo descarado e uma alarmante incitação do menor a prática da violência. A terrível e cruel de todas as violências é quando a televisão (o cinema também muitas vezes) incita a imaginação dos mais desajustados em cometer barbáries, e de um jeito perigoso e corajoso, o filme faz também essa crítica.

"Assassinos" é por natureza um filme que deixa qualquer um pirado!
A fita também coleta depoimentos de alguns jovens que apenas “olham de fora” e gostam de Mickey e Mallory, mas que seriam incapazes de matar uma mosca. A fantasia se mistura com a realidade e as pessoas não se dão conta da cruel violência que estão sofrendo assistindo uma dramatização fajuta sobre dois assassinos cruéis que escapam da lei. Mas pode ser um abuso maior do que no intervalo do programa ser dominado por comerciais de coca-cola? Isso mesmo beba gelado!
  

A história do filme faz lembrar os imperadores de Roma. Eles davam pão e circo ao povo, quando gladiadores se matavam nas arenas para divertimento local. A TV faz o mesmo com a audiência, tira o dinheiro do telespectador com programas de baixíssimo nível intelectual e social preenchendo o tempo das pessoas frente ao aparelho face a face com a desgraça. Há muito que se discutir a respeito. No entanto, a fita de Stone se apresenta como moralista nas entrelinhas e radicalmente, de um jeito irônico, sensacionalista em meio àquelas imagens de todo o tipo de linguagem que se convergem. O filme é uma hibridização de cores, música e cinema (em parte 35 mm ora Super 8). É uma salada de informações numa narrativa não linear e abstrata. Tarantino odiou a adaptação e que não era intenção de seu texto original transformar a história numa visão videoclíptica, que sim, consegue irritar o espectador facilmente. Não é filme para todo tipo de público. Irritou-me das primeiras vezes, e ainda hoje, quando revejo, tenho uma náusea ou outra na excessiva violência gráfica. É uma experiência alucinógena e extremamente digressiva – a morte do índio me deprime – e que também oscila para a comédia: é um tanto engraçado Mallory brincando de une-dune-tê para escolher quem ela vai matar a garçonete ou o velho que estava tomando café? Ou mesmo na hilária versão de “I Love Lucy” em que conta os traumas de Mallory no tempo em que era abusada verbalmente e sexualmente pelo pai e no dia em que conhece Mickey no formato de comédia de situação (sitcom). Risos impossíveis de conter, tanto da plateia que assiste ao filme quanto do background da fita com aqueles risinhos sonoros.


É uma produção radical, e somente a Warner Brothers poderia topar em bancar uma história dessas. Provavelmente, para o estúdio até aquele momento, somente LARANJA MECÂNICA (1971) havia causado polêmica e infinitas discussões sobre censura, proibição, etc. Stone foi acusado na época do lançamento de incitação, por fazer jovens gostarem de violência e sair por aí imitando o filme. Por outro lado, as mentes doentias já existem muito antes de qualquer filme e mesmo antes da invenção do cinema. Há filmes que são desnecessários e gratuitos demais que não apresentam legitimidade cinematográfica e tampouco uma crítica. Não é o caso de Assassinos Por Natureza, que além de tudo, tem uma explicação até poética dita pelo anti-herói sobre o instinto cruel do ser humano. É um filme que em meio a tantas e tantas imagens exageradas e sensacionalismo cômico, faz refletir.


Pode notar o amor do casal central e o filme tem poucas pausas e momentos silenciosos e todo o tempo alguma coisa acontece: tiros, gritos, explosões, sangue, uma trilha musical animal. Provavelmente a sequência final na rebelião da cadeia de segurança máxima, quando o personagem de Downey Jr. esta gravando o programa ao vivo com Mickey, seja o momento mais impactante de todo o filme. O lugar se transforma em uma guerra infernal (me lembra Carandiru) e não tem como não tirar um sarro do personagem caricato de TOMMY LEE JONES (como o diretor do presídio, Dwight) que entra em pane quando tudo sai do seu controle. Lee Jones exagera e sua participação é curta, mas não deixa de ser  brilhante. TOM SIZEMORE (de O RESGATE SO SOLDADO RYAN) faz um dos mais asquerosos personagens, Jack Scagnetti – que é mencionado em Cães de Aluguel, o agente da condicional de Michael Madsen [MR. Blonde] lembram?- É um sujeito típico do universo de Tarantino. Cruel, vingativo, mentiroso, boa praça (que até escreveu um Best-seller) e que é tão psicopata quanto Mickey e Mallory. RODNEY DANGERFIELD também impressiona com os seus olhos esbugalhados no papel do pai de Mallory que a estuprava diariamente e tinha a boca mais suja que o Tietê. Sabem aquele suíno nojento?


Enfim, apesar do tema polêmico e falacioso, “Assassinos Por Natureza” se mostrou um filme inquietante – um dos melhores e mais cults da carreira de Stone. Crítico, poético, cruel, nu e cru, a fita parece um veículo da MTV. O filme cabe em um Wolkswagen que comporta os melhores exemplares da década de 90. É o nascimento e estudo do mal (e da televisão) que leva um soco da sétima arte.


EUA – 1994
POLICIAL/DRAMA/ROMANCE
WIDESCREEN
COR/ Preto e Branco
119 min.
18 ANOS
WARNER 
✩✩✩✩ ÓTIMO


  
                              WARNER BROS. APRESENTA
EM ASSOCIAÇÃO COM
REGENCY ENTERPRISES e ALCOR FILMS
UMA PRODUÇÃO IXTLAN/NEW REGENCY
EM ASSOCIAÇÃO COM J.D. PRODUCTIONS
UM FILME DE OLIVER STONE
NATURAL BORN KILLERS
WOODY HARRELSON 
JULIETTE LEWIS  
ROBERT DOWNEY JR.
E TOMMY LEE JONES
TAMBÉM ESTRELANDO: TOM SIZEMORE
RODNEY DANGERFIELD  JARED HARRIS  
EDIE McCLURG  KIRK BALTZ  O-LAN JONES  
RUSSELL MEANS “como o Velho índio” 
E ED WHITE
Edição HANK CORWIN. BRIAN BERDAN
Música Original por BRENT LEWIS
Cenografia VICTOR KEMPSTER
Fotografia de ROBERT RICHARDSON
Co-produtor RAND VOSSLER
Produtores Executivos
ARNON MILCHAN e THOM MOUNT
Roteiro de
DAVID VELOZ  
RICHARD RUTOWSKI
e OLIVER STONE
Baseado numa história de QUENTIN TARANTINO
Produzido por
JANE HAMSHER  DON MURPHY
e CLAYTON TOWSEND
DIREÇÃO
OLIVER STONE
Natural Born Killers ©1994 Warner Bros. /Regency Enterprises

10 comentários:

Unknown disse...

Um dos meus filmes prediletos, assisti no cinema na sua epoca de lançamento e tb trabalhava em uma locadora qd ele foi lançado. Lembro q boa parte do publico repudiou esse filmes, alguns voltavam e diziam q era coisa do capeta. Lembro tambem de uma garota evangelica q frequentava muita a locadora e depois não voltou mais, pq ficou com muita raiva de ter esse filme na loja. Hhahahahahha.... Esse foi um dos filmes q mais tem cara dos anos 90. Um era em q td virou midiatico, a ascensão da Mtv, internet, td ficando online e ao mesmo tempo. Diria q esse é uma obra-prima muitas vezes incompreendida de OLIVER STONE. Como vc disse, uma das melhores criticas a sociedade idolatra.

Abração!

renatocinema disse...

Adoro o filme e seu estilo.

A trilha sonora, que me apresentou Leonard Coen é magistral.

Obrigatório: para quem gostou do filme, recomendo a versão em vhs da obra que foi proibida fora dos Estados Unidos. Minutos adicionais imperdíveis.

Hugo disse...

Belo texto, o filme é um chute no estômago da mídia sensacionalista e como escreveu o Celo, foi produzido numa época de mudanças na mídia e com crescimento da internet.

Abraço

Anônimo disse...

Preciso muito ver este filme, já ouvi falar muito dele, e me parece ser muito bom. Gosto muito dessas produções "radicais".

abraço.

Anônimo disse...

Rodrigo, você aguçou minha vontade de assistir esse filme, já está na minha lista.

Agora estou nesse blog.

Abs

Gilson

Reinaldo Glioche disse...

Essa do cabe em um Wolkswagen foi genial hein? Tb considero um dos melhores exemplares dos anos 90. Não tenho o que acrescentar à sua análise apurada da fita.
Abs

Anônimo disse...

Rodrigo

O que tem na letra G da sopa...rs.rs..me conta essa?

Abs

Jefferson C. Vendrame disse...

Eai Rodrigo Blza? Bom Filme, embora eu assistiria novamente somente se passasse na tv e eu não tivesse mais nada para fazer, comprar e mistura-los aos da minha coleção, NUNCA.... não sou muito fã de filmes violentos mas reconheço sua qualidade, e respeito as diversas opiniões. Abração....

Rodrigo Mendes disse...

CELO: Grandes histórias de atendente de video locadora, rs! Ficaria ainda mais zonzo se tivesse visto no cinema, bom tinha apenas 8 anos, rs! mas deve ter sido uma experiência e tanto.
Abs.

RENATO: Gostaria de obter essa vhs aí...interessante! Abs.

HUGO: Obrigado amigo. O celo tem razão, foi uma época de ascenção maior da tecnologia. Um misto da era midiática. Abs.

ANDERSON: Então, se gosta de fitas radicais, sem dúvida vai gostar deste! Abs.

G: Bem vindo e obrigado pelos comentários. Sua sopa cabe o alfabeto...o que poderia falar sobre a letra G? Algo com "Grandeza" Rs!
Abs.

REINALDO. Rs! Obrigado meu caro. Um filme perfeito da década de 90. A Kombi leva ele Pulp Fiction e tantos outros... Abs.

JEFFERSON: Entendo cara! É um filme que também não agrada a todos, mas pelo visto ele deixa alguma impressão interessante.
Abração!
Obrigado.

Unknown disse...

Eu acho que este filme tem uma crítica interessante dos americanos. Há muita sátira! Woody Harrelson tem um grande desempenho em "Assassinos por Natureza" ❤️ É um ator lindo, carismático e talentoso. The Edge of Seventeen Filme Online é um dos seus filmes mais recentes. Adoro esse tipo de histórias para adolescentes, tem uma mensagem para qualquer idade! Realmente a recomendo!

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