quarta-feira, 6 de março de 2013

A COR PÚRPURA

SEPARAÇÃO

A vida trágica de uma jovem mulher negra que é separada dos filhos e forçada a um casamento sem amor que a mantêm como escrava. Baseado no livro de Alice Walker 
vencedora do prêmio pulitzer e com direção de Steven Spielberg.


Eis a oportunidade do mago do cinema pipoca, das fantasias juvenis, SPIELBERG provar que era capaz de fazer um filme mais sério ou de “adulto” como se diz (favor não confundir com filme de sacanagem). É um drama delicado e não concordo quando dizem que ele cai no sentimentalismo. Me da à impressão de que as pessoas não querem se emocionar, se deixar levar ou algo que o valha. Era fato que Spielberg estava empenhado em desfazer sua reputação como mero criador de obras como Tubarão (1975), Os Caçadores Da Arca Perdida (1981) e E.T. (1982) e aceitou o desafio de ser diretor de um filme diferente, o primeiro de uma safra: Império do Sol (1987), Além Da Eternidade (1989), A Lista de Schindler (1993 – seu primeiro e merecido Oscar), Amistad (1997 – seu pior trabalho. Chato e sonífero), O Resgate do Soldado Ryan (1998 – Um poderoso drama de Guerra, o segundo e também mais do que merecido Oscar, principalmente com aquela sequência de desembarque na praia da Normandia no fatídico dia ‘D’), A.I. Inteligência Artificial (2001 – responsabilidade que ele assumiu após a morte de Kubrick. Também o considero nesta lista por ser um filme sério, apesar de ter seu toque infantil), Prenda-Me Se For Capaz (2002 – uma típica comédia sem apelo para grande bilheteria. Baseado numa história real), O Terminal (2004 – Outro drama romântico contundente), o ótimo e violento Munique (2005 – um de seus melhores filmes nos últimos anos), o criticado Cavalo de Guerra (2011 – que eu adoro. Assumo minha predileção) e o recente Lincoln (2012 – o primeiro Spielberg sóbrio, sombrio e congelante). Acho que não me esqueci de nenhum. De qualquer forma, A Cor Púrpura (The Color Purple, 85) é o seu primeiro grande desafio.


Em minha opinião, as habilidades de Spielberg como diretor, certamente ajudaram no resultado. Ele, como ninguém, sabe delimitar os planos da câmera, o timing e, sobretudo, quando quer e nisso ele é insuperável, dirigir atores e muitos deles inexperientes como a estreante e hoje popular apresentadora de TV, OPRAH WINFREY em uma interpretação surpreendente. Há críticos que afirmam que mesmo com sua habilidade em contar uma estória, o resultado acabou inferior, uma vez que seu talento para o humor (ele é ótimo nisso e tem uma série de filmes em que ele manipula as gags) e sua grande eficiência técnica em realizar produtos muito bem acabados não se ajustou a este tipo de conteúdo, que ele suavizou em relação ao livro. Discordo. E digo mais, todos exigem muito de um diretor como Spielberg, que em obras antes desta, quase nunca decepcionou (exceto com o mau êxito de bilheteria com a comédia pastelão 1941 – Uma Guerra Muito Louca, aliás, roteiro de seu amigo, o também diretor, Robert Zemeckis). O filme, além de tudo, é um registro de que ele aceita correr riscos e o fez lindamente. É um filme belíssimo, que tem o DNA Spielberg, mas é curioso, por exemplo, é o único que não tem composição do fiel amigo John Williams, no caso aqui é o também excelente QUINCY JONES que dispensa mais comentários. A fotografia é coisa de louco, impressionante realização do ótimo ALLEN DAVIAU que fotografou seus melhores filmes nos anos 80 (o único que não funcionou foi aquele projeto Twilight Zone-The Movie de 1983, inspirado na famosa série televisiva de Rod Serling, filme episódico que tinha vários diretores, além do mais, o do Spielberg era o mais fraco e este sim, excessivamente melodramático, ainda assim, bonitinho).



A cantora Tina Turner chegou a ser convidada para interpretar Shug Avery que acabou ficando com a ótima MARGARET AVERY, que tem uma das melhores sequências (musical) no filme. As filmagens ocorreram em Marshville, Carolina do Norte. E é uma adaptação que procurava ser bem fiel ao romance epistolar da premiada escritora afro-americana, Alice Walker, que trata de questões polêmicas como a discursiva discriminação racial e também o que diz respeito à sexualidade. Eis o único ponto fraco no filme, e até mesmo Spielberg admite que seu maior erro em dirigir a obra foi a sua falta de coragem em retratar o relacionamento homossexual tão evidente entre Celie e Shug. Na época das filmagens, Spielberg temia que a sexualidade manifestada entre as duas personagens principais afastaria o público, uma decisão que ele se arrepende profundamente. Se o filme evidenciasse, sem medo, a relação delas, enfim, seria a cereja no bolo. O que me incomoda, neste caso, é o jeito forçado de Spielberg na hora de aproximá-las quase que intimamente. Até mesmo numa das cenas mais importantes, quando Celie esta no quarto e finalmente tem acesso às cartas dos filhos e Shug, ao seu lado, se emociona. Ou mesmo quando elas estão brincando e dando selinhos!


À parte disto, o filme não chega a ser piegas e o que importa mesmo, acima de tudo, é o elenco. Assim como Winfrey e Avery, Spielberg obteve em seu filme desempenhos marcantes também de DANNY GLOVER vivendo um personagem detestável, machista e cruel com a heroína de todas as maneiras possíveis, mas em particular, quem se destaca definitivamente é a sensacional WHOOPI GOLDBERG e ela nem precisa ter muitos diálogos, já que suas emoções são transmitidas com aquele belo sorriso largo e olhar penetrante, solitário e triste. Muitos atores, neste caso, necessitariam de intermináveis monólogos para se exibirem, não é o caso de Whoopi, que mais tarde ganharia o seu Oscar fazendo comédia (em Ghost– Do Outro Lado Da Vida, 1990) e se tornaria estrela. Aliás, é preciso afirmar que os instintos de Spielberg com relação à Whoopi, se mostraram valiosos. Escalar uma desconhecida para um papel difícil foi uma bela sacada e que inicialmente, os produtores haviam escalado a também ótima Alfre Woodard, de inúmeros trabalhos, inclusive com Spike Lee, e indicada ao Oscar por seu desempenho em Retratos de Uma Realidade (Cross Crek, 1983 de Martin Ritt com Peter Cayote e Mary Steenburgen).


A trama se passa na Georgia no ano de 1906, numa pequena cidade rural. Celie (Goldberg), é uma jovem de apenas 14 anos, pobre, negra, e que de maneira aviltante, é violentada pelo próprio pai, e com isso, se torna mãe (e irmã) de duas crianças. Infelizmente, com os sucessivos abusos e gestação complicada, Celie não pode mais engravidar. Ela acaba sendo separada covardemente dos filhos e da única pessoa no mundo que a ama, sua irmã mais velha. Sem ninguém, ela acaba virando objeto, escrava (ainda naquele período, muito tempo depois da abolição) e sendo vendida para o inescrupuloso Albert (Glover) que se torna seu patrão e marido, a trata como se fosse lixo e parte de sua brutalidade para com ela, vem de uma forte e doentia paixão por Shug (Avery), uma sensual cantora de blues, mal falada em sua cidade natal e mulher independente. Celie vive na solidão, à espera de um milagre, fazendo todo o serviço doméstico e cuidando dos enteados mal-criados. Pensa, obviamente em tempo integral, nos filhos que estão crescendo longe dela. Com a chegada de Shug, Celie acaba compartilhando o seu drama com a mesma, que se comove e passa a ajudá-la, primeiramente, a enfrentar Albert, que a convidou para morar em sua casa. Celie, através de cartas, procura extravasar as suas emoções reprimidas em um mundo que ninguém a ouve. É religiosa e se comunica com Deus, mas, sobretudo, com sua irmã Nettie (a ótima AKOSUA BUSIA), missionária na África e que tem sob seus cuidados os sobrinhos! Celie, com o passar do tempo, irá encontrar forças com a ajuda de Shug e da forte Sofia (Winfrey), mulher com personalidade e esposa do enteado de Celie, Harpo (WILLARD E. PUGH) e assim, ela vai se revelar, capaz de tomar as rédeas de sua vida, ganhando consciência do seu valor como ser humano e descobrindo as inúmeras possibilidades que o mundo possa lhe oferecer.


Com uma premissa como esta, é o primeiro filme de Spielberg a receber tantas indicações da Academia, 11 no total: Diretor, Filme, Roteiro (Para MENNO MEYJES – que depois escreveria para o diretor, Indiana Jones E A Última Cruzada, 89), Atriz (Whoopi), Atrizes Coadjuvantes (Avery e Winfrey), Direção de Arte, Fotografia, Figurinos, Maquiagem, Música e Melhor Canção, “Miss Celie´s Blues” (para Quincy Jones, que além de tudo é o produtor do filme, Rod Temperton e o lendário Lionel Richie, que ganharia o Oscar pela canção “Say You, Say Me” para o filme O Sol Da Meia Noite, White Nights, também de 85, de Taylor Hackford. Na verdade, Richie competiu consigo mesmo e tinha todas as chances!).

Com muito mais qualidades do que defeitos, A Cor Púrpura é um filme que parecia impossível devido à fama de Spielberg que finalmente assume o seu primeiro filme para gente grande. Ainda fico pensando nas cenas que ele planejou em story-board, o que parecia inadequado para um enredo que no final das contas, emociona. Vou às lágrimas, sim! E qual é o problema?


EUA
1985
DRAMA
COR
154 min.
WARNER
        

WARNER BROS. PICTURES Apresenta
Uma produção Amblin Entertainment/ Guber-Peters Company
          UM FILME DE
     STEVEN SPIELBERG
The
Color
Purple
Estrelando: Danny Glover  Whoopi Goldberg  Margaret Avery
Oprah Winfrey   Willard Pugh  Akosua Busia  Desreta Jackson
Adolph Caesar  Rae Dawn Chong  Dana Ivey  Leonard Jackson
Bennet Guillory    John Patton Jr.  Carl Anderson  Susan Beaubian
Música Original de  Quincy Jones  
Fotografado por Allen Daviau  
Montagem Michael Kahn
Direção de Arte
J. Michael Riva    Bo Welch    Linda DeScenna
Figurinos por Aggie Guerard Rodgers
Produção Executiva Peter Guber & Jon Peters
Produção Associada Carol Isenberg
Produzido por
Quincy Jones   Steven Spielberg
Kathleen Kennedy   Frank Marshall
Roteiro de Menno Meyjes   Baseado no Livro de Alice Walker
Direção
Steven Spielberg

The Color Purple ©1985 Warner Bros./Amblin/Guber-Peters Co. 

4 comentários:

J. BRUNO disse...

"A Cor púrpura" é um dos meus favoritos dele, confesso, acho que tudo nele está na medida certa, deste o toque cômico até o drama sério vindo de questões bem contundentes. As atuações são memoráveis e a fotografia é belíssima!

Amanda Aouad disse...

Pois é, mais qualidade que defeitos e também me faz chorar, hehe. Tenho um carinho especial por esse filme e por Whoopi Goldberg por causa dele.

bjs

Patt Baleeira disse...

Olá Rô,

Acredita que assisti este filme em 88?
Obra Prima do Mestre e com a maravilhosa Whoopi.
Um filme 'redondinho' e muito bem produzido.
Não sei você..Mas, sou fã de locações ma Carolina do Norte e visualmente o filme é um deslumbre.

Excelente resenha!

beijo enormeeeeeeeee

Rodrigo Mendes disse...

Grato pelos comentários queridos!

Amamos este filme. Emoção faz parte da sessão e o tio Spielberg é muito bom nisso. Grande momento da carreira de Whoopi, Danny e Oprah!

Abraços.

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