A MILHA VERDE
Preso
no corredor da morte esta um homem misterioso, injustamente acusado de estupro e
assassinato, um ser que possui um dom divino.
FRANK DARABONT é um brilhante roteirista e
diretor, ainda muito subestimado em Hollywood a meu ver. Seus filmes são sempre
emocionais e envolventes. Nascido na França, mas em atividade nos Estados
Unidos, tem apenas 3 indicações ao Oscar e assinou diversos scripts para inúmeros projetos para
cinema e televisão. Sei que é aficionado por filmes de terror, suspense,
ficção-científica, tendo assinado roteiros para amigos, como o diretor Chuck Russell (a refilmagem de A
Bolha Assassina [The Blob, 1988]
e o terceiro capítulo da série produzida por Wes Craven, A Hora do Pesadelo, ‘Os Guerreiros
dos Sonhos’, 1987).
Tem créditos em produções toscas como a continuação de A
Mosca de David Cronenberg, naquela fita
desastrosa dirigida por Chris Walas.
Enfim, como diretor começou aos poucos e estreou primeiramente com um telefilme
curioso, aliás, muito bom, e que já passou inúmeras vezes (inclusive no SBT)
nas sessões de Cinema em Casa e Tela De Sucessos, refiro-me ao reprisado
“Sepultado Vivo” e ou/ “Morto,
mas nem Tanto” (Buried Alive de 1990), estrelado por Jennifer Jason Leigh como a esposa infiel diabólica, William Atherton como o amante e o ‘morto-vivo’traído
e vingativo interpretado pelo ótimo Tim
Matheson. Quer dizer, não foi com STEPHEN KING o seu debut como muitos pensam, mas é correto afirmar que foi com o
maravilhoso e adorado UM
SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994, com Tim Robbins e Morgan Freeman),
indicados a diversos Oscar e também
bastante revisto na TV, praticamente a grande estréia de Darabont. É claro que
teve alguns pequenos deslizes com apenas um único filme mediano, CINE MAJESTIC (The Majestic, 2001) estrelado por Jim Carrey em papel dramático, aliás, o
texto nem é seu e sim assinado por um desconhecido chamado Michael Sloane. O cara ainda esta por trás da primeira temporada do
sucesso mundial que se tornou a saga dos Mortos-Vivos,
THE WALKING DEAD (2010) caminhando para a quarta temporada,
baseado nos quadrinhos de Robert Kirkman
e Tony Moore dirigindo um ótimo
episódio piloto. Atualmente, na TV, trabalha na série MOD CITY (2013), ganhando maiores
créditos e acho bom isso continuar por que ele merece. Faço questão de escrever
um parágrafo só dele.
Também escreveu vários episódios do antigo seriado O JOVEM INDIANA JONES (realizado como super telefimes episódicos) para George Lucas, mas o mesmo recusou um argumento seu para o quarto longa-metragem hoje conhecido como “O Reino Da Caveira de Cristal”, lançado em 2008. Fato que chateou Darabont. Adiante e com King, retornou no excelente O NEVOEIRO (The Mist, 2007) e sim, é verdade que é este o diretor que mais entende o famoso autor de livros de terror. Concordo que outro realizador ponderado como Rob Reiner, também conseguiu tirar o rótulo de King como escritor de Best-sellers terrificantes, quando lançou em 1986 o sensacional CONTA COMIGO (Stand by me). No entanto, foi com o triunfo hipnótico e fenomenal de “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”, livro adaptado por Darabont, que o autor foi, vamos dizer “rebatizado”, como grande romancista dramático, um oposto ao terror propriamente dito em obras como “O Iluminado” e “Cemitério Maldito”. Com o mesmo êxito, ele faz uma dobradinha com outro clássico instantâneo, À ESPERA DE UM MILAGRE (The Green Mile, 1999) ou ao pé da letra: “A Milha Verde”, já que o chão daquele corredor era de um verde desbotado.
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| O cara: FRANK DARABONT |
Também escreveu vários episódios do antigo seriado O JOVEM INDIANA JONES (realizado como super telefimes episódicos) para George Lucas, mas o mesmo recusou um argumento seu para o quarto longa-metragem hoje conhecido como “O Reino Da Caveira de Cristal”, lançado em 2008. Fato que chateou Darabont. Adiante e com King, retornou no excelente O NEVOEIRO (The Mist, 2007) e sim, é verdade que é este o diretor que mais entende o famoso autor de livros de terror. Concordo que outro realizador ponderado como Rob Reiner, também conseguiu tirar o rótulo de King como escritor de Best-sellers terrificantes, quando lançou em 1986 o sensacional CONTA COMIGO (Stand by me). No entanto, foi com o triunfo hipnótico e fenomenal de “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”, livro adaptado por Darabont, que o autor foi, vamos dizer “rebatizado”, como grande romancista dramático, um oposto ao terror propriamente dito em obras como “O Iluminado” e “Cemitério Maldito”. Com o mesmo êxito, ele faz uma dobradinha com outro clássico instantâneo, À ESPERA DE UM MILAGRE (The Green Mile, 1999) ou ao pé da letra: “A Milha Verde”, já que o chão daquele corredor era de um verde desbotado.
Diferente de “Um Sonho de
Liberdade”, este filme tende mais para o lado da fantasia. Em apenas uma
palavra: milagre. Não há tanto para dizer, apenas que a trama não é muito
complexa e cheia de alegorias. Darabont faz uma adaptação homônima (muito
elogiada por King) com bastante sensibilidade e repete o feito na sua precisa
direção. Narrado em um grande flashback
(sim, a fita é longa!) TOM HANKS (mais uma vez acertando na
escolha do projeto) com seu jeito habitual, vive um agente penitenciário de um
presídio de segurança máxima na cidade de Louisiana,
no caso, ele é chefe da ala do corredor da morte onde se localiza os sujeitos
condenados a morrer na cadeira elétrica. Ele é Paul Edgecomb. Casado,
com filho na faculdade, uma bela casa de campo e uma esposa dedicada e amorosa.
Recentemente com uma grave infecção
urinária, Paul vive em plena época conturbada da Grande Depressão no ano de 1935. Até que um belo dia recebe um novo
prisioneiro, um negro gigante, porém, como as aparências enganam, eis um
sujeito doce, solitário e trágico, John Coffey, brilhantemente
interpretado pelo saudoso MICHAEL CLARKE DUNCAN (1957-2012) no papel mais
consagrado de sua carreira e que, aliás, foi uma sugestão de Bruce Willis quando os produtores
estavam à procura do personagem e que é perfeito para Duncan caindo em suas mãos
como uma luva! E é através de Coffey que
Paul irá se deparar com eventos sobrenaturais inexplicáveis.
Esse homem misterioso e à primeira
vista assustador, é acusado por um crime brutal. Estupro seguido por
assassinato de duas garotinhas (evidentemente brancas. Ainda era a época do
tamanho preconceito racial, mas o filme não esta interessado em fazer esse
recorte com afinco) e pelo fato de ser negro, bom, nem é julgado e sendo assim,
rapidamente mandado para execução. O fato é que Coffey é encontrado na cena do
crime, chorando desesperado com ambas ensanguentadas em seus braços. No
entanto, ao longo do enredo vamos descobrir que ele é inocente e que na verdade
possui um dom especial de cura, capaz de “sugar” para si toda a dor e
sofrimento alheio para depois “vomitar” as impurezas e assim “curar”
milagrosamente aqueles que morreram e ou/ estão enfermos. Infelizmente, não foi
possível salvar a tempo as crianças, sugere-se que já estavam mortas há
bastante tempo. É através de Paul, que é curado de sua infecção peniana quando
é tocado por Coffey, que iremos saber das verdades e injustiças. Ali, surge uma
amizade bastante incomum, baseada nessa descoberta, o “dom mágico”. Com isso, o
filme consegue prender o espectador com momentos prodígios, por exemplo, quando
um astuto ratinho começa a roubar as cenas quando aparece do nada na ala do
corredor chamando a atenção dos guardas e prisioneiros, no caso de um francês
com sintomas de problemas mentais que é interpretado pelo ótimo MICHAEL
JETER
(1952-2003) que começa a domesticá-lo e cria a fantasia de que seu amiguinho,
batizado de Sr, Jingles, irá com ele numa fantástica turnê circense
especial com o intuito de encantar as crianças, já que o roedor aprendeu a
girar carretéis de linha e a subir em seu corpo numa espécie de brincadeira. Também
com a ajuda de espetaculares efeitos
especiais, Darabont é capaz de alegrar a sessão com esse ratinho (mas, de
fato, existia muitos deles no set de
filmagem que eram realmente domesticados para o cumprimento das cenas), não
apenas isso, mas quando Coffey retira a carga pesada e negativa de sua boca e
uma espécie de “enxame” misterioso voa pelos ares.
Por mais que apareçam outros personagens
doentes, como a mulher com câncer cerebral (interpretado por Patricia Clarkson), para então Coffey evidenciar
ainda mais o seu dom – já tinha ressuscitado o ratinho - o momento
crucial do filme é o conflito moral do personagem de Hanks, que fica dividido
entre cumprir o seu dever, segundo o Estado e a lei e sua própria consciência
que é impossível de ignorar, ainda mais frente a tantos eventos espantosos.
Coffey merece morrer por um crime que certamente não cometeu? Pois é, já que
entra em cena um psicopata cruel e depravado que é outro destaque através do
também excelente ator SAM ROCKWELL como o selvagem “Wild
Bill”, mas, pior que ele, é o espírito sombrio do malvado Percy
Wetmore, feito pelo soberbo DOUG HUTCHISON, recém contratado como guarda
penitenciário, o cara, com jeito afeminado e estranho, gosta de ver sangue e
tem o prazer doentio de importunar a todos e almeja presenciar uma sentença de
morte bem de perto. São essas duas figuras que antagonizam muito bem a trama,
os exemplos perfeitos de devassidão e perversidade. Gosto também do restante do
elenco: DAVID MORSE (de Dançando No Escuro),
BARRY
PEPPER (de O Resgate do Soldado Ryan) e JEFFREY
DeMUNN (ator
presente nas produções de Darabont) como os outros guardas, o veterano JAMES
CROMWELL (Los Angeles - Cidade Proibida),
grande amigo do protagonista, seu chefe e que tem a esposa doente e BONNIE
HUNT (Jerry Maguire: A Grande Virada/ Jumanji) como a mulher
de Edgecomb que mesmo num papel menor e discreto, faz uma presença notável. No
presente e durante a velhice em um asilo, o sensacional DABBS
GREER
(1917-2007) de filmes como Vampiros de Almas (Invasion of the
Body Snatchers, 1956
de Don Siegel) também emociona como
Edgecomb, que apesar de muito velho, é hodierno e transpira serenidade,
simpatia e, sobretudo, vida, narrando todos os acontecimentos do filme. Hanks fez testes de maquiagem para fazê-lo velho, apesar de ter sido feita por mestres como Rick Baker e Greg Nicotero, a ideia foi cancelada.
Adoro, também, a exibição do
clássico O PICOLINO (Top Hat, 1935 de Mark Sandrich) com Fred
Astaire e Ginger Rogers, como um
dos pedidos de Coffey que sempre sonhou em assistir a um filme. Em minha
opinião, é a melhor cena de toda a fita e o engraçado é que Darabont repete o
êxito aqui lembrando que fez uma mesma citação/homenagem cinéfila em “Um Sonho de
Liberdade” quando, por exemplo, exibe numa cena chave outro clássico:
GILDA (idem,
1946 de Charles Vidor) com a diva e
mito Rita Hayworth, que já era uma
inspiração de King em seu livro.
Originalmente, King escreveu The Green Mile em várias partes e os
publicou desta forma (entre março e agosto de 1996) alegando mais tarde que
havia cometido um grande erro e de que não fazia a menor ideia de como a estória iria acabar.
Curiosamente, a música tocada pelos
alto-falantes no asilo onde se encontra o velho Edgecomb, na sua primeira cena,
é a mesma utilizada por Milos Forman
em Um
Estranho No Ninho
(leia aqui), no caso, chama-se “Charmaine”
composta por Ernö Rapée e Lew Pollack e interpretada pela Orquestra de Mantovani.
O papel principal foi antes
oferecido para John Travolta que o
recusou.
Inesperadamente milagroso. Este
é um filme comovente sobre humanidade e é tanta suscetibilidade vista na tela
que até acredito que qualquer cético se veja envolvido durante a sessão. Não
creio que este filme tem o intuito de fazer qualquer apologia ao culto, crença
ou qualquer outra doutrina divina. À Espera de Um Milagre, apesar da tradução em
português indicar erroneamente alguma coisa voltada para a religião, te dá
livre arbítrio para acreditar no que quiser. Milagres ou não, ao menos você
deve crer em alguma coisa e no final das contas, quer dizer, no fim da vida,
nos veremos numa espécie de “corredor”, à espera do inevitável ou de novo, de
algum milagre.
EUA
1999
DRAMA
COR
187
min.
WARNER
★ ★ ★ ★ ★
CASTLE ROCK ENTERTAINMENT APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DARKWOODS
TOM HANKS
THE
GREEN MILE
DAVID MORSE BONNIE HUNT MICHAEL CLARKE DUNCAN
JAMES CROWELL MICHAEL JETER
GHAHAM GREENE
DOUG HUTCHSON SAM ROCKWELL
BARRY PEPPER
JEFFREY DeMUNN PATRICIA CLARKSON HARRY DEAN STANTON
CO:ESTRELANDO: DABBS GREER
EVE BRENT
MÚSICA DE THOMAN NEWMAN FIGURINOS KARYN WAGNER
EDIÇÃO RICHARD FRANCES-BRUCE, AC.E. CENOGRAFIA
TERENCE MARSH
DIRETOR DE FOTOGRAFIA DAVID TATTERSALL, B.S.C
BASEADO NO ROMANCE DE STEPHEN KING
PRODUZIDO POR DAVID VALDES E
FRANK DARABONT
ESCRITO PARA À TELA E
DIRIGIDO POR
FRANK
DARABONT
THE GREEN MILE © 1999 WARNER BROS. PICTURES/ CASTLE
ROCK/ DARKWOODS











7 comentários:
Filme maravilhoso! Como você disse,Darabont já tinha se consagrado anteriormente com UM SONHO DE LIBERDADE que pra mim é um dos melhores filmes de todos os tempos numa lista de 10. Pra mim, o filme jamais quis fazer apologia a religião nem a qualquer sobrenatural, mas unir drama e fantasia, o que deu um combinação supreendente nesse filme. Fantástico!
Um filme simplesmente emocionante. A forma como ele constrói o personagem, a injustiça passada, as questões levantadas. Gosto bastante, principalmente, da cena do cinema, uma das melhores do filme.
bjs
Oie,
Também sou apaixonada por Um Sonho de Liberdade , aquela história me encanta em níveis além universo,rs.
Mas, não podemos deixar de lado essa obra prima e todo conteúdo filosófico, subliminar e histórico do filme.
Recheado de alegorias que teimam em fincar nossa psiquê, o que mais gosto é o passeio(se que posso chamar assim) entre a grande depressão e os acontecimentos sobrenaturais.
E o mais delicioso em ler seus textos, são os detalhes,rs.
Só, vc para lembrar de Charmaine...
um abraçãoooooooooo e em Outubro teremos surpresas na Cinéfilos
Gostei sobretudo do destaque que foi dado a F. Darabont e à sua obra. Quando acessei, pensei que leria apenas comentários sobre o filme!
Heri: Sim, concordo com vc e "Um Sonho de Liberdade" esta no meu top tb com toda certeza. Já saiu do ranking filme de uma década e já esta na lista dos melhores em todos os tempos.
Amanda: Entre tantas cenas estupendas no filme, de fato, JC admirando O Picolino é emocionante.
Pati: Obrigado querida ;)
Darabont e King fazem essa proposta, tanto com Um Sonho de Liberdade, O nevoeiro e principalmente esse, questões morais, essas que marcam para sempre em nossos pensamentos.
Kleiton: Sim , sim, Darabont merece muito destaque e o mínimo que poderia fazer, infelizmente seu nome ainda não é de fácil associação. Obrigado pela visita.
Abraços à todos.
Frank Darabont ainda não tem a fama que merece.
Sou fã de seus trabalhos e este é um drama sensacional.
Abraço
Sim Hugo, ele merecia já ter fama desde Um Sonho de Liberdade, aliás, do tempo que já era roteirista de filme de terror B.
Abs.
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