PAZ E AMOR
Rapaz tímido sai da fazenda de sua família em Oklahoma e vai para a cidade de Nova York servir o exército para então lutar na Guerra do Vietnã, mas ele é rapidamente doutrinado na subcultura hippie.
O filme é baseado no musical da Broadway, uma obra cult dos anos 1960 que conta a história de Claude, um jovem fazendeiro que vai para a cidade conhecer um novo mundo. Lá, ele inicia uma amizade com um grupo de hippies, liderados por Berger, se apaixona por uma garota rica chamada Sheila, que conheceu no Central Park, só que infelizmente, sua felicidade é interrompida quando o rapaz tem que cumprir seu alistamento militar e depois sendo convocado para lutar no Vietnã. Escrito por GEROME RAGNI (1935-1991) e JAMES RADO, este livro musical famoso foi indicado ao Prêmio Tony no ano de 1969 para os autores do livro (Ragni e Rado) e letras para Melhor Musical do ano. Dez anos depois o diretor MILOS FORMAN (de PROCURA INSACIÁVEL/Um Estranho No Ninho/AMADEUS) resolve dirigir para o cinema esta peça clássica da contestação e com coreografia de TWYLA THARP (com quem trabalhou desde então). Realmente “Hair” resultou em um trabalho brilhante que transmite uma energia de Aquário, uma paixão e musicalidade cheia de paz e amor, ritmo e alegria escrita por MICHAEL WELLER (que depois faria com Forman NA ÉPOCA DO RAGTIME [1981]).
Nunca é fora de época curtir HAIR e sua mensagem contestadora, além do que é um filme muito bem feito e alegre, um dos melhores trabalhos de direção do grande Forman, que nos anos 60,70 e 80 realmente era insuperável. Continua sendo esta homenagem com tom leve e que também mantêm forte o espírito turbulento de uma época e geração que anos mais tarde morreu de tédio, AIDS e drogas. Não é exagero o The Hollywood Reporter dizer: “Hair se classifica entre os melhores musicais de todos os tempos.”
O elenco acerta em cheio, na época os jovens: JOHN SAVAGE (Além da Linha Vermelha/ Tormenta) no papel principal do jovem do interior Claude Bukowski, a bela BEVERLY D´ANGELO, que canta lindamente e de filmes como a série Férias Frustradas (1983-97), faz a moça de família rica, Sheila e o ótimo TREAT WILLIAMS (O Preço Da Traição/127 Horas) como o Hippie Berger, o líder pacifista que sempre arranja altas confusões de protesto.
Uma de suas impensadas brincadeiras era entrar de penetra na festa conservadora da família da moça, a fim de ajudar o amigo a dizer adeus à garota antes de o mesmo ir para o Vietnã. Acaba sendo não uma declaração de amor, mas uma das maiores sequências musicais contemporâneas (I Got Life) “Eu tenho vida, dor de dente, dias péssimos como você mamãe, irmãzinha e bunda!” Hair é exatamente isso, uma cena após outra em excitantes números extremamente fervorosos e coreografados, e é claro, com canções estupendas.
Infelizmente, a fita não teve sequer uma indicação importante a Melhor Canção do ano, mas são notáveis que “Aquarius”, “Manchester” (que faz referência a cineastas como Fellini, Antonioni e Polanski), “Hare Krishna”, “Good Morning Starshine” e “Let The Sunshine In” (Deixa o Sol Entrar), fazem parte da cultura pop, letras clássicas, verdadeiros hinos da cultura hippie. O Oscar mais uma vez esnoba a possibilidade de indicações, até mesmo para Diretor, Filme ou Roteiro. HAIR é apenas indicado ao Globo de Ouro em 1980 na categoria Melhor Filme (Musical ou Drama) e nova estrela revelada em um filme (Treat Williams, que no mesmo ano havia estrelado a comédia histérica de Spielberg: “1941- Uma Guerra Muito Louca”). Ao menos, diferente dos EUA, a Europa deu uma calorosa recepção ao filme. Na França foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro no César Awards.
O problema era a polêmica que “Hair” sempre causou, ainda mais em 1969 em plena revolução sexual e protestos. Ainda nos anos 1970, não era bem visto por olhos formais e dos bons costumes. NIXON é muito criticado no filme nas cenas em que mostram os hippies nos parques reivindicando contra a Guerra. Evidente que tudo isso é visto em um pano de fundo já que se trata de um musical e a premissa de três jovens principais que tem a vida regrada de regras: Claude que não tem escolha e deve servir estupidamente e até morrer na Guerra e pensa que com isso cumprirá o seu dever (pensamento de fazenda), a moça que é presa pelo moralismo dos pais ricos conservadores e hipócritas e que resolve virar hippie e o rapaz, Berger, que não tem pais tão chatos, mas que esta perdido nas escolhas da vida e acha que não tomando banho, nunca cortar o cabelo e aprontando poucas e boas, fará algo de importante (quando a coisa aperta pede ajuda aos pais). No final, ele acaba sendo um verdadeiro herói por acidente. Tudo isso em poucas cenas de diálogos e fantasiosos números musicais (o mais maluco é na canção Hare Krishna que mostra o fictício casamento dos mocinhos recriado pelo LSD). Como todo musical deve ser, ou seja, surpreender nas performances e recriações do pensamento em forma de música, “Hair” acaba sendo um prato cheio, além de ser muito bacana, emocionante e, sobretudo engraçado.
Além do trio principal, o elenco segue no ponto com a hippie ANNIE GOLDEN (de Os 12 Macacos, 1995), a única do grupo que não canta, no papel da grávida Jeannie, que não tem certeza da paternidade da criança. O ótimo DORSEY WRIGHT (de WARRIORS – Os Selvagens Da Noite, 1979), o negro de personalidade: Lafayette que criou um nickname: Hud canta naquela excelente voz que nasceu no Bronx. O loiro de cabelo comprido é o ator DON DACUS, o Woolf, que foi contemplado por cantar duas músicas sensacionais da obra: “Sodomy” (quando os hippies estão no parque andando a cavalo e provocando a alta sociedade dizendo palavras como sodomia, felação, Cunnulingus, pederasta e masturbação e questionando a Deus por que essas palavras soam nojentas) e o tema-canção “Hair” que é introduzido por ele na famosa cena em que, depois de ser preso com os amigos, os policiais tentam cortar seu cabelo e ele não deixa. Dacus sumiu porque ele só tem este filme no currículo. Como será que esta o cabelo dele? O mais interessante é a participação da veterana CHARLOTTE RAE (da série de TV ARNOLD, Diff´rent Strokes, 1978) como uma senhora abusadinha que aparece na cena da festa.
Diferente na América, o filme foi um sucesso, por exemplo também, na Hungria, mas somente um ano depois de sua estréia oficial.
Madonna e Bruce Springsteen fizeram um teste para integrarem em partes musicais com o elenco de figuração. Imaginem Madonna de Hippie?
Uma das grandes curiosidades que descobri é que o projeto, em 1970, foi oferecido a GEORGE LUCAS, mas ele recusou porque estava desenvolvendo outro filme contestador, mas de outra época, o juvenil: “AMERICAN GRAFFITI – LOUCURAS DE VERÃO” (1973).
Embora o filme se baseie no musical, a adaptação faz jus à palavra. Forman evita desenvolver literalmente o que se viu nos palcos. Assim sendo, ambas as versões acabam sendo um tanto radicalmente diferentes em vários aspectos, por exemplo, na trilha sonora é possível desfrutar de canções como: “Abie Baby-fourcore” que não aparece no filme, via-se na peça, ou mesmo muitas das canções apresentadas acabam sendo um pouco cortadas devido ao tempo. Inclusive a construção do enredo, no filme, é diferente da do teatro, as músicas que são cantadas, a ordem de entrada e no fato de qual personagem executa cada uma delas. Além do que, na peça os personagens são retratados diferentes como no filme.
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| Let The Sunshine In ♫ ♪ |
O número de encerramento, na qual Berger embarca por acidente na Guerra do Vietnã, pouco antes do grupo cantar o emocionante “Let the Sunshine in”, intitulado: “The Flesh Failures”, contêm trechos de Romeu e Julieta de William Shakespeare. As palavras vêm da cena em que Romeu pretende morrer pouco antes de beber o veneno: “Eyes, look your last, arms take your last embrace and the lips, oh you the doors, of breath, sealed with a righteous Kiss.” Na verdade fazia parte do monólogo final de Romeu.
HAIR foi o primeiro filme em Dolby Stereo dublado em uma linguagem diferente do inglês, quando lançado na Alemanha à época. A voz da atriz BETTY BUCKLEY (aquela velha maluca de Fim Dos Tempos, filme do Shyamalan), não recebe os devidos créditos, mas é ela que dubla a menina Vietnamita na canção “Walking In Space” que mostra o treinamento dos soldados americanos e toda aquela tortura sufocante.
Originalmente o diretor Forman queria BRAD DOURIF com quem havia trabalhado em “Um Estranho No Ninho” para interpretar Claude.
Minha cena favorita (e canção) é quando CHERYL BARNES, que interpreta a noiva de Hud, e que leva com ela o filho do casal e reencontra o rapaz com os amigos hippies no inverno e canta “Easy To Be Hard” lindamente é fantástico de se fazer emocionar rapidamente. O momento é também oportuno porque contesta as atitudes infantis dos hippies e das irresponsabilidades humanas: “É fácil ajudar os necessitados, a pessoa que se importa com os problemas dos outros. Eu também preciso de ajuda e de um amigo”, diz a moça frustrada ao ex-namorado que a abandonou depois de ingressar no universo hippie e marginal. Por isso que o filme é especial, pelo seu bom senso, não só faz críticas a sociedade conservadora, mas também sabe olhar e dar bronca nos próprios hippies que tinham uma bela filosofia, porém um modo de vida radical e falacioso. A bagunça em meio a tantas poesias, a preguiça e a falta de controle. Muitos deles morreram jovens e prejudicaram a própria saúde para buscar um significado mediúnico. Outros morreram de tédio e outros acabaram se rendendo ao mundo capitalista e hoje são pais e avós conservadores (alguns, evidente). O problema foi realmente o controle, porque nenhuma dessas pessoas soube administrar o que contestavam, por outro lado foi importante o seu surgimento arrebatador, que ajudou o mundo a ser menos careta.
Se existe um filme/musical que não envelhece pelo fato de não ser chato é “Hair”, um trabalho brilhante de Milos Forman, chocante e ao mesmo tempo leve. O filme tem a chance de ser chamado de careta pela juventude de hoje. Ironias à parte.
Deixe o sol entrar e conheça um pouco da música e o espírito da paz e do amor, conteste e deixe o cabelo crescer se achar pertinente. Ah! E deixe o sol entrar sempre!
EUA/ALEMANHA- 1979
MUSICAL/COMÉDIA/DRAMA
LETTERBOX
121 min.
COR
16 ANOS
METRO
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
Uma produção de LESTER PERSKY e MICHAEL BUTLER
UM FILME DE MILOS FORMAN
De
RAGNI, RADO e MacDERMOT
H A I R
Estrelando:
JOHN SAVAGE TREAT WILLIAMS BERVERLY D´ANGELO
ANNIE GOLDEN DORSEY WRIGHT
DON DACUS CHERYL BARNES
Co-estrelando:
CHARLOTTE ERA MELBA
MOORE e RONNIE DYSON
Baseado no livro musical de GEROME RAGNI & JAMES RADO
Música composta Arranjada e
conduzida por GALT MacDERMOT
Vocal, arranjo, conduzido por TOM PIERSON
Coreografia por TWYLA THARP
Figurinos de ANN ROTH
Direção de Arte STUART WURTZEL
Montagem por..... ALAN HEIM
. STANLEY WARNOW
Fotografado por
MIROSLAV ONDRICEK
Produtor Associado ROBERT GREENHUT
Produzido por LESTER PERSKY e MICHAEL BUTLER
Roteiro de MICHAEL WELLER
Dirigido por MILOS FORMAN
Hair ©1979 UA-M-G-M company A CIP Feature Filmproduktion GmbH











11 comentários:
Ainda não vi!
Tive uma birra enorme com este filme durante muito tempo de tanto que um professor da faculdade falava dele, que era o filme de sua vida coisa e tal (e o gosto dele era um tanto duvidoso)... mas, sério, quero vê-lo o quanto antes, ainda mais que ele se passa em uma época que muito me interessa...
http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2012/03/viver-vida.html
Ótimo texto, Rodrigo. Confesso que a cena fiquei chocada com a cena final, em que Berger vai pra Guerra por engano. É como se o feitiço virasse contra o feiticeiro.
Eu ainda não vi mas eu achei a sinopse e trailer dele muito interessantes, uma epoca a qual muita coisa era melhor e diferente. adorei o post!
Vou rever neste final-de-semana, com certeza, um excelente filme! Como você bem diz o filme consegue ser crítico e ao mesmo tempo leve. E, sei lá, nem consigo escolher uma cena favorita... rs
"Nunca é fora de época curtir HAIR"
Perfeito, Rodrigo, adoro o musical, já perdi as contas do número de vezes que vi, com o meu primeiro salário comprei o DVD dele, hehe. Pra rir, chorar, se revoltar, pensar e se divertir.
bjs
Como não sou grande fã de musicais, este é um clássico que ainda não conferi.
Abraço
Belíssimo e irreverente musical.
O Falcão Maltês
Um dos últimos musicais de sucesso no fim dos anos 70, e como não deixou de ser, foi um estrondoso sucesso vindo dos palcos (aqui no Brasil houve também montagem, e estrelado pelo Nuno Leal Maia).
Na minha visão, apesar de todos os maneirismos hippies, a mensagem do filme ainda continua bem forte nos nossos dias, e isso é o que vale no espetáculo, além das inesquecíveis canções.
Brilhante post, Rodrigo. Abração.
Paulo Néry
Rodrigo, tá ai um tipo de filme que não gosto, essa onda hippie de paz e amor que tomou o cinema por alguns anos, me passa tranquilamente batida,...
Incrível como vc tem o dom de fazer o post de um filme desinteressante, tão atraente... ótimo texto, parabéns....
Abração
BRUNO: Traumas a parte, rs assista! É muito interessante saborear os rituais de uma época.
MARCIA: Esta cena é linda moça, mas muito triste. Grande momento de Williams e Forman.
Bjs.
ALYSSON: Obrigado.
Creio que irá gostar cara.
ALAN: Pode ser difícil escolher uma cena favorita...bom, eu adoro aquela com a Cheryl Barnes, mas a do Treat em cima da mesa de jantar também é antológica!
AMANDA: " Pra rir, chorar, se revoltar, pensar e se divertir." Perfeito tb!
HA! Primeiro salário? rs isso é que é um filme especial. Bj.
HUGO: Dê uma oportunidade!
ANTONIO: Verdade. O musical da contestação.
PAULO NÉRY: Bom saber desta montagem com Nuno Leal Maia...seus comentários sempre complementado a discussão.Obrigado. A obra tem maneirismos mesmo o que era de se supor, ficaria datado, mas é isso aí, o que vale é a mensagem e a filosofia de uma época. HAIR é histórico!
JEFFERSON: Obrigado meu chapa! Espero que realmente o meu dom te faça querer ver o filme, rs!
Abraços à todos!
Amoooo Hair!!
Está no meu top 10 de musicais!
É realmente um filme que acerta em tudo... nos atores, na forma, nas cenas... e as músicas... ai, ai, ai, geniais!!!
I got Life, brother!
;D
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