segunda-feira, 19 de novembro de 2012

BERNARDO BERTOLUCCI | O ÚLTIMO TANGO EM PARIS


MANTEIGA!

Jovem que reside em Paris conhece um homem de meia-idade e com ele começa um relacionamento que se estabelece apenas no sexo.


O filme se tornou polêmico e clássico e sugere sordidamente o que podemos fazer com um pouco de manteiga. Não sou pudico, mas é nojentinho pensar, durante o café da manhã, passando Doriana na torrada e imediatamente lembrar-se do filme. Este que é um dos melhores e mais comentados do cineasta italiano BERNARDO BERTOLUCCI (Vencedor do Oscar por O ÚLTIMO IMPERADOR e também diretor de: 1900/ BELEZA ROUBADA/ OS SONHADORES). Renovou a carreira do astro MARLON BRANDO (1924-2004) e transformou MARIA SCHNEIDER (1952-2011) em estrela.

O mais curioso é perceber como Ultimo Tango A Parigi começou uma tendência erótica no cinema tanto de arte como blockbuster. Aqueles filmes que tomam a linha do sexo sem perguntas, da entrega, desejo e fantasia. Pode-se dizer que fitas de sucesso como a dirigida por Adrian Lyne, Nove ½ Semanas e Meia de Amor (Nine ½ Weeks, 1986) com Kim Basinger e Mickey Rourke, seja um destes exemplos. Outro é o recente caso do excelente Shame de Steve McQueen com Michael Fassbender. É sempre um casal heterossexual que se conhece na cidade e desejam experimentar o sexo de todas as maneiras possíveis e inimagináveis, protegidos entre quatro paredes. Hoje pode soar clichê filmes com esta premissa se não forem muito bem trabalhados e o único que ainda não envelhece é “Último Tango”.


O filme obteve duas indicações ao Oscar, Diretor (Bertolucci) e Ator (Brando). O escândalo, certamente impediu que o filme fosse mais reconhecido e consagrado, a fama, no entanto, permaneceu cult. Muitos acreditam que o filme não seria importante sem a presença de Brando, ainda no auge de sua masculinidade e sex appeal. A interpretação do ator é tão notável que alude a muitos papéis anteriores e marcantes. Ainda assim, acho que seu melhor momento no cinema foi com Elia Kazan, que o dirigiu em Uma Rua Chamada Pecado (extremamente sensual) e Sindicato de Ladrões. Acredito que este trabalho foi uma ruptura na carreira de Brando, até mais do que foi em O Poderoso Chefão, bem mais veterano e nada sensual a partir dali. É nesta fita que enxergo um Marlon Brando em seu último tango sensual, o adeus a uma beleza incrível, do macho, da testosterona. Vivendo Paul – “Ele”, um homem de meia-idade. É inesquecível o modo como Brando interpreta seus monólogos obscenos e por vezes escatológicos. Sem atalhos, Bertolucci evidencia esta relação tórrida. Jeanne – “Ela” (Maria) fica totalmente passiva, literalmente, diante a força brutal e palpável de seu parceiro experiente (nem acho suas cenas com JEAN-PIERRE LÉAUD, que interpreta o noivo corno e que por sinal faz um cineasta, tão memoráveis) e um acaso na escalação do elenco colocou Maria, até então inexperiente, num filme que mudou sua vida.


O diretor Ingmar Bergman afirmou uma vez que o filme teria todo um sentido se os personagens fossem homossexuais. Será? De qualquer forma, Bertolucci aceitou a crítica do colega.

Brando que representou uma nova safra de atores improvisou o tempo todo porque sentiu que os diálogos estabelecidos não tinham força e como tudo nunca ficava 100% do seu agrado, o cara improvisava mesmo! Bertolucci afirmou que o filme veio de uma ideia pessoal, isto é, cresceu de suas próprias fantasias e disse que já sonhou com uma mulher bonita, passando na rua, sem saber seu nome etc e tal, e que tinha este fetiche: pegá-la e manter relações sexuais com a desconhecida sem saber de fato quem era.

Dez anos depois de seu lançamento, o estúdio (United Artists), relançou o filme com um R-Rating e não mais com a classificação X que estupidamente o filme recebeu em 72. Esta versão tem apenas poucos minutos retirada de sua versão original. O que nós temos é a versão de 129 minutos, a italiana tem a versão do diretor que são exatamente 250 minutos do corte final original! A Espanha obteve uma edição ainda mais curta, 124 minutos em uma edição em DVD.


Houve, à época mais chateações para os realizadores. Depois que o filme saiu na Europa, Bertolucci, o produtor ALBERTO CRIMALDI, Brando e Schneider foram indiciados por um tribunal ferrenho na Itália (Bolonha) que alegava que o filme tinha um conteúdo pornográfico “que ultrapassava os limites”. Eles só foram absolvidos da acusação infame pouco depois quando Bertolucci perdeu seus diretos civis no país, incluindo o direito de voto, por cinco anos. Absurdo, não?

Schneider alegou que a famosa cena da manteiga não estava presente no script e que tudo foi improvisado ali no último minuto por Brando e Bertolucci sem ao menos consultá-la. A coitada não fingiu mesmo! Mesmo que o ato de sodomia faça parte da ficção, as lágrimas da atriz eram reais, o que claramente testemunham o seu estado chocante.


Durante as filmagens, Bertolucci tentava convencer Brando a compreender seu personagem, ou seja, um homem com a virilidade à flor da pele, que segundo o diretor era o ponto alto do filme e que a personagem de Schneider representava o seu sonho de menina (quer dizer do diretor como expliquei acima). Posteriormente, Brando disse que não fazia ideia do que Bertolucci estava sugerindo e ou/dizendo e acabou por fazendo de seu jeito habitual de interpretação. Acho que o filme, no final das contas, não se assemelha a fantasia do diretor. Talvez se ele tivesse um ator mais obediente em cena, quem sabe?


O que mais me intriga no filme é a soma de ideias realizadas com um estilo tão barroco (em vista do realismo, conflito, apelo emocional e a brilhante fotografia em claro-escuro de VITTORIO STORARO que merecia mais reconhecimento) que transporta o espectador para um âmbito psíquico tão fraccionado (divisórias, reflexos em espelhos) e que, além das cenas de sexo, os elementos incongruentes no cenário e nos enquadramentos são tamanhos em multiplicação que acabamos por ficar desorientados. Outro ponto alto do filme é a trilha do argentino GATO BARBIERI que compõe uma linda valsa por saxofone o que ajuda o filme no tom erótico que almejava.  

O escândalo de O Último Tango Em Paris pode ser compreendido e é sem dúvidas um dos mais discursivos da história da sétima arte que atravessou gerações e o conservadorismo idiota. O filme de Bertolucci é a prova de que a sociedade foi e ainda é hipócrita quando a intimidade é invadida. Curioso, sempre. Essas questões acabaram que por vir naturalmente depois da recepção do filme, mas que nunca foi intenção do diretor já que a premissa trata-se basicamente da realização de fantasias sexuais. Pasolini deve ter visto o filme e ter tido coragem ao realizar o seu Os 120 Dias de Sodoma, quem sabe? (Aliás, um filme que preciso rever, baseado em obra do lendário Marquês de Sade que também já virou filme e causou polêmica).

Quem ainda não assistiu e tem aquela curiosidade eu sempre recomendo. Entre todos os filmes do gênero, o meu predileto é este. Um trabalho carnal e que acentuou o típico estilo de Bertolucci quando o assunto é sexo e a maneira como ele filma os corpos envoltos. Dois desconhecidos preenchendo o vazio existente de suas tristezas satisfazendo os seus mais ímpetos desejos. Tudo isso resulta em gemidos e gritos de dor e prazer através das paredes finas parisienses.





FRANÇA/ITÁLIA – 1972
DRAMA
WIDESCREEN
COR
129 min.
14 ANOS
FOX/METRO
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



UMA PRODUÇÃO ALBERTO GRIMALDI
MARLON BRANDO EM:
LAST TANGO IN PARIS 
ULTIMO TANGO A PARIGI
UM FILME DE BERNARDO BERTOLUCCI
COM. MARIA SCHNEIDER
MARIA MICHI. GIOVANNA GALLETTI
E COM: JEAN-PIERRE LÈAUD
TAMBÉM ESTRELANDO: MASSIMO GIROTTI
Música de GATO BARBIERI
Direção de Fotografia VITTORIO STORARO
Roteiro
BERNARDO BERTOLUCCI. FRANCO ARCALLI. AGNÈS VARDA
Produzido por ALBERTO GRIMALDI
Dirigido por BERNARDO BERTOLUCCI
Last Tango In Paris/ Ultimo Tango A Parigi ©1972
Uma Co-produção: PEA – Produzioni Europee Associate S. A. S
Les Productions Artistes Associés/ Um lançamento: United Artists

6 comentários:

Markos Queiroz disse...

Nossa, fiquei curioso para ver esta cena da manteiga, mas estou com medo de ficar com 'nojo' depois também... rsrs
Não conhecia este filme, adoro os filmes do gênero, filmes mais carregados e pesados.
Vou procurar na internet e nas locadoras hoje mesmo.
Abraços!

http://livronasmaos.blogspot.com.br/

M. disse...

Marlon Brando inesquecível, filme nota 100 e post maravilhoso.

Patt Baleeira disse...

Falar deste filme é delicioso né?
Brando está impagavél e a cena em questão é 'gostosinha, vai? rs.
Meio que uma 'lambança' no estilo 9 1/2 semanas de amor,rs.
Parabéns, pelo texto.

beijos.

Bússola do Terror disse...

O Marlon chegou a ser chamado de ´´ator pornô`` por alguns conservadores por causa desse filme.
Mas, sinceramente, tem menos sexo aí do que em Um Copo de Cólera, por exemplo.

Rodrigo Mendes disse...

Markos: Nunca mais vai esquecer do filme, rs!


M: concordo Magda!
Obrigado mesmo, bjs!

Patricia: Certamente Adrian Lyne se inspirou aqui. rs
Besos!

Bússula: Para qualquer conservador tudo é demais. Muitas vezes até mesmo um beijo de língua.
Abs.

Alysson disse...

Ja houvi falar muito desse filme, e ele ja esta na lista dos proximos a assistir, gosto de vir ao seu blog por isso pq aqui encontro filmes antigos indicados por vc mas filmes geralmente q valem a pena de se conhecer.

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