LOUCAS, DEPRAVADAS, LOUCAS!
Pepi é
estuprada por policial machista depois de flagrá-la cultivando maconha na
janela de seu apartamento. Para se vingar, ela faz com que Luci, a
esposa do policial, uma masoquista, se envolva com a sua melhor amiga, Bom,
uma lésbica vocalista de uma banda de rock.
La
Primera Película de PEDRO ALMODÓVAR, chocante, humana e
engraçada, é um filme inédito em termos de distribuição. Pepi, Luci,
Bom Y Outras Chicas Del Montón, sua estréia em longa
metragem, à primeira vista pode parecer um filme pornográfico vintage,
mas apesar disso, Almodóvar nos brinda com uma comédia escrita com qualidade,
mas ainda tecnicamente (extremamente) amadora. É uma delícia e um verdadeiro
festival de risos.
Gritante e absurdo, a premissa surgiu originalmente a partir
de uma fotonovela underground que Pedro havia escrito com o nome de Erecciones
Generales (preciso traduzir?
Risos). Foi a estrela espanhola e amiga de longa data do diretor, CARMEN MAURA quem o incentivou a
fazer uma adaptação cinematográfica, paixão de Pedro que até então, sustentava-se
num emprego na companhia telefônica e fazia filmes menores e de pouca
repercussão no formato 8 mm. Este que é considerado sua grande première, era
uma produção barata, em 16 mm e filmado com um orçamento de meio milhão de
pesetas com equipe de voluntários. E, concluído num período de dois anos. Foi
exibido comercialmente causando algum escândalo na sociedade conservadora,
certamente, mas a fita é apenas divertida e um filhote de John Waters,
cineasta americano e admirador de Almodóvar. Acredito que vocês já devem ter
assistido ou ouvido falar de Pink Flamingos
(filme bizarro e discursivo de 1972). Ou seja, “Pepi, Luci, Bom” é um
divertimento sadio e até leve no mundo trash.
Maura e Almodóvar faziam parte do mesmo grupo de
teatro, Los Goliardos, uma companhia que trazia peças bem no estilo de
estórias que o futuro cineasta faria. Ninguém poderia imaginar que o primeiro longa
deste jovem o formaria para uma carreira brilhante e consagrada em filmes como Mulheres
À Beira De Um Ataque De Nervos, Carne
Trêmula, Fale
Com Ela, Má Educação e A Pele Que Habito
(não sou muito fã deste, mas... [leia os outros posts aqui ]).
Através de empréstimos para financiar a produção,
Almodóvar se virou como podia para conseguir realizar o seu filme. Portanto são
até perdoáveis as tantas falhas técnicas ao longo da sessão, sobretudo nas
passagens de cenas e o áudio que é péssimo e tem até outtakes na versão
do DVD lançado por aqui (Almodóvar não mexeu mais no filme e diversas copias
percorreram clandestinamente!). Mesmo assim, é possível curtir esta viagem
insana, pervertida e super engraçada deste verdadeiro gênio do kitsch e
do atrevido. O filme é realmente gritante e logo de cara isso é explicado com
os créditos de abertura feito basicamente por cartazes (o mesmo acontece com os
intertítulos que explicam os próximos atos principais e não sei se foi
intencional fazer alguma homenagem ao cinema mudo), mas como havia dito,
tecnicamente é mal feito, no bom sentido (+ Risos).
A
mexicana OLVIDO GARA,
depois conhecida artisticamente como ALASKA (favor não confundir com o Estado Americano),
trabalhou como atriz e cantora pela primeira vez neste filme, mas já tinha uma
banda chamada El Bomitoni. Na época, segundo fontes, ela era menor de
idade, apesar de não parecer. Era apenas uma garota punk e mal encarada,
que tocava guitarra e acabou impressionando Almodóvar com o seu visual, mas
como Pedro sempre foi “família” em seus filmes, muitos amigos participam (Caetano
Veloso em Fale Com Ela que o diga). Obviamente que naquela época ele era
muito mais louco, bad boy. E, já que a fita foi realizada por
voluntários, nem preciso dizer que a festa deve ter sido tremenda durante a
feitura do filme. Drogas, sexo, e outras coisas mais, certamente devem ter
rolado, aliás, Almodóvar sempre deixou isso explícito em seus filmes, como
nostalgia e ou/ inspiração.
A primeira fase do diretor é muito refletida no
movimento artístico espanhol de suma importância no país em que os personagens
principais (inclusive Alaska na vida real) são figuras do movimento La
Movida Madrileña, onde se concentravam pessoas, (sufocadas por décadas pela
ditadura de Francisco Franco), que desejavam se libertar nem que para
isso fosse preciso chocar. Após a morte de Franco foi que tudo isso aconteceu e
onde nasceu o cinema de Almodóvar.
Pedro faz uma ponta no filme como ator, um
mestre de cerimônias cabeludo e de bigode, gay, que apresenta uma competição
maluca na qual, em uma festa, os homens participavam e concorriam para ver quem
tinha o maior pênis, devidamente medidos, tanto altura quanto grossura. O
prêmio para o vencedor era o mesmo pedir o que quisesse. Ou seja...
Há também participações de algumas atrizes que são freqüentes
colaboradoras do cineasta. Morro de rir com CECILIA
ROTH (Tudo Sobre Minha Mãe, fazia a Manuela) como uma chica que
faz um divertidíssimo anúncio de lingerie e que sonha em soltar um pum e
menstruar sem problemas futuros utilizando as tais calcinhas. Outras que
participam são: ASSUMPTA SERNA (de Matador), KITI MANVER (de A Flor Do
Meu Segredo, Abraços Partidos/
Mulheres À Beira...) interpretando uma modelo que diz que não é puta e por
causa de sua beleza os homens se aproveitam e a ótima JULIETA SERRANO (também de Mulheres À
Beira de Um... Ata-me!) como uma mulher que aparece dando bronca no filho
pestinha e vestida de Scartett O´Hara!
![]() |
| Momento HILÁRIO com Cecilia Roth |
A trama é cheia de excessos, mas a narrativa
principal conta a história de uma garota descolada, Pepi (Maura), que
faz de sua vida um passatempo irresponsável, inconstante e cheia de
reviravoltas que ela acaba conseguindo conciliar. Uma bela manhã ela esta
cuidando de sua vida, tem vários vasos de maconha na janela de seu apartamento
e todo o dia vai regá-las. Simplesmente, quieta no seu canto, colando o seu
álbum de figurinhas do Superman e ouvindo uma música-cliclete, é
surpreendida pelo toque da campainha. Quem é? Seu vizinho machista e que por
acaso é policial, interpretado por FÉLIX ROTAETA (1942-1994) que também interpreta o seu irmão
gêmeo, que a aborda por cultivar plantas ilegais. Bom, para não incriminá-la o
sujeito resolve, num ímpeto, tirar alguma vantagem, isto é, sexo!
![]() |
| Maura já começa abrindo as pernas em sua primeira cena! |
Ela não
resiste, mas Pepi ainda era “virgem”, nunca haviam violado a sua vagina e a
moça era praticante do sexo anal. Sem querer saber dos detalhes, e
violentamente, o babaca e cabrón a estupra! Sedenta por vingança, Pepi
chama seus amigos para espancar o escroto, mas infelizmente quem apanha é o seu
irmão!
Ainda querendo dar o troco, Pepi se aproxima da quarentona Luci,
a ótima EVA SIVA (de outras fitas do
diretor: Labirinto De Paixões, Maus Hábitos...) esposa do policial e que
inicialmente foi contratada por Pepi para lhe dar aulas de tricô. O que
ela não sabe é que Luci é sadomasoquista, mas vive sufocada num casamento
tradicional e o marido nem sequer a espanca, apenas faz dela sua escrava. Com
isso, depois da tão falada cena da urina em que Bom (Alaska) faz xixi na
cara de Luci (assim que elas se conhecem!), Pepi descobre o tão grotesco segredo sexual da dona de casa.
Assim, Luci e Bom começam um relacionamento lésbico e as três, quebrando tabus,
vivem uma divertida e louca amizade.
Vão a diversas festas e fazem de suas
vidas um palco. O mais curioso é que o filme, mesmo sendo mal acabado e vulgar,
é humano. Almodóvar, em seu debut, é capaz de fornecer sinceridade de
suas personagens, o ponto alto de tudo. Desta forma, o filme não passa de uma
brincadeira o que ameniza as cenas gratuitas à La Almodóvar.
Insanas, depravadas, divertidas, este trio tem
muita história pra contar. Chame a vizinha para um cafezinho da tarde, troque
figurinhas, só não comentem o que sucedeu no capítulo anterior da novela, passe
para as fofocas, de homem é mais legal, mas certifique-se de uma coisa: diz pra
ela que o banheiro é ali, à direita, em caso de emergência, afinal, a maioria
das mulheres sofrem da bexiga.
ESPANHA
– 1980
COMÉDIA
WIDESCREEN
COR
86
min.
FILMS VINTAGE
✩✩✩ BOM
Obs.:
A classificação esta como LIVRE, mas o filme não é recomendado para menores de
16 ANOS!
Y Outras
Chicas Del Montón
Estrelando: Carmen maura. Olvido
Gara. Eva Siva
Kiti Manver. Cecilia Roth. Julieta Serrano. Félix Rotaeta
Ricardo Franco. Concha Grégori. Assumpta Serna
Pedro Almodóvar. Agustín Almodóvar
Música ALASKA Y LOS PEGAMOIDES
Direção de
Fotografia PACO FEMENÍA
Montagem JOSÉ “PEPE” SALCEDO
Figurinos MANUELA CAMACHO Maquiagem JUAN LUIS FARSACC
Produtor
Executivo FÉLIX
ROTAETA
Produtor
Delegado PACO
POCH
Produzido por
PEPÓN COROMIMA.
PASTORA DELGADO. ESTER RAMBAL
Escrito e
Dirigido por PEDRO ALMODÓVAR
Pepi,Luci,Bom Y
otras chicas del montón ©
1980 Fígaro Films














5 comentários:
Acho que esse é o unico filme do mestre que ainda não assisti.
Por isso preferi não ler muito seu texto. Poderia atrapalhar meu impacto. kk
Quando a perda...é uma dor........insuportável.
abraços
Meu, adoro seu blog, fico conhecendo filmes que nunca ouvi falar.
Conheço Pedro Almodovar através de outros filmes, mas este é inédito para mim, e achei bem interessante o meio de vingança que Pepi usa.
Abraços!
Livro Nas Mãos
http://livronasmaos.blogspot.com.br
Adorei demais o seu texto! Essa fase inicial do cinema de Almodóvar é mesmo memorável e foi de grande importância para a vida profissional dele, principalmente a grande amizade com Carmen Maura. Diretamente do tempo da louca movida madrilenha! Posso divulgar seu post em meu blog?
Renato: procure pelo dvd na Livraria Cultura, recomendo que compre lá!
Assista logo e depois me diga o que achou.
Abs.
Markos: Agradeço mais uma vez seus graciosos comentários.
O filme é insano, se assistir nunca mais irá esquecê-lo.
Abs!
M: Obrigado minha cara amiga blogueira. Agradeço por ter divulgado meu texto no Cinema Clássico.
Faço coro a você quanto ao Almodóvar.
Beijos.
Adorei a sua resenha esse é um dos poucos filmes dele que ainda nao assisti vou ver.
Postar um comentário