quinta-feira, 30 de maio de 2013

120 DIAS DE SODOMA

ESCRAVOS DO PODER


Quatro libertinos fascistas sequestram 18 adolescentes para submetê-los a 120 dias de humilhações, tortura física, sexual e mental. Inspirado na obra do Marquês de Sade e direção de PIER PAOLO PASOLINI (1922-1975).



É difícil resenhar sobre este clássico chocante da sétima arte, um retrato cruel e imaginativo e não usar termos propriamente explícitos como “este filme é de foder” ou mesmo “ what the fuck que filme!”, seria um erro. Uma fita regida com maestria pelo poeta, pintor, novelista e cineasta Pasolini, de obras como: TEOREMA (Idem, 1968 com Silvana Mangano e Terence Stamp), ÉDIPO REI (Edipo Re, 1967), GAVIÕES E PASSARINHOS (Uccllacci e Uccellini, 1966) O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964 Um dos Melhores!) e ainda, cito um dos filmes de uma série de adaptações erotic classic como; AS MIL E UMA NOITES (Arabian Nights/ Il Fiore Delle e Uma Notte, 1974).

PASOLINI
Antes mesmo que Salò O le Centoventi Giornate Di Sodoma (1975) pudesse ser lançado, Pasolini, que era homossexual, foi assassinado por circunstâncias misteriosas, apesar de um jovem, garoto de programa, Giuseppe Pelosi, ter assumido o crime. Política ou latrocínio? Ainda é um mistério. Depois disso, o seu mais discursivo e polêmico filme passou a ser perseguido e proibido durante anos em muitos países, inclusive no Brasil.

Certamente “Salò...” esta no topo das listas de filmes que perturbam a mente do espectador para sempre. Sua visão é de total repugnância, mesmo sendo elegante em sua concepção (cenário e figurinos deslumbrantes). Portanto é difícil relacionar as cenas de nudez e sexo como algo prazeroso de se assistir porque pra quem ainda não o assistiu, prepare-se, a obra é destituída de qualquer gosto erótico e motivos não faltam para chocar a audiência, entre as inúmeras cenas aviltantes, Pasolini mostra, por exemplo, as vítimas degustando humilhantemente suas refeições com pratos cheios de fezes humanas, ou mesmo as sucessivas cenas de estupro explícito que não sai da minha memória toda vez que relembro. E, também a violência física sanguinolenta: olhos sendo arrancados, línguas sendo cortadas, mamilos e pênis sendo queimados, enfim, além da própria devassidão, pertinente ao criticar o regime fascista, seu abuso de poder e desigualdade que assolou a Itália naquele tempo, numa verdadeira orgia sangrenta. O filme é, de fato, um manifesto político que deixa cicatrizes de tortura até mesmo psicológica.

Antes de qualquer manifestação e ou/ citações detalhadas de minha parte, é preciso explicar o título original, Salò, que é basicamente onde a premissa é narrada, ou seja, em uma república em que Mussolini estabeleceu por pouco tempo sua última resistência no final da Segunda Guerra Mundial. É uma comunidade italiana, município, localizado na região de Lombardia, província de Brésnia. Foi um âmbito também apoiado por Hitler e o nazismo, nomeada também de República Social Italiana ou República de Salò. Portanto é neste cenário que Pasolini recria esta sua fantasia crítica que se inspira na inquietante obra literária clássica do Marquês de Sade (recomendo o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, Qualls, 2000, dirigido por Philip Kaufman, com roteiro baseado em peça de Dough Wright e estrelado por Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix e grande elenco. Mesmo que romanceada, é uma ótima oportunidade para conhecer a tão lendária e polêmica figura do Marquês). Na verdade, livro e filme são distantes pelo próprio tempo, cada qual num estilo crítico de sua época e se por um lado Sade era mais satírico, Pasolini choca com seriedade. Por exemplo, Sade conta a história de um grupo de ricos libertinos que resolvem experimentar o que chamariam de a definitiva gratificação sexual nas várias orgias praticadas por eles. Então, os malucos trancafiam por longos e intermináveis quatro meses num castelo isolado do mundo com um harém comportando 46 vítimas, obviamente para saciar suas perversões, menores de idade, adolescentes de ambos os sexos, assim como recrutam algumas prostitutas que contam a história de suas vidas e aventuras sexuais. Com isso, os agressores se estimulam para fazer o mesmo e até pior para com suas jovens vítimas que se submetem a diversas perversões numa escala gradualmente intensa e que culmina em assassinato. Pasolini baseia sua versão nesta espinha dorsal, mas ao contrário de Sade que escreveu em parte como um livro político, mas que, sobretudo tirava sarro das instituições da época (é claro que naquele século a dominante era a Igreja Católica), o filme aborda massivamente e agressivamente a dominação sado masoquista por assim dizer, do Fascismo Italiano. Assim sendo, são um grupo de jovens que acabam sofrendo torturas similares extraídas do livro de Sade só que por quatro principais fascistas durante o ano de 1944, isto é, quando o país estava sendo comandado ditatorialmente por Mussolini.


Em parte, o roteiro é escrito por memórias traumáticas de Pasolini, já que seu irmão foi morto por soldados fascistas em Salò. As cenas são realizadas friamente e o filme hipnotiza o espectador justamente por ser extremamente formal. Por mais que ofenda algumas pessoas e que escandalize, o filme tem o poder de fazer com que, pelo menos a maioria, resista até o final de sua sessão. Não houve intenção, segundo Pasolini, de caracterizar o perfil de cada personagem, não só as jovens vítimas, mas os libertinos são, também, figuras sem uma definição estabelecida. Isso se dá pelo fato de que eles não passam de seres com quase nenhuma personalidade, ou seja, são como “torturadores robóticos” que só querem fazer os outros sofrerem, pagarem caro pelo preço, digamos, revolucionário e rebelde contra o império fascista/nazista, embora os adolescentes sejam praticamente anônimos, tratados como meros pedaços de carnes que são “penetrados” de todas as formas possíveis. A impressão que me dá é que os personagens no filme são como pastores com suas ovelhas em seus respectivos rebanhos ou mesmo como os abatedouros de carne e seu gado num frigorífico. Pra mim é muito clara tal metáfora. Mas é claro que Pasolini teve a intenção de transformar o uso ilimitado do poder em degradações de todos os níveis fazendo menções ao próprio Fascismo. Provavelmente a violação sexual é ainda mais incômoda do que os atos de violência em si (até filmada com certa distância perto do clímax) e mesmo as escatologias humilhantes já citadas acima (a metáfora do capitalismo da comida, o consumo de massa, representado nas nojeiras comestíveis). 


Pasolini também provoca a igreja, visto que também era, assim como Sade, um ateu dos bons, assim já dá para imaginar todo o seu total anticlericalismo, também contra o catolicismo, visto que no filme, há, por exemplo, um bispo que é identificado como um dos libertinos além de, também, um jovem casal sendo adictos a uma maluca cerimônia matrimonial religiosa. Conseguem imaginar a “lua de mel” dos recém-casados?  Enfim, pra terminar, as cruéis cenas de assassinatos envolvendo estrangulamento e escalpe, são encenadas ao som de uma das obras musicais mais conhecidas do compositor alemão Carl Orff (1895-1982), Carmina Burona, e que me fizeram ter pesadelos! Isso porque se acreditava, Pasolini chega a ter absoluta certeza, do flerte que Orff tinha com o nazismo e conseguintemente o diretor considerava uma música fascista. Já a trilha/tema musical original é orquestrada pelo mestre Ennio Morricone.



Representado por um elenco de desconhecidos, aliás, outra marca registrada do cineasta que dirigia, na maioria das vezes, atores não profissionais, 120 DIAS DE SODOMA permanece como um dos filmes mais bem realizados sobre repugnância humana que se tem notícia ou em outras palavras é o avô deste segmento, uma obra cinematográfica, rara exceção, que consegue evitar a indução capciosa no espectador, acredite se quiser, um subgênero cult que automaticamente encontra o seu tipo de público.

Confesso que não sou um fã, apreciador, deste tipo de filme. Mas, se tratando do mestre PPP, bom, aí já são outros quinhentos.


ITÁLIA/FRANÇA
1975
DRAMA
116 min.
Edição Especial Première 145 min.
COR
METRO/CINEMAX/CRITERION
        



ALBERTO GRIMALDI
Apresenta
S A L Ò
O LE CENTOVENTI GIORNATE DI SODOMA
Um filme de
PIER PAOLO PASOLINI
Estrelando: PAOLO BONACELLI  GIORGIO CATALDI
UMBERTO PAOLO QUINTAVALLE  ALDO VALLETTI
CATERINA BORATTO  HÉLÈNE SURGÈRE  SONIA SAVIANGE
ELSA DE GIORGI  INES PELLEGRINI  RINALDO MISSAGLIA
GIUSEPPE PATRUNO  GUIDO GALLETTI  LAMBERTO BOOK
EFISIO ETZI  CLAUDIO TROCCOLI  FABRIZIO MENICHINI
Fotografado por TONINO DELLI COLLI
Música original por ENNIO MORRICONE
Montagem NINO BARAGLI  TATIANA CASINI MORIGI  ENZO OCONE
Cenografia DANTE FERRETI  Decoração de Set e Maquiagens OSVALDO DESIDERI
Figurinos por DANILO DONATI Cebelo por GIUSI BOVINO
Produzido por
ALBERTO DE STEFANIS  ANTONIO GIRASSANTE  & ALBERTO GRIMALDI
Escrito por PIER PAOLO PASOLINI Colaboração SERGIO CITTI  PUPI AVATI
Baseado na Obra “Les 120 Journées de Sodome”
Escrito por MARQUIS DE SADE
DIREÇÃO
PIER PAOLO PASOLINI
S A L Ò O LE CENTOVENTI GIORNATE DI SODOMA ©1975
PEAProduzione Europee Associati  
Uma Co-Produção: LES PRODUCTIONS ARTISTES ASSOCIÉS

8 comentários:

renatocinema disse...

Mestre dos mestres que merece muita reverência. Pena que a atual geração, em sua maioria, não conhece o diretor.


Parabéns.....

Não assisti a essa produção. Vou baixar urgente.

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado Renato. Pasolini era um mestre mesmo! Sabia contar uma narrativa com tudo que o cinema oferece para o diretor. Polêmico, não há dúvidas, mas um dos poucos que soube criticar o fascismo tão ferozmente.

Assista!

Abraço.

Paulo Telles disse...

Saudações Rodrigo, tudo jóia? ótima matéria sobre um dos filmes mais polêmicos do grande Mestre Pasolini. Show!!!

o FILMES ANTIGOS CLUB completá no próximo sábado, dia 8, 3 anos no ar. Será apresentada uma matéria especial de aniversário com menção honrosa para todos os amigos, colaboradores, e colegas de Blog Roll, entre os quais vc faz parte.

Abraços e êxito em seus projetos.

Paulo Telles.

Rodrigo Mendes disse...

Paulo: Saudações nobre amigo e colega do blog rall estarei lá apreciando e comentando seu artigo. Desde já, parabéns pelos 3 anos. O CR já tem 5!

Obrigado. Pasolini era um grande mestre, além de cineasta, multifacetado artista e crítico.

Abs.

Patricia Baleeira disse...

hoje, pela primeira vez vejo o blog do Rô em toda sua plenitude de cores!
Depois, de meses com meu PC velho, com tela monocromática e travando a todo momento...
Que delíciaaaaaaaaaa enxergar TUDO isso por aqui!
beijos e como sempre excelente resenha

Rodrigo Mendes disse...

Pati,
fico feliz com seus comentários... bom, creio que vc mudou de computador, certo? rs
Bjs.

Reinaldo Glioche disse...

Belo texto Rodrigo. Me lembro de quando vi esse filme pela primeira, e até o momento única vez, há pouco mais de dez anos em uma sessão noturna do então Telecine Classic. Assombrado,assisti a tudo sem desgrudar os olhos. Um delírio estético corajoso em um manifesto político ruidoso.
Abs

Rodrigo Mendes disse...

Reinado: Obrigado meu caro. Poxa 10 anos? Nessa época não tinha os Telecines! É assombroso mesmo, chocante, mas também uma obra contestadora maravilhosa. O filme nasceu com um propósito e não como muitos lixos pretensiosos por aí. PPP era um exímio cineasta além de ser um artista múltiplo fora das telas. Pena que morreu cedo, aquele crime foi um desperdício.

Abs.

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