sábado, 6 de julho de 2013

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

CORDEIROS E MARIPOSAS



Uma jovem cadete do F.B.I é recrutada para uma importante missão, confiar em um assassino canibal, cruel e manipulador para receber informações preciosas e capturar um outro serial killer que esta na ativa fazendo novas vítimas.

A primeira coisa que mais me chamou atenção ao conhecer este filme pela primeira vez, na época apenas um jovem curioso que nem sequer conhecia muito bem o gênero, foi de fato a capa, na qual uma exótica mariposa cobre a boca de uma mulher. Tratava-se de um inseto que recebe a alcunha de “Mariposa Da Morte” que é originária da África e das Ilhas Canárias e migrou pelos países mediterrâneos, Europa e Reino Unido, ainda assim, um tanto raras. Descobri que esses bichinhos não são encontrados no inverno, já que não suportam temperaturas abaixo de zero. Essas mariposas possuem um desenho misterioso e incomum, detalhe que mais me chamou a atenção outrora, algo que se assemelham a uma caveira em seu dorso na região do tórax do animal, estes sphingídeos, segundo o nome científico mais precisamente. Essa espécie é associada a superstições. Portanto, é motivo suficiente de inspiração quando é utilizado como força motriz e também simbólica deste grande clássico dos thrillers policiais, O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The Silence Of The Lambs, 1991) dirigido magistralmente por Jonathan Demme até então diretor de comédias como em DE CASO COM A MÁFIA (Married to the Mob, 1988) experimentando em um território diferente no âmbito do suspense policial e para tanto se baseando num dos livros mais vendidos de Thomas Harris. Assim, a mariposa tem um papel importante na premissa quando é uma pista vital do assassino que deixa como rastro de seus crimes, pupas ou casulos e uma delas localizada presa na garganta da vítima. No famoso pôster do filme, o curioso é que o desenho mórbido, a qual a mariposa da morte ganhou destaque, a tal ‘caveira’, nada mais é do que mulheres nuas, deitadas em quietude plena. Uma associação ao silêncio do post mortem das vítimas e que curiosamente é uma inspiração de uma fotografia surrealista criada por Salvador Dalí datado de 1939. Isso explicaria tudo, e de forma brilhante, o significado do filme. Por outro lado, com relação ao título “O Silêncio Dos Cordeiros”, literalmente, refere-se a um trauma de infância da heroína que tem que enfrentar as manipulações psicológicas e até sexuais de um assassino ainda mais maquiavélico.


Foi o terceiro filme de toda a história da Academia a ganhar os cinco principais prêmios Oscar (Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro. Indicado para Edição e Som), isso depois de alguns anos, sendo os outros: Aconteceu Naquela Noite, 1935, de Frank Capra e Um Estranho No Ninho, 1975, de Milos Forman. Só que teve a distinção de ser, de fato, o primeiro filme de suspense/horror/terror (dentro desta ideia de gênero) a ganhar o Oscar de Melhor Filme. E não poderia ser mais merecedor. Faz parte de uma saga na qual o personagem Hannibal Lecter assumiu vida própria e marcou definitivamente a carreira do grande mito ANTHONY HOPKINS, outro merecedor do Oscar. O personagem apareceria posteriormente em mais alguns filmes sempre estrelados por Hopkins. Primeiramente no decepcionante e sanguinolento sem classe Hannibal (Idem, 2001) dirigido por Ridley Scott e co-estrelado por Julianne Morre como Clarice e no mais interessante prólogo Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002. Leia aqui) com direção astuta de Brett Ratner e co-estrelado por Edward Norton no papel de outro detetive, mais experiente e que prendeu Lecter, e que vai até ele obter informações de outro assassino, também baseado em livro anterior do mesmo universo escrito por Harris e que também inspirou o filme Manhunter – outra versão de Dragão Vermelho de 1986 dirigida mais sofisticadamente ainda por Michael Mann.

Hopkins e o diretor Demme descontraindo no set
Algumas celebridades foram cotadas para viver Hannibal. Originalmente oferecido primeiro para Jeremy Irons que estava muito cotado, mas quando o mesmo recusou, outros entraram para a lista, incluindo o lendário Jack Nicholson (ficaria interessante e notável), Robert Duvall, John Hurt e Robert De Niro. Jack Crawford que acabou sendo interpretado distintamente por SCOTT GLENN foi oferecido anteriormente para Michael Keaton, Mickey Rourke (em seus bons tempos) e Kenneth Branagh. No caso de Starling, Michelle Pfeiffer era a escolha ideal e estava até mesmo envolvida na pré-produção, mas no final, JODIE FOSTER assumiu o papel e a tornou única com toda a sua fragilidade e dedicação e que mesmo cometendo alguns erros, tem coragem e garra suficiente para resolver o caso mesmo que sua ambição desenfreada seja um ponto negativo até mesmo na hora de sacar a arma para o vilão antes do tempo. Foster sabe imprimir, além de tudo, uma mulher que não tem uma vida social, criticada constantemente por Hannibal pelo fato de ser um pouco “caipira”, com roupas um tanto desleixadas, mas que nem por isso, deixa de ser menos atraente e interessante ao ponto de ser o centro das atenções não apenas em um hospício gótico para loucos masturbadores. Sua Clarice é uma feminina no meio de um bando de machistas policiais que a devoram com os olhos, constrangendo-a. Não pelo fato de ser jovem e recruta cadete em treinamento para o F.B.I. (que já tem um alto nível de reputação como polícia), mas por ser, de fato, mulher.



Hannibal, assim como Norman Bates, foi inspirado em Ed Gein, mas também em outro assassino em série, Albert Fish. Hopkins descreve sua voz no personagem como uma hibridização de Truman Capote e Katharine Hepburn e provavelmente, a cena mais antológica é no famoso diálogo de fazer gelar a espinha, quando o monstro, mesmo através de um vidro, olha para a heroína com um olhar lunático e diz em tom ameaçador e ao mesmo tempo jocoso: “Um recenseador uma vez tentou me testar. Eu comi o fígado dele com grãos de ervilha e um bom chianti.” Brilhantemente escrito por TED TALLY, o script é uma obra prima e ajuda Hopkins e Foster a evidenciar suas atuações soberbas. Certamente impressionantes tours de force, a química da dupla chega a nos arrepiar, excitar e até mesmo emocionar. Nunca que um filme de horror havia causado tanta verve de sentimentos numa só vez.


Demme aparece rapidamente, aliás, já atuou como ator no passado, com um boné azul, bem no final do filme. Outra aparição especial é do famoso Roger Corman, grande amigo de Demme, e que havia começado sua carreira como diretor de cinema em sua famosa companhia independente, New World Pictures, onde também se destacou outros ilustres cineastas como James Cameron. O diretor George A. Romero também faz uma ponta, mas não creditada, como um dos agentes do F.B.I. em Memphis. Outro fato curioso e que descobri que se trata de uma superstição do diretor, é utilizar no final de todos os créditos de seus filmes a palavra “A Luta Continua”, assim mesmo em português! Sabe-se que o diretor viveu um bom tempo no Brasil e sua produtora chama-se “Clinica Estético” (estreando com o sucesso seguinte, FILADÉLFIA, 1993). Como a frase é simbólica, acho que explica o seu sucesso. A consagração foi tamanha que o filme é amplamente considerado até nos dias de hoje como o melhor filme da categoria terror, é claro que depois de O Exorcista (leia aqui), 1973, de William Friedkin que continua imbatível.


Da prisão subterrânea, Lecter (Hopkins) faz um toma lá da cá com a estagiária agente investigativa Clarice Starling (Foster) que trabalha para o tão cobiçado  F.B.I e sua avidez de querer resolver o caso permite que ela fique intimamente ligada a Hannibal que inteligentemente não só evita entregar de bandeja todas as informações que almejam, mas para obter alguma vantagem pessoal (a principal seria poder ser transferido para outra cela e se livrar do diretor daquela prisão Chilton, Anthony Heald), não só isso, mas em troca, Clarice tem que ser afável aos truques do psiquiatra canibal que faz com que a moça desenterre seu passado e comece a falar de sua infância complicada, órfã aos dez anos, e defensora dos fracos e oprimidos devido ao fato de ter um trauma relacionado a cordeiros que tentou salvar de um abatedouro, sons que ecoam em sua mente desde então. A trama não permite digressões líricas dos cordeiros em si (Lambs), o que vemos é Clarice retornando ao tempo na época em que seu pai era policial e a sombra de rever o dia de seu funeral, tragicamente morto em serviço. Assim sendo, Lecter se apropria destas informações e fica extremamente tocado por ela, à sua maneira. A trata como uma paciente em seu consultório. Nada mais. Sua vantagem é que ela estará segura após a fuga sangrenta do maníaco comedor de gente, já que seria deselegante da parte do médico querer machucá-la. Lecter é louco o suficiente para manter certo código de conduta moral de educação para aqueles que mereçam. Mas o tempo urge e Clarice esta correndo a todo vapor a fim de encontrar a recente vítima, Catherine Martin (Brooke Smith) filha de uma influente senadora, interpretada por Diane Baker. A pobrezinha esta sofrendo presa num poço escuro e praticamente enlouquecendo. Ela é a próxima vítima deste discursivo assassino em série que recebe a alcunha de Buffalo Bill, vivido de maneira surreal e assustadora por TED LEVINE (vide abaixo).


O cara é um transexual maluco, por assim dizer (sem querer ofender homossexuais e trans) e cobiça a pele das mulheres que seguem um padrão de tamanho. Todas são um tanto gordinhas e rechonchudas a ponto dele arrancar suas cútis e costurá-las. Insanamente deseja criar uma “roupa” para seu novo corpo em transformação! Enfim, é um show de horrores e Levine tem uma cena marcante dançando e escondendo seu sexo! Demme não é tão explícito assim e nas revisões o filme não chega a chocar mais. Em minha opinião, a fita sabe criar um clima maior de suspense sem a necessidade de criar diversas cenas gráficas e sem sentido, que destoa a magia de um bom policial investigativo.


A máscara de Hannibal Lecter é outro aperitivo. O olhar de Hopkins é medonho. Me fez ter pesadelos da primeira vez que assisti, hoje, de boa (Risos).


O Silêncio dos Inocentes é um filme seminal. Um labirinto sombrio da psique humana. Tudo é de muito bom gosto.




EUA
1991
SUSPENSE/POLICIAL/TERROR/DRAMA
COR
118 min.
METRO/ORION/FOX
           


UM FILME DE JONATHAN DEMME  
JODIE FOSTER   ANTHONY HOPKINS   SCOTT GLENN
THE SILENCE OF THE LAMBS
TED LEVINE   ANTHONY HEALD   KASI LEMMONS  
BROOKE SMITH   DIANE BAKER
CHARLES NAPIER   TRACEY WALTER   DAN BUTLER 
 ROGER CORMAN   FRANKIE FAISON
Música de HOWARD SHORE   Desenhista de Produção KRISTI ZEA
Direção de Fotografia TAK FUGIMOTO 
Edição CRAIG MCKAY, A.C.E
Figurinos COLLEEN ATWOOD   Elenco por HOWARD FEUER
Produtor Executivo GARY GOETZMAN   
Baseado no Livro de THOMAS HARRIS
Roteiro de TED TALLY  
Produzido por KENNETH UTT  EDWARD SAXON  RON BOZMAN
Dirigido por JONATHAN DEMME
THE SILENCE OF THE LAMBS ©1991 ORION Pictures Corporation
 Strong Heart/Demme Production

6 comentários:

Amanda Aouad disse...

Ótimo texto, Rodrigo. Silêncio dos Inocentes é mesmo um filme incrível. Destaco as atuações dos protagonistas, o roteiro e aquela montagem do clímax.

bjs

Reinaldo Glioche disse...

Bravo! E que abertura de texto genial! Essa sacada da Mariposa aferiu ao seu texto o mesmo clima de apreensão e fascinação que marca o filme. Gostei da forma como vc foid esbravando o vasto conteúdo cinéfilo que remete a esse grande clássico do cinema.
E olha, para mim, a competição com "O exorcista" é pau a pau viu!rsrs
Abs

Patricia Baleeira disse...

Texto excelente, marcante, inspirador sobre um filme 'apaixonante'.
O que mais gosto em seus textos:
- Comparações;
- Curiosidades;
- Originalidade e essa paixão escancarada pela nossa sétima arte.

Novamente(e sempre) Parabéns, meu amigo!

Quando puder leia(sabe que o nosso lance ali é 'outro' né? rs)
Acho que ficou bom...
http://cinefilosunivos.blogspot.com.br/2013/03/the-silence-of-lambs.html

Rodrigo Mendes disse...

Amanda: Obrigado. O clímax é mesmo de gelar o sangue.
Bjs.

Reinaldo: Obrigado meu caro!
Eu sei que você não considera O Exorcista muito assustador mas nem por isso um grande filme. O Silêncio é até melhor que o clássico da Warner se formor olhar muitos aspectos, embora as temáticas sejam completamente opostas, mas eis dois grandes filmes do campo do terror. Eu esqueci de mencionar no texto "O Iluminado" do Kubrick, esse tb é uma obra-prima do gênero, assim como "O Bebê de Rosemary" do Polanski.

Abs.

Patricia: Obrigadão querida! Eu ki o texto do Cinéfilos Uni-vos e deixei comentário. Gostei muito e tb o Roni traçou ótimas curiosidades enriquecedoras.

Besos!

Elton Telles disse...

Excelente texto, caro Rodrigo!
Eu não sabia que Romero tinha uma ponta não-creditada neste filme. Eu, que sou uma tiete do diretor, só vim descobrir isso lendo seu texto.
"O Silêncio dos Inocentes" é uma obra-prima mesmo, não há dúvidas. Tudo muito perfeito e de bom gosto. Como você bem descreve, há cenas do embate entre policial e criminoso que emociona e faz gelar a espinha. Quando ele pergunta a ela se os cordeiros pararam de gritar, pqp!
Roteiro maravilhoso, elenco perfeito, mas eu destaco muito a direção hipnótica e linda de Jonathan Demme, um trabalho magistralmente calculado que faz toda a diferença para o conto ficar ainda mais aterrador.

Este é um dos meus filmes favoritos a levar um Oscar de Melhor Filme entre todo o histórico da Academia e, certamente, um dos grandes filmes do século XX. Brilhante, brilhante.

Abs!

Anônimo disse...

Cara, adoro esse filme.
Acerca de sua postagem, destaco esse trecho: "dirigida mais sofisticadamente ainda por Michael Mann". Pois é. Porque aquela segunda adaptação com Edward Norton, para mim, é um lixo.
Ah, e recomendo TED LEVINE em Monk! Série de humor que adorei do começo ao fim.
Já fiz uma breve comparação entre o filme o romance que o inspirou, aqui: http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/2013/04/o-silencio-dos-inocentes-romance.html
Abraços!

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