MANTEIGA!
Jovem
que reside em Paris conhece um homem de meia-idade e com ele começa um
relacionamento que se estabelece apenas no sexo.
O filme se tornou polêmico e
clássico e sugere sordidamente o que podemos fazer com um pouco de manteiga.
Não sou pudico, mas é nojentinho pensar, durante o café da manhã, passando
Doriana na torrada e imediatamente lembrar-se do filme. Este que é um dos melhores
e mais comentados do cineasta italiano BERNARDO
BERTOLUCCI (Vencedor do Oscar por O
ÚLTIMO IMPERADOR
e também diretor de: 1900/ BELEZA ROUBADA/ OS SONHADORES). Renovou a carreira do astro MARLON BRANDO (1924-2004) e transformou
MARIA SCHNEIDER (1952-2011) em
estrela.
O mais curioso é perceber como Ultimo
Tango A Parigi
começou uma tendência erótica no cinema tanto de arte como blockbuster. Aqueles
filmes que tomam a linha do sexo sem perguntas, da entrega, desejo e fantasia.
Pode-se dizer que fitas de sucesso como a dirigida por Adrian Lyne, Nove ½ Semanas e Meia de Amor (Nine ½ Weeks, 1986) com Kim Basinger e Mickey Rourke, seja um
destes exemplos. Outro é o recente caso do excelente Shame de Steve McQueen com Michael Fassbender. É sempre um casal heterossexual
que se conhece na cidade e desejam experimentar o sexo de todas as maneiras
possíveis e inimagináveis, protegidos entre quatro paredes. Hoje pode soar clichê
filmes com esta premissa se não forem muito bem trabalhados e o único que ainda
não envelhece é “Último Tango”.
O filme obteve duas indicações
ao Oscar, Diretor (Bertolucci) e Ator
(Brando). O escândalo, certamente impediu que o filme fosse mais reconhecido e
consagrado, a fama, no entanto, permaneceu cult.
Muitos acreditam que o filme não seria importante sem a presença de Brando,
ainda no auge de sua masculinidade e sex
appeal. A interpretação do ator é tão notável que alude a muitos papéis
anteriores e marcantes. Ainda assim, acho que seu melhor momento no cinema foi
com Elia Kazan, que o dirigiu em Uma Rua Chamada Pecado (extremamente sensual) e Sindicato de Ladrões. Acredito que este trabalho
foi uma ruptura na carreira de Brando, até mais do que foi em O Poderoso Chefão, bem mais veterano e nada
sensual a partir dali. É nesta fita que enxergo um Marlon Brando em seu último
tango sensual, o adeus a uma beleza incrível, do macho, da testosterona.
Vivendo Paul – “Ele”, um homem de
meia-idade. É inesquecível o modo como Brando interpreta seus monólogos
obscenos e por vezes escatológicos. Sem atalhos, Bertolucci evidencia esta
relação tórrida. Jeanne – “Ela”
(Maria) fica totalmente passiva, literalmente, diante a força brutal e palpável
de seu parceiro experiente (nem acho suas cenas com JEAN-PIERRE LÉAUD, que
interpreta o noivo corno e que por sinal faz um cineasta, tão memoráveis) e um
acaso na escalação do elenco colocou Maria, até então inexperiente, num filme
que mudou sua vida.
O diretor Ingmar Bergman afirmou uma vez que o filme teria todo um sentido se
os personagens fossem homossexuais. Será? De qualquer forma, Bertolucci aceitou
a crítica do colega.
Brando que representou uma nova
safra de atores improvisou o tempo todo porque sentiu que os diálogos
estabelecidos não tinham força e como tudo nunca ficava 100% do seu agrado, o
cara improvisava mesmo! Bertolucci afirmou que o filme veio de uma ideia pessoal, isto é, cresceu de suas próprias fantasias e disse que já sonhou com
uma mulher bonita, passando na rua, sem saber seu nome etc e tal, e que tinha
este fetiche: pegá-la e manter relações sexuais com a desconhecida sem saber de
fato quem era.
Dez anos depois de seu
lançamento, o estúdio (United Artists), relançou o filme com um R-Rating e não
mais com a classificação X que estupidamente o filme recebeu em 72. Esta versão
tem apenas poucos minutos retirada de sua versão original. O que nós temos é a
versão de 129 minutos, a italiana tem a versão do diretor que são exatamente
250 minutos do corte final original! A Espanha obteve uma edição ainda mais
curta, 124 minutos em uma edição em DVD.
Houve, à época mais chateações
para os realizadores. Depois que o filme saiu na Europa, Bertolucci, o produtor
ALBERTO CRIMALDI, Brando e Schneider
foram indiciados por um tribunal ferrenho na Itália (Bolonha) que alegava que o
filme tinha um conteúdo pornográfico “que ultrapassava os limites”. Eles só
foram absolvidos da acusação infame pouco depois quando Bertolucci perdeu seus
diretos civis no país, incluindo o direito de voto, por cinco anos. Absurdo,
não?
Schneider alegou que a famosa
cena da manteiga não estava presente no script
e que tudo foi improvisado ali no último minuto por Brando e Bertolucci sem ao
menos consultá-la. A coitada não fingiu mesmo! Mesmo que o ato de sodomia faça
parte da ficção, as lágrimas da atriz eram reais, o que claramente testemunham
o seu estado chocante.
Durante as filmagens,
Bertolucci tentava convencer Brando a compreender seu personagem, ou seja, um
homem com a virilidade à flor da pele, que segundo o diretor era o ponto alto
do filme e que a personagem de Schneider representava o seu sonho de menina
(quer dizer do diretor como expliquei acima). Posteriormente, Brando disse que
não fazia ideia do que Bertolucci estava sugerindo e ou/dizendo e acabou por
fazendo de seu jeito habitual de interpretação. Acho que o filme, no final das
contas, não se assemelha a fantasia do diretor. Talvez se ele tivesse um ator
mais obediente em cena, quem sabe?
O que mais me intriga no filme
é a soma de ideias realizadas com um estilo tão barroco (em vista do realismo,
conflito, apelo emocional e a brilhante fotografia em claro-escuro de VITTORIO STORARO que merecia mais
reconhecimento) que transporta o espectador para um âmbito psíquico tão
fraccionado (divisórias, reflexos em espelhos) e que, além das cenas de sexo,
os elementos incongruentes no cenário e nos enquadramentos são tamanhos em
multiplicação que acabamos por ficar desorientados. Outro ponto alto do filme é
a trilha do argentino GATO BARBIERI
que compõe uma linda valsa por saxofone o que ajuda o filme no tom erótico que
almejava.
O escândalo de O Último Tango Em Paris pode ser compreendido e é sem
dúvidas um dos mais discursivos da história da sétima arte que atravessou
gerações e o conservadorismo idiota. O filme de Bertolucci é a prova de que a
sociedade foi e ainda é hipócrita quando a intimidade é invadida. Curioso,
sempre. Essas questões acabaram que por vir naturalmente depois da recepção do
filme, mas que nunca foi intenção do diretor já que a premissa trata-se
basicamente da realização de fantasias sexuais. Pasolini deve ter visto o filme e ter tido coragem ao realizar o
seu Os
120 Dias de Sodoma,
quem sabe? (Aliás, um filme que preciso rever, baseado em obra do
lendário Marquês de Sade que também
já virou filme e causou polêmica).
Quem ainda não assistiu e tem
aquela curiosidade eu sempre recomendo. Entre todos os filmes do gênero, o meu
predileto é este. Um trabalho carnal e que acentuou o típico estilo de
Bertolucci quando o assunto é sexo e a maneira como ele filma os corpos
envoltos. Dois desconhecidos preenchendo o vazio existente de suas tristezas
satisfazendo os seus mais ímpetos desejos. Tudo isso resulta em gemidos
e gritos de dor e prazer através das paredes finas parisienses.
FRANÇA/ITÁLIA
– 1972
DRAMA
WIDESCREEN
COR
129
min.
14
ANOS
FOX/METRO
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
UMA PRODUÇÃO ALBERTO GRIMALDI
MARLON
BRANDO EM:
LAST
TANGO IN PARIS
ULTIMO TANGO A
PARIGI
UM FILME DE BERNARDO BERTOLUCCI
COM. MARIA SCHNEIDER
MARIA MICHI. GIOVANNA GALLETTI
E COM: JEAN-PIERRE LÈAUD
TAMBÉM ESTRELANDO: MASSIMO
GIROTTI
Música de GATO BARBIERI
Direção de Fotografia VITTORIO
STORARO
Roteiro
BERNARDO BERTOLUCCI. FRANCO
ARCALLI. AGNÈS VARDA
Produzido por ALBERTO GRIMALDI
Dirigido por BERNARDO
BERTOLUCCI
Last
Tango In Paris/ Ultimo Tango A Parigi
©1972
Uma
Co-produção: PEA – Produzioni Europee Associate S. A. S
Les
Productions Artistes Associés/ Um lançamento: United Artists












6 comentários:
Nossa, fiquei curioso para ver esta cena da manteiga, mas estou com medo de ficar com 'nojo' depois também... rsrs
Não conhecia este filme, adoro os filmes do gênero, filmes mais carregados e pesados.
Vou procurar na internet e nas locadoras hoje mesmo.
Abraços!
http://livronasmaos.blogspot.com.br/
Marlon Brando inesquecível, filme nota 100 e post maravilhoso.
Falar deste filme é delicioso né?
Brando está impagavél e a cena em questão é 'gostosinha, vai? rs.
Meio que uma 'lambança' no estilo 9 1/2 semanas de amor,rs.
Parabéns, pelo texto.
beijos.
O Marlon chegou a ser chamado de ´´ator pornô`` por alguns conservadores por causa desse filme.
Mas, sinceramente, tem menos sexo aí do que em Um Copo de Cólera, por exemplo.
Markos: Nunca mais vai esquecer do filme, rs!
M: concordo Magda!
Obrigado mesmo, bjs!
Patricia: Certamente Adrian Lyne se inspirou aqui. rs
Besos!
Bússula: Para qualquer conservador tudo é demais. Muitas vezes até mesmo um beijo de língua.
Abs.
Ja houvi falar muito desse filme, e ele ja esta na lista dos proximos a assistir, gosto de vir ao seu blog por isso pq aqui encontro filmes antigos indicados por vc mas filmes geralmente q valem a pena de se conhecer.
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