terça-feira, 6 de agosto de 2013

SWEENEY TODD – O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET



MELODIA SANGRENTA
Benjamin Barker volta para Londres com a intenção de vingar-se de um asqueroso juiz local que o separou da amada esposa e filha e o trancafiou numa cela acusando-o por um crime que não cometeu, mas agora, ele pretende enganar a todos com a alcunha de Sweeney Todd e com suas habilidades profissionais como barbeiro, monta um plano sinistro com uma fazedora de tortas, Sra. Lovett, que utiliza o presunto das vítimas para as guloseimas ‘tortificantes’.  Baseado num musical da Broadway.

Que tal fazer a barba, cabelo e o bigode? Ou melhor, que tal soltar o gogó? A sexta colaboração de Tim Burton e Johnny Depp (agora sempre com Helena Bonham Carter e foi o quinto filme com ela) é um surpreendente épico dramático musical, poético, sanguinolento e sombrio, ou seja, do jeito que eu gosto. A premissa sobre vingança pode parecer arrastada, aliás, quando o tema é vingar-se de alguém cruel que lhe fez muito mal geralmente não há muito que contar. Além disso, em minha opinião, o mais inteligente é dar ao público a confiança de ter um personagem interessante e que demonstre fascínio com sua motivação. Burton não me decepcionou, embora muita gente já tenha se cansado de sua fórmula, mas aqui ele me pegou de surpresa com um musical atípico para o cinema, aliás, ele já confessou odiar musicais, mas não saiu da boca dele, já que a sua linda e fofoqueira esposa, a doce e fantástica Helena (de todo o elenco a que mais surpreende aqui) acabou revelando numa entrevista algumas manias do marido (risos). 

O roteiro é assinado por John Logan (007 Operação Skyfall, A Invenção de Hugo Cabret, Rango, O Último Samurai, Gladiador) que é um roteirista muito eclético e eficiente em matéria de adaptações. Baseado numa peça escrita em 1973 por Christopher Bond e que mais tarde acabou sendo readaptada como um musical da Broadway em 1979 sempre estrelada por Angela Lansbury como a Sra. Lovett e Len Cariou como Sweeney, por Stephen Sondheim e Hugh Wheeler (1912-1987). O sucesso foi tremendo e tem o mesmo peso que Cats e O Fantasma da Ópera, de Andrew Lloyd Webber e desde aquela época, Burton, um ávido espectador presente na plateia sempre teve a pretensão de fazer uma versão para o cinema.  




 Houve outras versões, muitas para a televisão, mas antes de citá-las, é bom saber que o personagem é mais antigo do que se imaginava. Na verdade é criação de um dramaturgo e ator teatral britânico chamado George Dibdin-Pitt (1799-1855) e que com sua especialidade para o melodrama imaginou um homem, Sweeney Todd, e o batizou de “O Demônio da Rua Fleet”, mas a peça original chamava-se ‘The String of Pearls’ e a idéia principal de vingança já era idealizada e desde então, mantida. Pitt, por sua vez, baseou-se numa série escrita por Thomas Preckett Prest, e produziu a peça em 1847 com relativo sucesso. Como gerente de palco e prolífico artista, Pitt marcou uma geração da era teatral. No cinema mudo existem dois filmes de Tood; um de 1926 dirigido por George Dewhurst e outro de 1928 de Walter West, mas como devem ser filmes com aquele estilo de “diversão itinerante, de feira”, ficaram perdidos no tempo. Gostaria de assistir por curiosidade. No entanto, são os telefilmes um tanto mais recentes como a de 2006 estrelada por Ray Winstone e Essie Davis, dirigida por David Moore e a de 1997 com Ben Kingsley e dirigida por John Schlesinger (diretor do famoso Perdidos Na Noite, 1967), que eu consegui assistir. São medianos e se aproximam muito mais com o texto de Pitt já que não são musicais. Em 1982 Terry Hughes um diretor de origem inglesa, mas que passou a viver no Texas dirigiu Lansbury e George Hearn como Tood, em um TV movie que infelizmente não sei do resultado, mas que leva 140 minutos de imagem, som e música.  Mas acredito que não deva se comparar com a fita de Burton, uma das melhores apostas que ele já fez na carreira. Poderia ser apenas uma estória de vingança, gótica ao estilo estético inconfundível do diretor sem precisar de cantoria? Também, mas acredito que como musical Sweeney acaba tendo um resultado ainda mais agridoce.


Bonham Carter, apesar de casada com o diretor, teve que lutar para conseguir o papel que diz ser fã há muitos anos. Chegaram a oferecer para Meryl Streep, Emma Thompson, Toni Collette e Annete Bening, mas Helena não estava disposta a dar de bandeja. Teve aulas de canto e até mesmo de culinária para se preparar para a personagem, mas foi enviando para o compositor Sondheim 12 fitas de audição em que estava cantando que  acabou convencendo-o e o mesmo sugeriu escalá-la para o papel. Pra mim, é um dos melhores dela (mesmo que esteja fantástica em filmes como Clube da Luta), mas de todos que fez com Burton, como a Sra. Lovett é mais adequada, misteriosa, ambiciosa e envolvente. Mas a filmagem não seria nada fácil. Helena estava grávida de seu segundo filho com Tim e não apenas isso, fazer um musical pode ser mais difícil do que se parece. Não apenas longas tomadas, mas estar disposto a cantar diversas vezes depois de já ter gravado todas as canções num estúdio (exaustivamente, diga-se de passagem) e, além disso, saber as marcações e não errar. É quase que teatro filmado, nessa ocasião, não há outro jeito, até porque Burton queria manter-se fiel a toda uma essência do material original.

Quem me impressiona, também, é Depp. Curiosamente quando era rapaz fazia parte de uma banda e antes de resolver ser ator almejava uma carreira musical. Certamente seu talento adormecido com música (ficava tocando guitarra no quarto durante toda a adolescência) despertou unindo-se ao seu típico estilo excêntrico (sim ele é e sempre será o meu queridinho esquisito predileto), mas de todos os trabalhos com o amigo Burton, Depp faz aqui um anti-herói. Calculista e frio, é como se toda a felicidade de um tímido barbeiro (como diz a canção) fosse transformada em ódio e ganância por matar! Inveja alheia, evidente, concebida por um ator que simplesmente fica sempre perfeito como vilão, Alan Rickman ( de Duro de Matar e o Snape da série Harry Potter) como o juiz Turpin. Outro que esta bem habitual é o feioso Timothy Spall como o capanga Beadle. Mas no final das contas, para o time dos coadjuvantes, quem rouba as cenas é o ótimo Sacha Baron Coen (Borat), se revelando cada vez mais, como o gatuno, farsante e asqueroso, o italiano Pirelli, aliás, solta uma voz operística impressionante numa das cenas mais engraçadas do filme quando tem que competir com Todd numa aposta ao público para saber quem é o melhor barbeiro (ele cantou para Burton a trilha sonora completa de Um Violinista no Telhado, Fiddler on the Roof, 1971 e por isso ficou com o papel). E ainda, ele teve que contratar o seu próprio barbeiro como consultor pessoal durante as gravações tendo aulas árduas durante várias horas para saber como manusear uma navalha.



O garotinho é também uma revelação, tem cara de órfão a La Oliver Twist, Ed Sanders como Toby, maltratado por Pirelli, mas que acaba sendo ajudante na loja de tortas de Lovett que o adota como filho. A única inocência do filme, mas que no final revela-se o contrário sendo a continuidade do mal que é a vingança. Mas quem também se revela é uma estreante atriz que conseguiu impressionar tanto o diretor quando fez sua audição que acabou roubando o papel que seria de Anne Hathaway, Jayne Wisener, a tão cobiçada Johanna. O mais sem sal é o mocinho que se apaixona pela Johanna e resolve levá-la embora das garras de Turpin (que a aprisiona como um passarinho numa gaiola e há uma alusão a isso numa bela canção que Jayne canta lindamente, aliás, que voz!), Jamie Campbell Bower como Anthony, sem dúvida o mais fraco de todo o elenco.

Para não ficar teatral demais, Burton teve que retirar pelo menos o número musical “The Ballad of Sweeny Todd”, que faz o prólogo e o epílogo da peça. Trata-se de uma sequência na qual as vítimas de Sweeney cantam dramaticamente.

Ganhou dois Globos de Ouro. Melhor Filme (Musical ou Comédia) e um merecido para Depp. No Oscar, Burton foi ignorado e o filme ganhou apenas o de Direção de Arte para o italiano Dante Ferretti que já tem mais dois prêmios da Academia nessa categoria um para O Aviador (2004) e Hugo (2011) e tem trabalhado outras vezes com Scorsese. Teve mais 2 indicações; para Melhor Ator (a única de Depp num filme de Burton, mas foi indicado outras vezes por Piratas do Caribe 1, o que é uma surpresa e no encantador Em Busca da Terra Do Nunca [acho que ainda é um dos grandes papéis de sua carreira] de Marc Foster, 2004) e Melhor Figurino.

Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet compete com A Lenda Do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999) como sendo um dos mais viscerais e violentos filmes de Burton. Mais ainda assim, tem momentos singelos e tocantes. Melodicamente subestimado, eis um dos musicais mais estranhos e envolventes dos últimos tempos. Todd e Lovett esperam por você!

EUA
2007
MUSICAL/TERROR/DRAMA
COR
116 min.
WARNER
        





WARNER BROS. E DREAMWORKS PICTURES Apresentam
Uma Produção PARKES/ MacDONALD & ZANUCK COMPANY
Um Filme
De TIM BURTON
JOHNNY DEPP    HELENA BONHAM CARTER   ALAN RICKMAN
SWEENEY TOOD The Demon Barber of Fleet Street
 TIMOTHY SPALL  & SACHA BARON COEN
Apresentando:
Jamie Campbell Bower  Laura Michelle Kelly  Jayne Wisener  Ed Sanders
Música e Letras de STEPHEN SONDHEIM
Baseado no Musical de STEPHEN SONDHEIM & HUGH WHEELER
Originalmente Organizado por HAROLD PRINCE
Uma Adaptação de CHRISTOPHER BOND
Co-Produção KATTERLI FRAUENFELDER Figurinista COLLEEN ATWOOD
Edição CHRIS LEBENZON Desenhista de Produção DANTE FERRETTI
Diretor de Fotografia DARIUSZ WOLSKI Produtor Executivo PATRICK McCORMICK
Produzido por
RICHARD D. ZANUCK   WALTER PARKES   LAURIE MacDONALD   JOHN LOGAN
Escrito por JOHN LOGAN
Dirigido por TIM BURTON
SWEENEY TOOD The Demon Barber of Fleet Street
©2007 WARNER BROS/DREAMWORKS
Parkes/MacDonald Productions/ The Zanuck Company/ Tim Burton Productions

9 comentários:

Patt Baleeira disse...

Oi Rô,
Quanto tempo!
Adoro o Johnny, Helena...
Mas, confesso que 'sofri' alguns cochilos durante o filme,rs.

Seu texto ? Impecável!

Já, o filme...me deu sono!
:(

Reinaldo Glioche disse...

Mais uma bela apresentação aqui no nosso cantinho cinéfilo. Essa melodia sangrenta é, ao lado de "Peixe grande", o meu filme favorito de Burton. Independentemente disso, é o último grande filme do diretor.
Um épico musical assombroso, divertido e sangrento. Quem poderia fazer um negócio desse?
Concordo que Helena está muito ebm aqui. Merecia mais indicação ao Oscar aqui do que por O discurso do rei. Juro que não entendo essa indicação a não ser pelo fato do bafáfá em cima do filme.
Enfim, amo "Sweeney Todd -O barveiro demoníaco da rua Fleet".
Abs

Rodrigo Mendes disse...

Patricia: Como assim você conseguiu cochilar com tanta cantoria e sangue? Curioso.
Obrigado querida, beijos!

Reinaldo: Concordo que a Helena merecia mais destaque aqui que acabou correndo apenas com Depp. O Discurso do Rei é ultra mega superestimado pro meu gosto.

Adoro o filme, mas ainda meus prediletos dele serão sempre: Edward, mãos de Tesoura, Ed Wood e Peixe Grande, claro!

Abs.

Nani disse...

Ótima crítica! Eu pessoalmente sou fã de musicais.
Tim Burton, na minha opinião, mostrou seu potencial ao fazer este filme, que parece ter capturado o melhor do diretor.
Adorei o filme e adorei a crítica!

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado Nani. Realmente, aqui Burton me surpreendeu e me fez crer que ele sempre foi, de certa forma, um diretor reprimido e frustrado de musicais. No documentário que assisti onde Helena diz que o marido nunca gostou do gênero, na verdade me espantou ainda mais. Sweeney saiu melhor que a encomenda.

Bjs.

Marcelo Keiser disse...

Apesar de não ser fã de musicais, gostei muito dessa produção. Mas provavelmente porque aprecio muito o trabalho de Burton. Parabéns pelo blog e principalmente pelo post.

abraço até +

marcelokeiser.blogspot.com.br

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado pela visita Marcelo!

Eu até goste de musicais e certamente Burton me surpreende aqui. Embora tenha produzido uma animação com passagens musicais (O Estranho Mundo de Jack), enfim, ver um filme inteiramente musicado em live action e tudo e dirigido por ele, bom o resultado foi esse aí.

Abraço!

Amanda Aouad disse...

Gosto do filme, apesar de não estar entre meus preferidos de Burton. E você destrinchou-o muito bem, como sempre.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Amanda: Entendo Nanda, é um filme ame ou deixe-o. Ótimo você ao menos ter gostado e embarcado na ideia.
Eu gostei bastante, melhor que "Alice", por exemplo, o que parecia ser mais próximo de Burton.

Bjs. e obrigado.

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