DESOVAR!
Três grandes amigos encontram o
colega de quarto morto e descobrem que o cara portava uma mala cheia de
dinheiro. Com isso, resolvem ocultar o cadáver para ficar com a grana.
Este é um dos grandes filmes cults ingleses dos anos 90 realizado
pela mesma equipe principal que se consagraria em 1996 com o ótimo TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (Indicado ao Oscar de Melhor
Roteiro Adaptado), isto é, a Figment
Films que traz o roteirista JOHN
HODGE, o produtor ANDREW MacDONALD,
o diretor DANNY BOYLE e o já
consagrado como astro desde então, EWAN
McGREGOR.
Entre todos os trabalhos da trupe britânica, certamente o meu
predileto é esta realista e absurda trama, um crime cheio de suspense e
assassinato no melhor estilo Hitchcock, que mostra muito bem as conseqüências
quando o dinheiro esta envolvido. COVA
RASA (Shallow Grave, 1994) continua
a ser mais discursivo que Trainspotting
e ainda mais impressionante do que qualquer outro filme de Boyle: POR
UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A Life Less Ordinary, 1997), A Praia (The Beach,
2000) e o
recente Em Transe (Trance, 2013), todos os roteiros idealizados
por Hodge. Obviamente que Boyle continuou insuperável dentro de seu estilo
videoclíptico e frenético com trilhas sonoras eletrônicas e agitadas em ótimos
exemplos como EXTERMÍNIO (28 Days Later, 2002) que praticamente reinventou de
maneira estimulante o subgênero de terror zumbi e, sobretudo no consagrado QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
(Slumdog Millionaire, 2008. Mostrando para o mundo um pouco da arte do cinema
de Bollywood e que mereceu ganhar o Oscar
principal e ainda continua fresco e empolgante nas revisões, embora
eu achasse que seria uma febre, daqueles filmes que fazem o maior sucesso e
depois desaparecem, não vai demorar a virar
cult também. Muitos ainda acham que é uma cópia de Cidade
De Deus de Fernando Meirelles. Eu prefiro pensar
que é uma inspiração).
Continuou impactante com o visualmente belo e chocante 127
HORAS (127 Hours, 2012.
Também nomeado para o Oscar) com James
Franco. Mas nada que seja comparável ao meu filme de cabeceira deste diretor. Na verdade, a fita é dirigida de forma muito simples, até mesmo o script
não chega a ser misterioso, até porque somos cúmplices dos três desde o início.
O mais legal mesmo são as reviravoltas, mesmo que esperadas, mas originalmente
inusitadas.
A premissa fala de três amigos:
McGregor, CHRISTOPHER ECCLESTON, o
certinho que se transforma no mais temido dos três (ator conhecido por alguns
filmes como Os Outros, com Nicole Kidman, além de Extermínio na qual Boyle lhe faz reprisar o mesmo estilo de papel, um homem que não evita a loucura em situações
extremas) e finalmente a feminina do trio, a ótima neozelandesa KERRY FOX, como Juliet, apesar de continuar na ativa como atriz (por exemplo, no
recente “O Brilho De Uma Paixão” de Jane
Campion, Bright Star, 2009) é mais conhecida mesmo por
este papel. Eles dividem um apartamento em Edimburgo
(a capital escocesa), mas, como são estagiários e estudantes, e como todo jovem
muito bem sabe, eles precisam de pelo menos mais alguém para arcar com as
despesas do apartamento. Portanto, o filme já inicia com eles, zoando,
demonstrando como tinham amizade e camaradagem, entrevistando as pessoas mais
improváveis (e gosto da maneira como Boyle monta essa sequência, ajudado pelo
colaborador MASAHIRO HIRAKUDO).
Finalmente, eles encontram o inquilino
perfeito, mesmo que tenha uma aparência um tanto sinistra e parecendo que esta
fugindo de alguém. O problema é que o cara morre no dia em que se mudou, por
overdose, deixando de “herança” uma mala repleta de dinheiro em seu quarto. E é
a partir deste fato que a vida dos três companheiros (ao ponto de Juliet ser tão amiga e descolada que não
se importava, por exemplo, de ficar nua na frente dos colegas, além de
participar ativamente das brincadeiras, sobretudo com Alex, um McGregor
extremamente imaturo e moleque) não será mais a mesma.
O slogan do filme já tem
a resposta: “Um assassinato e muito dinheiro podem abalar uma amizade?” É
assustador como o filme revela a moralidade humana e a troca de valores e
princípios básicos quando o poder do dinheiro chega para envenenar e corroer
tudo. A princípio, eles vivem na maior curtição, gastos aqui, ali, comendo em restaurantes
caros, diminuindo os outros em vista do poder aquisitivo, etc e tal, para
depois culminar em um clímax extremamente brutal.
Com a chegada de alguns
mafiosos procurando pelo dinheiro, depois de muita tortura e pancada, os três
são descobertos, mas acabam tendo que ocultar mais dois cadáveres. Tiveram que
repetir o que já tinham feito com o colega de quarto, ou seja, foram obrigados
a esquartejar os azarados bandidos para que os restos mortais pudessem caber na cova
improvisada, infelizmente rasa, o que prova que eles não passavam de um bando
de amadores, simplesmente pessoas normais, até boas, mas amaldiçoadas pelo
dinheiro, revelando-se capazes de tudo! Boyle recria uma comédia de erros, até
um pouco parecida com os filmes dos Irmãos
Coen. Porém, em seu estilo, sua violência gráfica parece não ser tão
chocante assim, o que demonstra a habilidade técnica de Boyle em enganar a
platéia. A gente olha mais não vê
algo que o valha nesse sentido.
Este é o primeiro filme de
Boyle com McGregor, revelado ao estrelato por ele, seguido por Trainspotting e Por Uma Vida Menos Ordinária. O detetive é interpretado por KEN SCOTT, ator veterano escocês que
ultimamente integra o elenco de anões na nova trilogia de Peter Jackson, O Hobbit, como Balin. Aliás, vejo que o personagem de Scott é o típico detetive
das fitas de Hitch, principalmente o tipo personificado por John Williams (Favor não confundir com o compositor, 1903-1983), em filmes como Ladrão de Casaca e Disque M Para Matar. Será alguma inspiração?
A Mãe de Ewan, Carol McGregor, faz uma rápida aparição
no filme como uma das supostas pessoas candidatas a vaga no apartamento. O
orçamento do filme era tão baixo, que o produtor MacDonald sugeriu leiloar
vários objetos, suportes, utilizados anteriormente em tomadas concluídas, a fim
de arrecadar mais dinheiro para assim poder finalizar a produção.
Boyle parece apreciar
personagens paranoicos que vivem em isolamento durante boa parte da trama,
desempenho lindamente surpreendente de Eccleston, que acaba tendo maior
destaque e utilizando-se do artifício narrativo, mas o papel havia sido
oferecido anteriormente para ROBERT
CARLYLE (de Ou Tudo Ou Nada, vilão em 007
O Mundo Não é o Bastante...),
como ele não pode fazer na época, Boyle guardou para ele o mesmo papel em outro
personagem, o Daffy de A Praia, que acaba por desencadear a
aventura de Leonardo DiCaprio.
A cor cenográfica do
apartamento baseou-se no conceito em pintura do quadro de Edward Hooper, Hotel Lobby.
Filmado em exatos 30 dias, este é o primeiro filme do ator, também da Escócia, Gary Lewis, numa ponta como outro entre
os candidatos ao aluguel do quarto. Ele é conhecido pelo papel do pai de Billy
Elliot na
dramédia musical de Stephen Daldry
em 2000 e também pelo épico de Scorsese;
Gangues
de Nova York (Gangs of New York, 2002).
Mas de todas as pequenas participações,
a mais impressionante é de fato do ótimo KEITH
ALLEN como o inquilino misterioso e que segundo Boyle, Allen seria uma
conexão entre este filme e Trainspotting,
já que lá ele interpreta um traficante de drogas e em ambos os filmes nos leva
a acreditar que ele é o mesmo personagem, até porque Trainspotting se passa por volta do final da década de 80, antes
das ocorrências em Cova Rasa, e que seu personagem teria encontrado o seu
destino, aliás, palmas para ele por ter conseguido passar a chocante impressão
de que ali deitado e completamente nu, estava um cadáver morto por overdose. Outra
semelhança com Trainspotting é uma
boneca que faz barulho e engatinha pelos cômodos que muito lembra o bebê que é
ignorado pela mãe drogada e acaba morrendo por desnutrição.
Cova Rasa é um belo exemplo do que o
dinheiro pode comprar. Recomendo na prateleira de todo cinéfilo.
REINO UNIDO
1994
SUSPENSE
COR
92 min.
NEW WAY
★ ★ ★ ★
film
four international em associação com the glasgow film found
apresentam um filme
figment
shallow grave
kerry
fox christopher eccleston ewan mcgregor
co-estrelando:
ken
scott keith allen colin mccredie
victoria
nairn gary lewis jean marie coffey peter mullan
música original simon boswell
fotografia brian
tufano
edição masahiro
hirakudo cenografia kave
quinn
desenhos de arte zoe macleod
figurinos Kate
carin
produtor executivo Allan Scott
produzido por andrew macdonald
escrito por John hodge
direção
danny boyle
shallow grave ©1994 Channel Four
Films/ The Glasgow Film Found/ Figment Films











7 comentários:
É um ótimo filme de Boyle, foi seu primeiro trabalho para o cinema e rapidamente chamou a atenção do público e da crítica.
Abraço
Para mim, ainda resiste como o melhor filme de Boyle. Seguido de muito perto por "Trainspotting". Essa questão da moralidade é maravilhosamente abordada pelo roteiro e Boyle demonstra um domínio cênico, para não falar do aspecto visual, surpreendente.
Não sabia dessa da mãe do McGregor. Sempre tem uma surpresinha para mim nos seus textos. rsrs
Abs
Hugo: Uma bela estréia Hugo!
Abs.
Reinaldo: adoro te surpreender nos meus posts com as curiosidades rs!
Concordo com você quanto ao filme em gênero, número e grau!
Abs.
Rô,
Sou fã de Boyle e McGregor!
Cova e Trainspotting, de longe os preferidos.Em Cova, tudo me encanta:mortes, cores, interpretações, o clima 'bucólico',rs.
Essa da mãe,rs.Também, fiquei surpresa!
beijos
Pati,
o clima bucólico é realmente fascinante!
Bjs.
Adoro esse filme, Ewan McGregor foi meu ator preferido durante minha adolescência. Por Uma Vida Menos Ordinária e O Principal Suspeito são meus filmes preferidos com ele.
Ótima Lembrança.
Abraços
Jeff.: somos dois! McGregor acabou fazendo parte de minha adolescência também, sobretudo com Star Wars, rs! "Por Uma Vida Menos Ordinária" é outro ótimo exemplar do Boyle!
Abração!
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