sábado, 17 de março de 2012

ALEXANDER PAYNE | SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS

DEGUSTANDO TODAS, LATERALMENTE

Dois amigos inseparáveis beirando a meia-idade: (um depressivo e chato e o outro prestes a casar e querendo se divertir em sua despedida de solteiro) decidem embarcar em uma longa viagem cheia de confusões, uma semana pela vinícola da Califórnia. Lá conhecem duas mulheres simpáticas que também querem se divertir e degustar com eles os melhores vinhos da região. Direção: Alexander Payne (Os Descendentes).


Entre Umas e Outras é um filme que não deve ser subestimado. É uma comédia brilhante nas entrelinhas e um dos melhores trabalhos do diretor e roteirista Payne que também realizou os ótimos: ELEIÇÃO (Election, 1999) e AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, com Jack Nicholson). É dele outro filme bom, porém desconhecido: “The Passion of Martin” de 1991, um média metragem que não chegou a ser distribuído por aqui. Esta comédia de vinhos e confusões, foi indicada a 5 Oscar: Filme, Diretor, Ator Coadjuvante (Haden Church) e Atriz Coadjuvante (Madsen). Ganhou o de Roteiro Adaptado (Payne e JIM TAYLOR), baseado em livro de REX PICKETT que não cheguei a ler, mas deve ser bom. 


Venceu também o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia e novamente Roteiro. Infelizmente esqueceram-se do PAUL GIAMATTI que esta soberbo no filme, provavelmente seu melhor momento como ator. Na verdade nunca achei Giamatti muito carismático, por isso mesmo que sua interpretação como um homem feio, chato, depressivo e que fica alcoolizado facilmente, pronto para o escândalo, lhe caiu muito bem. Aliás, o quarteto acerta em cheio! Todos têm uma química boa entre si, mesmo que cada par no seu quadrado.
SANDRA OH, ex-mulher de Payne, faz uma gatinha descolada e menos tímida, trabalha em uma das várias vinícolas da região. VIRGINIA MADSEN é uma mulher, só que mais sofisticada e recatada, garçonete de um bar e outra boa companhia para qualquer homem. Provavelmente o menos intelectual do grupo seja o personagem de THOMAS HADEN CHURCH. Ator fracassado (o personagem) e que só quer saber de sexo, diversão, não passa de um moleque velho. Sabem aqueles homens que piram quando estão perto dos 40 anos? Pois é! Apesar de ser o oposto de Giamatti, ambos não se desgrudam e o simbolismo que aparece na capinha: o desenho de dois homens presos em uma garrafa explica lindamente.

O filme não tende a ser um romance e muito menos uma comédia romântica ou drama. Payne realiza uma comédia em todos os sentidos, mas não é uma premissa na qual gargalhamos estupidamente, apenas nos momentos certos e o clima, tom do filme chega a ser muito sofisticado para isso. Realmente Payne não vende uma comédia de erros barata. São brilhantes as reviravoltas do roteiro (é um Road-movie) e o rumo que a história vai sofrendo, entre umas e outras...

A música de ROLFE KENT é outro ponto alto. Parece que estamos naqueles night clube de jazz rindo das piadas inteligentes dos amigos inteligentes. Por mais escroto que Payne deixa o filme em algumas partes (Haden Church transando com outra garçonete, sendo pego pelado e fazendo o amigo buscar a carteira que esqueceu na casa da vadia e ainda por cima é perseguido pelo marido que sai pelado atrás dele - altos risos), SIDEWAYS sobrevive como um filme notável tendo a mesma qualidade de um Woody Allen, por exemplo. A trama não poderia ser melhor e me fazer lembrar  Woody é óbvio, justamente porque conta a história de um escritor romancista fracassado, Miles (Giamatti), que tem um apreciado gosto pelo vinho e sabe tudo a respeito. Tenta ensinar ao amigo como degustar e ver a qualidade da bebida. Essa é a sua proposta de diversão ao amigo Jack (Haden Church) ex- ator que pretende casar, mas quer fazer mais do que apenas provar vinhos (e jogar golfe) em sua despedida de solteiro com o seu melhor amigo. Assim, antagonizando os gostos e o roteiro de viagem do amigo, ele pretende arranjar algumas transas  pra ver se assim ele consiga acabar de uma vez com a depressão de Miles, que além de tudo não consegue esquecer a ex-mulher e fica puto ao saber que a mesma já casou. O filme deixa em evidência uma bela amizade: um conhece os defeitos e qualidades do outro. E o mais bonito é que, apesar dos problemas e das diferenças, o que eles desejam é a felicidade do outro, o que entrelaça cada vez mais uma velha amizade. 
O que parecia ser apenas uma diversão e descontração com duas mulheres da mesma faixa de idade deles: Maya (Madsen) e Stephanie (Oh)...entre umas e outras... o relacionamento com as duas começa a ficar mais envolvente. Miles, de seu jeito habitual acaba se apaixonado e Jack, vive uma intensa paixão repleta de sexo com Stephanie (que leva a coisa mais a sério que ele). Jack não passa de um irresponsável e inconstante.
Mesmo que o laço dos casais seja interrompido, o filme termina em clima positivo (Payne dirige um dos melhores finais do ano com um simples “toc toc”) e a narração da personagem de Madsen que escreve uma carta para Miles, elogiando o seu trabalho e dizendo positivamente que ele tem futuro, me deixa em um estado de satisfação, já que Payne me engana até metade para o final de seu filme com as frustrações da dupla de amigos.

Não concordo com críticas taxadas e sem fundamento dizendo que “Sideways” não passa de uma comédia enganosa que aborda alcoolismo e desonestidade. Esses são apenas alguns dos ingredientes “vilões” da fita e vejo que são extremamente necessários para antagonizar a história. É como beber um vinho ruim na vida, faz parte do show. Além do mais, não é o foco principal mostrar as fraquezas das pessoas, afinal eles compartilham entre si os defeitos (não vemos muito isso com o casal Church e Oh que só transam loucamente e passeiam por aí de motocicleta), mas isso é evidente numa cena contagiante entre Giamatti e Madsen, que mesmo acabando de se conhecerem melhor, repartem momentos cruciais de intimidade de seus relacionamentos passados, por exemplo, é muito bem escrita aquela cena na varanda. Dois belos atores em ação, ótimos diálogos e duas taças de vinho.

O filme traz também muitas metáforas sobre cada um deles e suas personalidades. Maya conta para Miles o que a atrai em um bom vinho (e em um homem) e joga essa cantada para ele, que não percebe por estar totalmente sem prática com as mulheres. Com isso, nota-se como funciona a alma feminina. Por isso o beijo apressado de Miles deu errado. É brilhante este momento de Madsen, o que me faz pensar em quão especial são as mulheres: “Gosto de pensar no que estava acontecendo no ano em que as uvas estavam crescendo; como o sol estava brilhando, se choveu muito ou não. Gosto de pensar em todas as pessoas que cuidaram e que colheram as uvas. E, se for vinho antigo, quantas dessas pessoas já estão mortas agora. Gosto de ver como o vinho continua a evoluir e saber que, se abrisse uma garrafa de vinho hoje, o seu sabor não seria mais o mesmo se tivesse sido aberta em qualquer outro dia, porque uma garrafa de vinho é algo vivo. E está Constantemente evoluindo e ganhando em complexidade, isto é, até atingir seu ápice.” Ou seja, é de uma sensibilidade feminina tamanha. Em “Sideways”, apesar dos protagonistas serem homens, são as coadjuvantes mulheres que tomam o filme: Sandra Oh reagindo ferozmente quando descobre pela amiga que Jack vai se casar e isso prova que ela estava gostando dele. Apesar de ser um momento um tanto cafona em um filme tão inteligente (a cena é feita automaticamente para rir), por outro lado é a mais pura verdade de que mesmo as mulheres sendo tão diferentes entre si, como os homens, também vivem lateralmente umas as outras. E é neste clima de amizade e não de muito romance que Payne quer chegar.

GEORGE CLOONEY chegou a fazer campanha para o diretor Payne a fim de conseguir o papel de Jack, mas o diretor achou que ele era um astro e queria atores menos conhecidos nos devidos papéis. Não significa que Clooney é ruim como ator (tem algumas exceções na qual ele é brilhante, outras mais do mesmo ou canastrão), mas realmente o fator Clooney, em minha opinião, não seria adequado para o clima do enredo.

A maior parte dos vinhos usados em cena não continha álcool, mas com o tempo isso foi enjoando os atores, portanto tiveram que degustar vinhos sem frescuras para aguçar o paladar. Isso prova que vinho tem que ser apreciado como ele veio ao mundo, como deve ser. Separar trabalho do prazer, mesmo sendo complicado para o elenco. Payne também chegou a selecionar a sua própria coleção de vinhos para utilizar no filme.

A excelente cena do jantar com aqueles entrecorte da dupla de casal, todo o diálogo, as conversas paralelas, foi praticamente improvisado. O filme é parcialmente falado em armênio, notei nas revisões.

Uma das várias cenas depressivas de Giamatti o mostrava jogando uma bíblia sagrada que achou na gaveta do quarto do hotel no lixo. A cena foi deletada. Outra cena envolvendo um animal teve que ser cortada, mostrava Miles batendo com o seu carro em um cão, apesar de ter sido escrita com um tom pastelão de comédia visual acabava tendo um péssimo gosto, inclusive com as leis rígidas que Hollywood tem quanto ao uso de animais em cena.
SIDEWAYS foi votado pela revista Empire como o Melhor Filme do ano em 2005. Não é para menos tanta aclamação, foi o melhor filme do ano em muitos aspectos.


Eu não bebo muito, fico tonto com poucas garrafas de álcool, mas quando tenho a oportunidade de estar ao lado de amigos, não resisto, entre umas e outras...a gente fica mais feliz!



EUA – 2004
COMÉDIA
WIDESCREEN
126 min.
COR
16 ANOS
FOX
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

FOX SEARCHLIGHT PICTURES apresenta uma produção MICHAEL LONDON
Um filme de ALEXANDER PAYNE
SIDEWAYS
PAUL GIAMATTI. THOMAS HADEN CHURCH. VIRGINIA MADSEN. SANDRA OH
Co-estrelando: MARYLOUISE BURKE. JESSICA HECHT. MISSY DOTY. M.C. GAINEY
Música de ROLFE KENT Supervisor Musical DONDI BASTONE Co-produtor GEORGE PARRA
Figurinos por WENDY CHUCK Edição KEVIN TENT Cenografia de JANE ANN STEWART
Fotografado por PHEDON PAPAMICHAEL
Escrito por ALEXANDER PAYNE JIM TAYLOR
Baseado no livro de REX PICKETT
Produzido por MICHAEL LONDON Dirigido por ALEXANDER PAYNE
Sideways ©2004 Twentieth Century Fox Film Corporation


10 comentários:

J. BRUNO disse...

É o melhor filme de Payne na minha humilde opinião!

Desde que assisti os "Descendentes", estou sentindo uma vontade enorme de rever este...

renatocinema disse...

Inicialmente esse filme não me atraiu, mas, concordo quando diz que AS CONFISSÕES DE SCHMIDT é ótimo. Uma produção que, a meu ver, deveria ser mais venerada.

Hugo disse...

Tb considero um ótimo filme, as interpretações são perfeitas e praticamente fizeram renascer as carreiras de Thomas Haden Church e Virginia Madsen.

Os outros dois filmes de Payne que você citam são ótimos também. Enquanto "Eleição" é uma crítica ao gosto pelo poder, "As Confissões de Schmidt" é uma triste história de vida desperdiçada.

Abraço

Reinaldo Glioche disse...

Excelente análise. Não acho que Sideways tenha sido o melhor daquele ano (tinha Menina de ouro, Closer, Brilho eterno de uma mente sem lembranças...), mas seguramente estava no top 5 e foi justíssima sua indicação a melhor filme.
Concordo que Paul Giamatti tb merecia ser lembrado, mas não sei quem tiraria dos finalistas naquele ano (Johnny Depp por Em busca da terra do nunca, Leonardo DiCaprio por O aviador, Jamie Foxx por Ray, Clint Eastwood por Menina de ouro e Don Cheadle por Hotel Ruanda).
Acho que George Clooney criaria sim um bom Jack,mas ele disse que estava interessado - na verdade - no papel de Miles. De qualquer forma, o assédio rendeu "Os descendentes", outro filme que é o fino.
Abs

ANTONIO NAHUD disse...

Grande momento de Payne...

O Falcão Maltês

Rodrigo Mendes disse...

Bruno: Acho os Descendentes abaixo de SIDEWAYS, mas Payne tem uma filmografia ótima no geral.
Abs.

Renato: AS CONFISSÕES DE SCHMIDT é um belo filme e Nicholson esta soberbo nele. Como eu disse ao Bruno, O Payne tem uma filmografia acertada.
Abs.

Hugo: Realmente as carreiras de Thomas Haden Church e Virginia Madsen deram um UP, sobretudo a de Church!
Abs.

Reinaldo: Li na verdade que ele queria o papel de Jack, enfim...na verdade ele deve ter feito atenção aos dois papéis por querer muito trabalhar com Payne e em um filme sofisticado, algo que ele vem procurando há muito tempo. Trabalhou com Jason Reitman em Up in The Air e agora em Os Descendentes, as provas cabais disso.

Você citou ótimos filmes aí. Adoro "Brilho Eterno" e acho "Menina De Ouro" muito bom, mas Sideways é diferente de todos eles. Não é um drama e sim uma comédia com tons diferentes. E justamente por isso, acho que Giamatti, por não ser nenhum galã e ter poucas chances no futuro (coitado foi fazer aquela fita do Shyamalan) mereci mais destaque, sim!
Abs.

Antonio: Também acho, mas nas outras fitas ele também teve grandes momentos. Esta recente nova indicação ao Oscar só prova isso.
Abs.

Unknown disse...

O tom sofisticado é o grande triunfo... Acaba fazendo tudo parecer naturalmente engraçado - não hilariante. Tem aquela "q" de jogar com as desventuras da existência com um humor motriz... Afinal, sem isto, o que nos resta?

Ótima resenha! Não cheguei conferir os extras e as cenas deletadas... vou ver!

;D

Júlio Pereira disse...

Não tem como: Sideways é uma obra-prima. E o melhor filme do Payne. A direção dele é magistral, conduzindo a narrativa com um tom leve, sem pressa, apresentando seus personagens muito bem. Lembro do final, que me deixou extasiado! Um dos melhores que já vi, com certeza. Paul Giamatti é uma ator maravilhoso (já viu Anti-Herói Americano?), que dá show aqui, só não está melhor no que eu citei. Esse drama complexo e belíssimo me despertou até certo interesse por vinhos, sendo que odeio bebidas alcoólicas.

Júlio Pereira disse...

Como disse a companheira acima: I got a life. Hair é um filme libertador. Acho ele muito válido atualmente, sobretudo esse verso, num mundo repleto de neuras e pessoas presas em estudos e trabalho, sem aproveitar a vida como deveria. Sem dúvidas, um dos melhores musicais já feitos. A música Hair é um hino dos cabeludos, lembro que tinha acabado de cortar o cabelo na época que vi (antes batia nas costas), fiquei super arrependido hahaha. Muito interessante isso do cara estrelar o 1941 do Spielberg (que, por sinal, é um dos piores filmes já feitos), nem tinha percebido. E sou só eu que acho que Across The Universe bebe muito em Hair?

Alysson disse...

No começo eu não me interessei por esse filme mas depois que vi entendi pq esse filme fez tanto burburinho na epoca, um filme com historia simples mas cativante e que nos envolve e nos faz rir, vale a pena ver, eu recomendo!

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