quarta-feira, 5 de junho de 2013

OS 39 DEGRAUS

SOBRE ALGEMAS, ASSASSINATO, TRENS, ESPIONAGEM, LOVE STORY

Se eu fosse me apresentar para um vlog (mas como sou tímido prefiro escrever) falando sobre este grande sucesso do mestre do suspense seria exatamente com tais palavras chave o chamariz para os acessos ao vídeo! Devo dizer que este filme é certamente um dos thrillers românticos mais cativantes e divertidos de Alfred Hitchcock em seu período inglês. 

Muitos afirmam que esta fita, lançada em 1935, foi o primeiro exemplo da excelência criativa do cineasta e o primeiro grande filme de toda a sua obra, em outras palavras, o mais bem-sucedido de público e crítica.  Seu 19º longa metragem é baseado em um romance famoso (adaptado diversas vezes para o palco) escrito por JOHN BUCHAN (1875-1940) e com roteiro adaptado por CHARLES BENNETT (1899-1995) que com Hitch já fez as duas versões de “O Homem Que Sabia Demais” além de “Correspondente Estrangeiro” (1940), “Sabotagem” (vide texto), “O Agente Secreto” (The Secret Agent, 1936) e Blackmail “Chantagem e Confissão (leia aqui). Os diálogos são lindamente acrescidos por IAN HAY (1876-1952) outro colaborador de Hitch nos primeiros filmes.

A premissa traz basicamente o elemento hichcockiano básico quando o espectador sabe que o protagonista é o homem errado, inocentemente acusado, perseguido ou até mesmo punido por um crime que não cometeu. The 39 Steps possui a fórmula narrativa que Hitchcock mais apreciava levando o herói inocente (e contra a vontade de uma loura que acaba se apaixonando por ele), a lugares inusitados onde ambos fazem de tudo para provar a verdade e fazer justiça. Seus filmes mais populares beberam nesta fonte posteriormente: INTRIGA INTERNACIONAL (1959 com Cary Grant) e principalmente aquele que é o seu primeiro filme inteiramente com atores americanos; SABOTADOR (Saboteur, 1942. Com Robert Cummings e Priscilla Lane em situações similares). A noção deste homem que não é culpado e é preso numa cilada é sem dúvida narrado de maneira mais aberta no tenso The Wrong Man – “O Homem Errado”, 1956, uma sombria trama policial estrelada por Henry Fonda.

Este primeiro exemplo típico de Hitchcock conta a história de Richard Hannay, interpretado lindamente pelo beijoqueiro ROBERT DONAT (1905-1958. que infelizmente morreu cedo deixando uma carreira prematura), um estrangeiro, canadense, que está passeando de férias na velha Inglaterra, e durante a viagem, acaba conhecendo uma mulher, assassinada misteriosamente (LUCIE MANNHEIM). Depois do fato, o cara se envolve naquela trama de espionagem que estamos habituados em se tratando de Hitch e acaba literalmente algemado a uma loura que não vai muito com a cara dele de início, Pamela, a notável MADELEINE CARROLL (1906-1987). Hitch vai temperando seu filme aos poucos e no meio de tantas confusões, com direito a um vilão que os perseguem, além da polícia, é claro, mas que durante o alívio cômico, o cineasta ainda acrescenta uma envolvente, romântica e bem conduzida história de amor. Ligados um ao outro, o casal fará de tudo para resolver o tal mistério nomeado de Os 39 Degraus e não irão desistir facilmente, pretendendo limpar o nome de Richard. Eis um filme que é o primeiro dentre muitos, contado de várias maneiras, sob o gênio de Hitchcock. Mas este aqui é quase uma versão britânica de Sabotador, eu diria.


Uma das técnicas sádicas de Hitchcock foi algemar Donat e Carroll durante várias horas e mentir dizendo que perdeu a chave, a fim de colocá-los no estado de espírito adequado para as situações a seguir, sobretudo na famosa cena em que o casal tem que correr juntinhos pelo campo e refugiando-se numa cachoeira. É fato comprovado que a atriz sofreu durante as filmagens ficando com verdadeiros vergões em seus pulsos ao longo dos dias.


A famosa aparição do diretor (cameo) acontece aqui depois de sete minutos iniciais, ele esta jogando alguma coisa na calçada e usando um chapéu, extremamente notável, na saída do Music Hall depois da confusão do espetáculo, na qual o público sai correndo em pânico e o personagem de Donat conhece a mulher misteriosa.


O filme tem várias marcas registradas do diretor como, por exemplo, o tal McGuffin, algo que é a força motriz da trama e que a platéia não precisa saber do que se trata e que aqui é um erro fatal de Hichcock por detalhar desnecessariamente num diálogo final através do personagem de WYLIE WATSON, Mr. Memory (Senhor Memória) explicando o que era os 39 degraus! Há também as famosas sequências em silêncio e que depois culmina em gradativos efeitos sonoros que fazem criar a antecipação para o suspense, quando a mocinha tira as algemas e sai do quarto na surdina e então ouve uma conversa a partir do topo de uma escadaria, enfim, artifícios constantemente presentes nos filmes de Hitch, aliás, apreciador do cinema mudo e sempre foi um mestre em explicar um acontecimento sem uso de diálogos, mesmo em seus filmes sonoros.
Um pouco de alívio cômico!
Como é de lei nos filmes do mestre o que mais importa para o público são os flertes entre os protagonistas. O pano de fundo com relação à espionagem é praticamente um engodo, mas o que enriquece, de fato, é a interação de Donat e Carroll que trazem uma química fantástica e já que estão literalmente presos, Hitch aproveita para fazer uma provocativa sátira matrimonial com diversas indiretas deliciosas e engraçadinhas entre o casal, o que me faz lembrar um pouco também de uma comédia lançada um ano antes pelo diretor americano Frank Capra, “Aconteceu Naquela Noite” (It Happened One Night, 1934) com Clark Gable e Claudette Colbert. [leia aqui] apesar de ser uma assumida comédia romântica sem resquício algum de suspense. No entanto, é nesta pausa para respirar (outra marca do diretor) que o filme muda o tom e fica ainda melhor. Por mais que seja considerado um expert em realizar suspenses, Hitchcock poderia ser classificado também como um dos melhores diretores capazes de criar a atmosfera perfeita para uma história de amor e esta hibridização em Os 39 Degraus é realmente tão improvável que o resultado acaba sendo surpreendente.


Com ritmo frenético, ação de gelar o sangue, situações inesperadas, diálogos pontuais (como é na maioria dos filmes ingleses, é de berço mesmo!), este clássico de Hitchcock cativa por sua forma inteligente de hipnotizar os espectadores gradativamente. E a metáfora de subir aos poucos degrau por degrau  também é perfeita aqui.


INGLATERRA  
1935
SUSPENSE
86 min.
PRETO E BRANCO
CRITERION/CONTINENTAL
         



Gaumount-British Picture Corporation LTD. Apresenta

ALFRED HITCHCOCK´S
Estrelando: ROBERT DONAT   MADELEINE CARROLL
LUCIE MANNHEIM  GODFREY TEARLE
PEGGY ASHCROFT  JOHN LAURIE
HELEN HAYE  FRANK CELLIER
WYLIE WATSON  GUS McNAUGHTON
JERRY VERNO  PEGGY SIMPSON
Fotografado por BERNARD KNOWLES
Música JACK BEAVER  LOUIS LEVY
Montagem.................... D.N. TWIST
Direção de Arte O. WERNDORFF  ALBERT JULLION
Departamento Artístico/ Artista do Cenário ALBERT WHITLOCK
Som............... A. BIRCH    
Efeitos Especiais JACK WHITEHEAD/PHILLIPPO GUIDOBALDI
Produção Associada IVOR MONTAGU   
Produzido por MICHAEL BALCON
Roteiro de CHARLES BENNETT Diálogos por IAN HAY
Continuidade ALMA REVILLE 
Baseado no Romance de JOHN BUCHAN
Dirigido por
ALFRED 
HITCHCOCK
THE 39 STEPS ©1935 Gaumont British Picture Corporation

3 comentários:

Unknown disse...

Ta aí um filme do Hitch que não assisti. Pela tua resenha, me parece um trabalho bem seminal. Tenho ele aqui faz algum tempo. Verei logo que tiver uma oportunidade. Falta uns 4 ou 5 filmes para completar todos os que assisti do Mestre.

Abração!

Wendell Marcel disse...

Tenho baixado no meu computador, e assim como dezenas de outros, está esperando ser assistido! O texto só incita mais ainda... :)

abraços

Jefferson C. Vendrame disse...

Bela Lembrança Rodrigo!
Os 39 Degraus é sem dúvida, ao lado de CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO E O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1934) um dos melhores momentos do mestre do suspense no cinema inglês. Tenho esse filme em VHS e ainda não o obtive em DVD. Por sinal a tempos que não o vejo...Gosto muito da interpretação de Robert Donat, no entanto, não simpatizo com Carroll...

Parabéns pelo texto e pelo ótimo Post.

Abração

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