OUTUBRO DAS
BRUXAS
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TERCEIRA TEMPORADA
CINE-DOC. TERROR : Capítulo 2
Em um mundo de DEUSES E MONSTROS, Frank (carinhosamente me refiro ele
dessa maneira) é a criatura mais trágica e incompreendida do cinema. Criado como
uma leitura romântica gótica pela escritora inglesa MARY SHELLEY
(1797-1851) O Moderno Prometeu
como também é conhecido, ficou icônico graças a imaginação de dois grandes
homens: o diretor JAMES WHALE (1889-1957) e
o ator BORIS KARLOFF (1887-1969). “We Belong Dead!” é
uma das frases mais famosas do cinema de horror, mas o incompreendido monstro (inicialmente karloff não foi creditado e uma
interrogação aparecia no lugar de seu nome nas titulagens de abertura, mantendo
o mistério da figura do monstro) só aprendeu a se expressar depois de muito
tempo, antes, apenas os gestuais - sobretudo o andar aterrador - e os gritos de
sofrimento e raiva eram transmitidos pelo coitado, um ser criado a partir de restos
cadavéricos.
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| Poster do filme mudo de 1910 |
Muito
antes do famoso filme da Universal
Pictures de 1931 uma das obras mais influentes de todos os tempos, o
personagem é oficialmente apresentado na história da sétima arte em um
curta-metragem datado de 1910, realizado pela companhia de Thomas Edison, sendo assim considerado o primeiro filme com o
monstro como o personagem principal. A direção era de J.
SEARLE DAWLEY (1877-1949), um pioneiro desconhecido que dirigiu cerca de 180
filmes mudos. Apesar dos meros 16 minutos de projeção, a película é
sobrecarregada pelos trejeitos cênicos teatrais típicos e a caracterização do
monstro é uma das mais exageradas. O maior barato é que partes do filme são
colorizadas por um tom sépia e como nesse tempo não existia nada do que se tem
hoje em dia, foi mais um experimento filmado às pressas, no caso, 3 míseros dias
na cidade do Bronx em Nova York. Ainda assim, conseguiu sobreviver
ao tempo só que não é nem um pouco assustador, aliás, se tem um monstro que
nunca me assustou é Frank, um dos
mais simpáticos seres do além túmulo. Existe toda uma mitologia do personagem,
vários estudos de sua personalidade, e é aquele negócio, ele tem mais medo da
gente do que a gente dele. É também uma crítica sobre as aparências, do medo,
preconceito, de uma sociedade que não permite conviver com aquilo que não
compreende. Frank, além de carregar a
maldição da solidão, vive incompleto e sua inocência é tão óbvia que seus atos
são facilmente compreendidos pelo espectador e muito embora ele pareça querer
ferir em uma sucessão de descontrole furioso, a explicação se dá na legítima
defesa. Ele também não compreende as atitudes irracionais humanas.
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| Cartaz original de FRANKENSTEIN |
O
mito de Frankenstein é assumidamente um humor negro sobre a morte. E o filme de
Whale capta com maestria essa intenção. Aliás, o estúdio fez muito
bem em contratá-lo para essa adaptação. Dono de um refinamento particular,
autoral, Whale dirigiu uma fita tão marcante e especial que acabou dando tão
certo, tanto para ele, para o estúdio, quanto para Karloff, que já sabia-se de que
se tratava do início de uma série de filmes e releituras. No entanto, nenhuma versão
conseguiu criar cenas tão antológicas como o filme de 1931. Tenho que concordar
que na época, era complicado levar o projeto a sério, facilmente um motivo para promover
risadas, e outra coisa, tenho que admitir, também, que a versão produzida por
Edison, o inventor da lâmpada (e que também se dizia o pai do cinema) tende mais
para o lado cômico do que sério. Nem tem um terço do drama, elegância, romance e terror que Whale proporciona. É é claro, é injusto medir comparações técnicas,
posicionamento de câmera, fotografia, som, trilha musical e mise-en scène, pelo hiato entre as
produções e evolução do cinema como arte nesse ínterim E outra coisa: a
direção de Whale é tão primorosa, de uma marca registrada (é assistindo pra
crer) que é por isso que o elenco arrasa e mesmo que o projeto causasse algum constrangimento de início, é aquilo que mencionei na postagem do Conde Drácula,
o truque da universal era deixar claro para seus cineastas, equipe
técnica e atores, acreditarem no que estavam fazendo, já que naquele tempo era
incomum e mal visto os filmes de horror, com alcunhas do tipo: filme B, trash e
de nenhum valor artístico, o que já é totalmente desmistificado nos dias
atuais.
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| James Whale |
É verdade que Whale cuidou pessoalmente de cada detalhe do filme, inclusive da
maquiagem de Karloff, uma criação monstruosa das mais icônicas feita pelo
mestre do ramo, o maquiador JACK PIERCE (1889-1968)
que só depois de muito tempo recebeu o reconhecimento (naquela época não se
creditava toda a equipe técnica). O ponto alto de tudo é o ator Karloff – que sofreu
durante o processo de make-up – e ele
é a chave do sucesso do filme. Karloff se dedicou no personagem com impressionante
paixão e profissionalismo. Sua interpretação é considerada uma das melhores em
todos os tempos. É muito mais pantomima (mesmo na era do som) do que qualquer
outra coisa e foi também um trabalho fisicamente exaustivo.
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Karloff e MAE CLARKE (no papel de Elizabeth) quando o monstro se aproxima e apavora a donzela que grita desesperadamente no filme de 1931
|
O
mesmo diretor voltaria ao monstro quatro anos depois, com uma continuação rara,
tão boa quanto o original (provavelmente o primeiro filme a ter tamanha
importância no quesito continuação), com A NOIVA DE FRANKENSTEIN (THE BRIDE OF FRANKENSTEIN, 1935),
ainda com Karloff (agora mundialmente conhecido apenas pelo seu sobrenome
artístico. Seu nome verdadeiro é William
Henry Pratt!) e COLIN CLIVE (1900-1937)
totalmente marcado pelo papel do Dr. Frankenstein. A novidade é a participação
de uma nova integrante, a atriz Elsa
Lanchester como a “Noiva” (falarei dela nos próximos capítulos...). Nessa
segunda parte, Whale deita e rola e recria o universo da autora com o seu inconfundível estilo glamouroso e ainda recria um prólogo original divertido trazendo a própria Mary Shelley
vivida por Lanchester!
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| Colin Clive, Elsa Lanchester, Karloff e o ótimo ERNEST THESIGER como o malvado Dr. Pretorius no clímax final de "A Noiva" |
Nos
próximos nove anos seguintes, a criatura rendeu mais quatro produções, sob o
comando de outros diretores: O
FILHO DE FRANKENSTEIN (Son Of Frankenstein, 1939 –
ainda estrelado por Karloff, seu último filme como Frank), de Rowland V. Lee
e ainda com Basil Rathbone no papel
do Barão Frankenstein e Lugosi em um personagem novo, Ygor, aliás, Karloff e Lugosi já haviam
se encontrado antes pela primeira vez em O Gato Preto
(leia aqui); O
FANTASMA DE FRANKENSTEIN (The Ghost of Frankenstein, 1942), de
Erle C. Kenton; FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolfman, 1943), de Roy William Neill, aqui Lugosi faz o
papel do monstro e Lon Chaney Jr. o lobisomem
oficial. Alias, ele fez o monstro em “Fantasma de Frank”; e A
CASA e ou/ MANSÃO DE FRANKENSTEIN (House of Frankenstein, 1944) ,
também direção de Kenton, e foi nesse aqui, que marcou a volta de Karloff, mas
não como o monstro, e sim no papel de um médico. Tem ainda a participação de Chaney,
novamente como Talbot / Lobisomem e JOHN CARRADINE (1906-1988)
como o Drácula (o monstro foi feito por dublê!).
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| Cartaz original de Frankenstein Encontra o Lobisomem. A ideia não poderia ser mais feliz: como seria o embate entre duas das mais poderosas criaturas do cinema? |
Assim como aconteceu com
Drácula, depois de um longo jejum, Frank
voltou às telas pela londrina Hammer,
em 1957, em A MALDIÇÃO DE
FRANKENSTEIN (The Curse of Frankenstein) com direção de Terence Fisher que lindamente
ressuscita a história original do monstro e assim como faria com O
Vampiro Da Noite no ano seguinte, traz seu elenco carimbado: Peter Cushing (como o Barão Victor
Frankenstein) e Christopher Lee
(como a Criatura) e teve ainda várias
continuações por Fisher, cito a minha predileta: A
VINGANÇA DE FRANKENSTEIN (The Revenge of Frankenstein, 1958).
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| O Frankenstein de CHRISTOPHER LEE |
Na
década de 70, foi a vez do roteirista JIMMY SANGSTER
(1927-2011) estrear na direção com O HORROR DE FRANKENSTEIN (The Horror
of Frankenstein, 1970) , com a premissa do jovem Victor Frankenstein,
que retorna da Faculdade de Medicina disposto a colocar em prática seu projeto
de criar uma nova vida a partir de pedaços de corpos de falecidos. Enredo idêntico
ao original, só que menos ornamentado, mais colorido e visceral. Outra versão
surgiu em forma de paródia pelo ótimo ator, produtor, diretor e roteirista MEL BROOKS,
com O JOVEM FRANKENSTEIN (
Young Frankenstein, 1974), considerada a maior sátira já feita (até mais
elogiada do que as aventuras de Abbott e
Costello, personagens cômicos da Universal), estrelada por Gene Wilder e Peter Boyle.
Seis
décadas depois do primeiro filme, a sombria e incompreendida criatura continuou a despertar interesse. De um jeito mais sério, diretores como ROGER
CORMAN (famoso produtor de filmes baratos de terror e
ficção-científica, revelando nomes importantes como Jack Nicholson, James Cameron,
Jonathan Demme...) realiza aquele
que seria seu último filme oficial como diretor, em 1990, com FRANKENSTEIN
– O MONSTRO DAS TREVAS (Frankenstein Unbound) ,
narrado por John Hurt e estrelado
por Raul Julia, Briget Fonda, Jason Patrick
e Nick Brimble. Mas, fiel ao texto
original, é o filme de 1994
estrelado e dirigido por KENNETH BRANAGH e
produzido por Coppola e mesma equipe
de Drácula
de Bram Stoker (1992), com a intenção de repetir uma dobradinha.
Branagh dirige uma adaptação crua e romântica, com movimentos de câmera interessantíssimos, um visual arrebatador e timing perfeito. FRANKENSTEIN
DE MARY SHELLEY traz um elenco de primeira linha: ROBERT
DE NIRO como o monstro e ainda; Helena Bonham Carter, Tom
Hulce, Aidan Quinn, John Cleese, Ian Holm e obviamente Branagh como Victor Frankenstein.![]() |
| O Frankenstein de ROBERT DE NIRO |
“ELE ESTA VIVO! ” E viverá para sempre
e sem a necessidade de raios e a ousadia do homem de brincar com a vida e a
morte. Frank é simplesmente o monstro mais querido do cinema.
O CINE-DOC. continua...
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| O Frankenstein icônico de BORIS KARLOFF |















3 comentários:
Olá, Rodrigo.
Bem, não sou grande fã do monstro. Mas recordo de quando era guri e não perdia nenhum episódio de The Munster! Aquilo era muito legal.
Já vi O Filho e A Noiva de Frankenstein e tb gostei muito, até porque sou interessado na estética P&B.
E uma das melhores comédias que já vi foi justamente a parodia de Mel Brooks.
Já DeNiro não conseguiu me agradar tanto "nas peles" (rs) do monstro, embora eu tenha gostando da produção, em geral.
No final das contas, como disse acima, não sou grande fã do monstro, mas sempre convivi com ele em meus momentos de lazer! Até em antigos gibis de horror.
Abraços!
É uma personagem clássico que já rendeu diversos filmes, sendo várias versões interessantes, como vc bem citou.
Tenho curiosidade em assistir "Deuses e Monstros", o filme sobre parte da vida do diretor James Whale.
Abraço
Kleiton: Obrigado pelos comentários. Se for medir comparação com Karloff, realmente, De Niro impressiona menos, mas nem por isso ele deixa de ser interessante na pela do monstro e ainda imprimi a sua trademark de ator no personagem. Tenho gosto pela produção de 1994 que assim como Drácula do Coppola tentou se manter fiel ao romance original.
"The Munster" eu nunca assisti, é uma espécie de Família Adams é isso mesmo? Ouvi vagamente....
Impossível a gente não conviver com Frank, não é? Gostando ou não é o mais famoso. Bom, eu o adoro e tenho dó dele.
Abraço.
Hugo: Ótimo adendo. O filme Deuses e Monstros é genial. Sir. Ian McKellen esta simplesmente sensacional como James Whale.
Abs.
Obrigado.
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