Mulher
é designada para espionar um grupo de nazistas na América do Sul.
Dirigido por ALFRED HITCHCOCK.
Dirigido por ALFRED HITCHCOCK.
Continuando com a trilogia de
críticas sobre os mais recentes filmes revistos por mim do mestre do suspense iniciado com Pacto Sinistro e depois por A Sombra de Uma Dúvida. Desta vez trata-se do ótimo Interlúdio (Notorious,
1946),
mais um filme de chantagem e espionagem de Hitchcock. É a segunda parceria de Cary
Grant (Suspeita, 1941) e Ingrid
Bergman (Quando Fala O Coração,
1945) com Hitchcock em mais um filme concebido por DAVID O. SELZNICK, mas sem interferências do
mesmo que deixou Hitch a vontade no set de filmagem. Selznick tinha a fama dos
memorandos e interferia em praticamente todos os detalhes da feitura do filme,
não que ele tenha tido uma má relação com Hitch, até foi ele quem exportou o
gênio inglês para Hollywood quando realizaram o magnífico Rebecca (1940 – leia aqui). Na
verdade, Selznick reuniu praticamente a mesma equipe (exceto Grant) de Spellbound, o drama psicanalítico de
Hitchcock, para esta produção que se firmou como a melhor do diretor nos anos 1940. O mais importante foi trazer o roteirista Ben
Hecht
(1894-1964) que recebeu aqui uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro (havia
ganhado anteriormente duas vezes: por Energúmeno, The
Scoundrel,
1935, onde co-dirigiu e outro por Paixão e Sangue, Underworld, filme mudo de 1927 de Sternberg). O que se sobressai mais
neste filme é que a produção acabou sendo vendida para a RKO, assim Hitchcock
passou a produzir a si mesmo sem intervenções de Selznick (como um acordo). A premissa é baseada
em outro argumento e acabou não sendo creditado como script adaptado, mas na verdade baseia-se em The Song of the Dragon de
John Taintor Foote. Mesmo assim, Hecht
consegue entregar um texto apropriado para Hitch. Isto é, uma história elegante e cheia de classe sobre espiões e que certamente termina em romance e tragédia.
Acontece tudo em plena Segunda
Guerra Mundial - como pano de fundo- e naquele tempo Hitchcock só entregava filmes como esse assim como,
Correspondente
Estrangeiro ou
Lifeboat, citando apenas alguns. Aqui,
um agente norte-americano faz uma chantagem com a filha solitária e perdida de
um nazista, um traidor condenado, e força a moça a espionar um agente da
Alemanha que esta na América do Sul. Obviamente que o começo é feito
cordialmente por um Cary Grant
galanteador no papel de super-espião, T.R.
Devlin chegando até uma moça com baixa auto estima e perspectiva de vida, Alicia Huberman (Bergman em seu melhor
filme com Hitch). O que acontece com ela é triste e desolador para uma moça
naquela época, ter um pai condenado, a jovem passa a se refugiar nas bebidas e
torna-se alvo fácil para os homens. Com isso, aparece o agente conquistador de Grant,
que questiona se ela concordaria em ser uma espiã americana, no caso no Rio de
Janeiro (em um interessante e clássico background), onde os nazistas amigos de seu pai estariam operando secretamente. Acontece
muita reviravolta no maior suspense possível. Ela acaba se casando com o sujeito que esta vigiando em sua missão secreta, mas evidentemente esta apaixonada pelo homem que a designou.
Hitchcock intensifica seu filme
fazendo de sua heroína uma mulher passiva e aflita quando começa a suspeitar
que Devlin a esta usando como cobaia para a causa patriótica americana, apenas,
e na qual ela sente-se impelida a levar essa arriscada missão a extremos quando
se envolve com o poderoso homem e fascista com anseios patriarcais Alexander Sebastian, interpretado
magistralmente por Claude Rains (1889-1967. Já contracenou com
Bergman no clássico dos clássicos, Casablanca, leia aqui). Só que por traz de
um grande homem (e nos filmes de Hitchcock) há uma mãe terrificante. No caso,
uma monstruosa e sufocadora mulher da terceira idade interpretada soberbamente pela austríaca Leopoldine
Konstantin
(1886-1965) que muito lembra a Sra. Bates
de Psicose, só que com a diferença de estar viva e
operante. O cenário, que é a parte principal de todo o clímax da fita, não
poderia ser diferente para Hitchcock: uma mansão fria, sombria e luxuosa.
Há cenas memoráveis e
sequências que demonstram o estilo inconfundível de Hitchcock resultando no
típico mal entendido que ocorre em seus filmes, por exemplo, durante uma festa
na mansão, na ocasião, Devlin e Alicia precisam bisbilhotar, portanto se
afastam por alguns minutos dos anfitriões e convidados, mas quando o champanhe
acaba um empregado é obrigado a descer até a adega onde esta o casal. Hitchcock
revela seu detalhe mais sofisticado, na qual diversas garrafas de vinho cheias
de urânio são usadas para fabricar uma bomba atômica nazista! É aí que o
resultado pode ser ainda pior do que um simples artefato, quando Sebastian acaba
acreditando que sua mulher é infiel e não uma espiã. Afinal, o que estaria ela
fazendo sozinha numa adega com outro homem?
Inicialmente o produtor
Selznick queria que Vivien Leigh interpretasse
a personagem principal. Hitch demora a aparecer neste filme, depois de
aproximadamente uma hora, em meio à festa realizada na mansão, sai de
cena tomando um drink e logo mais entra Grant e Bergman servindo-se com uma
taça. Outro fato curioso foi Hitch recorrer a Robert Andrews, um ganhador do
prêmio Nobel, sobre como fazer uma bomba atômica, mas o cara recusou-se a
respondê-lo em detalhes e apenas lhe disse que o principal componente era, de
fato, o urânio e o mesmo poderia caber numa garrafa. Rains era conhecido como ‘Napoleão’
devido a sua estatura. Em suas cenas com Bergman, o ator teve que subir
discretamente sob um caixote para parecer mais alto.
Teve uma refilmagem feita para
a televisão de mesmo nome em 1992 dirigida por Colin Bucksey e estrelada por John
Shea, Jenny Robertson, Marisa Berenson e Jean-Pierre Cassel e com adaptação no formato TV (teleplay) por Douglas Lloyd McIntosh. Já ouvi falar
desta programação, no entanto, nunca me interessei em conferir, só sei que a
trama é com agentes da CIA!
Com uma fotografia em preto e
branco impactante e resplandecente de Ted Tetzlaff (1903-1995) de vários
clássicos dás décadas de 20, 30 e 40, citando o meu predileto Primavera
em Paris (Paris in Spring, 1935
de Lewis Milestone) e indicado ao Oscar
na categoria por E a Vida Continua (The Talk of the
Town, 1942 de George Stevens), este acabou sendo seu
último trabalho para a indústria cinematográfica e sua única colaboração com Hitchcock.
Interlúdio é um show de interpretações,
magistralmente dirigidos por Hitchcock. O trio principal e o intenso drama
deste triângulo amoroso é de se aplaudir. Já gostava de Claude Rains desde O
Homem Invisível
(1933 de James Whale, leia aqui),
mas depois dessa, tiro o chapéu ainda mais para este ator que tem o dom de ser
sempre o mais destacado astro coadjuvante em qualquer filme, aliás, seu
personagem chega a ter um bizarro heroísmo no final. No entanto, é o casal de
protagonistas que também inspiram a tela. O que é aquele famoso beijo em close
interminável? Muita classe e suspense, agonia e romance. Métodos unicamente
Hitchcockianos.
EUA
1946
DRAMA/SUSPENSE/ROMANCE/FILM-NOIR
PRETO E BRANCO
101 min.
CRITERION
★ ★ ★ ★ ★
RKO RADIO
PICTURES. INC.
APRESENTA
CARY GRANT INGRID BERGMAN
EM
DE ALFRED HITCHCOCK
NOTORIOUS
produzido por alfred hitchcock
por um acordo com david o.
selznick
também
estrelando: CLAUDE RAINS
LOUIS CALHERN LEOPOLDINE KONSTANTIN
REINHOLD SCHÜNZEL MORONI OLSEN
IVAN TRIESAULT ALEX MINOTIS
música de ........ roy webb
fotografado por ....... ted tetzlaff
edição ...........
theron warth
diretores de arte
claude carpenter darrell silvera
figurinistas
edith head (roupas) eugene joseff (joias)
escrito por ben hecht
Dirigido por
Alfred Hitchcock
NOTORIOUS ©1946 RKO RADIO PICTURES/ VANGUARD FILMS










8 comentários:
Ótimo texto, Rodrigo, ainda preciso ver o filme, aliás, ainda preciso me debruçar sobre a filmografia de Hitchcock, por mais que já tenha visto muito, ainda não vi nada, rs.
bjs
Obrigado Nanda. É,há muitos filmes de Hitch que acabam nos surpreendendo. Da fase inglesa, por exemplo. Esses dias revi "O Mistério do Número 17".
Bjs.
Sempre tem uns desnaturados que chegam em mim e perguntam qual o meu Hitchcock favorito. Essa pergunta não se faz! Mas quando ela é feita, eu acabo respondendo "Interlúdio". Eu acho esse filme absolutamente deslumbrante em todos os aspectos.
A cena da adega e a da xícara de chá (senti falta de você comentá-la...) são primorosas e icônicas. Quanto ao beijo, foi o mais longo da época, né? Polêmica! rs
Claude Rains soberbo, a velha demoníaca de Leopoldine Konstantin também é deliciosa, mas é o casal protagonista mesmo que arrebenta, sob o cajado de Hitck, em um de seus filmes mais elegantes. Uma obra-prima mesmo do cinema, masterclass!
Abs, Rodrigo!
Ótimo adendo Elton, quanto a cena da xícara de chá! Bergman sensacional nesse filme e acabou sendo o seu melhor trabalho com Hitch mesmo que Spellbound e Sob o Signo de Capricórnio (que pretendo rever essa semana) tb sejam fantásticos, mas é como a espiã amadora, perdida e apaixonada que a atriz consegue um desempenho que deveria ter ganho até mesmo o Oscar. Ela passando mal é digno de aplausos.
Não sabia que você gostava tanto de Notorious. Legal ;)
Abs.
É preciso ser feito um aparte aqui. Embora "Interlúdio" esteja vago na minha memória, (já se vão uns dez, doze anos desde que eu o vi), para essa sua trilogia de Hitch erguida nessa coletânea de críticas em homenagem ao genial gorducho britânico.
O diálogo entre as obras excede a maestria do olhar do CineRodrigo, mas muito ganha com ele.
Enfim, não posso acrescentar nada. Restam-me os aplausos do lado de cá da tela!
Abs
Obrigado Reinaldo pelo prezado comentário. Fico sem jeito de responder, rs!
Abraço.
Grande Rodrigo, Ótima Resenha.
Interlúdio é um filme sensacional. Sem dúvidas, um dos grandes momentos de Hitch na década de 40. Lamentavelmente ainda não o tenho em dvd original,mas pretendo adquiri-lo o mais rápido possível.
Assim como você, também gosto muito de Rains, principalmente após vê-lo no ótimo VAIDOSA, com Bette Davis. Nesse filme, na minha opinião, ele rouba a cena até mesmo da atriz principal, e sua atuação, sem dúvidas, digna de um Oscar.
Abração!
Valeu Jafferson, obrigado mesmo!
Acho que ninguém ofuscava a Davis, rs! Na minha opinião, mas é claro que Rains era sensacional.
Abs.
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