quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MICHEL HAZANAVICIUS | O ARTISTA

FAZENDO RIR E CHORAR SEM DIZER UMA SÓ PALAVRA

Astro do cinema mudo fica no esquecimento com a chegada do cinema falado, mas uma garota que ele ajudou dando uma primeira oportunidade acaba se tornando a maior estrela de Hollywood quando a inovação sonora toma conta de toda a indústria.


O filme mais querido entre os cinéfilos nesta temporada é sem dúvida esta homenagem ao cinema mudo (mesmo o filme sendo um pouquinho parcialmente falado). Indicado em dez categorias no Oscar (veremos se...): Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Ator, Atriz, Trilha Sonora Musical Original, Montagem, Figurinos, Direção de Arte e Fotografia. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Ator - Dujardin) e venceu o Globo De Ouro deste ano (Filme: comédia ou musical, Ator, Atriz, Diretor e Música Original). Ganhou tantos outros prêmios em festivais cinematográficos e outras inúmeras indicações.

“O ARTISTA” esbanja simpatia, um filme muito original e querido e qualquer amante da sétima arte ficarão de alguma forma, tocados por uma série de sentimentos transmitidos por imagens e titulagens. O filme tem comédia, romance e drama e começa em uma HollywoodLAND no ano de 1927, a capital do cinema (americano) e apresenta o maior astro da época em que o cinema era mudo e em preto e branco, eis que o galã George Valentin (Dujardin) começa a temer a chegada do cinema falado que certamente irá prejudicar a sua carreira e suas “caretas” (insulto aviltante para um artista de seu calibre). Todo esse alvoroço (na realidade foi a fita de Alan Crosland na Warner [O Cantor de Jazz] que fez este rebuliço na época) fará com que Valentin perca o seu espaço na mídia ficando automaticamente ultrapassado e sem graça. Fato que o deprime muito quando começa a vender pertences em um leilão para pagar as dívidas (ele foi tão contra ao novo sistema que resolveu produzir seus filmes de forma independente e que acaba não tendo retorno). Por outro lado, a chegada do cinema falado irá favorecer uma garota, aspirante a atriz e bailarina, Peppy Miller (Bejo), por quem ele se apaixonou e esta recebe uma oportunidade de ouro para trabalhar no segmento e no estúdio que o artista fez carreira. Não sabemos como a história irá terminar: será o fim de uma carreira tão adorável e mesmo o “the end” de uma paixão? E o filme, lindamente, não precisa dizer e mastigar verborragicamente. É bonitinho!


Os títulos estão no ponto e é maravilhosamente concebido pelo diretor MICHEL HAZANAVICIUS que faz uma crítica clara ao conceito de “Artista”, mostrando a diferença do que é ser um astro e um artista. Evidente que o astro aceita de olhos vendados qualquer tipo de trabalho, não se importando com a qualidade do mesmo e nem sequer fazendo por amor e dedicação a profissão tão sonhada, isto é, torna-se apenas um bitolado da indústria, querendo apenas fama, flash e dinheiro. Já o artista é um cara que percebe a qualidade do próprio trabalho, quando este é feito com dedicação, amor e carinho. Bom, pelo menos foi a impressão que tive quando assisti ao filme (finalmente no cinema e não mais computador). Assim, Valentin é crítico e não abre mão do seu papel no cinema. Um herói que luta bravamente contra uma indústria que quer obrigá-lo a dizer muito e fazer pouco. Ao mesmo tempo o artista é um homem que sabe brincar de ser egocêntrico e fazer de tudo para aparecer, mas a simpatia de Dujardin é tamanha que isso é relevado. Nas expressões do artista se nota um homem gentil, amável, orgulhoso, bondoso e apaixonado. Já viram um astro se portar desta maneira?

O casal é formidável. JEAN DUJARDIN e BÉRÉNICE BEJO são adoravelmente contagiantes, um show de simpatia e a fita marca o retorno de ambos com o diretor Hazanavicius depois de estrelarem outro filme do cineasta, o ótimo, AGENTE 117 (OSS 117: Le Caire, nid d´espions, 2006 Dujardin voltou numa continuação em 2009) uma aventura de ação e comédia sobre o mundo da espionagem que vale também uma conferida.

O elenco é repleto de figuras conhecidas e todos acertam no tom e na caracterização  pantomímica. São eles: o divertido JOHN GOODMAN, de tantos filmes e com o seu jeito habitual: gordo e parece que os anos não passam para ele, a participação de PENELOPE ANN MILLER é bastante notável, como a esposa entediada do artista. Miller é perfeita para ocasião, de todo o elenco acho que ela é a mais natural para personificar sem exageros ou qualquer trabalho uma atriz de cinema mudo.


Se Melanie Griffith, que me perdoe, tem o perfil de atriz pornô, Miller tem o tipo perfeito de uma Edna Purviance e ela própria viveu a parceira habitual de Charles Chaplin no filme cine biográfico com Downey Jr. Ainda temos, a participação relâmpago de MALCOLM McDOWELL como “O Mordomo” sentado ao lado de Bérénice Bejo numa cena. 


MISSI PYLE (de Peixe Grande) esta muito bem como uma estrela temperamental que só paga mico com Valentin e o veterano JAMES CROMWELL como o chofer Clifton é também bacana em sua interpretação dedicada.  No entanto, uma figura não humana engrandece a fita. Ele é o cachorro de estimação e das aventuras cinematográficas do herói, UGGIE, o cachorro, recebe os seus créditos. Adestrado, é a coisinha mais fofa e sabe exclamar isso da platéia. O bichinho já havia participado do recente ÁGUA PARA ELEFANTES (Water For Elephants, 2011) no circo e já fez alguns comerciais. Além do Milu de Tintim, nunca vi um cãozinho tão fiel e amigo.


O filme é uma co-produção França e Bélgica e foi abençoada/apadrinhada pelos americanos, ou seja, os irmãos produtores da THE WEINSTEIN COMPANY que faz distribuição nos EUA apostam cegamente na fita (e o elenco americano que aceitou participar, também). Eles arriscam distribuindo um filme diferenciado para os padrões de hoje. Aqui no Brasil podemos aplaudir a Paris Filmes por ter comprado os direitos de distribuição (mesmo assim o filme estreou em poucas salas e fora do circuito comercial). É irônico que hoje um filme mudo e não colorido possa causar a mesma rejeição do protagonista quanto à modernidade sonora presente na premissa. Hollywood já brincou e se criticou em filmes como Crepúsculo Dos Deuses de Billy Wilder e Cantando na Chuva de Stanley Donen e Gene Kelly e sabemos que alguns artistas se viram reféns do barulho e não do silêncio como: Buster Keaton, Rodolfo Valentino (morreu antes, em 1926, mas já sabia que não poderia falar e foi caçoado por sua voz), John Gilbert, Douglas Fairbanks e até mesmo Chaplin que da lista interminável de gênios da pantomima, foi o único que deu a volta por cima. A platéia atualmente habituada aos encantos do 3D e efeitos visuais de última geração, podem dar uma de Valentin, fazendo o inverso, ficando deprimidos com a ausência do som. Aliás, o momento em que o som é identificado no pesadelo do herói é de uma simplicidade encantadora, diria até genial. Todo o conceito de “O Artista” nasce de uma série de idéias simples que são bem executadas. Como a fotografia, o tratamento dos ambientes e sombras (a mais antológica se trata de uma bela metáfora quando Dujardin olha para a própria sombra e se pergunta no que ele havia se tornado), além de citar o expressionismo alemão na concepção de ambientes até mesmo presente nos filmes fictícios do protagonista que são sensacionais. Trabalho inspirado e magnífico do fotógrafo GUILLAUME SCHIFFMAN.


Hazanavicius cria um universo original em sua metalinguagem. Os títulos dos filmes e os nomes dos artistas, estúdio, fazem parte de um conjunto de boas idéias que não querem parecer inteligentes, elas apenas funcionam e substituem qualquer chatice intelectual que possa pretender buscar verossimilhança. Não passa de uma brincadeira baseada em fatos que são levemente inspirados. Todos esses elementos, artifícios de um verdadeiro artista entusiasta (Hazanavicius), ajudam também na reflexão do por que da ausência do diálogo e ruído.
Ouçam!
As fusões e passagens de tempo também ajudam a distrair e entorpecer cada vez mais o espectador. Adoro por exemplo, quando Peppy vai subindo os degraus na carreira e vemos nos letreiros o seu nome que consta gradativamente: de bailarina figurante à estrela. O trabalho mais difícil é a execução musical que em todo filme mudo tem papel fundamental e LUDOVIC BOURCE tira isso de letra e em notas musicais fantásticas (a minha favorita é o recital de sapateado no final), verdadeira ode ao cinema daquele período, mas o uso que ele faz do tema de amor que Bernard Hermann criou para o filme Um Corpo Que Cai (Vertigo) de Hitchcock, em momentos chave do filme é resultado de um apurado gosto musical e cinéfilo.

A casa de Peppy Miller foi filmada na verdadeira mansão de Mary Pickford e na cena em que Valentin acorda convalescente é na própria cama da queridinha da América. Quando Valentin está assistindo a alguns rolos em sua solidão depressiva se trata de uma projeção do filme The Mark Of Zorro de 1920, um filme que estabeleceu Fairbanks como estrela de filmes mudos de ação (capa e espada). No filme, Hazanavicius faz uma reprodução com Dujardin e seu personagem vivendo o mesmo papel. As cenas de dança foram exaustivamente ensaiadas pelos atores e a coreografia me faz lembrar automaticamente de Ginger Rogers e Fred Astaire!



“O Artista” é uma fábula deliciosa que homenageia uma arte morta, o cinema mudo, que nos dias de hoje só pode agradar ao público de arte. Apesar de alguns furos na história como as citações de data (1927 começar a situar a trama e sabemos que O cantor de Jazz já estava causando na indústria) e na cena em que o protagonista ata fogo em rolos de películas altamente inflamáveis (na verdade os filmes daquela época eram de nitrato e tinham fácil combustão. Tarantino mostra isso em Bastardos Inglórios na coleção de Shoshanna e vimos o acidente que ocorreu em Cinema Paradiso), portanto não daria tempo de salvarem o mocinho porque tudo estaria em chamas em pouquíssimo tempo. Mesmo assim, o filme é perdoado. A poesia dele é mais forte e louvável.

As pessoas me perguntam: Rodrigo você acha que O Artista tem chances no Oscar? 
Não digo nada ( “”).


EUA/FRANÇA/BÉLGICA – 2011
COMÉDIA/DRAMA/ROMANCE
MUDO
100 min.
PRETO & BRANCO
PARIS FILMES
12 ANOS
✩✩✩✩✩  EXCELENTE



JEAN DUJARDIN . BÉRÉNICE BEJO
JOHN GOODMAN. JAMES CROMWELL. PENELOPE ANN MILLER
MISSI PYLE. BETH GRANT. ED LAUTER. JOEL MURRAY
BITSIE TULLOCH. KEN DAVITIAN
Participação de MALCOLM McDOWELL
And  UGGIE …… ‘The Dog’
Música Original por LUDOVIC BOURCE
Fotografado por GUILLAUME SCHIFFMAN
Edição {ANNE-SOPHIE BION. MICHEL HAZANAVICIUS
Casting...... HEIDI LEVITT
Direção de Arte...... LAURENCE BENNETT
Desenhos de Arte...... GREGORY S. HOOPER
Figurinos...... MARK BRIDGES
Produzido por THOMAS LANGMANN
Escrito & Dirigido por MICHEL HAZANAVICIUS
THE ARTIST ©2011
The Weinstein Company
La  Petite Reine/ La Classe Américaine/ JD Prod
France 3 Cinéma/ Jouror Productions/ uFilm

8 comentários:

renatocinema disse...

Como não gosto de carnaval, estarei indo receber essa homenagem ao cinema mudo nos cinemas.

Quero ser tocado por essa simpatia e originalidade.

Abraços

Júlio Pereira disse...

Belíssimo texto, Rodrigo. Acho louvável uma homenagem ao cinema mudo nos tempos modernos da 7ª arte. Não que a modernidade seja ruim - até Scorsese utilizando 3D-, pelo contrário. Mas ver algo nostálgico é sempre prazeroso, né?! Estou esperando pra assistir nas telonas... Sobre o erro histórico, não acho que tenha problema algum. O Artista é uma obra isolada, que, dentro da narrativa, o cinema mudo começou ali. Como não assistir, não posso opinar sobre isso direito.

Wilson Antonio disse...

Estou absolutamente encantado com este filme. Julgo-o o maior acontecimento cinematográfico de 2012 até o presente momento. Espero que fature as merecidas estatuetas na festa da Academia dia 26. Ótimo texto, justas palavras para um grandioso filme. voltarei sempre!!!

Unknown disse...

Quando ouvi falar neste projeto já havia ficado babando... Mas, o resultado final muitooo além do que poderia imaginar! Qualquer cinéfilo vai se derreter aos encantos e homengem lírica a sétima arte... O cinma mudp - com todo o seu glamour - maravilhosamente retratado!!


Amei!

;D

J. BRUNO disse...

Parabéns pela excelente análise do filme, teu texto trouxe muita informações sobre a obra que eu ainda não conhecia! Ótima resenha, à altura do filme!

Luís disse...

Fiquei estarrecido após vê-lo: um grande filme! E super atual, sem nenhum problema em relação às suas características predominantes, ou seja, pelo fato de ser em preto e branco e mudo. Uma obra que me contagiou, principalmente por causa do casal principal, como você mesmo disse. Que leve o Melhor Filme, hein!

Rodrigo Mendes disse...

Renato: Isso cara! O Artista é um programa bem melhor que o carnaval. Curta um silêncio gostoso e fuja da batucada!
Abraço.

Júlio: Agradeço a presença e desde já os comentários nas sessões anteriores. Obrigado cara!

Pois é, como eu havia dito, encaro o filme como uma deliciosa fábula, sou entusiasta da história, uma beleza divertida e romântica do diretor. Portanto pontuo as falhas, mas não ligo muito para elas.

Dujardin é tão soberbo em O Artista! E Bejo tão sapequinha.

Adorei e vou rever sempre.
Abraços.

Wilson: Volte sempre meu caro e obrigado pelas palavras. Gostaria de ver o filme faturando o Oscar, mas acho que será difícil, não sei.
Abs!

Karla: É muito bom apreciar o filme no cinema, né? Tb adorei e achei que a retratação, pela proposta da brincadeira, ficou no ponto.
Beijos :)

Bruno: Valeu amigo!
O seu texto tb ficou ótimo.
Abs!

Luís: Que bom que o filme te deu esta relação, de vê-lo como obra atual. Diferente de uma nostalgia (aliás, nem éramos nascidos na época e apreciamos o cinema mudo gostando de cinema bem mais tarde). O casal é adorável. Muito bom!!

Poderia, ao menos, levar Melhor Filme, mas sinto que pode não acontecer. Acho que os americanos (na visão deles) já fizeram demais pela fita, compraram e aceitaram a homenagem.

Não sei, pode ganhar.
I Hope!
Abs.

ArmPauloFerreira disse...

Concordo contigo e belo texto, Rodrigo!
O Artista é um grandioso filme e consegue não ser intelectual (como muitos pensam ser, pela opção de ser a maior parte do tempo um filme mudo)

É uma tão forte dose de cinema purista, onde tanta evoação de estilo, look ou savoir-faire de uma época que já não há que mesmo assim nada disto ultrapassa a substância: contar uma grande história melodramática com romantismo e pleno de emoções. Excepcional!
9/10

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