CONTRA
O TEMPO
A premissa começa em 1918, em Nova Orleans, onde nasceu o estranho Benjamin Button, que começa velho e vai rejuvenescendo até morrer “criança”. Ele acaba sendo rejeitado pelo pai e é criado em um asilo de velhos por uma mulher negra. Baseado na estória de F. SCOTT FITZGERALD (1896-1940).
Sem dúvida que o diretor David
Fincher amadureceu e fica cada vez melhor a cada filme. Não imaginava que alguém que estreou no cinema com uma fita irregular, ALIEN ³, mesmo se tratando de uma franquia de sucesso, se comprometeria em realizar filmes tão marcantes ao longo das décadas. O CURIOSO CASO DE BENJAMIN
BUTTON (The Curious
Case Of Benjamin Button, 2008) é uma obra-prima. Por que não? E muita gente o colocou como o favorito para o Oscar de 2009. Tudo bem que a fita é longa e às vezes cansa, ainda mais com uma narrativa clássico-linear, um atributo da produção que realiza um filme nestas proporções para as plateias saborearem os cenários, a direção de arte, a fotografia, e principalmente os efeitos especiais que são realmente impressionantes.
Dramaticamente, confesso que o filme oscila. É lírico, envolvente (entorpece), mas também em algumas horas sabe ser pouco impactante e empolgante.
Há muito tempo existiu em Hollywood a vontade de adaptar este conto clássico de Fitzgerald, publicado em 1920. Foi projetado por Steven Spielberg como veículo para o amigo Tom Cruise e até mesmo Ron Howard queria fazer o filme com John Travolta! Soube também que Spike Jonze tinha muito interesse em dirigir esta fábula, mas acabou mesmo nas mãos de Fincher, e o cara tem acertando em filmes ótimos: SE7VEN- Os Sete Crimes Capitais e o polêmico CLUBE DA LUTA e, que desde então, sobrevive com prestígio: ZODÍACO, A REDE SOCIAL e recentemente com OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES. Aqui ele retorna lindamente com o seu ator-fetiche BRAD PITT.
Acredito que realizar esta empreitada não foi nada fácil. Deve ter sido um projeto caro e difícil, já que tantos detalhes são feitos com algum tipo de efeito. Embora o conto original fosse uma sátira com requintes de humor, o filme não embarca neste vestígio (somente nas cenas do homem que é atingido por um raio). Na verdade é tudo feito com seriedade e certa frieza (Fincher é um diretor frio). Também é por demais pretensioso, marcial, levando-se a sério mesmo! Originalmente ele já nascia grande, aqui ele nasce normal, mas evidentemente com cara de ancião e todo o tipo de doença da terceira idade. O menino sofre. Chegam a dar uma explicação para o que sucede, ou seja, um menino que nasce velho e vai ficando cada vez mais jovem, até morrer. Em outras palavras, seu tempo esta inverso e ele vive literalmente contra o tempo. Sua mente é de menino em corpo envelhecido. Depois sua mente é de um senhor em corpo juvenil. Porém, sua alma permanece igual.
Segundo o filme, relojoeiro inventa um relógio na cidade de Nova Orleans, que andava para trás, talvez para assim trazer de volta o filho que morreu na Primeira Guerra (mas o filme sugere o tempo inteiro simbolismos). Como é fantasia não há necessidade de tantas explicações, aliás, acho que deveria era explicar melhor o relacionamento do ser humano com a própria velhice, com o inevitável envelhecimento, mas nesta parte o roteiro é discutível, escrito por ERIC ROTH o mesmo de FORREST CUMP com Tom Hanks (que lhe deu um Oscar). Por mais que Roth seja o roteirista ideal para este estilo de narrativa de A-Z, ele não soube desenvolver muito bem as frustrações de Button com sua situação e até mesmo o romance.
Apesar de o filme ser indiscutivelmente belo, há trechos insuficientes no texto de Roth, ele é bastante verborrágico quando quer e acho que pouco convincente, por exemplo, o herói, embora criado num asilo de velhos onde foi deixado pelo pai que o rejeitou após a mãe morrer, e criado por uma negra, em momento nenhum revela qualquer consciência social ou preocupação pelos outros e mesmo sendo Nova Orleans e tenha aprendido a tocar piano revela qualquer simpatia pelo Jazz local que nascia na sua juventude já envelhecida. Isto é, ele passa pela vida em branco, sem fazer nada que valha a pena. É preciso ver o filme uma segunda vez para sacar que esta foi a proposta, mostrar que quase todos nós passamos pela vida assim, em branco. Por outro lado, Fincher força um pouco a barra fazendo com que a história se desenvolva quando o único e grande amor da vida de Benjamin, a bailarina interpretada por CATE BLANCHETT esteja no leito de morte, num hospital justamente quando chega o furacão Katrina!
O bonito do filme é o cuidado com a reconstrução do passado, os pequenos detalhes assombrosos da cenografia e da esplêndida direção de arte, a qualidade da maquiagem, perfeita nos atores. Bom, com relação à parte técnica, tudo é primoroso e isso nem se discute. O charme do filme é que a cara de Brad aparece sobreposta em cima de corpos alheios, isto é, o truque funciona por vezes, mas não explica porque não é usado sempre.
É verdade que tudo tem certa melancolia, um clima/tom romântico (o que deve agradar a maioria das espectadoras) de amores impossíveis (velho artifício cinematográfico), que também toca o espectador. Muitos podem se envolver com o clima da história (em minha opinião, reforço e, sobretudo nas revisões, o script tem algumas irregularidades) e parece que o mais favorecido é mesmo Brad Pitt, mas ele está realmente ótimo? Sim, como sempre habitual e correto. Provavelmente “o tempo todo” que levava na maquiagem que dizem serem 5 horas por dia, tenha lhe roubado energia e esteja menos presente do que o desejado. No entanto, sinto uma presença espiritual do ator durante a projeção. Até mesmo Blanchett, que toma “um banho digital” para ficar mais nova, não chega a impressionar especialmente. Digo o efeito e não Cate!
Ganhou os merecidos Oscars de Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Visuais. Foi indicado como Melhor Fotografia (CLAUDIO MIRANDA), figurinos, direção, edição, Trilha Musical para ALEXANDRE DESPLAT, Som, Filme, Ator (Pitt), Atriz Coadjuvante (a ótima TARAJI P.HENSON) e Roteiro.
Mesmo com as irregularidades apontadas é curioso como continuo a apreciar esta fita. Uma rara avaliação excelente. E o tempo não irá apagar esta obra.
EUA- 2008
ROMANCE
WIDESCREEN
165 min.
COR
WARNER
12 ANOS
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
WARNER BROS. PICTURES e PARAMOUNT PICTIRES Apresentam
Uma Produção THE KENNEDY/MARSHALL COMPANY
UM FILME DE DAVID FINCHER
The Curious Case Of
BENJAMIN BUTTON
Estrelando BRAD PITT e CATE BLANCHETT
Com: TARAJI P. HENSON JULIA
ORMOND
JASON FLEMYNG TILDA
SWINTON ELIAS KOTEAS
DAVID JENSEN JOEANNA
SAYLER FIONA HALE
PAULA GRAY ELLE
FANNING PHYLLIS SOMERVILLE
E JARED HARRIS
Fotografado por CLAUDIO MIRANDA
Música ALEXANDRE DESPLAT
Edição KIRK BAXTER. ANGUS WALL
Elenco por LARAY MAYFIELD
Cenografia DONALD GRAHAM BURT
Figurinos JACQUELINE WEST
Som REN KLYCE
Produzido por CEÁN CHAFFIN
KATHLEEN KENNEDY e FRANK MARSHALL
Argumento ERIC ROTH. ROBIN SWICORD
Escrito por ERIC ROTH
DIREÇÃO
DAVID FINCHER
The Curious Case Of Benjamin Button ©2008












13 comentários:
Quero rever esse filme, mas a verdade é que fiquei muito desiludido quando fui assistir. A história havia me despertado uma grande curiosidade, mas o reencontro de Pitt e Fincher era o que tinha me deixado mais animado.
Acho que cheguei a escrever sobre o filme, mas não lembro o que falei exatamente, exceto que nas mãos de qualquer diretor (céus, se fosse o Spike Jonze teria sido um filme muuuuuuito mais interssante) que soubesse fazer drama, BB teria vencido vários prêmios e viraria uma das minhas produções favoritas. Mas o Fincher não teve a moral de fazer drama ou emocionar, a frieza que você mencionou deve ter interferido nesse resultado. E o que faltou foi justamente um pouco de sentimento. Não senti isso hora nenhuma.
Eu adoro o estilo de Ficher. Esse é um outro ótimo trabalho desse pequeno gênio da nova geração.
Adoro a insanidade da história.
A primeira vez que fui ao cinema sozinho e um dos melhores filmes que já vi na vida
!
Na primeira vez, eu não tinha ido muito com a cara do filme (mesmo com o plot interessante e etc...). Não sei, mas alguma coisa ali não me conquistou. Bem, na segunda revisão é que eu fui pego mesmo. Hoje é só amor pelo filme, rs
É isso, alguns criticaram bastante o filme, mas eu me encantei com ele, com a estrutura, com a técnica, com as interpretações e com a história. Apesar de questionar alguns detalhes. E interessante essa questão que vc aborda sobre passar pela vida "em branco".
bjs
Em minha opinião, um dos meus Fincher favoritos. Acho emocionante e bela a trajetoria de Button. Deu até vontade de rever. Abração.
Eu, particularmente, gosto muito desse filme. Me provocou profunda reflexão e me comoveu bastante. Não detecto essa oscilação dramática a qual vc faz referência. E acho que o conto de Fitzgerald se beneficiou muito do choque imaginativo e narrativo que David Fincher prospectou. Fico imaginado o filme que Spike Jonze conceberia. Poderia ser muito bom.
Agora quais as chances de um protagonizado por John Travolta e dirigido por Ron Howard? Muito poucas!
Abs
Eu acho este filme belíssimo, em todos os sentidos, pelo lirismo da história, pela direção de arte, maquiagem, fotografia... Muitos apontaram a semelhança entre o roteiro dele e o de "Forrest Gump", também escrito pelo Eric Roth, como um defeito, eu no entanto não vejo desta forma, acho que a trama foi muito bem trabalhada e funciona perfeitamente, a história em si já garante a originalidade do filme...
Eu também postei ontem sobre uma outra obra de Fincher, confira lá depois Rodrigo: http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/06/o-quarto-do-panico.html
Tullio: fico imaginando a versão do Jonze, mas acredito que o material não seria apropriado para a visão dele, pensando melhor. Fincher fez um trabalho mais clássico e linear e sim, ele é um diretor cold.
Abs.
Renato: Muito bem Renato! Fincher é um dos grandes realizadores de sua geração, com certeza! Abs.
Marcelo: Eu vi este filme acompanhado...mas vou muito ao cinema sozinho, também!
Alan: Esses amores heim?! rs
Amanda: Eu também gostei e achei um trabalho técnico esplendoroso mesmo! O filme merecia mais premiações e mesmo com os pontos irregulares que aventei.
Bjs!
Celo: A premissa é realmente atraente, interessante, tocante e bonita (tecnicamente também).
Reinaldo: Ainda bem que o projeto não foi parar nas mãos de Ron Howard em fase Dan Brown já pensou? Ainda mais com Travolta e se ele fizesse o filme com Tom Hanks? Acho que Spielberg poderia fazer um clássico, mas gosto da versão de Fincher e discordamos da oscilação.
Abs e apareça!
Obrigado pela presença Bruno!
Confiro seu post sim! Acho que até já o li!
Um filme realmente lírico e belo.
Abs.
Rodrigo
Acho que você definiu muito bem a mensagem do filme: "mostrar que quase todos nós passamos pela vida assim, em branco". Porque é isso o que o filme retrata. Apesar de tecnicamente belo, é uma história sobre a rotina de um homem, que não teria absolutamente nenhuma graça se não fosse um velho que se torna jovem...
Quando o vi pela primeira vez, no cinema, fiquei absolutamente impressionado - nem sabia de cinema direito, na época, embora já fosse apaixonado. Aliás, tornou-se um dos meus cinco filmes favoritos. Hoje olho e não vejo tanta graça no filme, acho uma orba irregular, como você disse, muito frio - adoro a frieza do Fincher, mas não cai bem em uma história que pedia mais melodrama -, mas com uma técnica realmente incrível, atores ótimos e tal. Tinha tudo pra dar certo, mas não é nada memorável.
Bela resenha!
Eu não tenho como deixar de dizer que é um trabalho excepcional, inusitado, bem estruturado, com apelo sensível... Mas, acredite se quiser, não consegui amar. Sei lá, gostei, mas, não tenho vontade de rever.
Pouco do contra eu!
Acho que não consegui me envolver com os personagens...
;P
O filme é muito bom, um ótimo trabalho de David Fincher esse um dos melhores trabalhos dele Brad Pitt brilha no papel e apesar da história ter um teor frio e sombrio mas o fato do romantismo e do lado emocional do filme faz desse fime uma das mais belas obras de arte.
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