CORDEIROS E MARIPOSAS


Uma
jovem cadete do F.B.I é recrutada para uma importante missão, confiar em um
assassino canibal, cruel e manipulador para receber informações preciosas e
capturar um outro serial killer que esta na ativa fazendo novas vítimas.
A primeira coisa que mais me chamou
atenção ao conhecer este filme pela primeira vez, na época apenas um jovem
curioso que nem sequer conhecia muito bem o gênero, foi de fato a capa, na qual
uma exótica mariposa cobre a boca de uma mulher. Tratava-se de um inseto que
recebe a alcunha de “Mariposa Da Morte” que é originária da África e das Ilhas
Canárias e migrou pelos países mediterrâneos, Europa e Reino Unido, ainda
assim, um tanto raras. Descobri que esses bichinhos não são encontrados no
inverno, já que não suportam temperaturas abaixo de zero. Essas mariposas
possuem um desenho misterioso e incomum, detalhe que mais me chamou a atenção
outrora, algo que se assemelham a uma caveira em seu dorso na região do tórax
do animal, estes sphingídeos,
segundo o nome científico mais precisamente. Essa espécie é associada a
superstições. Portanto, é motivo suficiente de inspiração quando é utilizado
como força motriz e também simbólica deste grande clássico dos thrillers policiais, O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The Silence Of The
Lambs, 1991) dirigido magistralmente por Jonathan Demme até então diretor de comédias como em DE CASO COM A MÁFIA (Married to the Mob,
1988) experimentando em um território diferente no âmbito do suspense policial
e para tanto se baseando num dos livros mais vendidos de Thomas Harris. Assim, a mariposa tem um papel
importante na premissa quando é uma pista vital do assassino que deixa como
rastro de seus crimes, pupas ou casulos e uma delas localizada presa na
garganta da vítima. No famoso pôster do filme, o curioso é que o desenho
mórbido, a qual a mariposa da morte ganhou destaque, a tal ‘caveira’, nada mais
é do que mulheres nuas, deitadas em quietude plena. Uma associação ao silêncio
do post mortem das vítimas e que curiosamente é uma
inspiração de uma fotografia surrealista criada por Salvador Dalí datado de 1939. Isso explicaria tudo,
e de forma brilhante, o significado do filme. Por outro lado, com relação ao
título “O Silêncio Dos Cordeiros”, literalmente, refere-se a um trauma
de infância da heroína que tem que enfrentar as manipulações psicológicas e até
sexuais de um assassino ainda mais maquiavélico.
Foi o terceiro filme de toda a história da Academia a ganhar
os cinco principais prêmios Oscar (Filme, Diretor, Ator, Atriz e
Roteiro. Indicado para Edição e Som), isso depois de alguns anos, sendo os
outros: Aconteceu Naquela
Noite, 1935, de Frank
Capra e Um Estranho No Ninho,
1975, de Milos Forman. Só que teve a distinção de ser, de fato, o primeiro filme de
suspense/horror/terror (dentro desta ideia de gênero) a ganhar o
Oscar de Melhor Filme. E não poderia ser mais merecedor. Faz parte de uma saga
na qual o personagem Hannibal Lecter assumiu vida própria e marcou
definitivamente a carreira do grande mito ANTHONY
HOPKINS, outro merecedor do Oscar. O personagem apareceria posteriormente em
mais alguns filmes sempre estrelados por Hopkins. Primeiramente no
decepcionante e sanguinolento sem classe Hannibal (Idem, 2001) dirigido por Ridley Scott e co-estrelado por Julianne Morre como Clarice e no mais interessante prólogo Dragão Vermelho (Red Dragon,
2002. Leia
aqui) com direção astuta de Brett
Ratner e co-estrelado por Edward Norton no papel de outro detetive, mais
experiente e que prendeu Lecter, e que vai até ele obter informações de outro
assassino, também baseado em livro anterior do mesmo universo escrito por
Harris e que também inspirou o filme Manhunter – outra versão de Dragão Vermelho de 1986 dirigida mais sofisticadamente
ainda por Michael Mann.
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| Hopkins e o diretor Demme descontraindo no set |
Algumas celebridades foram cotadas para viver Hannibal.
Originalmente oferecido primeiro para Jeremy
Irons que estava muito
cotado, mas quando o mesmo recusou, outros entraram para a lista, incluindo o
lendário Jack Nicholson (ficaria interessante e notável), Robert Duvall, John Hurt e Robert
De Niro. Jack Crawford que acabou sendo interpretado
distintamente por SCOTT GLENN foi oferecido anteriormente para Michael Keaton, Mickey Rourke (em seus bons tempos) e Kenneth Branagh. No caso de Starling, Michelle Pfeiffer era a escolha ideal e estava até mesmo
envolvida na pré-produção, mas no final, JODIE
FOSTER assumiu o papel e a tornou
única com toda a sua fragilidade e dedicação e que mesmo cometendo alguns
erros, tem coragem e garra suficiente para resolver o caso mesmo que sua
ambição desenfreada seja um ponto negativo até mesmo na hora de sacar a arma
para o vilão antes do tempo. Foster sabe imprimir, além de tudo, uma mulher que
não tem uma vida social, criticada constantemente por Hannibal pelo fato de ser
um pouco “caipira”, com roupas um tanto desleixadas, mas que nem por isso,
deixa de ser menos atraente e interessante ao ponto de ser o centro das
atenções não apenas em um hospício gótico para loucos masturbadores. Sua
Clarice é uma feminina no meio de um bando de machistas policiais que a devoram
com os olhos, constrangendo-a. Não pelo fato de ser jovem e recruta cadete em
treinamento para o F.B.I. (que já tem um alto nível de reputação como polícia),
mas por ser, de fato, mulher.
Hannibal,
assim como Norman Bates, foi inspirado em Ed Gein, mas também em outro
assassino em série, Albert Fish. Hopkins descreve sua voz no personagem como
uma hibridização de Truman Capote e Katharine Hepburn e provavelmente, a cena
mais antológica é no famoso diálogo de fazer gelar a espinha, quando o monstro,
mesmo através de um vidro, olha para a heroína com um olhar lunático e diz em
tom ameaçador e ao mesmo tempo jocoso: “Um recenseador uma vez tentou me
testar. Eu comi o fígado dele com grãos de ervilha e um bom chianti.”
Brilhantemente escrito por TED TALLY, o script é uma obra prima e ajuda Hopkins
e Foster a evidenciar suas atuações soberbas. Certamente impressionantes tours
de force, a química da dupla chega a nos arrepiar, excitar e até mesmo
emocionar. Nunca que um filme de horror havia causado tanta verve de
sentimentos numa só vez.
Demme aparece rapidamente, aliás, já atuou como ator no
passado, com um boné azul, bem no final do filme. Outra aparição especial é do
famoso Roger Corman,
grande amigo de Demme, e que havia começado sua carreira como diretor de cinema
em sua famosa companhia independente, New
World Pictures, onde também se destacou outros ilustres cineastas como James Cameron. O diretor George A. Romero também faz uma ponta, mas não
creditada, como um dos agentes do F.B.I. em Memphis.
Outro fato curioso e que descobri que se trata de uma superstição do diretor, é
utilizar no final de todos os créditos de seus filmes a palavra “A Luta
Continua”, assim mesmo em português! Sabe-se que o diretor viveu um bom
tempo no Brasil e sua produtora chama-se “Clinica Estético” (estreando com o
sucesso seguinte, FILADÉLFIA, 1993). Como a frase é
simbólica, acho que explica o seu sucesso. A consagração foi tamanha que o
filme é amplamente considerado até nos dias de hoje como o melhor filme da
categoria terror, é claro que depois de O Exorcista (leia
aqui), 1973, de William Friedkin que continua imbatível.
Da prisão subterrânea, Lecter (Hopkins) faz um toma lá da cá
com a estagiária agente investigativa Clarice Starling (Foster) que trabalha
para o tão cobiçado F.B.I e sua avidez de querer resolver o caso permite
que ela fique intimamente ligada a Hannibal que inteligentemente não só evita
entregar de bandeja todas as informações que almejam, mas para obter alguma
vantagem pessoal (a principal seria poder ser transferido para outra cela e se
livrar do diretor daquela prisão Chilton, Anthony Heald), não só isso, mas em
troca, Clarice tem que ser afável aos truques do psiquiatra canibal que faz com
que a moça desenterre seu passado e comece a falar de sua infância complicada,
órfã aos dez anos, e defensora dos fracos e oprimidos devido ao fato de ter um
trauma relacionado a cordeiros que tentou salvar de um abatedouro, sons que
ecoam em sua mente desde então. A trama não permite digressões líricas dos
cordeiros em si (Lambs), o que vemos é Clarice retornando ao tempo na época em
que seu pai era policial e a sombra de rever o dia de seu funeral, tragicamente
morto em serviço. Assim sendo, Lecter se apropria destas informações e fica
extremamente tocado por ela, à sua maneira. A trata como uma paciente em seu
consultório. Nada mais. Sua vantagem é que ela estará segura após a fuga
sangrenta do maníaco comedor de gente, já que seria deselegante da parte do
médico querer machucá-la. Lecter é louco o suficiente para manter certo código
de conduta moral de educação para aqueles que mereçam. Mas o tempo urge e
Clarice esta correndo a todo vapor a fim de encontrar a recente vítima, Catherine Martin (Brooke Smith) filha de uma influente
senadora, interpretada por Diane
Baker. A pobrezinha esta sofrendo presa num poço escuro e praticamente
enlouquecendo. Ela é a próxima vítima deste discursivo assassino em série que
recebe a alcunha de Buffalo
Bill, vivido de maneira surreal e assustadora por TED LEVINE (vide abaixo).
O
cara é um transexual maluco, por assim dizer (sem querer ofender homossexuais e
trans) e cobiça a pele das mulheres que seguem um padrão de tamanho. Todas são
um tanto gordinhas e rechonchudas a ponto dele arrancar suas cútis e
costurá-las. Insanamente deseja criar uma “roupa” para seu novo corpo em
transformação! Enfim, é um show de horrores e Levine tem uma cena marcante
dançando e escondendo seu sexo! Demme não é tão explícito assim e nas revisões o
filme não chega a chocar mais. Em minha opinião, a fita sabe criar um clima
maior de suspense sem a necessidade de criar diversas cenas gráficas e sem
sentido, que destoa a magia de um bom policial investigativo.
A
máscara de Hannibal Lecter é outro aperitivo. O olhar de Hopkins é medonho. Me
fez ter pesadelos da primeira vez que assisti, hoje, de boa (Risos).
O
Silêncio dos Inocentes é um filme seminal. Um labirinto sombrio da psique
humana. Tudo é de muito bom gosto.
EUA
1991
SUSPENSE/POLICIAL/TERROR/DRAMA
COR
118 min.
METRO/ORION/FOX
★ ★ ★ ★ ★
SUSPENSE/POLICIAL/TERROR/DRAMA
COR
118 min.
METRO/ORION/FOX
★ ★ ★ ★ ★
UM FILME DE JONATHAN DEMME
JODIE FOSTER ANTHONY HOPKINS SCOTT GLENN
THE SILENCE OF THE LAMBS
TED LEVINE ANTHONY
HEALD KASI LEMMONS
BROOKE SMITH DIANE BAKER
CHARLES NAPIER TRACEY
WALTER DAN BUTLER
ROGER CORMAN
FRANKIE FAISON
Música
de HOWARD SHORE
Desenhista de Produção KRISTI ZEA
Direção
de Fotografia TAK FUGIMOTO
Edição CRAIG MCKAY, A.C.E
Figurinos
COLLEEN ATWOOD Elenco
por HOWARD FEUER
Produtor
Executivo GARY GOETZMAN
Baseado
no Livro de THOMAS HARRIS
Roteiro
de TED TALLY
Produzido
por KENNETH UTT EDWARD SAXON
RON BOZMAN
Dirigido
por JONATHAN DEMME
THE SILENCE OF THE LAMBS ©1991
ORION Pictures Corporation
Strong Heart/Demme Production

















6 comentários:
Ótimo texto, Rodrigo. Silêncio dos Inocentes é mesmo um filme incrível. Destaco as atuações dos protagonistas, o roteiro e aquela montagem do clímax.
bjs
Bravo! E que abertura de texto genial! Essa sacada da Mariposa aferiu ao seu texto o mesmo clima de apreensão e fascinação que marca o filme. Gostei da forma como vc foid esbravando o vasto conteúdo cinéfilo que remete a esse grande clássico do cinema.
E olha, para mim, a competição com "O exorcista" é pau a pau viu!rsrs
Abs
Texto excelente, marcante, inspirador sobre um filme 'apaixonante'.
O que mais gosto em seus textos:
- Comparações;
- Curiosidades;
- Originalidade e essa paixão escancarada pela nossa sétima arte.
Novamente(e sempre) Parabéns, meu amigo!
Quando puder leia(sabe que o nosso lance ali é 'outro' né? rs)
Acho que ficou bom...
http://cinefilosunivos.blogspot.com.br/2013/03/the-silence-of-lambs.html
Amanda: Obrigado. O clímax é mesmo de gelar o sangue.
Bjs.
Reinaldo: Obrigado meu caro!
Eu sei que você não considera O Exorcista muito assustador mas nem por isso um grande filme. O Silêncio é até melhor que o clássico da Warner se formor olhar muitos aspectos, embora as temáticas sejam completamente opostas, mas eis dois grandes filmes do campo do terror. Eu esqueci de mencionar no texto "O Iluminado" do Kubrick, esse tb é uma obra-prima do gênero, assim como "O Bebê de Rosemary" do Polanski.
Abs.
Patricia: Obrigadão querida! Eu ki o texto do Cinéfilos Uni-vos e deixei comentário. Gostei muito e tb o Roni traçou ótimas curiosidades enriquecedoras.
Besos!
Excelente texto, caro Rodrigo!
Eu não sabia que Romero tinha uma ponta não-creditada neste filme. Eu, que sou uma tiete do diretor, só vim descobrir isso lendo seu texto.
"O Silêncio dos Inocentes" é uma obra-prima mesmo, não há dúvidas. Tudo muito perfeito e de bom gosto. Como você bem descreve, há cenas do embate entre policial e criminoso que emociona e faz gelar a espinha. Quando ele pergunta a ela se os cordeiros pararam de gritar, pqp!
Roteiro maravilhoso, elenco perfeito, mas eu destaco muito a direção hipnótica e linda de Jonathan Demme, um trabalho magistralmente calculado que faz toda a diferença para o conto ficar ainda mais aterrador.
Este é um dos meus filmes favoritos a levar um Oscar de Melhor Filme entre todo o histórico da Academia e, certamente, um dos grandes filmes do século XX. Brilhante, brilhante.
Abs!
Cara, adoro esse filme.
Acerca de sua postagem, destaco esse trecho: "dirigida mais sofisticadamente ainda por Michael Mann". Pois é. Porque aquela segunda adaptação com Edward Norton, para mim, é um lixo.
Ah, e recomendo TED LEVINE em Monk! Série de humor que adorei do começo ao fim.
Já fiz uma breve comparação entre o filme o romance que o inspirou, aqui: http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/2013/04/o-silencio-dos-inocentes-romance.html
Abraços!
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