sexta-feira, 4 de outubro de 2013

À ESPERA DE UM MILAGRE

A MILHA VERDE  

Preso no corredor da morte esta um homem misterioso, injustamente acusado de estupro e assassinato, um ser que possui um dom divino.

FRANK DARABONT é um brilhante roteirista e diretor, ainda muito subestimado em Hollywood a meu ver. Seus filmes são sempre emocionais e envolventes. Nascido na França, mas em atividade nos Estados Unidos, tem apenas 3 indicações ao Oscar e assinou diversos scripts para inúmeros projetos para cinema e televisão. Sei que é aficionado por filmes de terror, suspense, ficção-científica, tendo assinado roteiros para amigos, como o diretor Chuck Russell (a refilmagem de A Bolha Assassina [The Blob, 1988] e o terceiro capítulo da série produzida por Wes Craven, A Hora do Pesadelo, ‘Os Guerreiros dos Sonhos’, 1987). Tem créditos em produções toscas como a continuação de A Mosca de David Cronenberg, naquela fita desastrosa dirigida por Chris Walas. Enfim, como diretor começou aos poucos e estreou primeiramente com um telefilme curioso, aliás, muito bom, e que já passou inúmeras vezes (inclusive no SBT) nas sessões de Cinema em Casa e Tela De Sucessos, refiro-me ao reprisado “Sepultado Vivo” e ou/ “Morto, mas nem Tanto” (Buried Alive de 1990), estrelado por Jennifer Jason Leigh como a esposa infiel diabólica, William Atherton como o amante e o ‘morto-vivo’traído e vingativo interpretado pelo ótimo Tim Matheson. Quer dizer, não foi com STEPHEN KING o seu debut como muitos pensam, mas é correto afirmar que foi com o maravilhoso e adorado UM SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994, com Tim Robbins e Morgan Freeman), indicados a diversos Oscar e também bastante revisto na TV, praticamente a grande estréia de Darabont. É claro que teve alguns pequenos deslizes com apenas um único filme mediano, CINE MAJESTIC (The Majestic, 2001) estrelado por Jim Carrey em papel dramático, aliás, o texto nem é seu e sim assinado por um desconhecido chamado Michael Sloane. O cara ainda esta por trás da primeira temporada do sucesso mundial que se tornou a saga dos Mortos-Vivos, THE WALKING DEAD (2010) caminhando para a quarta temporada, baseado nos quadrinhos de Robert Kirkman e Tony Moore dirigindo um ótimo episódio piloto. Atualmente, na TV, trabalha na série MOD CITY (2013), ganhando maiores créditos e acho bom isso continuar por que ele merece. Faço questão de escrever um parágrafo só dele. 


O cara: FRANK DARABONT

Também escreveu vários episódios do antigo seriado O JOVEM INDIANA JONES (realizado como super telefimes episódicos) para George Lucas, mas o mesmo recusou um argumento seu para o quarto longa-metragem hoje conhecido como “O Reino Da Caveira de Cristal”, lançado em 2008. Fato que chateou Darabont. Adiante e com King, retornou no excelente O NEVOEIRO (The Mist, 2007) e sim, é verdade que é este o diretor que mais entende o famoso autor de livros de terror. Concordo que outro realizador ponderado como Rob Reiner, também conseguiu tirar o rótulo de King como escritor de Best-sellers terrificantes, quando lançou em 1986 o sensacional CONTA COMIGO (Stand by me). No entanto, foi com o triunfo hipnótico e fenomenal de “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”, livro adaptado por Darabont, que o autor foi, vamos dizer “rebatizado”, como grande romancista dramático, um oposto ao terror propriamente dito em obras como “O Iluminado” e “Cemitério Maldito”. Com o mesmo êxito, ele faz uma dobradinha com outro clássico instantâneo, À ESPERA DE UM MILAGRE (The Green Mile, 1999) ou ao pé da letra: “A Milha Verde”, já que o chão daquele corredor era de um verde desbotado.



Diferente de “Um Sonho de Liberdade”, este filme tende mais para o lado da fantasia. Em apenas uma palavra: milagre. Não há tanto para dizer, apenas que a trama não é muito complexa e cheia de alegorias. Darabont faz uma adaptação homônima (muito elogiada por King) com bastante sensibilidade e repete o feito na sua precisa direção. Narrado em um grande flashback (sim, a fita é longa!) TOM HANKS (mais uma vez acertando na escolha do projeto) com seu jeito habitual, vive um agente penitenciário de um presídio de segurança máxima na cidade de Louisiana, no caso, ele é chefe da ala do corredor da morte onde se localiza os sujeitos condenados a morrer na cadeira elétrica. Ele é Paul Edgecomb. Casado, com filho na faculdade, uma bela casa de campo e uma esposa dedicada e amorosa.  Recentemente com uma grave infecção urinária, Paul vive em plena época conturbada da Grande Depressão no ano de 1935. Até que um belo dia recebe um novo prisioneiro, um negro gigante, porém, como as aparências enganam, eis um sujeito doce, solitário e trágico, John Coffey, brilhantemente interpretado pelo saudoso MICHAEL CLARKE DUNCAN (1957-2012) no papel mais consagrado de sua carreira e que, aliás, foi uma sugestão de Bruce Willis quando os produtores estavam à procura do personagem e que é perfeito para Duncan caindo em suas mãos como uma luva!  E é através de Coffey que Paul irá se deparar com eventos sobrenaturais inexplicáveis.

Esse homem misterioso e à primeira vista assustador, é acusado por um crime brutal. Estupro seguido por assassinato de duas garotinhas (evidentemente brancas. Ainda era a época do tamanho preconceito racial, mas o filme não esta interessado em fazer esse recorte com afinco) e pelo fato de ser negro, bom, nem é julgado e sendo assim, rapidamente mandado para execução. O fato é que Coffey é encontrado na cena do crime, chorando desesperado com ambas ensanguentadas em seus braços. No entanto, ao longo do enredo vamos descobrir que ele é inocente e que na verdade possui um dom especial de cura, capaz de “sugar” para si toda a dor e sofrimento alheio para depois “vomitar” as impurezas e assim “curar” milagrosamente aqueles que morreram e ou/ estão enfermos. Infelizmente, não foi possível salvar a tempo as crianças, sugere-se que já estavam mortas há bastante tempo. É através de Paul, que é curado de sua infecção peniana quando é tocado por Coffey, que iremos saber das verdades e injustiças. Ali, surge uma amizade bastante incomum, baseada nessa descoberta, o “dom mágico”. Com isso, o filme consegue prender o espectador com momentos prodígios, por exemplo, quando um astuto ratinho começa a roubar as cenas quando aparece do nada na ala do corredor chamando a atenção dos guardas e prisioneiros, no caso de um francês com sintomas de problemas mentais que é interpretado pelo ótimo MICHAEL JETER (1952-2003) que começa a domesticá-lo e cria a fantasia de que seu amiguinho, batizado de Sr, Jingles, irá com ele numa fantástica turnê circense especial com o intuito de encantar as crianças, já que o roedor aprendeu a girar carretéis de linha e a subir em seu corpo numa espécie de brincadeira. Também com a ajuda de espetaculares efeitos especiais, Darabont é capaz de alegrar a sessão com esse ratinho (mas, de fato, existia muitos deles no set de filmagem que eram realmente domesticados para o cumprimento das cenas), não apenas isso, mas quando Coffey retira a carga pesada e negativa de sua boca e uma espécie de “enxame” misterioso voa pelos ares.

Por mais que apareçam outros personagens doentes, como a mulher com câncer cerebral (interpretado por Patricia Clarkson), para então Coffey evidenciar ainda mais o seu dom – já tinha ressuscitado o ratinho - o momento crucial do filme é o conflito moral do personagem de Hanks, que fica dividido entre cumprir o seu dever, segundo o Estado e a lei e sua própria consciência que é impossível de ignorar, ainda mais frente a tantos eventos espantosos. Coffey merece morrer por um crime que certamente não cometeu? Pois é, já que entra em cena um psicopata cruel e depravado que é outro destaque através do também excelente ator SAM ROCKWELL como o selvagem “Wild Bill”, mas, pior que ele, é o espírito sombrio do malvado Percy Wetmore, feito pelo soberbo DOUG HUTCHISON, recém contratado como guarda penitenciário, o cara, com jeito afeminado e estranho, gosta de ver sangue e tem o prazer doentio de importunar a todos e almeja presenciar uma sentença de morte bem de perto. São essas duas figuras que antagonizam muito bem a trama, os exemplos perfeitos de devassidão e perversidade. Gosto também do restante do elenco: DAVID MORSE (de Dançando No Escuro), BARRY PEPPER (de O Resgate do Soldado Ryan) e JEFFREY DeMUNN (ator presente nas produções de Darabont) como os outros guardas, o veterano JAMES CROMWELL (Los Angeles - Cidade Proibida), grande amigo do protagonista, seu chefe e que tem a esposa doente e BONNIE HUNT (Jerry Maguire: A Grande Virada/ Jumanji) como a mulher de Edgecomb que mesmo num papel menor e discreto, faz uma presença notável. No presente e durante a velhice em um asilo, o sensacional DABBS GREER (1917-2007) de filmes como Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956 de Don Siegel) também emociona como Edgecomb, que apesar de muito velho, é hodierno e transpira serenidade, simpatia e, sobretudo, vida, narrando todos os acontecimentos do filme. Hanks fez testes de maquiagem para fazê-lo velho, apesar de ter sido feita por mestres como Rick Baker e Greg Nicotero, a ideia foi cancelada.


Adoro, também, a exibição do clássico O PICOLINO (Top Hat, 1935 de Mark Sandrich) com Fred Astaire e Ginger Rogers, como um dos pedidos de Coffey que sempre sonhou em assistir a um filme. Em minha opinião, é a melhor cena de toda a fita e o engraçado é que Darabont repete o êxito aqui lembrando que fez uma mesma citação/homenagem cinéfila em “Um Sonho de Liberdade” quando, por exemplo, exibe numa cena chave outro clássico: GILDA (idem, 1946 de Charles Vidor) com a diva e mito Rita Hayworth, que já era uma inspiração de King em seu livro.

Originalmente, King escreveu The Green Mile em várias partes e os publicou desta forma (entre março e agosto de 1996) alegando mais tarde que havia cometido um grande erro e de que não fazia a menor ideia de como a estória iria acabar.

Curiosamente, a música tocada pelos alto-falantes no asilo onde se encontra o velho Edgecomb, na sua primeira cena, é a mesma utilizada por Milos Forman em Um Estranho No Ninho (leia aqui), no caso, chama-se “Charmaine” composta por Ernö Rapée e Lew Pollack e interpretada pela Orquestra de Mantovani.

O papel principal foi antes oferecido para John Travolta que o recusou.

Inesperadamente milagroso. Este é um filme comovente sobre humanidade e é tanta suscetibilidade vista na tela que até acredito que qualquer cético se veja envolvido durante a sessão. Não creio que este filme tem o intuito de fazer qualquer apologia ao culto, crença ou qualquer outra doutrina divina. À Espera de Um Milagre, apesar da tradução em português indicar erroneamente alguma coisa voltada para a religião, te dá livre arbítrio para acreditar no que quiser. Milagres ou não, ao menos você deve crer em alguma coisa e no final das contas, quer dizer, no fim da vida, nos veremos numa espécie de “corredor”, à espera do inevitável ou de novo, de algum milagre.


EUA
1999
DRAMA
COR
187 min.
WARNER
           





CASTLE ROCK ENTERTAINMENT APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DARKWOODS
TOM HANKS
THE   GREEN   MILE
TAMBÉM ESTRELANDO:
DAVID MORSE   BONNIE HUNT   MICHAEL CLARKE DUNCAN
JAMES CROWELL   MICHAEL JETER  GHAHAM GREENE
DOUG HUTCHSON   SAM ROCKWELL  BARRY PEPPER
JEFFREY DeMUNN   PATRICIA CLARKSON  HARRY DEAN STANTON
CO:ESTRELANDO:  DABBS GREER  EVE BRENT
MÚSICA DE THOMAN NEWMAN  FIGURINOS KARYN WAGNER
EDIÇÃO RICHARD FRANCES-BRUCE, AC.E.  CENOGRAFIA TERENCE MARSH
DIRETOR DE FOTOGRAFIA DAVID TATTERSALL, B.S.C
BASEADO NO ROMANCE DE STEPHEN KING
PRODUZIDO POR DAVID VALDES  E  FRANK DARABONT
ESCRITO PARA À TELA E DIRIGIDO POR
FRANK DARABONT
THE GREEN MILE © 1999 WARNER BROS. PICTURES/ CASTLE ROCK/ DARKWOODS

7 comentários:

Heri disse...

Filme maravilhoso! Como você disse,Darabont já tinha se consagrado anteriormente com UM SONHO DE LIBERDADE que pra mim é um dos melhores filmes de todos os tempos numa lista de 10. Pra mim, o filme jamais quis fazer apologia a religião nem a qualquer sobrenatural, mas unir drama e fantasia, o que deu um combinação supreendente nesse filme. Fantástico!

Amanda Aouad disse...

Um filme simplesmente emocionante. A forma como ele constrói o personagem, a injustiça passada, as questões levantadas. Gosto bastante, principalmente, da cena do cinema, uma das melhores do filme.

bjs

Patt Baleeira disse...

Oie,
Também sou apaixonada por Um Sonho de Liberdade , aquela história me encanta em níveis além universo,rs.

Mas, não podemos deixar de lado essa obra prima e todo conteúdo filosófico, subliminar e histórico do filme.
Recheado de alegorias que teimam em fincar nossa psiquê, o que mais gosto é o passeio(se que posso chamar assim) entre a grande depressão e os acontecimentos sobrenaturais.

E o mais delicioso em ler seus textos, são os detalhes,rs.
Só, vc para lembrar de Charmaine...

um abraçãoooooooooo e em Outubro teremos surpresas na Cinéfilos

Anônimo disse...

Gostei sobretudo do destaque que foi dado a F. Darabont e à sua obra. Quando acessei, pensei que leria apenas comentários sobre o filme!

Rodrigo Mendes disse...

Heri: Sim, concordo com vc e "Um Sonho de Liberdade" esta no meu top tb com toda certeza. Já saiu do ranking filme de uma década e já esta na lista dos melhores em todos os tempos.

Amanda: Entre tantas cenas estupendas no filme, de fato, JC admirando O Picolino é emocionante.

Pati: Obrigado querida ;)
Darabont e King fazem essa proposta, tanto com Um Sonho de Liberdade, O nevoeiro e principalmente esse, questões morais, essas que marcam para sempre em nossos pensamentos.

Kleiton: Sim , sim, Darabont merece muito destaque e o mínimo que poderia fazer, infelizmente seu nome ainda não é de fácil associação. Obrigado pela visita.

Abraços à todos.

Hugo disse...

Frank Darabont ainda não tem a fama que merece.

Sou fã de seus trabalhos e este é um drama sensacional.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Sim Hugo, ele merecia já ter fama desde Um Sonho de Liberdade, aliás, do tempo que já era roteirista de filme de terror B.

Abs.

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