terça-feira, 13 de agosto de 2013

PACTO SINISTRO

TROCANDO ASSASSINATOS

Tenista famoso conhece um playboy homicida durante uma viagem de trem e o riquinho sugere diabolicamente uma troca de assassinatos, teoria na qual dois completos estranhos poderiam sair impunes de um crime perfeito. Dirigido por ALFRED HITCHCOCK.


Este é um dos grandes momentos do mestre do suspense no ápice de sua criatividade em Hollywood já nos anos 1950. Feito para o estúdio Warner, Pacto Sinistro é certamente um de meus prediletos do diretor (entra no meu TOP 5 facilmente) , quer dizer, de muita gente que é fã dele ou mesmo de cinema. O filme é tão brilhante e repleto de suspense que posso resumi-lo com uma frase: ele começa em um trem e termina num carrossel.
A autora do livro é uma americana chamada Patricia Highsmith (1921-1995) e em sua estória esta os ingredientes típicos de Hitchcock, uma fascinação por assassinatos, mal-entendidos (o homem errado), repressão sexual, sobretudo homossexual (não que Hitch tivesse tendências gays), uma mãe dominadora e um tanto sinistra com seu filhinho mimado e excêntrico, viagem de trens, enfim, de modo que era óbvio que um dia o mestre fosse adaptar essa obra mais cedo ou mais tarde.

Na premissa, Guy Haines, interpretado por Farley Granger (1925-2011) em sua segunda parceria com o diretor (de Festim Diabólico, Rope, leia aqui), é um tenista de renome, mas que esta em processo de divórcio com uma mulher safada e que deseja acabar com a reputação do sujeito, evitando entrar em um acordo com ele não assinando a papelada da separação e simplesmente deixando o pobre infeliz fora de série, irritado a ponto de querer acabar com ela, metaforicamente, já que não seria de fato, capaz de machucá-la. Essa mulher é brilhantemente interpretada por Kasey Rogers, aqui creditada como Laura Elliott (1925-2006) e ela faz de tudo para atrapalhar a felicidade do cara (apesar de Granger ter um jeito por demais gay, mas aqui ele evita e se esforça conseguindo fazer o tipo galã quase viril). Ele almeja casar com a rica Anne Morton, Ruth Roman (1922-1999), que faz o tipo moça de família, paciente, compreensiva e acima de tudo, apaixonada. Ela é filha de um senador influente que é interpretado pelo ótimo Leo G. Carroll (1886-1972) um dos atores coadjuvantes mais recorrentes nos filmes de Hitchcock. A caçula da heroína é interpretada pela filha de Hitch, Patricia Hitchcock no melhor papel de sua carreira como atriz, sempre engraçada e disposta a ajudar o cunhado na armadilha que se meteu. 
No entanto, antes da trama se desenrolar, Hitch nos leva numa viagem de trem desde o início dos créditos para despontar a motivação e local onde os antagonistas se conhecerão. Haines estava partindo para Metcalf, sua cidade natal, com o intuito de conseguir a difícil tarefa de sua infiel mulher, Miriam, assinar o divórcio, mas depois de uma discussão calorosa provocada por ela, e o pior, em público, Haines acaba se enrolando sendo o principal suspeito do mal que poderá acontecer com a dita cuja. Isso porque, antes, no trem, ele esbarra com um psicopata chamado Bruno Antony, o sensacional Robert Walker (1918-1951) e que, aliás, infelizmente, morreu pouco tempo depois das filmagens por decorrência do alcoolismo que sofria. Bruno é sem dúvida o papel mais conhecido de sua curta carreira e ele o faz lindamente. Apenas mais um filme foi lançado postumamente logo depois deste, Não Desonres o Teu Sangue (My Son John, 1952) um drama dirigido por Leo McCarey, com Helen Hayes, Dean Jagger e Van Heflin. Mas nada comparável com “Strangers on a Train”, literalmente Estranhos em um Trem. Walker faz o típico vilão sofisticado, solitário, rico, nebuloso e esquisito de Hitchcock, e com maestria. Uma espécie do que seria Norman Bates com mais grana. Ele reconhece Haines dos jornais, mas tudo indica que ele não começou o papo por acaso (Hitch começa o filme numa série de closes nos passos de cada um, saindo do táxi, indo para a plataforma da estação até subir no trem), e se esbarram num ambiente apertado, começam as desculpas e etiquetas e culmina num papo aparentemente inocente numa cabine particular com direito a uma boa comida.



Bruno já se antecipa e conhece toda a história de Haines, e quando tudo parecia amigavelmente íntimo, a certa altura, Bruno propõe um pacto sinistro: ele mataria a mulher de Haines e em troca Haines assassinaria o pai dominador dele (interpretado por Jonathan Hale que aparece muito pouco, aliás, parece um dos Mcguffin, apesar de não ser um objeto, e nem é importante sabermos muito sobre dele). Obviamente que Haines achou tudo extremamente absurdo, mas no momento não deu muita importância, já que Bruno, além de todas as características descritas acima, tem muito senso de humor (outra marca registrada de Hitch), portanto, Haines dá um adeus desprovido e apressa-se para desembarcar, mas Bruno, bom, levou o plano a sério demais e vai atrás de Miriam para matá-la. Sua cena de assassinato é também um daqueles momentos antológicos. Ele a segue em um parque de diversões (que irá suceder o clímax final) e a estrangula friamente. Hitchcock filma o estrangulamento de maneira genial fazendo com que os óculos da vítima caiam sob grama do parque para que a câmera mostre o homicídio através das lentes dos óculos elegantemente. Impressionante. Puro cinema de gênio. 



Agora, Haines tem que lutar contra o tempo para provar sua inocência, afinal, ele esta com problemas em ter um álibi plausível, mas pior do que isso, é que Bruno o persegue por todos os lugares - onde o filme aumenta com a tensão e o suspense- que nem chiclete grudado no sapato, cobrando a parte do “combinado”. Pois é, Haines se vê no dilema de matar o pai de Bruno. Mas será que o fará?



É um pesadelo sem tamanho filmado em preto e branco e fotografado de maneira inspirada por Robert Burks (1909-1968) indicado a um Oscar para Fotografia. Fiel colaborador de Hitchcock, Burks ganharia apenas pela fotografia colorida de Ladrão de Casaca (leia aqui). Hitchcock faz sua aparição habitual subindo no trem enquanto Granger desce, levando consigo um instrumento musical e por falar em música, a trilha é assinada pelo genial Dimitri Tiomkin (1894-1979), um dos mais importantes compositores do cinema e que foi de suma importância nesta fase anos 50 de Hitch, fez mais tarde para ele a trilha fantástica de A Tortura do Silêncio (I, Confess, 1953) e a de Disque M Para Matar (aqui).



O roteiro é bastante colaborativo, escrito por Raymond Chandler (1888-1959), Whitfield Cook (que no filme Hitchcock  de Sacha Gervasi, era interpretado por Danny Huston e que Hitch suspeitava de um caso extraconjugal com Alma!), o pouco conhecido Czenzi Ormonde e com retoques de Ben Hecht (de Quando Fala O Coração, Interlúdio, dentre outros), e que acabou não levando os devidos créditos. Assim, o filme acabou se tornando um dos mais bem sucedidos do cineasta.
A fita é assumidamente uma quase comédia de humor negro já que Walker faz um louco descontrolado e que nas festas glamorosas da alta sociedade sempre é o centro das atenções, principalmente entre as senhoras de terceira idade que ficam fascinadas quando ele explica suas teorias mórbidas de crimes (a cena que ele demonstra para uma das senhoras presentes como enforcaria alguém e entra em pane quase a estrangulando de verdade é um desses momentos). Adoro ver o homem engomado e certinho de Granger antagonizando com o excitado Bruno, um verdadeiro mala sem alça. Hitch se diverte e diverte aos fãs com esse filme, são tantas cenas maravilhosas... uma delas é mostrar os apuros do vilão e por algum tempo fazer com que o espectador (numa inversão de valor moral, afinal, Hitch dizia que toda vez que o ladrão esta encrencado e a plateia sabendo dessa informação, nunca sentia simpatia pela vítima, ou seja, torcem por ele roendo as unhas para vê-lo correr e não ser pego) torça para que ele consiga pegar um isqueiro que cai acidentalmente num bueiro, objeto na qual incriminaria o herói. Ou mesmo quando uma partida de tênis é um dos mais engraçados momentos de suspense, aliás, é um dos momentos mais incríveis até mesmo da história do cinema. A plateia na arquibancada apreciando o jogo, balançando suas cabeças para lá e para cá em gestos que acompanha as bolas. Haines suando frio com a presença de Bruno, o único que fita o olhar sobre ele e nem sequer mexe o pescoço. Mas como Hitchcock é mestre em dar um plot point genial em seus filmes, seu desfecho é um dos mais destoantes e terrificantes em matérias de the end, quando um simples carrossel se torna um lugar perigoso para criancinhas!


São impressionantes as reviravoltas, a mãe tão louca e afetada quanto o filho (feito magistralmente por Marion Lorne), que mima demais seu filinho e odeia o marido tanto quanto ele, enfim. Hitchcock constrói uma narrativa épica sobre chantagem, culpa e alucinação. A demência do assassino é um prato cheio para quem gosta de um suspense inteligente. O charme caricato de Walker é inesquecível. Provavelmente, ele representa um lado obscuro e reprimido de Hitchcock, com uma personalidade tão exuberante que só poderia ser contada no cinema.

Uma obra-prima absoluta do gênero e um dos exemplares mais requisitados de Alfred Hitchcock. Danny DeVito dirigiu e co-estrelou, ao lado de Billy Crystal a comédia Jogue A Mamãe Do Trem, que se inspirou totalmente neste clássico. (leia aqui).



EUA
1951
SUSPENSE
PRETO E BRANCO
101 min.
WARNER
           



WARNER BROS.
PICTURES
apresenta

FARLEY GRANGER
RUTH ROMAN
ROBERT WALKER
em:

alfred hitchcock´s

“STRANGERS
  ON A  TRAIN”
Com: 
LEO G. CARROLL  
PATRICIA HITCHCOCK
LAURA ELLIOTT  
MARION LORNE  
JONATHAN HALE
HOWARD ST. JOHN  
JOHN BROWN  
NORMA VARDEN  
ROBERT GIST

Fotografado por ROBERT BURKS 
Montagem . . . . . . . . WILLIAM ZIEGLER
Direção de arte. . . . . . . . EDWARD S. HAWORTH

Roteiro
RAYMOND CHANDLER   
CZENZI ORMONDE   
WHITFIELD COOK   
BEN HECHT
Baseado no livro de PATRICIA HIGHSMITH

Música de 
DIMITRI TIOMKIN

Dirigido por 
ALFRED HITCHCOCK
STRANGERS ON A TRAIN ©1951 A Warner Bros. – First National Picture

10 comentários:

Hugo disse...

Um dos melhores filmes de Hitch.

Abraço

Fabio Pastorello disse...

Fantástico, Hitchcock no auge da forma. Belo texto, me deu vontade de rever o filme. Abs.

Patt Baleeira disse...

Meu amigo Rô,

Texto maravilhoso sobre um dos melhores!!!!!!!!!

O gostoso de ler Cinema Rodrigo???
...é a vontade de comer pipocas, guloseimas mil, revendo ótimos filmes.

besos.

Reinaldo Glioche disse...

Tb é dos meus Hitch favoritos e tb entra com facilidade no meu TOP 5, provavelmente para se acomodar em quarto.
É um filmaço. Daquelesque vc vê os filmes e hoje e pensa em Hitch dando aquela risada de escárnio de quem há muito tempo já estava no topo de um jogo que poucos poderão chegar.
abs

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: De tão fascinante, sim, é um dos melhores!

Patricia: Obrigado querida por sua doçura, palavras doces, aliás, me bateu uma vontade absurda de comer besteira, rs
Besos!

Fabio: Um filme antológico e que faz escola. Obrigado meu caro.

Reinaldo: Pois é meu caro, certamente desde " The Pleasure Garden" e em "The Lodger" ele já estava bem a frente de seu tempo. Seus filmes mesmo datados não envelhecem. É de quem conhece os macetes, de quem é mestre! Tb entra no meu TOP facilmente, no topo.
Abs.

Paulo Telles disse...

Meu amigo Rodrigo, qualquer obra de Hitchcock merece apontamento e revisita (sim, a palavra revisita tirada do nobre Rubens Ewald Filho quando tratamos de rever certos filmes).

Preciso rever esta obra, pois já faz um bom tempo que não revejo, mas tudo que sei quanto a ela, é que é um dos filmes mais imitados de todos os tempos devido aos clichês. Mas tudo que se é bom ou mesmo impactante, se resolve imitar, não é mesmo?

O Hilário JOGUE A MAMÃE DO TREM, com Danny DeVito e Billy Crystal é uma delas.

Belo tópico!
Grande abraço

Rodrigo Mendes disse...

Nobre Paulo, revisita é uma ótima palavra e eu mais a aplico quando se trata de rever e rever qualquer obra de arte do Hitch. Realmente, os clichês são notáveis, mas ninguém faz como ele, exceto DeVito com a ótima ideia de realizar a comédia da "mamãe" que é uma delícia.
Grande abraço.

Elton Telles disse...

Filme subestimado e maravilhoso! Hitch em seu topo, encerrando a década de 40 (prefiro essa sua fase do que os anos 50, que o pessoal ama mais) com toda a classe do mundo.
Curto mt Farley Granger, não, acho bem pastel de vento, mas Robert Walker cria um dos melhores e mais enigmáticos vilões do cinema aqui. Absoluto em cena!

Ótimo texto, meu caro Rodrigo. E que delícia essa retomada Hitchcock, hein? =)

Abs!

Rodrigo Mendes disse...

Elton: hahaha Granger era perfeito para personificar esse tipo. Ele tb esta radiante em 'Rope' que é o favorito de muita gente, claro que tb adoro, mas acho que Pacto Sinistro é o auge de todos os envolvidos, o canto do cisne de Walker e o melhor momento de Hitchcock na Warner Brothers (embora O Homem Errado é outro filmaço e Disque M Para Matar idem). Aliás, ele começou a década de 50 com chave de ouro. Existe outro filme (assim como Psicose e Janela Indiscreta) dentro de sua obra, dos mais imitados?

Abração!

Jefferson C. Vendrame disse...

Rodrigo, cada vez mais fico boquiaberto com a qualidade de seus textos. A maneira como você discorre sobre a trama, a riqueza dos detalhes e das informações que você apresenta instiga completamente seus leitores a sair correndo atras do filme abordado. Espero um dia, quem sabe, escrever como você. Parabéns por mais esse post, sem dúvidas você conseguiu mais do que nunca exprimir toda a qualidade e a magnificência desse clássico absoluto do mestre do suspense!

Parabéns mais uma vez!

E o que falar sobre o filme? Bom, sobre esse, você já falou tudo!

Abraços!

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