A ODISSÉIA DE UM CAVALO
Em Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) um jovem dedicado, Albert Narracott (JEREMY IRVINE) se alista no exército da Inglaterra para lutar na Primeira Guerra Mundial, na França, na esperança de encontrar seu Cavalo Joey que foi vendido para fazer parte da cavalaria britânica.
A nova dobradinha do mago Spielberg (embora essas fitas sejam do ano passado e que só agora chegam por aqui), que já se aventurou ao lançar duas películas em um ano e geralmente dois tipos de gênero, o filme de adulto que demorou alguns anos para se confirmar e o seu inconfundível e aclamado filme-pipoca para toda a família.
Aconteceu primeiro em 1989 com INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA e o subestimado ALÉM DA ETERNIDADE. Depois vieram JURASSIC PARK e A LISTA DE SCHINDLER, em 1993, suas aclamadas obras-primas que apontam os distintos estilos de cinema em sua filmografia. Depois de uma folga devido ao sucesso e comprometimento em ajudar a fundar A DreamWorks Studios, o cineasta faz uma dobradinha infeliz em 1997, seu pior ano, com a continuação de Jurassic Park (O MUNDO PERDIDO – apesar de ser divertido) e o péssimo AMISTAD que foi feito sem alma e que não repete o êxito de A COR PÚRPURA (1985). Em 2002, ele volta de maneira ágil e esperta com os ótimos MINORITY REPORT e PRENDA-ME SE FOR CAPAZ e em 2005 entrega mais dois filmes, o excelente MUNIQUE, seu filme mais ousado e violento e o estranho GUERRA DOS MUNDOS que tinha tudo para ser cool.
Desta vez Steven Spielberg supera as expectativas deste fã e cinéfilo com duas fitas no ponto: um drama épico de guerra e uma aventura fantástica nos moldes de “Indiana Jones” e “Sherlock Holmes”.
Spielberg entrega um filme cheio de esperanças e com um olhar diferente do gênero guerra, uma fita que pode ser assistida por adultos e crianças. A história vai sendo contada lindamente de maneira clássica, uma derivação espetacular do livro infanto-juvenil escrito pelo inglês MICHAEL MORPUGO autor de outras histórias sobre amizade: WHEN THE WALES CAME que também virou filme, em 1989, e ainda estrelado por Helen Mirren, MY FRIEND WALTER (1992), um telefilme redondinho adaptado e dirigido por Gavin Millar que parece com aqueles filmes de matinês de sábado em casa diante a TV e mais uma história sobre guerra, FRIEND OR FOE, outro livro seu que foi adaptado para a tela, mas que retrata a Segunda Guerra, sobre duas crianças neste cenário típico que encontram um caça alemão. Mas nada comparado a superprodução do mesmo diretor de IMPÉRIO DO SOL (1987), que deu vida ao livro de maneira inspirada e encantadora.
Outra bela adaptação do livro foi realizada em uma montagem teatral em 2007 (depois na Broadway) e que venceu o prêmio Tony como melhor espetáculo teatral do ano passado. Tudo feito com cavalos fantoches, eu pesquisei algumas fotografias e é realmente de encher os olhos e muitos espectadores disseram que parecia que os bichos de mentira tinham vida!
Em CAVALO DE GUERRA, O coração de Spielberg estava no lugar certo quando ele resolve dirigir e tocar o projeto. O filme honra o romance infantil passado no período da I Guerra Mundial e que foi publicado primeiramente em 1982, na Inglaterra. A premissa caminha por vários acontecimentos isolados que se relacionam com o animal, um belíssimo puro-sangue que tem uma amizade forte com o rapaz, Albert, que nutre grandes esperanças para resolver os problemas da vida. Evidente que não se pode esperar algo parecido com “O Resgate do Soldado Ryan”, mesmo porque, Spielberg dirige um filme para a Disney, o estúdio família. Assim sendo, nas cenas de batalha não se nota uma violência explícita porque é tudo mais estilizado e distante, porém nunca vago. A fita tem aquela combinação emotiva à la Spielberg e aqui se concentra na relação entre pessoas e animais de uma maneira fácil para se cair no choro e um tanto folhetinesco, mas no bom sentido. Além de indicar obras alheias, filmes clássicos do cinema americano dos velhos e bons tempos, David Lean e, sobretudo Frank Capra na qual Spielberg tem predileção, “Cavalo de Guerra” é uma fita a moda antiga, uma experiência grandiosa contada lindamente do começo ao fim, algo que este romântico cinéfilo estava aguardando por algum tempo, ainda mais dentro da obra do talentoso Spielberg que é insuperável quando decide dirigir de coração um filme. Aqui ele faz até mesmo uma crítica ao novo cinema já que seu filme tem uma narração linear-clássica, o que faz jus a sua célebre frase: “As pessoas esqueceram como contar uma história. As histórias não têm mais um meio ou um final. Elas normalmente têm um início que nunca pára de começar.”
A premissa começa com uma das sequências mais fantásticas dos últimos tempos mostrando um cenário campestre lindo e o nascimento do bichinho aos olhos do herói, em Devon, Inglaterra. O filme tem um primeiro ato sapeca, engraçadinho e emotivo. Tudo começa a ficar mais forte dramaticamente quando o rapaz passa a treinar o cavalo, o doma e torna-se o responsável pelo animal que tem que arar as terras da fazenda de sua família ou caso o contrário não conseguirão cultivar a plantação e pagar o aluguel a um sujeito irritante (o ótimo DAVID THEWLIS como Lyons). Quando a coisa se compromete para os Narracott, o pai, interpretado pelo fantástico PETER MULLAN (Coração Valente/Trainspotting), um dos mais expressivos do elenco, decide vender o cavalo para a cavalaria inglesa em troca de dinheiro (havia conseguido o cavalo anteriormente por impulso e novamente por dinheiro) para sustentar e resolver os problemas familiares. Com isso, o animal acaba sendo levado para o front de batalha da primeira grande guerra, o pesadelo em solo francês do ano de 1914, contra a vontade do mocinho.
Irvine que faz o jovem inglês pode apresentar alguns tiques de iniciante e novo galã bonitinho, mas nada que comprometa tanto (pegaram demais no pé do garoto). Achei o ator eficiente ao mostrar preocupação e determinação, o que faz seu personagem se alistar na estúpida e sombria guerra e fazer de tudo para tentar, na esperança (aliás, ela é a única que sobrevive no enredo) de recuperar o intrépido Joey (ou qualquer outro nome que batizarem o cavalo localmente).
A narração vai traçando a idéia de um road-movie no âmbito da guerra a partir do momento em que o cavalo é vendido para o Capitão Nicholls (TOM HIDDLESTON de THOR em outra brilhante encenação) e depois passa a ter os cuidados de outras pessoas: dois irmãos do exército alemão, um deles feito pelo talentoso DAVID KROSS (de O LEITOR), que depois culmina em um desfecho triste em um moinho, uma garota francesa, a revelação CELINE BUCKENS, órfã e que mora com seu avô (NIELS ARESTRUP) de filmes como; “O Escafandro e a Borboleta” [ 2007] e “O Profeta” [2009] que fabrica geléias e emociona a neta com histórias sobre coragem para finalmente o animal envolver outro oficial alemão que fazia os bichos carregarem o peso de canhões infernais em uma morro até Joey voltar para os ingleses quando é cuidado por TOBY KEBBELL no papel do soldado Geordie.
Spielberg mostra a dimensão de como os homens nutrem a paixão pelos animais em meio a tantas cenas impecáveis e irretocáveis mesmo que o script de RICHARD CURTIS (SIMPLESMENTE AMOR [2003]/ BRIDGET JONES 1 e 2 [2001/2004] e LEE HALL (BILLY ELLIOT, 2000) não sejam brilhantes nos diálogos e que seja focado diretamente na grandeza fílmica e no aspecto técnico sem fazer uso de um perfil psicológico profundo nas relações humanas, o que acho que foi realmente uma opção. Mesmo assim, o filme sabe envolver a platéia de qualquer idade e no bom sentido da palavra a manipulação de Spielberg é acertada do início ao fim, o que faz o público não piscar os olhos ou bocejar quando estão diante de cenas tão belas em suas 2 horas e quarenta de metragem, sem perder o fôlego. Até quem não gosta do filme ou do Spielberg, é facilmente manipulado!
O elenco continua perfeito entre atores desconhecidos, estreantes, quase famosos e alguns conhecidos como a simpática e excelente atriz EMILY WATSON (de ONDAS DO DESTINO) fazendo a matriarca Rose Narracott, mulher de fibra, esposa e mãe dedicada. Até mesmo BENEDICT CUMBERBATCH de filmes como “A Outra” (2008) e “Desejo E Reparação” (2009) deixa uma ótima impressão como o major do exército britânico Jamie Stewart. Ainda assim, a estrela do filme é o cavalo e que, aliás, já atuou no cinema. Trata-se de Finders Key, o belo animal que merece todas as ovações (Apesar de o filme contar com mais quatorze cavalos para fazer o Joey) é Finders que interpreta Joey nos principais momentos. Ele também fez o cavalo no filme estrelado por Tobey Maguire: SEABISCUIT – ALMA DE HERÓI (2003 de Gary Roos).
Provavelmente entre tantas cenas que se destaca neste épico tão bem captado, um dos momentos mais impactantes é quando o herói fica preso no arame farpado (e depois é ajudado por dois soldados inimigos que decidem fazer uma trégua). Para quem ama animais é um momento de cortar o coração, ainda mais quando Spielberg realiza uma das sequências mais formidáveis pouco antes deste clímax, na qual o cavalo sai correndo a toda velocidade, saltando do tanque de guerra, das trincheiras da morte e cavalgando nas “Terras de ninguém”, a distância entre as trincheiras inimigas. Tiros, explosões e todo aquele barulho da Primeira Guerra (me lembrou Glória Feita de Sangue de Kubrick) Spielberg evita mostrar vísceras (como naquela torturante sequência do “Soldado Ryan”) e deixa o filme ainda mais sombrio e “eslamaçado” nu e cru com relação ao espaço geográfico e graficamente fora de foco nas mortes dos soldados.
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| Como em uma cena de ação em Tintim, Spielberg brinda os fãs com uma excelente sequência. Coisa de um verdadeiro e inspirado diretor de cinema |
O filme recebeu hoje 6 indicações no Oscar: a Melhor Filme, Fotografia, Trilha Musical, Direção De Arte, Edição de Som e Mixagem de Som, creio que apenas nos quesitos técnicos, a fita pode abocanhar algum. Primeiramente, o polonês JANUSZ KAMINSKI que trabalha com Spielberg há muitos anos (desde Schindler) faz um trabalho ESPETACULAR na fotografia deste filme o que já é, em minha opinião, simplesmente fenomenal e antológico. Kaminski consegue transmitir em cores vivas (e também cinzentas) a visão de Spielberg para a história. O cara arrasa na cena final do filme na qual o público lembra automaticamente de “E O Vento Levou”. Spielberg gosta de criar cenas sob o pôr do sol e sua obra tem vários desses momentos românticos (meu favorito é a despedida do Indiana Jones 3 em: 'Última Cruzada').
Evidente que MICHAEL KAHN, o montador, desde Contatos Imediatos Do Terceiro Grau, não faz por menos quando cria efeitos impressionantes na edição. Só para exemplificar, a fusão que ele faz com a terra arada e a roupa sendo costurada por Emily Watson ou mesmo o timing perfeito recriado nas trincheiras e todas as passagens clássicas em fades que o filme nos transporta. E, outro ponto alto no filme, é a sempre confiável trilha musical do mestre JOHN WILLIAMS que mais uma vez compõe temas variados musicalmente no seu melhor estilo, isto é, sempre operístico e vibrante, eu gostei mais uma vez.
O filme também recebeu as indicações do ano para o Globo De Ouro: Melhor Filme (Drama) e Trilha Sonora original (Williams).
Gostando de “Indiana Jones e o Reino Da Caveira de Cristal” como eu gostei e vendo toda a energia do tio Spielberg ano passado, tudo isso me faz crer que CAVALO DE GUERRA (assim como Tintim) é um dos melhores filmes do diretor em anos. Bom, pode fazer um empate justo com alguns de seus filmes do passado, pelo menos com E.T.
Com coragem e determinação este filme é uma aventura imperdível que tem cheiro de pipoca e lágrimas nos olhos.
EUA- 2011
DRAMA/GUERRA
CINEMA
146 min.
COR
12 ANOS
DISNEY
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
DREAMWORKS PICTURES E RELIANCE
ENTERTAINMENT
APRESENTAM
UMA PRODUÇÃO
AMBLIN ENTERTAINMENT/
KENNEDY/MARSHALL COMPANY
UM FILME DE STEVEN
SPIELBERG
EMILY WATSON DAVID THEWLIS PETER
MULLAN JEREMY IRVINE
NIELS ARESTRUP TOM HIDDLESTON CELINE BUCKENS
BENEDICT CUMBERBACH DAVID
KROSS EDDIE MARSAN
LIAM CUNNINGHAM ROBERT EMMS TOBY KEBBELL PATRICK KENNEDY
Música de JOHN WILLIAMS Edição
MICHAEL KAHN
Fotografado por JANUSZ
KAMINSKI, A.S.C
Direção de Arte RICK CARTER
Figurinos JOANNA JOHNSTON
Produção Executiva
FRANK MARSHALL. REVEL GUEST
Produzido por
STEVEN SPIELBERG. KATHLEEN
KENNEDY
Baseado na obra de MICHAEL
MORPURGO
Escrito por
LEE HALL e RICHARD CURTIS
Dirigido por
STEVEN
SPIELBERG
War Horse ©2011 Touchstone Pictures/ DreamWorks SKG

















9 comentários:
Nossa, gostou mesmo hein? Não nego, sua crítica levantou o meu astral para ver o filme, mas sabe... Tenho a impressão de que não vou gostar tanto assim. Pelo menos não quanto você.
Abs.
Tudo bem, Rodrigo, você amou, hehe, respeito. Gosto de Steven Spielberg e em Tintim ele mostrou muita técnica, mas Cavalo de Guerra não me convenceu. Uma pena.
bjs
To com você! Apoio o Cavalo de Guerra...adorei o filme! Gosto de filmes com esses animais rs!
Não vi ainda, principalmente por culpa do trailer... hehhehe
Já sei que vou chorar... Tenho um coração mole quando o assunto é a ligação entre animais e donos. Especialmente se forem cães e cavalos. Acho cavalo um dos animais mais sinceros e fortes... Tenho adoração!
Vou conferir antes de falar sobre o filme... Sua crítica apaixonada me conveceu!
;D
Gostei mais de AS AVENTURAS DE TINTIN...
O Falcão Maltês
rio melhor que kung fu panda 2 ?
fecha esse blog voce não entede nada de cinema
Alan: Você pode até gostar. Nada como darmos uma chance àquilo que não sabemos como é direito. Depois me fale se gostou.
Abs.
Amanda: Sim, entendo e tb respeito sua opinião. Bjs.
Tiago: Adoramos! Lindo mesmo. Abs!
Karla: O trailer realmente já era comovente.
Filmes de cavalos geralmente são bonitos como "Corcel Negro", mas este é um épico, uma aventura fantástica. Assista mesmo! Depois me conte!
Cavalo,assim como o cão, é o melhor amigo do homem.
Bjs.
Antonio: Eu gostei de ambos!
Abs.
Que infantilidade "." quem é você? Nem se apresenta e vem aqui ofender estupidamente. Eu sei que você, seja lá quem for, veio do blog LUMI 7 porque comentei lá sobre isso. Kung Fu 2 não merecia estar entre os indicados ao Oscar, em minha opinião, e que Rio e Tintim são melhores. E daí? Uma opinião não quer dizer que tenho que fechar meu blog. Entendo de cinema sim meu caro troll invisível, a minha maneira, com minhas próprias experiências, assim como todos os amigos da blogosfera cinéfila com os seus pontos de vista.
Meus gostos preferenciais não fazem de mim um leigo. Eu amo cinema e estudo há muitos anos.
Engraçado como os Trolls não tem coragem de mostrar a cara. Cresça amiguinho! Que infantil.
Sinceramente nem deveria te responder, mas já é a segunda vez que você se dá ao trabalho de entrar aqui e comentar a mesma coisa!
Sempre uma honra, Rodrigão.
Vou esperar o texto do Tintim!
Super abraço pra você (:
Em meio a tantas porcarias que vem de Hollywood ultimamente, louvamos a existência de Steven Spielberg...
Ainda não vi Esse filme, mas quero faze-lo ainda no cinema (na minha cidade os filmes chegam quase quando estão sendo postados em meu blog, junto com os demais antigos..kkkkk)mas cara, é sério, pelo que li no seu e em outros tantos Blogs esse filme é emocionante... estou ansioso e pretendo ver logo...
Parabens pelo ótimo post...
Abração
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