Quatro
libertinos fascistas sequestram 18 adolescentes para submetê-los a 120 dias de
humilhações, tortura física, sexual e mental. Inspirado na obra do Marquês
de Sade e direção de PIER
PAOLO PASOLINI (1922-1975).
É difícil resenhar sobre este
clássico chocante da sétima arte, um retrato cruel e imaginativo e não usar
termos propriamente explícitos como “este filme é de foder” ou mesmo “ what the fuck que filme!”,
seria um erro. Uma fita regida com maestria pelo poeta, pintor, novelista e cineasta
Pasolini, de obras como: TEOREMA
(Idem, 1968 com Silvana Mangano e Terence
Stamp), ÉDIPO REI (Edipo Re,
1967), GAVIÕES
E PASSARINHOS (Uccllacci e Uccellini, 1966) O
EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964
Um dos Melhores!)
e ainda, cito um dos filmes de uma série de adaptações erotic classic como; AS MIL E UMA NOITES (Arabian Nights/
Il Fiore Delle e Uma Notte, 1974).
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| PASOLINI |
Antes mesmo que Salò O le Centoventi Giornate Di
Sodoma (1975) pudesse
ser lançado, Pasolini, que era homossexual, foi assassinado por circunstâncias
misteriosas, apesar de um jovem, garoto de programa, Giuseppe Pelosi, ter assumido o crime. Política ou latrocínio?
Ainda é um mistério. Depois disso, o seu mais discursivo e polêmico filme passou a ser
perseguido e proibido durante anos em muitos países, inclusive no Brasil.
Certamente “Salò...” esta no
topo das listas de filmes que perturbam a mente do espectador para sempre. Sua
visão é de total repugnância, mesmo sendo elegante em sua concepção (cenário e figurinos deslumbrantes). Portanto é difícil relacionar as cenas de nudez e
sexo como algo prazeroso de se assistir porque pra quem ainda não o assistiu,
prepare-se, a obra é destituída de qualquer gosto erótico e motivos não faltam
para chocar a audiência, entre as inúmeras cenas aviltantes, Pasolini mostra,
por exemplo, as vítimas degustando humilhantemente suas refeições com pratos
cheios de fezes humanas, ou mesmo as sucessivas cenas de estupro explícito que
não sai da minha memória toda vez que relembro. E, também a violência física
sanguinolenta: olhos sendo arrancados, línguas sendo cortadas, mamilos e pênis sendo queimados, enfim, além da própria devassidão, pertinente ao criticar o regime fascista, seu abuso de poder e desigualdade que assolou a Itália naquele tempo, numa
verdadeira orgia sangrenta. O filme é, de fato, um manifesto político que deixa
cicatrizes de tortura até mesmo psicológica.
Antes de qualquer manifestação
e ou/ citações detalhadas de minha parte, é preciso explicar o título original,
Salò, que é basicamente onde a
premissa é narrada, ou seja, em uma república em que Mussolini estabeleceu por
pouco tempo sua última resistência no final da Segunda Guerra Mundial. É uma
comunidade italiana, município, localizado na região de Lombardia, província de Brésnia.
Foi um âmbito também apoiado por Hitler e o nazismo, nomeada também de República Social Italiana ou República de Salò. Portanto é neste
cenário que Pasolini recria esta sua fantasia crítica que se inspira na
inquietante obra literária clássica do Marquês
de Sade (recomendo o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, Qualls,
2000, dirigido
por Philip Kaufman, com roteiro
baseado em peça de Dough Wright e
estrelado por Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix e grande elenco. Mesmo que romanceada, é uma ótima
oportunidade para conhecer a tão lendária e polêmica figura do Marquês). Na
verdade, livro e filme são distantes pelo próprio tempo, cada qual num estilo
crítico de sua época e se por um lado Sade era mais satírico, Pasolini choca
com seriedade. Por exemplo, Sade conta a história de um grupo de ricos
libertinos que resolvem experimentar o que chamariam de a definitiva gratificação sexual nas várias orgias praticadas por
eles. Então, os malucos trancafiam por longos e intermináveis quatro meses num
castelo isolado do mundo com um harém comportando 46 vítimas, obviamente para saciar
suas perversões, menores de idade, adolescentes de ambos os sexos, assim como
recrutam algumas prostitutas que contam a história de suas vidas e aventuras
sexuais. Com isso, os agressores se estimulam para fazer o mesmo e até pior para
com suas jovens vítimas que se submetem a diversas perversões numa escala
gradualmente intensa e que culmina em assassinato. Pasolini baseia sua versão
nesta espinha dorsal, mas ao contrário de Sade que escreveu em parte como um
livro político, mas que, sobretudo tirava sarro das instituições da época (é
claro que naquele século a dominante era a Igreja
Católica), o filme aborda massivamente e agressivamente a dominação sado masoquista por assim dizer, do Fascismo Italiano. Assim sendo, são um
grupo de jovens que acabam sofrendo torturas similares extraídas do livro de Sade
só que por quatro principais fascistas durante o ano de 1944, isto é, quando o
país estava sendo comandado ditatorialmente por Mussolini.
Em parte, o roteiro é escrito
por memórias traumáticas de Pasolini, já que seu irmão foi morto por soldados
fascistas em Salò. As cenas são realizadas
friamente e o filme hipnotiza o espectador justamente por ser extremamente
formal. Por mais que ofenda algumas pessoas e que escandalize, o filme tem o
poder de fazer com que, pelo menos a maioria, resista até o final de sua
sessão. Não houve intenção, segundo Pasolini, de caracterizar o perfil de cada
personagem, não só as jovens vítimas, mas os libertinos são, também, figuras
sem uma definição estabelecida. Isso se dá pelo fato de que eles não passam de seres
com quase nenhuma personalidade, ou seja, são como “torturadores robóticos” que só querem
fazer os outros sofrerem, pagarem caro pelo preço, digamos, revolucionário e rebelde
contra o império fascista/nazista, embora os adolescentes sejam praticamente anônimos,
tratados como meros pedaços de carnes que são “penetrados” de todas as formas
possíveis. A impressão que me dá é que os personagens no filme são como pastores
com suas ovelhas em seus respectivos rebanhos ou mesmo como os abatedouros de carne
e seu gado num frigorífico. Pra mim é muito clara tal metáfora. Mas é claro
que Pasolini teve a intenção de transformar o uso ilimitado do poder em
degradações de todos os níveis fazendo menções ao próprio Fascismo. Provavelmente a violação sexual é ainda mais incômoda do
que os atos de violência em si (até filmada com certa distância perto do clímax) e mesmo as escatologias humilhantes já citadas
acima (a metáfora do capitalismo da
comida, o consumo de massa, representado nas nojeiras comestíveis).
Pasolini também provoca a
igreja, visto que também era, assim como Sade, um ateu dos bons, assim já dá
para imaginar todo o seu total anticlericalismo, também contra o catolicismo,
visto que no filme, há, por exemplo, um bispo que é identificado como um dos
libertinos além de, também, um jovem casal sendo adictos a uma maluca cerimônia
matrimonial religiosa. Conseguem imaginar a “lua de mel” dos recém-casados? Enfim, pra terminar, as cruéis cenas de
assassinatos envolvendo estrangulamento e escalpe, são encenadas ao som de uma das obras
musicais mais conhecidas do compositor alemão Carl Orff (1895-1982), Carmina Burona, e que me fizeram ter pesadelos! Isso
porque se acreditava, Pasolini chega a ter absoluta certeza, do flerte que Orff
tinha com o nazismo e conseguintemente o diretor considerava uma música fascista. Já a trilha/tema musical original é orquestrada pelo mestre Ennio Morricone.
Representado por um elenco de
desconhecidos, aliás, outra marca registrada do cineasta que dirigia, na maioria das
vezes, atores não profissionais, 120
DIAS DE SODOMA
permanece como um dos filmes mais bem realizados sobre repugnância humana que
se tem notícia ou em outras palavras é o avô deste segmento, uma obra
cinematográfica, rara exceção, que consegue evitar a indução capciosa no espectador, acredite
se quiser, um subgênero cult que
automaticamente encontra o seu tipo de público.
Confesso que não sou um fã,
apreciador, deste tipo de filme. Mas, se tratando do mestre PPP, bom, aí já são outros quinhentos.
ITÁLIA/FRANÇA
1975
DRAMA
116 min.
Edição Especial Première 145
min.
COR
METRO/CINEMAX/CRITERION
★ ★ ★ ★
ALBERTO GRIMALDI
Apresenta
S
A L Ò
O
LE CENTOVENTI GIORNATE DI SODOMA
Um filme de
PIER
PAOLO PASOLINI
Estrelando: PAOLO
BONACELLI GIORGIO CATALDI
UMBERTO PAOLO
QUINTAVALLE ALDO VALLETTI
CATERINA BORATTO HÉLÈNE SURGÈRE SONIA SAVIANGE
ELSA DE GIORGI INES PELLEGRINI RINALDO MISSAGLIA
GIUSEPPE PATRUNO GUIDO GALLETTI LAMBERTO BOOK
EFISIO ETZI CLAUDIO TROCCOLI FABRIZIO MENICHINI
Fotografado por TONINO DELLI COLLI
Fotografado por TONINO DELLI COLLI
Música original por ENNIO
MORRICONE
Montagem NINO BARAGLI TATIANA CASINI MORIGI ENZO OCONE
Cenografia DANTE
FERRETI Decoração de Set e Maquiagens
OSVALDO DESIDERI
Figurinos por DANILO
DONATI Cebelo por GIUSI BOVINO
Produzido por
ALBERTO
DE STEFANIS ANTONIO GIRASSANTE & ALBERTO GRIMALDI
Escrito por PIER
PAOLO PASOLINI Colaboração SERGIO CITTI
PUPI AVATI
Baseado
na Obra “Les 120 Journées de Sodome”
Escrito por MARQUIS
DE SADE
DIREÇÃO
PIER
PAOLO PASOLINI
S
A L Ò O LE CENTOVENTI GIORNATE DI SODOMA ©1975
PEA – Produzione Europee Associati
Uma
Co-Produção: LES PRODUCTIONS ARTISTES
ASSOCIÉS












8 comentários:
Mestre dos mestres que merece muita reverência. Pena que a atual geração, em sua maioria, não conhece o diretor.
Parabéns.....
Não assisti a essa produção. Vou baixar urgente.
Obrigado Renato. Pasolini era um mestre mesmo! Sabia contar uma narrativa com tudo que o cinema oferece para o diretor. Polêmico, não há dúvidas, mas um dos poucos que soube criticar o fascismo tão ferozmente.
Assista!
Abraço.
Saudações Rodrigo, tudo jóia? ótima matéria sobre um dos filmes mais polêmicos do grande Mestre Pasolini. Show!!!
o FILMES ANTIGOS CLUB completá no próximo sábado, dia 8, 3 anos no ar. Será apresentada uma matéria especial de aniversário com menção honrosa para todos os amigos, colaboradores, e colegas de Blog Roll, entre os quais vc faz parte.
Abraços e êxito em seus projetos.
Paulo Telles.
Paulo: Saudações nobre amigo e colega do blog rall estarei lá apreciando e comentando seu artigo. Desde já, parabéns pelos 3 anos. O CR já tem 5!
Obrigado. Pasolini era um grande mestre, além de cineasta, multifacetado artista e crítico.
Abs.
hoje, pela primeira vez vejo o blog do Rô em toda sua plenitude de cores!
Depois, de meses com meu PC velho, com tela monocromática e travando a todo momento...
Que delíciaaaaaaaaaa enxergar TUDO isso por aqui!
beijos e como sempre excelente resenha
Pati,
fico feliz com seus comentários... bom, creio que vc mudou de computador, certo? rs
Bjs.
Belo texto Rodrigo. Me lembro de quando vi esse filme pela primeira, e até o momento única vez, há pouco mais de dez anos em uma sessão noturna do então Telecine Classic. Assombrado,assisti a tudo sem desgrudar os olhos. Um delírio estético corajoso em um manifesto político ruidoso.
Abs
Reinado: Obrigado meu caro. Poxa 10 anos? Nessa época não tinha os Telecines! É assombroso mesmo, chocante, mas também uma obra contestadora maravilhosa. O filme nasceu com um propósito e não como muitos lixos pretensiosos por aí. PPP era um exímio cineasta além de ser um artista múltiplo fora das telas. Pena que morreu cedo, aquele crime foi um desperdício.
Abs.
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