MELODIA SANGRENTA
Benjamin
Barker volta para Londres com a intenção de vingar-se de um asqueroso juiz
local que o separou da amada esposa e filha e o trancafiou numa cela acusando-o
por um crime que não cometeu, mas agora, ele pretende enganar a todos com a
alcunha de Sweeney Todd e com suas
habilidades profissionais como barbeiro, monta um plano sinistro com uma
fazedora de tortas, Sra. Lovett, que
utiliza o presunto das vítimas para as guloseimas ‘tortificantes’. Baseado num
musical da Broadway.
Que
tal fazer a barba, cabelo e o bigode? Ou melhor, que tal soltar o gogó? A sexta colaboração de Tim
Burton e Johnny
Depp (agora
sempre com Helena Bonham Carter e
foi o quinto filme com ela)
é um surpreendente épico dramático musical, poético, sanguinolento e sombrio,
ou seja, do jeito que eu gosto. A premissa sobre vingança pode parecer
arrastada, aliás, quando o tema é vingar-se de alguém cruel que lhe fez muito
mal geralmente não há muito que contar. Além disso, em minha opinião, o mais
inteligente é dar ao público a confiança de ter um personagem interessante e
que demonstre fascínio com sua motivação. Burton não me decepcionou, embora
muita gente já tenha se cansado de sua fórmula, mas aqui ele me pegou de
surpresa com um musical atípico para o cinema, aliás, ele já confessou odiar
musicais, mas não saiu da boca dele, já que a sua linda e fofoqueira esposa, a
doce e fantástica Helena (de todo o elenco a que mais surpreende aqui) acabou
revelando numa entrevista algumas manias do marido (risos).
O roteiro é assinado por John
Logan (007
Operação Skyfall, A Invenção de Hugo Cabret, Rango, O Último Samurai, Gladiador) que é um roteirista muito
eclético e eficiente em matéria de adaptações. Baseado numa peça escrita em
1973 por Christopher Bond e que mais tarde acabou sendo readaptada como um
musical da Broadway em 1979 sempre estrelada por Angela Lansbury como a Sra. Lovett e Len Cariou como Sweeney, por Stephen
Sondheim e Hugh
Wheeler (1912-1987).
O sucesso foi tremendo e tem o mesmo peso que Cats e O Fantasma da Ópera,
de Andrew Lloyd Webber e desde
aquela época, Burton, um ávido espectador presente na plateia sempre teve a pretensão
de fazer uma versão para o cinema.
Houve outras versões, muitas
para a televisão, mas antes de citá-las, é bom saber que o personagem é mais
antigo do que se imaginava. Na verdade é criação de um dramaturgo e ator
teatral britânico chamado George Dibdin-Pitt (1799-1855) e que com sua
especialidade para o melodrama imaginou um homem, Sweeney Todd, e o batizou de “O
Demônio da Rua Fleet”, mas a peça original chamava-se ‘The String of Pearls’ e
a idéia principal de vingança já era idealizada e desde então, mantida. Pitt,
por sua vez, baseou-se numa série escrita por Thomas Preckett Prest, e produziu a peça em 1847 com relativo
sucesso. Como gerente de palco e prolífico artista, Pitt marcou uma geração da
era teatral. No cinema mudo existem dois filmes de Tood; um de 1926 dirigido
por George Dewhurst e outro de 1928
de Walter West, mas como devem ser
filmes com aquele estilo de “diversão itinerante, de feira”, ficaram perdidos
no tempo. Gostaria de assistir por curiosidade. No entanto, são os telefilmes
um tanto mais recentes como a de 2006 estrelada por Ray Winstone e Essie Davis,
dirigida por David Moore e a de 1997
com Ben Kingsley e dirigida por John Schlesinger (diretor do famoso Perdidos
Na Noite, 1967),
que eu consegui assistir. São medianos e se aproximam muito mais com o texto de
Pitt já que não são musicais. Em 1982 Terry
Hughes um diretor de origem inglesa, mas que passou a viver no Texas
dirigiu Lansbury e George Hearn como
Tood, em um TV movie que infelizmente não sei do resultado, mas que leva 140
minutos de imagem, som e música. Mas
acredito que não deva se comparar com a fita de Burton, uma das melhores
apostas que ele já fez na carreira. Poderia ser apenas uma estória de vingança,
gótica ao estilo estético inconfundível do diretor sem precisar de cantoria? Também,
mas acredito que como musical Sweeney
acaba tendo um resultado ainda mais agridoce.
Bonham Carter, apesar de casada
com o diretor, teve que lutar para conseguir o papel que diz ser fã há muitos
anos. Chegaram a oferecer para Meryl
Streep, Emma Thompson, Toni Collette e Annete Bening, mas Helena não estava
disposta a dar de bandeja. Teve aulas de canto e até mesmo de culinária para se
preparar para a personagem, mas foi enviando para o compositor Sondheim 12
fitas de audição em que estava cantando que acabou convencendo-o e o mesmo sugeriu
escalá-la para o papel. Pra mim, é um dos melhores dela (mesmo que esteja fantástica
em filmes como Clube da Luta), mas de todos que fez com
Burton, como a Sra. Lovett é mais adequada, misteriosa, ambiciosa e envolvente.
Mas a filmagem não seria nada fácil. Helena estava grávida de seu segundo filho
com Tim e não apenas isso, fazer um musical pode ser mais difícil do que se
parece. Não apenas longas tomadas, mas estar disposto a cantar diversas vezes
depois de já ter gravado todas as canções num estúdio (exaustivamente, diga-se
de passagem) e, além disso, saber as marcações e não errar. É quase que teatro
filmado, nessa ocasião, não há outro jeito, até porque Burton queria manter-se
fiel a toda uma essência do material original.
Quem me impressiona, também, é
Depp. Curiosamente quando era rapaz fazia parte de uma banda e antes de
resolver ser ator almejava uma carreira musical. Certamente seu talento
adormecido com música (ficava tocando guitarra no quarto durante toda a
adolescência) despertou unindo-se ao seu típico estilo excêntrico (sim ele é e
sempre será o meu queridinho esquisito predileto), mas de todos os trabalhos
com o amigo Burton, Depp faz aqui um anti-herói. Calculista e frio, é como se toda
a felicidade de um tímido barbeiro (como diz a canção) fosse transformada em
ódio e ganância por matar! Inveja alheia, evidente, concebida por um ator que
simplesmente fica sempre perfeito como vilão, Alan Rickman ( de Duro
de Matar e o
Snape da série Harry Potter) como o juiz Turpin. Outro que
esta bem habitual é o feioso Timothy Spall como o capanga Beadle. Mas no
final das contas, para o time dos coadjuvantes, quem rouba as cenas é o ótimo Sacha
Baron Coen
(Borat), se revelando cada vez mais, como o gatuno, farsante e asqueroso, o
italiano Pirelli, aliás, solta uma voz operística impressionante numa das cenas
mais engraçadas do filme quando tem que competir com Todd numa aposta ao
público para saber quem é o melhor barbeiro (ele cantou para Burton a trilha
sonora completa de Um Violinista no Telhado, Fiddler on
the Roof, 1971
e por isso ficou com o papel). E ainda, ele teve que contratar o seu próprio
barbeiro como consultor pessoal durante as gravações tendo aulas árduas durante
várias horas para saber como manusear uma navalha.
O garotinho é também uma
revelação, tem cara de órfão a La Oliver
Twist, Ed Sanders como Toby, maltratado por
Pirelli, mas que acaba sendo ajudante na loja de tortas de Lovett que o adota
como filho. A única inocência do filme, mas que no final revela-se o contrário
sendo a continuidade do mal que é a vingança. Mas quem também se revela é uma
estreante atriz que conseguiu impressionar tanto o diretor quando fez sua audição
que acabou roubando o papel que seria de Anne
Hathaway, Jayne Wisener, a tão cobiçada Johanna. O
mais sem sal é o mocinho que se apaixona pela Johanna e resolve levá-la embora
das garras de Turpin (que a aprisiona como um passarinho numa gaiola e há uma
alusão a isso numa bela canção que Jayne canta lindamente, aliás, que voz!), Jamie
Campbell Bower
como Anthony, sem dúvida o mais fraco de todo o elenco.
Para não ficar teatral demais,
Burton teve que retirar pelo menos o número musical “The Ballad of Sweeny Todd”,
que faz o prólogo e o epílogo da peça. Trata-se de uma sequência na qual as
vítimas de Sweeney cantam dramaticamente.
Ganhou dois Globos de Ouro.
Melhor Filme (Musical ou Comédia) e um merecido para Depp. No Oscar, Burton foi
ignorado e o filme ganhou apenas o de Direção de Arte para o italiano Dante
Ferretti que
já tem mais dois prêmios da Academia nessa categoria um para O
Aviador (2004)
e Hugo
(2011) e tem
trabalhado outras vezes com Scorsese. Teve mais 2 indicações; para Melhor Ator
(a única de Depp num filme de
Burton, mas foi indicado outras vezes por Piratas do Caribe 1, o que é uma surpresa e no
encantador Em Busca da Terra Do Nunca [acho que ainda é um dos
grandes papéis de sua carreira] de Marc
Foster, 2004) e Melhor Figurino.
Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet compete com A Lenda Do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999) como sendo um dos mais viscerais
e violentos filmes de Burton. Mais ainda assim, tem momentos singelos e
tocantes. Melodicamente subestimado, eis um dos musicais mais estranhos e
envolventes dos últimos tempos. Todd e Lovett esperam por você!
EUA
2007
MUSICAL/TERROR/DRAMA
COR
116 min.
WARNER
★ ★ ★ ★
WARNER
BROS. E DREAMWORKS PICTURES Apresentam
Uma Produção PARKES/ MacDONALD &
ZANUCK COMPANY
Um Filme
De TIM BURTON
JOHNNY
DEPP HELENA BONHAM CARTER ALAN RICKMAN
SWEENEY TOOD The Demon Barber of Fleet Street
TIMOTHY
SPALL & SACHA BARON COEN
Apresentando:
Jamie Campbell Bower
Laura Michelle Kelly Jayne
Wisener Ed Sanders
Música e Letras de STEPHEN SONDHEIM
Baseado no Musical de STEPHEN SONDHEIM
& HUGH WHEELER
Originalmente Organizado por HAROLD PRINCE
Uma Adaptação de CHRISTOPHER BOND
Co-Produção
KATTERLI FRAUENFELDER Figurinista COLLEEN ATWOOD
Edição CHRIS LEBENZON Desenhista de
Produção DANTE FERRETTI
Diretor de Fotografia DARIUSZ WOLSKI
Produtor Executivo PATRICK McCORMICK
Produzido
por
RICHARD
D. ZANUCK WALTER PARKES
LAURIE MacDONALD JOHN LOGAN
Escrito por JOHN LOGAN
Dirigido por TIM BURTON
SWEENEY TOOD The Demon Barber of Fleet Street
©2007 WARNER BROS/DREAMWORKS
Parkes/MacDonald Productions/ The
Zanuck Company/ Tim Burton Productions












9 comentários:
Oi Rô,
Quanto tempo!
Adoro o Johnny, Helena...
Mas, confesso que 'sofri' alguns cochilos durante o filme,rs.
Seu texto ? Impecável!
Já, o filme...me deu sono!
:(
Mais uma bela apresentação aqui no nosso cantinho cinéfilo. Essa melodia sangrenta é, ao lado de "Peixe grande", o meu filme favorito de Burton. Independentemente disso, é o último grande filme do diretor.
Um épico musical assombroso, divertido e sangrento. Quem poderia fazer um negócio desse?
Concordo que Helena está muito ebm aqui. Merecia mais indicação ao Oscar aqui do que por O discurso do rei. Juro que não entendo essa indicação a não ser pelo fato do bafáfá em cima do filme.
Enfim, amo "Sweeney Todd -O barveiro demoníaco da rua Fleet".
Abs
Patricia: Como assim você conseguiu cochilar com tanta cantoria e sangue? Curioso.
Obrigado querida, beijos!
Reinaldo: Concordo que a Helena merecia mais destaque aqui que acabou correndo apenas com Depp. O Discurso do Rei é ultra mega superestimado pro meu gosto.
Adoro o filme, mas ainda meus prediletos dele serão sempre: Edward, mãos de Tesoura, Ed Wood e Peixe Grande, claro!
Abs.
Ótima crítica! Eu pessoalmente sou fã de musicais.
Tim Burton, na minha opinião, mostrou seu potencial ao fazer este filme, que parece ter capturado o melhor do diretor.
Adorei o filme e adorei a crítica!
Obrigado Nani. Realmente, aqui Burton me surpreendeu e me fez crer que ele sempre foi, de certa forma, um diretor reprimido e frustrado de musicais. No documentário que assisti onde Helena diz que o marido nunca gostou do gênero, na verdade me espantou ainda mais. Sweeney saiu melhor que a encomenda.
Bjs.
Apesar de não ser fã de musicais, gostei muito dessa produção. Mas provavelmente porque aprecio muito o trabalho de Burton. Parabéns pelo blog e principalmente pelo post.
abraço até +
marcelokeiser.blogspot.com.br
Obrigado pela visita Marcelo!
Eu até goste de musicais e certamente Burton me surpreende aqui. Embora tenha produzido uma animação com passagens musicais (O Estranho Mundo de Jack), enfim, ver um filme inteiramente musicado em live action e tudo e dirigido por ele, bom o resultado foi esse aí.
Abraço!
Gosto do filme, apesar de não estar entre meus preferidos de Burton. E você destrinchou-o muito bem, como sempre.
bjs
Amanda: Entendo Nanda, é um filme ame ou deixe-o. Ótimo você ao menos ter gostado e embarcado na ideia.
Eu gostei bastante, melhor que "Alice", por exemplo, o que parecia ser mais próximo de Burton.
Bjs. e obrigado.
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