sábado, 7 de abril de 2012

CHARLES CHAPLIN | EM BUSCA DO OURO

BOTINA PARA O JANTAR


Em mais uma divertida aventura, Carlitos (Chaplin) um garimpeiro, vai até as montanhas geladas de Klondike, Alasca, em busca de ouro. Muitas confusões na solidão gélida do eterno vagabundo.


Não há maneira mais apaixonante quando o artista da pantomima resolve começar o seu filme com a célebre frase: “Este é um renascimento do cinema mudo, 'Em Busca do Ouro' com o diálogo e música. Narrativa escrita e falada (sem diálogos) por Charles Chaplin”. EM BUSCA DO OURO é uma dramédia e Chaplin resolve unir dignamente a tragédia e a comédia quando resolve mergulhar no universo dos garimpeiros e suas privações sofridas em uma história verídica que ocorreu entre 1896-98 durante a maior corrida do ouro do século em Klondike. A história que inspirou a fita de Chaplin é um assunto mais sério do que se imagina. Ele leu um livro sobre uma tragédia ocorrida exatamente em 1846 durante a expedição garimpeira onde um grupo de imigrantes sem saída em meio à neve em Sierra Nevada é obrigado a comer os sapatos e os corpos dos companheiros mortos para não morrer de fome! Com este assunto em mãos, Chaplin tem um estalo criativo e realiza um de seus melhores filmes, o mais antológico dos celuloides filhotes. Em Busca Do Ouro é o maior exemplo de humor negro em todos os tempos com o seu clima sinistro e de ranger os dentes. Chaplin fez de seu vagabundo nesta história um garimpeiro (quantos empregos será que o Carlitos teve?) que parte para a maior aventura de sua vida, assim como a trupe de homens corajosos do ramo, otimista e confiante, ele esta disposto a enfrentar perigos extremos como o frio, a fome, a solidão e os temíveis ursos, que de vez em quando, poderia aparecer e atacar de maneira selvagem.



Não tem como negar, esta fita é notável e demonstra de uma vez por todas o cuidado e aprimoramento de Chaplin. É em todos os aspectos o filme mais elaborado e criativo da carreira do cineasta. Sabe-se que a equipe de filmagem ficou semanas filmando em locação nas geleiras de Truckee. Agora imaginem o trabalho e o desconforto de trabalhar nessas condições? Ainda mais na época com aquelas Câmeras-monstros!


Os diversos homens que interpretam os garimpeiros (figuração) eram na verdade “vagabundos de verdade” (termo utilizado pela imprensa na época) e contratados para um salário modesto de apenas um dia de filmagem. Eram mais ou menos cerca de dois mil e quinhentos homens. É linda a sequência do filme onde mostra a imagem antológica dos garimpeiros lutando para atravessar uma passagem em Chilkoot.


Embora seja parcialmente em locação, o filme é praticamente realizado em estúdio. As tomadas principais foram feitas em Hollywood. Por exemplo, ao mostrar uma cordilheira, os técnicos de efeitos especiais utilizaram uma brilhante maquete feita em madeira, estopa, argamassa, sal, farinha e tela de arame. A cabana foi uma criação esplêndida e tinha que ser convincente como exigia Chaplin. Movia-se parte dela no estúdio na cena em que a casinha é carregada por uma forte nevasca até a beira de um precipício. Também foi necessário construir mais de uma maquete para conceber a cena que acabou se tornando um suspense cômico genial. Não da para saber devido a uma montagem estupenda, o que era real e miniatura.


A pobreza e a solidão que culminam na fome é um tema recorrente na obra de Chaplin, o artista que mais mostrou a orfandade no cinema. Neste filme as situações são hilárias, imagino que poderia ser um pecado rir, mas é impossível controlar as gargalhadas. Não que eu dou aquela risada de fazer doer o estômago, mas não dá para conter o sorriso, só que ao mesmo tempo a gente reflete ao vermos a situação. É uma odisseia histórica da fome dos pioneiros do século XIX e mostra Chaplin e seu parceiro de cena MACK SWAIN (1876-1935 – dos clássicos vadios e outros curtas do diretor) como Big Jim, presos em uma cabana durante o inverno e morrendo de fome. Suas expressões são das mais assustadoramente hilárias! Sinceramente, a atuação de ambos é tão brilhante que nem seria necessário titulagens para explicar o que se passava. Swain me faz rir ao olhar diabolicamente para Carlitos com cara de fome parecendo um personagem de desenho animado, e o cara imagina o amigo se transformando literalmente em um frango assado! A fantasia é ótima e o efeito que transforma Chaplin no bichinho é de cair o queixo pela simplicidade que funciona lindamente. Este efeito é um crédito que merece ser dado ao cinegrafista ROLAND TOTHEROH (1890-1967) e evidente a Chaplin que assume a forma do animal através de sua brilhante interpretação corporal. Tudo é um passe de mágica. Acho que é provavelmente o momento mais engraçado de toda a fita, pelo menos em minha opinião.

  O Retrato da  
F O M E
Todavia, e a maioria concorda que o momento mais inesquecível é o sonho do garimpeiro de oferecer um jantar de Ano-Novo para a bela GEORGIA HALE (1905-1985) que aparece em um salão de dança, momento na qual Chaplin apresenta o famoso número musical dos pãezinhos – uma verdadeira coreografia da culinária – imaginem só o efeito desta cena na época? Chaplin da personalidade e vida aos pães que tem pernas feitas de garfos.



Seria LITA GREY (1908-1995) de filmes como “O Garoto”, então com 16 anos, que faria o papel da moça. Mas a mesma ficou grávida de Chaplin (polêmica) e foi substituída por Hale. Mas para apagar o escândalo, Chaplin casou-se com ela (mas ele teve uma relação amorosa com Hale durante as filmagens). Carole Lombard também chegou a fazer testes para o papel.


A revista Entertainment Weekly chegou a colocar o filme na posição número 15 entre os maiores filmes em todos os tempos. Chaplin chegou a escrever em sua autobiografia que concebeu o projeto na casa de Mary Pickford e na presença do amigo Douglas Fairbanks. Na verdade seus amigos lhe apresentaram vários slides com fotografias de garimpeiros no Alasca.


Eu gosto muito de “Tempos Modernos”, “O Grande Ditador”, “O Circo”, “Luzes Da Cidade”, “O Garoto”, citando apenas os mais famosos, mas EM BUSCA DO OURO esta no topo como o melhor da obra do cara! É realmente um filme de grande impacto e ressonância. É uma perfeita realização. Chaplin não poupa despesas e tempo para realizar este grande momento de sua carreira e nunca o adorável Carlitos esteve tão inspirado. Não à toa o próprio Chaplin, no fim da vida, declarou que gostaria de ser lembrado por este filme. Prevendo o início do cinema sonoro, o gênio declara romanticamente sua paixão pelo cinema mudo. Imagem e música magistralmente unidas em busca da origem daquela diversão de feira que se tornou em arte, a sétima delas.



Indicado a dois Oscar anos depois, em 1943, nas categorias: Melhor Música (Max Terr, versão de 42 quando o filme foi relançado) e Som.

EUA- 1925
MUDO
AVENTURA-COMÉDIA-DRAMA
FULLSCREEN
72 min.
PRETO E BRANCO
LIVRE
WARNER – Coleção Chaplin /Também disponível pela Continental
✩✩✩✩✩ EXCELENTE




CHARLIE CHAPLIN em:
THE GOLD RUSH
Com:
GEORGIA HALE   MACK SWAIN
TOM MURRAY   MALCOLM M. WAITE   & HENRY BERGMAN
Fotografado por ROLAND TOTHEROH
Direção de Arte CHARLES D. HALL
Produzido, Escrito e Dirigido por  
CHARLES CHAPLIN
The Gold Rush ©1925 Charles Chaplin Productions / United Artists

7 comentários:

Alan Raspante disse...

Do Charlie eu só vi dois filmes até agora, este, claro, tá na minha lista!!

Alysson disse...

Ainda não vi esse filme do chalin chaplin mas já esta anotada sua dica pros proximos filmes a ver!!!! chalin é o grande astro dos filmes mudo.

Jefferson C. Vendrame disse...

Mais um ótimo Post Rodrigo, Parabéns,
O Nome de Chaplin assim como o de Marilyn despensa qualquer tipo de comentário e só a menção a eles já é valida em qualquer meio de comunicação. Devemos continuar propagando-os afinal quanto mais o tempo passa mas as novas gerações vão deixando de conhece-los e isso é inadmissível levando em consideração a qualidade de vossas obras. Um brilho que mesmo vindo de tão longe, ainda consegue reluzir.
Ótimo post,

Grande abraço

Paulo Telles disse...

Nobre Rodrigo, este é um dos clássicos absolutos deste gênio que foi Chaplin. Indiscutível, como toda sua primorosa filmografia.

Magnífico tópico.

Forte abraço

Paulo Néry

Rodrigo Mendes disse...

Caros amigos obrigado pelos comentários!

Chaplin foi um grande artista, o rei da pantomima. Seu estilo clássico é único. Adoro EM BUSCA DO OURO.

Forte abraço!

Júlio Pereira disse...

Em Busca do Ouro foi um dos poucos Chaplin que eu não vi. Nem sabia do que se tratava direito, e achava que era um curta. Ótimo seu texto, me instigou. Sou fã do rapaz desde moleque. Meu pai imitou Chaplin durante vários anos, e eu por algum tempo "O Garoto", quando era criança (tinha até um cartão telefônico conosco como foto - eu de garoto ele de Carlitos. Um pecado eu não ter visto este filme!

Rodrigo Mendes disse...

Júlio: Que lindo este momento com o papai!

A Obra de Chaplin Carlitos é obrigatória!

Acabe logo com este prejuízo.

Abraço.

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