sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O BEBÊ DE ROSEMARY


GRAVIDEZ SINISTRA


OUTUBRO DAS BRUXAS 2ª TEMPORADA

Jovem casal se muda para um apartamento, ao passar do tempo Rosemary descobre que está grávida, logo, coisas estranhas começam a acontecer à medida que conhecemos seus vizinhos. Paranóia ou realidade? Baseado no Best-seller de Ira Levin (o mesmo autor de Invasão de Privacidade) e dirigido e adaptado por Roman Polanski.


Um dos melhores filmes de horror já feitos? Certamente. A obra-prima do diretor Polanski (O Pianista/Chinatown/A Dança Dos Vampiros/Busca Frenética/ Lua De Fel/A Faca na Água). Indicado ao Oscar para Melhor Roteiro Adaptado ao tecer elementos de forma magnífica como a traição, confiança, sanidade, os mistérios femininos e assim, elevando a obra original de Levin a um patamar fantástico e horripilante.

Excelente produção do estúdio Paramount e também produzida artisticamente pelo saudoso cineasta William Castle (1914-1977) o favorito de muitos diretores como Robert Zemeckis e produtores como Joel Silver, que fizeram remakes de obras suas: Treze Fantasmas (13 Ghosts, 1960), A Casa Dos Maus Espíritos (House Haunted Hill, 1959) e fundaram um pequeno estúdio em sua homenagem: Dark Castle Entertainment (que produziu: A Órfã, 2009, Navio Fantasma, 2002, A Casa de Cera, 2005, Gothika, 2003 com Halle Berry, etc). Na década de 50/60, Castle viveu o seu apogeu, realizando filmes populares de ficção-científica e terror (chegando até mesmo a filmar com o sistema Terceira Dimensão). Meu filme predileto dele é com a diva Joan Crawford: Almas Mortas (Strait-Jacket, 1964 – o filme que tem a cena clássica de Lucy Harbin decapitando uma cabeça com o seu machado!). É até curioso vê-lo envolvido em um filme de terror Classe A, com um jovem diretor europeu renomado, algo relativo com horror psicológico do que obras trash. Começando por um elenco interessante e repleto de astros. Vivendo a atormentada Rosemary Woodhouse esta a incrível Mia Farrow e porque não dizer no papel mais marcante de sua carreira? Antes de ser a musa dos filmes de Woody Allen, Farrow se mostra perfeita interpretando sua angústia a loucura frágil com aqueles olhos fundos e rosto esquinado. Quando a vi pela primeira vez nesta fita mal a reconheci. Extremamente jovem com cabelo curto e corpo doente.


O filme faz parte de uma trilogia de Polanski sobre apartamentos, os outros seriam: Repulsa ao Sexo (Repulsa, 1965 com Catherine Deneuve) e o ótimo O Inquilino (Le Locataire/The Tenant, 1976 com Polanski como ator). Acredito que o recente Deus da Carnificina (Carnage, 2011) não se encaixe por não ser obra de terror ou suspense.


Na época das filmagens, Farrow era casada com Frank Sinatra e o divórcio ocorreu durante o período das gravações. Houve muitas fofocas nos tabloides dizendo que ela era perfeita para o papel porque estava  desesperada por ser mãe. Só foi no casamento com o músico/compositor alemão André Previn (Minha Bela Dama/Jesus Cristo Superstar) que Mia ganhou seis filhos e um deles é um casal de gêmeos e uma de suas filhas adotivas, a coreana Soon-Yi Previn é hoje ironicamente casada com Woody Allen!

Na cena em que Rosemary come um fígado cru é tudo realidade, segundo Mia. Foi também o último filme de efeitos especiais do artesão Farciot Edouart (1894-1980) que basicamente trabalhava no departamento de efeitos visuais, especiais e de câmeras elétricas, tendo trabalhado para Hitchcock (Um Corpo Que Cai, Vertigo, 1958) e em cerca de mais de trezentos títulos. A cena na cabine telefônica foi filmada continuadamente. O produtor Castle é um homem que aparece perto da cabine e entra para telefonar assim que Rosemary finalmente desiste de ligar. A voz do telefone do ator que fica cego pela maldição satânica para que o marido de Rosemary possa começar uma carreira brilhante, é do ator Tony Curtis. Sobre Alfred Hitchcock ter sido convocado para a direção do filme é apenas uma lenda em torno da produção. Mas seria boa idéia, não?

É realmente impressionante este tenso e perturbador trabalho de Polanski que escreve uma adaptação magnífica. Percebe-se isso na cena em que Mia começa a sentir o bebê chutando, crescendo em seu ventre (“Está vivo!”) ou na impressionante cena – esplêndido overacting de Mia – de Rosemary, com uma faca na mão, num ímpeto, aparecendo na reunião dos vizinhos. Há também momentos antológicos dela curvada sobre a pia da cozinha com a boca cheia de sangue ou mesmo de sua agonia e desespero quando olha para a barriga, clamando pela vida de seu bebê e pede ajuda ao médico que a denuncia. Será que ela estava vivendo uma crise pós-parto? Teorias de que o filme todo é uma ilusão de Rosemary após ter tido uma gravidez indesejada. 

Os coadjuvantes também brilham em seus personagens, seja a veterana Ruth Gordon (1896-1985), vencedora do Oscar, como Minnie Castevet, uma velha abaladiça que aos poucos se revela (Sidney Blackmer que faz seu marido também é ótimo). Provavelmente a presença masculina do galã e diretor John Cassavetes (1929-1989) como o marido, Guy Woodhouse, seja também o ponto alto do filme. Cassavetes era um artista fulgurante do cinema americano e vê-lo interpretar um homem que vendeu sua alma para o capeta para ter sucesso na vida artística do show business (aquele clichê de ator fracassado, sem sorte, preso a um casamento), é no mínimo curioso. Sonho ou não, o filme consegue chocar e fixar no imaginário cinéfilo, por exemplo, o momento em que Rosemary é "violentada" e a sugestão óbvia de que era o que estava acontecendo neste paralelo da fantasia dentro da ficção, se apresenta mais perturbadora do que é de fato mostrado.

Provavelmente o maior medo de O Bebê de Rosemary seja a perda da confiança matrimonial, literalmente abusada nesta trama envolvente. De não poder mais confiar naqueles que amamos e de que tudo não passou de uma farsa quando a segurança sempre fornecida pela família e amigos seja na verdade uma ilusão. Aqueles tão próximos de nós, de repente, querem nos ferir (pensamento utilizado em outras obras como O Iluminado de Stanley Kubrick, The Shining, 1980). Este é o poder de Polanski em seu filme. Não podemos confiar em ninguém, quiçá em nossa própria sombra. Não há garantia com relação a sua segurança. Sua casa é na verdade um inferno (impossível esquecer aquele apartamento).


A ligação obscura de que o marido (adoro a cena em que Cassavetes recua com receio de tocar a barriga de Rose), o novo lar, a vizinhança e até mesmo o seu bebê, é algo que toma a mente da heroína e faz a platéia pensar e tremer de medo. O mal que envolve aquela mulher é algo resistente e tão envolvente que somos incapazes de desviar os olhares perante o clímax de um dos maiores e mais diferentes filmes de terror já realizados. Quando Mia olha assustada para o novo ser....eu fico dias sem dormir!

Nove meses de pesadelo antes do parto! Assista toda a gestação desta mulher.


EUA – 1968
TERROR
WIDESCREEN
136 min.
COR
14 ANOS
PARAMOUNT
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

Mia Farrow
Em
Uma Produção de
William Castle
Rosemary´s Baby
Também Estrelando:
John Cassavetes
Com:
Ruth Gordon. Sidney Blackmer. Maurice Evans. Ralph Bellamy
Victoria Vetri.  Patsy Kelly. Charles Grodin. Hanna Landy
Phil Leeds. D´Urville Martin. Hope Summers
Produtor Associado Dona Holloway
Fotografia de William Fraker  Música de Christopher Komeda
Montagem ..... { Sam O´Steen
          { Bob Wyman
Cenografia por Richard Sylbert  Desenhos de Arte por Joel Schiller
Figurinos Anthea Sylbert
Produzido por William Castle
Baseado no livro de Ira Levin
Escrito Para a Tela e Dirigido por
Roman Polanski
Rosemary´s Baby ©1968 A Paramount Picture

12 comentários:

Alan Raspante disse...

Sem sombras de dúvida é o meu filme de terror predileto. É realmente "tenebroso" e emocionante. Nem sei dizer qual a minha cena favorita, mas acho que fico com o ato final e a cena em que ela percebe que o bebê "mexeu". Massa demais!

E outra... É sempre bom ressaltar que os seu textos são excelentes, Rodrigo? Adoro as curiosidades que você vai postando, rs

Abs.

M. disse...

Simplesmente o clássico do terror! Roman Polanski sofreu muito na vida real durante as filmagens, perdeu sua Sharon Tate de maneira trágica.

Dayane Pereira disse...

Vc não citou que a Mia Farrow era casada com o Woody Allen antes dele se envolver com a filha adotiva deles, rs.
Bem, eu revi esse filme recentemente com meu namorado (pois ele não tinha visto ainda), e senti mais ainda a tensão e o medo desse filme. Na primeira vez, não tinha notado esse filme com toda essa grandiosidade que vc descreveu.
Acho uma cena ótima a cara que ela olha pro bebe quando aceita ser uma mãe pra ele.
òtimo post!!

Rodrigo Mendes disse...

Dayane: De fato eles viveram juntos longos anos, mas acho que não oficializaram o casamento. De qualquer forma é curioso o rumo que as vidas conjugais de ambos tomaram...

E quanto ao seu namorado, gostou do filme? Sem dúvida esta cena é um dos grandes momentos de clímax.

Obrigado querida por ter gostado do post.
Beijos!


Rodrigo Mendes disse...

Alan: Valeu querido! A cena que ela sente ele chutando é um terror! Mais ainda pela reação do Cassavetes.
Abraços^^

M: É mesmo Magda. A perda da Sharon Tate deu o que falar. Bjs!

Júlio Pereira disse...

Acho que é meu terror favorito. No clímax, eu fico morrendo de medo. Quando vi pela primeira vez, sozinho em casa, liguei pra minha mãe para saber se ela já estava chegando! hahaha

Reinaldo Glioche disse...

Grande texto. Esse, para mim, permanece como o grande filme de Polanski. É o ponto alto dessa "trilogia do apartamento", na qual concordo com vc "Carnage" não se alinha.

"O bebê de Rosemary" é o mais genuíno e incidioso filme de horror que eu já assisti. É um triunfo de direção e imaginação. Polanski, nesse gênero, segue insuperável.

Abs

Rodrigo Mendes disse...

Reinaldo: Agradeço mais uma vez os seus comentários elogiosos e pontuais.

O filme é realmente surpreendente e Polanski provou que o gênero tem maravilhosas facetas para se trabalhar. Basta o diretor ser bom.

Abs.

Elton Telles disse...

Não querendo menosprezar Polanski, que é um dos meus diretores favoritos e "O Bebê de Rosemary" é mesmo perfeito, mas eu fico imaginando o estrago que Hitchcock faria... AHHHH! Loucura, né?

Ótimo texto, Rodrigo. Adorei ter comentado sobre o William Castle. Textos sempre pontuais e com informações precisas na bagagem. Isso é ótimo! Sempre que venho ao Cinema Rodrigo, saio aprendendo um pouco mais =)

Elenco soberbo! Filme maravilhoso e até hoje, apavorante! Um clássico absoluto!


Abs!!

Rodrigo Mendes disse...

Elton, o Hitch faria aquele estrago mesmo, rs! Fico imaginando, o pesadelo que seria se ele resolvesse escalar a Tippi Hedren para o papel, enfim...

Obrigado mais uma vez pelos elogios e comentários.
Abração:)

Bússola do Terror disse...

Acho que o que assusta mais nesse filme é a eterna sensação de que a personagem não tem pra onde fugir, por mais que ela tente.
E a ideia da mãe aceitando o filho no final, mesmo sendo ele um monstro, acabou sendo aproveitada em vários outros filmes de terror posteriores, como Nasce Um Monstro e O Bebê Maldito.

Rodrigo Mendes disse...

Bússula: Estes citados por você eu ainda não assisti!

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