sexta-feira, 27 de setembro de 2013

GAROTOS DE PROGRAMA

SOLIDÃO E REBELDIA

Dois grandes amigos que vivem nas ruas de Portland como Garotos de Programa embarcam em uma jornada de recém-descoberta intensificando o relacionamento ao longo do caminho.


Faço coro ao crítico de cinema norte-americano Desson Howe do The Washington Post ao resumir em poucas palavras esse grande filme: “refinado poema cinematográfico que aborda o desejo eterno de se pertencer a algum lugar e a paisagem solitária da alma.” Sem dúvida, é um belíssimo trabalho do cineasta GUS VAN SANT (Gênio Indomável, Milk, Encontrando Forrester) sobre a jornada de dois jovens prostitutos concentrando-se no relacionamento deles. Mike Waters, o saudoso RIVER PHOENIX (1970-1993) e Scott Favor, KEANU REEVES no melhor papel de sua carreira. Ambos vivem na clandestinidade e vendem o corpo como sustento nas ruas sujas de Portland, Oregon. Eles fazem parte de uma família libidinosa e complicada de excluídos sociais que se reúne em um edifício abandonado e condenado. Pra mim, é uma versão inspirada de Van Sant (e mais adulta, óbvio) do clássico de Charles Dickens, OLIVER TWIST. Muito embora, o filme assuma uma ampla homenagem à adaptação de HENRIQUE IV famosa peça de Shakespeare. Ambiciosos, sem rumos, os dois têm personalidades distintas, mas algo em comum, fazem de seus corpos mercadorias para quem estiver disposto a pagar. No entanto, Scott revela-se como sendo um filho rebelde de uma família rica e escolheu esse estilo radical de vida apenas para humilhar o seu pai. Enquanto Mike, tadinho, não esconde muitos segredos como o amigo, e como muitos rapazes de sua idade que sobrevive sob a mesma situação aviltante, é também mais uma vítima da orfandade. Phoenix, no auge de seu estrelato, personifica um moço calado, gentil, sonhador e certamente bonito (e como River Phoenix era bonito....). Homossexual declarado está perdidamente apaixonado por Scott, que mais tarde assume sua condição heterossexual. 


Sensível e jamais piegas, GAROTOS DE PROGRAMA (My Own Private Idaho, 1991. Que traduzindo ao pé da letra significa: “Meu Idaho Privado”. Idaho é um dos 50 estados dos Estados Unidos e o filme evidencia uma estrada deserta próximo a montanhas rochosas típicas da região), é um filme notável. Van Sant é capaz de contar uma premissa com bastante humor, sinceridade e, sobretudo sensibilidade. Idiossincrático, os personagens cativam facilmente o espectador, aliás, além de diálogos envolventes, a fotografia de John J. Campbell e Eric Alan Edwards fogem do convencional. A direção é também brilhante e capaz de transmitir os olhares subjetivos dos heróis, suas insatisfações com a vida, todo o tipo de perturbação da rotina de garoto de programa e seus anseios. Phoenix que morreria tragicamente de overdose aos 23 anos rouba praticamente todas as cenas. Para começar, seu personagem sofre de uma grave doença do sono, a narcolepsia, e dorme do nada nos momentos mais inoportunos. Pobre, sozinho (no quesito família de sangue e posição social) esta obcecado por encontrar sua misteriosa mãe (e sua lembrança é representada no filme através de projeções antigas), há muito tempo desaparecida. Esse é o plot principal que incentiva os protagonistas a embarcarem numa espécie de aventura pela estrada, fazendo um programinha aqui e outro ali (adoro a participação do ator alemão UDO KIER como um dos clientes, aliás, bem humorada!) e eles vão, de motocicleta e depois de avião de Idaho à Roma, na Itália, em busca desse amor materno do azarado Mike, sempre metido em encrencas, mas Scott, nessa viagem, também irá descobrir um caminho para mudar de vida.

   
Os nomes dos astros teen Phoenix e Reeves evidentemente alavancaram o viés comercial para o filme, que nasceu como uma obra particular, orçamento modesto (produzido pela New Line Cinema) e trama para agradar a crítica especializada. Era apenas o terceiro longa metragem dele após sucessos como DRUGSTORE COWBOY de 1989. Outro Road movie realista sobre um viciado em drogas e seu inevitável declínio no mundo do crime, estrelado por Matt Dillon (que faria o meu filme predileto do diretor UM SONHO SEM LIMITES, To Die For, 1995, com Nicole Kidman) e Kelly Lynch. O primeiro, lançado em 1986, MALA NOCHE, é outro grande filme, raro (acho que não tem em DVD) sobre paixão, amor e luxúria. Ou seja, Van Sant sempre se manifestou em filmes do gênero. A homossexualidade é quase sempre um dos temas principais em sua filmografia, ainda mais nos primeiros. Aqui ele debruça totalmente na prostituição infantil e aborda com maestria o universo gay, mas sem rotular nada. Portanto, não é um filme padrão para o público americano, ainda mais naquela época, que trazia seus astros favoritos, principalmente Phoenix, mais famoso até aquele momento que Reeves. 


Não consigo encarar o filme como tão polêmico. Van Sant suaviza muitas coisas, para o bem de seu filme e digo mais, sai até mesmo do convencionalismo dos filmes que querem ser de alguma forma, chocantes. Provavelmente os melhores exemplos esta na obra de outro diretor americano, Larry Clark, de filmes mais crus como KIDS, de 1995 ou mesmo Bully – Juventude Violenta (2001) e Ken Park (2002).

Ganhou alguns prêmios importantes no Festival de Veneza. Phoenix para Melhor Ator e o Leão de Ouro para Van Sant e nenhuma indicação da Academia o que já é de praxe para filmes excelentes e tragicamente injustiçados. 

Van Sant e Phoenix

Em 2011 numa galeria em Beverly Hillis, Gagosian, aconteceu uma exposição especial do filme apresentando 12 horas de material inédito com cenas deletadas, alternativas e curiosidades de bastidores. O evento foi nomeado de Unfinished e foi dirigido por Van Sant e pelo ator JAMES FRANCO (que foi dirigido por ele em Milk e desde então são amigos). 

 Para conseguir extrair interpretações naturais e realistas, muitos dos membros do elenco (Phoenix, Reeves, Flea, Michael Parker) se mudaram temporariamente para um casarão antigo, propriedade do próprio Van Sant em Portland. Com isso, eram autorizados a curtir de todas as maneiras. Ouve muitas festas de madrugada, bebidas alcoólicas à vontade e todos adoravam tocar música durante as sucessivas festas. A algazarra era tamanha que Van Sant nem quis atrapalhar e como residia no local teve que mudar para a casa de um amigo até o término das filmagens a fim de conseguir ter algumas horas de sono.

Emocionante e engraçado. Autoral e surpreendente. Um filme de cabeceira. Integra a minha coleção é já o considero um clássico. Identifico-me com a temática homossexual afetiva da fita e fico perdidamente apaixonado por Phoenix que com todo o seu talento de berço imprime um corajoso retrato do rapaz gay. Longe de qualquer estereótipo. Tudo é muito honesto e poético. Confiram, e desculpem o trocadilho, mas esse filme é um excelente programa.


EUA
1991
DRAMA/ROMANCE
COR
103 min.
PLAYARTE
           




RIVER PHOENIX   KEANU REEVES
UM    FILME   DE
GUS VAN SANT
MY OWN PRIVATE IDAHO
JAMES RUSSO   WILLIAM RICHERT   RODNEY HARVEY
CHIARA CASELLI   MICHAEL PARKER  JESSIE THOMAS
FLEA    GRACE ZABRISKIE    TOM TROUPE   UDO KIER  
SALLY CURTICE    ROBERT LEE PITCHLYNN   MICKEY COTTRELL
MÚSICA ORIGINAL POR BILL STAFFORD
FOTOGRAFADO POR JOHN CAMPBELL  ERICK ALAN EDWARDS
EDIÇÃO CURTISS CLAYTON CENOGRAFIA DAVID BRISBIN
FIGURINOS DE BEATRIX ARUNA PASZTOR PRODUTOR DE LINHA TONY BRAND
CONSULTORIA DE PRODUÇÃO SOLOMON J. LEFLORE CO-PRODUTOR EXECUTIVO ALLAN MINDEL
PRODUZIDO POR LAURIE PARKER
ESCRITO E DIRIGIDO POR
GUS VAN SANT
MY OWN PRIVATE IDAHO ©1991 NEW LINE CINEMA

9 comentários:

Patricia Baleeira disse...

Rô,

esse filme é pura poesia e adorei vê-lo por aqui!

Um beijo enorme e lindo sábadon de sol, guloseimas e movies...
Farei o mesmo,rs

Mª de Lourdes disse...

Rodrigo:
ADOREI ter assistido a esse filme! Lindo, romântico, poético, sensível, triste, carente, enfim, Gus Van Sant se superou.. Até mesmo a temática homossexual foi mostrada com leveza, sem apelos ou polêmicas! Uma linda história de garotos jovens, quase adolescentes, cheios de sonhos, fantasias e uma constante busca por suas sobrevivências! River Phoenix soberbo, nas encenações da doença "narcolepsia" e o desejo veemente de encontrar sua mãe! Qualquer semelhança com fatos reais, é mera coincidência!! Saudades "eternas" desse talentoso garoto, que se foi de uma maneira tão absurda e precoce!!
Parabéns Rô, resenha gostosa de ler do princípio ao fim; impecável!
Bjokas!!

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado queridas pelos singelos e doces comentários.

Um filme notável, histórico e imperdível.

Bjs.

Anônimo disse...

Pôxa, que excelente postagem. Adoro esse filme. Vim parar aqui por meio do blog "Um Vórtice" e gostei bastante.

Acerca do filme, eu desconhecia essa declaração de Desson Howe, mas compartilho-a. Trata-se de um filme que me deu mais do o esperado. Penso em revê-lo em breve.

Acho que o melhor aspecto da produção pode ser resumido no que vc falou mais acima: "Sensível e jamais piegas". Exatamente!

Acerca do "mas sem rotular nada", tb concordo. Aliás, em determinados momentos onde a "cena gay" da Cidade é abordada mais profundamente nos parece um documentário, algo meramente relatado, sem juízo de valor.

Tb tenho um blog. Às vezes, falo de cinema. Estou seguindo o seu. Se puder, dá uma conferida no meu.

Abraços,

Kleiton
http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/

Luan Marcel disse...

Rodrigo, confesso que não li a critica completa por medo de spoilers, mas o pouco que li já me deixou muito interessado nesse filme que nunca cheguei a assistir. E tbm pelos comentários, o filme realmente parece ser muito bom, outro do Gus Van Sant que eu tenho vontade de ver é Elefante. :)

Assim que eu assistir esse filme eu volto aqui para ler o restante da sua crítica. :D

Abraços.

Amanda Aouad disse...

Uma bela lembrança de fato. Um filme que deixou a marca de River Phoenix em definitivo, pena que se foi tão jovem.

bjs

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Impecável.

http://ofalcaomaltes.com/

Reinaldo Glioche disse...

Mais um brilhante texto Rô! Mas eu sou obrigado a destoar um pouco do culto ao filme aqui nos comentários. Não que ache "Garotos de programa" um filme ruim ou imerecedor de seu status, mas porque vejo nele um instrumento de lapidação de um estilo. Tenho alguns problemas com a narrativa do filme, que até abordei em um texto lá no blog quando o revi (acho que em 2010), mas reconheço o brilhantismo da angulação temática - ainda que identifique problemas em seu desenvolvimento.
Grande abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Kleiton: Obrigado meu caro e seja muito bem vindo. Já sigo seu blog e deixei nos favoritos, parabéns tb.

Quanto ao filme, sim, concordamos em praticamente tudo e ótimo adendo, tem característica de documentário tb, aliás, uma marca registrada de Van Sant.
Abs.

Luan: De boa cara, nem tem spoilers descarados. Pode ler sem pressa. Aguardo seu retorno. Espero que curta o filme ;) E "Elefante" é sensacional!

Abs.

Amanda: Uma pena mesmo Nanda! Era lindo e cheio de vida e um baita ator. Hoje em dia seria como Robert Downey Jr. Johnny Depp e Christian Bale.

Bjs.

Antonio: Sumiu, heim?
De fato, é.
Abs.

Reinaldo: Entendo. Lembro de ler seu ótimo texto e de ter comentado tb. Bom, seremos obrigados a discordar um do outro.
Abs.



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