SOBRE ALGEMAS, ASSASSINATO, TRENS, ESPIONAGEM, LOVE STORY
Se eu fosse me apresentar para
um vlog (mas como sou tímido prefiro
escrever) falando sobre este grande sucesso do mestre do suspense seria
exatamente com tais palavras chave o
chamariz para os acessos ao vídeo! Devo dizer que este filme é certamente um
dos thrillers românticos mais
cativantes e divertidos de Alfred Hitchcock
em seu período inglês.
Muitos afirmam que esta fita, lançada em 1935, foi o
primeiro exemplo da excelência criativa do cineasta e o primeiro grande filme
de toda a sua obra, em outras palavras, o mais bem-sucedido de público e
crítica. Seu 19º longa metragem é
baseado em um romance famoso (adaptado diversas vezes para o palco) escrito por
JOHN BUCHAN (1875-1940) e com
roteiro adaptado por CHARLES BENNETT
(1899-1995) que com Hitch já fez as duas versões de “O
Homem Que Sabia Demais” além de “Correspondente
Estrangeiro”
(1940), “Sabotagem” (vide texto), “O
Agente Secreto”
(The
Secret Agent,
1936) e Blackmail “Chantagem e Confissão” (leia aqui). Os diálogos são
lindamente acrescidos por IAN HAY
(1876-1952) outro colaborador de Hitch nos primeiros filmes.
A premissa traz basicamente o
elemento hichcockiano básico quando o espectador sabe que o protagonista é o
homem errado, inocentemente acusado, perseguido ou até mesmo punido por um
crime que não cometeu. The 39 Steps possui a
fórmula narrativa que Hitchcock mais apreciava levando o herói inocente (e contra a vontade de uma loura que acaba se apaixonando por ele), a lugares inusitados
onde ambos fazem de tudo para provar a verdade e fazer justiça. Seus filmes
mais populares beberam nesta fonte posteriormente: INTRIGA INTERNACIONAL (1959 com Cary Grant) e principalmente aquele que é o seu primeiro filme inteiramente com
atores americanos; SABOTADOR (Saboteur, 1942. Com Robert
Cummings e Priscilla Lane em
situações similares). A noção deste homem que não é culpado e é preso numa
cilada é sem dúvida narrado de maneira mais aberta no tenso The Wrong Man – “O Homem Errado”,
1956, uma sombria trama policial estrelada por Henry Fonda.
Este primeiro exemplo típico de
Hitchcock conta a história de Richard
Hannay, interpretado lindamente pelo beijoqueiro ROBERT
DONAT (1905-1958. que infelizmente morreu cedo deixando uma carreira
prematura), um estrangeiro, canadense, que está passeando de férias na velha
Inglaterra, e durante a viagem, acaba conhecendo uma mulher, assassinada
misteriosamente (LUCIE MANNHEIM). Depois
do fato, o cara se envolve naquela trama de espionagem que estamos habituados em se tratando de Hitch e acaba literalmente algemado a uma loura que não vai
muito com a cara dele de início, Pamela,
a notável MADELEINE CARROLL
(1906-1987). Hitch vai temperando seu filme aos poucos e no meio de tantas
confusões, com direito a um vilão que os perseguem, além da polícia, é claro, mas
que durante o alívio cômico, o cineasta ainda acrescenta uma envolvente, romântica
e bem conduzida história de amor. Ligados
um ao outro, o casal fará de tudo para resolver o tal mistério nomeado de Os 39 Degraus e não irão desistir facilmente, pretendendo limpar o nome de Richard. Eis um filme que é o primeiro dentre muitos, contado
de várias maneiras, sob o gênio de Hitchcock. Mas este aqui é quase uma versão britânica de Sabotador, eu diria.
Uma das técnicas sádicas de Hitchcock
foi algemar Donat e Carroll durante várias horas e mentir dizendo que perdeu a
chave, a fim de colocá-los no estado de espírito adequado para as situações a
seguir, sobretudo na famosa cena em que o casal tem que correr juntinhos pelo
campo e refugiando-se numa cachoeira. É fato comprovado que a atriz sofreu durante as filmagens ficando com
verdadeiros vergões em seus pulsos ao longo dos dias.
A famosa aparição do diretor (cameo) acontece aqui depois de sete
minutos iniciais, ele esta jogando alguma coisa na calçada e usando um chapéu, extremamente
notável, na saída do Music Hall
depois da confusão do espetáculo, na qual o público sai correndo em pânico e o
personagem de Donat conhece a mulher misteriosa.
O filme tem várias marcas
registradas do diretor como, por exemplo, o tal McGuffin, algo que é a força motriz da trama e que a platéia não
precisa saber do que se trata e que aqui é um erro fatal de Hichcock por detalhar desnecessariamente num diálogo final através do personagem de WYLIE WATSON, Mr. Memory
(Senhor Memória) explicando o que era os 39 degraus! Há também as famosas sequências em silêncio e que depois culmina em gradativos efeitos sonoros que fazem criar a
antecipação para o suspense, quando a mocinha tira as algemas e sai do quarto na surdina e então ouve uma conversa a partir do
topo de uma escadaria, enfim, artifícios constantemente presentes nos filmes de
Hitch, aliás, apreciador do cinema mudo e sempre foi um mestre em explicar um acontecimento sem uso de diálogos, mesmo em seus filmes sonoros.
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| Um pouco de alívio cômico! |
Como é de lei nos filmes do
mestre o que mais importa para o público são os flertes entre os protagonistas.
O pano de fundo com relação à espionagem é praticamente um engodo, mas o que
enriquece, de fato, é a interação de Donat e Carroll que trazem uma química
fantástica e já que estão literalmente presos, Hitch aproveita para fazer uma
provocativa sátira matrimonial com diversas indiretas deliciosas e
engraçadinhas entre o casal, o que me faz lembrar um pouco também de uma
comédia lançada um ano antes pelo diretor americano Frank Capra, “Aconteceu Naquela Noite” (It Happened
One Night, 1934)
com Clark Gable e Claudette Colbert. [leia aqui] apesar de ser uma
assumida comédia romântica sem resquício algum de suspense. No entanto, é nesta
pausa para respirar (outra marca do diretor) que o filme muda o tom e fica
ainda melhor. Por mais que seja considerado um expert em realizar suspenses, Hitchcock poderia ser classificado
também como um dos melhores diretores capazes de criar a atmosfera perfeita
para uma história de amor e esta hibridização em Os 39 Degraus é realmente tão improvável que
o resultado acaba sendo surpreendente.
Com ritmo frenético, ação de
gelar o sangue, situações inesperadas, diálogos pontuais (como é na maioria dos
filmes ingleses, é de berço mesmo!), este clássico de Hitchcock cativa por sua forma inteligente de hipnotizar os espectadores
gradativamente. E a metáfora de subir aos poucos degrau por degrau também é perfeita aqui.
INGLATERRA
1935
SUSPENSE
86 min.
PRETO E BRANCO
CRITERION/CONTINENTAL
★ ★ ★ ★
Gaumount-British Picture Corporation LTD. Apresenta
ALFRED HITCHCOCK´S
Estrelando: ROBERT
DONAT MADELEINE CARROLL
LUCIE
MANNHEIM GODFREY TEARLE
PEGGY
ASHCROFT JOHN LAURIE
HELEN
HAYE FRANK CELLIER
WYLIE
WATSON GUS McNAUGHTON
JERRY
VERNO PEGGY SIMPSON
Fotografado por BERNARD KNOWLES
Música JACK BEAVER LOUIS LEVY
Montagem.................... D.N. TWIST
Direção de Arte O. WERNDORFF ALBERT JULLION
Departamento Artístico/ Artista do Cenário ALBERT WHITLOCK
Som............... A. BIRCH
Efeitos Especiais JACK
WHITEHEAD/PHILLIPPO GUIDOBALDI
Produção Associada IVOR MONTAGU
Produzido por MICHAEL BALCON
Roteiro de CHARLES BENNETT Diálogos por IAN HAY
Continuidade ALMA REVILLE
Baseado no Romance de JOHN BUCHAN
Dirigido por
ALFRED
HITCHCOCK
THE 39 STEPS ©1935 Gaumont
British Picture Corporation











3 comentários:
Ta aí um filme do Hitch que não assisti. Pela tua resenha, me parece um trabalho bem seminal. Tenho ele aqui faz algum tempo. Verei logo que tiver uma oportunidade. Falta uns 4 ou 5 filmes para completar todos os que assisti do Mestre.
Abração!
Tenho baixado no meu computador, e assim como dezenas de outros, está esperando ser assistido! O texto só incita mais ainda... :)
abraços
Bela Lembrança Rodrigo!
Os 39 Degraus é sem dúvida, ao lado de CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO E O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1934) um dos melhores momentos do mestre do suspense no cinema inglês. Tenho esse filme em VHS e ainda não o obtive em DVD. Por sinal a tempos que não o vejo...Gosto muito da interpretação de Robert Donat, no entanto, não simpatizo com Carroll...
Parabéns pelo texto e pelo ótimo Post.
Abração
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