sexta-feira, 13 de abril de 2012

TOD BROWNING | O MONSTRO DO CIRCO

SESSÃO DINOSSAURO
7
ATIRE A PRIMEIRA FACA!

Atirador de facas misterioso que não tem braços se apaixona pela filha do dono de um circo. Dirigido por Tod Browning (DRÁCULA, 1931).

Tod Browning (1880-1962) é o artesão do cine-monstro e adorava contar histórias do oculto, na alma humana e o seu universo sombrio o classificou como um dos melhores realizadores do gênero terror. É fato que ele tinha predileção por coisas bizarras, aberrações e eles sempre foram seus personagens principais, chegava ao extremo, é verdade, todavia Browning sempre tratou essas figuras com muita humanidade e beleza (o feio sempre ficava bonito). Esta obra é uma relíquia do cinema mudo e uma descoberta cinéfila. O MONSTRO DO CIRCO (The Unknown, 1927) pode ser mais um aparente exercício do diretor em filmes de terror, mas é uma obra reveladora e que trafega numa melancolia poética, é até romântico e mesmo que insano e doentio.

A premissa se passa em Madri, num Circo cigano e lá se apresenta um sujeito incomum: um atirador de facas sem braços! Browning apresenta em seu filme o mestre da caracterização neste papel, conhecido como “O Homem Das Mil Faces”, o lendário LON CHANEY (1883-1930). É realmente impressionante a capacidade que Chaney tinha na habilidade de se maquiar e se caracterizar de qualquer coisa, um gênio neste quesito, além de se revelar um ator completo e que certamente fazia um par perfeito com Browning, um de seus diretores habituais. Ele já havia se imortalizado em papéis incríveis como: O FANTASMA DA ÓPERA (1925) e O CORCUNDA DE NOTRE DAME (1923), filmes mudos da época. Infelizmente Chaney morreu cedo vítima de câncer, mas o seu filho Lon Chaney Jr. faria carreira no cinema e no mesmo perfil, outro galã das caracterizações (O Lobisomem , 1941, da Universal foi seu personagem por toda a vida).


A capacidade de transformação de Chaney e a habilidade física eram tão magníficas que muitas pessoas chegaram a pensar que ele mesmo interpretava com os pés, ora fumando um cigarro, bebendo ou tocando violão! Na verdade, para realizar tais proezas, Browning e Chaney contaram com um sujeito que realmente não tinha braços, chamado Peter Dismuki (1876-1949) dublê de corpo e que não recebeu os devidos créditos.

A melhor curiosidade da fita é a revelação de uma jovem atriz, a futura estrela JOAN CRAWFORD (1905-1977 – em seu 15º filme). Joan esta radiante aqui, mesmo em início de carreira e amadora, mas esteticamente linda e foi este filme que a levou ao estrelato. Mais tarde iria ser a principal estrela do estúdio, a Metro, onde reinaria por 20 anos.

Joan a antagonista de Davis!
Durante muito tempo “O Monstro do Circo” foi dado como perdido, este que é um dos mais curiosos registros da obra do diretor de “Monstros/Freaks” (1932) e a MGM nem se comprometia em resgatá-lo. Mas uma cópia parcialmente completa foi encontrada pelo grupo francês da cinemateca supervisionada pelo arquivista Henri Langlois (1914-1977), o mesmo grupo que ressuscitou a obra de Georges Méliès. Foi em 1968 que aconteceu o ocorrido e a película estava entre tantos outros filmes não-identificados.



A Cult Classic lança uma versão em DVD ótima que traz trilha musical moderna e restaurada no canal 2.0. (feito pela Turner). A versão original tinha 63 minutos (eu nunca consegui assistir), mas a versão do disco digital é mais enxuta, com 50 minutos, o que pode deixar o filme com um final rápido demais.

Muitos consideram este como sendo o melhor filme de Browning. O que descobri em sua biografia é que ele já foi artista de circo e provavelmente este filme, de um modo ou de outro, acaba sendo uma referência particular. Por ter se perdido no tempo e por ter sido resgatado anos mais tarde e ainda sendo um filme de público cult e seleto, “The Unknown” é acidentalmente subestimado, mas é uma riqueza da era jurássica do cinema e certamente  merecia estar nesta série.

Chaney consegue se superar como Alonzo, o atirador sem braços, mesmo com as constantes dores físicas que o ator sofria, mas o seu anti-herói é perfeito. Ele finge ser um atirador de facas porque é na verdade um foragido da justiça, mas acaba enamorando uma bela e inocente Joan Crawford. Aliás, a personagem de Joan é esquisita (típico do cinema de Browning), mesmo sendo bela. Ela não gosta de ser tocada por nenhum homem, mas acaba sendo a mocinha disputada e o rival de Chaney é o brutamontes levantador de pesos Malabar, o Poderoso, interpretado por NORMAN KERRY (1894-1856) que já havia trabalhado com Chaney.

Outra figura interessante é um anão, Cojo, assistente de Alonzo, feito por JOHN GEORGE (1898-1968). A reviravolta e o final do filme são de uma proeza extremamente triste. Chaney é o vingativo, porém trágico apaixonado e faz uma extraordinária e assustadora interpretação, as expressões do rosto dele dão pena e medo simultaneamente.

Uma arrepiante obra prima que precisa ser lembrada e faço questão de preservar esta memória. Browning, também roteirista, sabia extrair o melhor do psicológico. O brinde de “O Monstro do Circo” é que ele tem até mesmo um timbre da psique sexual. Acreditem e não tenham preconceito por achar que a trama é apenas mais um filme de monstros e aberrações. Quem esta por dentro da obra de Tod Browning e ainda não assistiu este, certamente não irá se decepcionar.

O mais legal é ter revelado uma diva do cinema. Joan Crawford sempre considerou este filme como o ponto de virada decisivo de sua carreira. Dizia que aprendeu muito nesta produção e, sobretudo com o parceiro de cena Lon Chaney. Lá ela aprendeu a diferença de estar diante uma câmera de cinema e de agir na frente dela, segundo a própria. Assim, ela se tornou uma atriz melhor (Chaney tinha um poderoso poder de concentração na hora de filmar e Joan captou isso).

Surpreendente e inesperado. Um filme que é também de um erotismo perturbador sugerindo subtextos que cada um interpretará ao seu modo. Mais um registro cinematográfico de grande importância. Descubram o desconhecido.

EUA – 1927
MUDO
DRAMA
STANDARD
50 min.
PRETO & BRANCO
12 ANOS
CULT CLASSIC (Brasil)
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

LON CHANEY em
UMA PRODUÇÃO DE TOD BROWNING
“The UNKNOWN”
NORMAN KERRY. JOAN CRAWFORD
Co-estrelando:
John George. Nick De Ruiz. Frank Lanning. Polly Moran. Bobbie Mack
Decoração de Set RICHARD DAY. CEDRIC GIBBONS
Diretor de Fotografia M. GERSTAD
Montagem: HARRY REYNOLDS. ERROL TAGGART
Figurinos por LUCIA COULTER Titulagens por JOSEPH FARNHAM
Roteiro WALDEMAR YOUNG. TOD BROWNING
Baseado no romance “K” de MARY ROBERTS RINEHART
Direção TOD BROWNING
The Unknown ©1927 - A Metro Goldwyn Mayer Picture -

5 comentários:

Gilberto Carlos disse...

Fiquei curioso pela presença de Joan Crowford...

Luís disse...

Fiquei também curioso pelo mesmo motivo que o Gilberto! Parece ser interessante, vou procurar o filme.

Paulo Telles disse...

Meu jovem amigo Cinéfilo, bilheteiro, projecionista, pipoqueiro (a pipoca esta boa, tem coca cola ai?) e gerente!

Eu mesmo não conhecia tantos detalhes de Tod Browning, cujo trabalho conheço em DRÁCULA e MONSTROS. Veja bem, podemos considera-lo o precursor dos diretores do gênero, como Roger Corman, por exemplo. Certamente, tais produções influenciariam tantas obras do terror e mistério, famosos pelo desempenho do grande Vincent Price.

Lon Chaney (pai) foi o astro por excelência deste estilo. No tempo dos Silents Movies, foi o ator requisitado para assustar as plateias, não tenha dúvidas. Era um ator gabaritado no estilo e assustador.

Quanto a Joan Crawford, mesmo não sendo minha estrela predileta, tenho que concordar que seu trabalho aqui merece destaque, porque foi, sem dúvida, um de seus marcos iniciais. Foi um grande aprendizado para a grande estrela que viria a se tornar.

Parabéns meu nobre por esta postagem magnífica, que veio a me fornecer curiosidades que até então desconhecia. Um forte abraço.

Paulo Néry

Hugo disse...

Ótima dia.

Browning fez filmes no mínimo polêmicos.

Fiquei curioso, irei procurar este.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Gilberto: Ela esta incrível!

Luís: Vale a pena!

Paulo: Meu caro amigo blogueiro, obrigado pelos elogios! Valeu.
Certamente Browning foi o professor de muitos cineastas, sobretudo Corman, disse bem!

Chaney pai era realmente o astro do gênero, mas além de ser o homem que tinha mil faces, era um homem que sabia fazer lindamente sujeitos trágicos e românticos. Eis um exemplo com "The Unknown". Quanto a Crawford, eu sempre gostei dela, ainda mais nos papéis em filmes B.

Hugo: Vai gostar deste cara. Típico Browning!

Abraços

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