sábado, 19 de outubro de 2013

O MITO FRANKENSTEIN – O MONSTRO INCOMPREENDIDO

OUTUBRO DAS BRUXAS 
TERCEIRA TEMPORADA
CINE-DOC. TERROR : Capítulo 2 
Em um mundo de DEUSES E MONSTROS, Frank (carinhosamente me refiro ele dessa maneira) é a criatura mais trágica e incompreendida do cinema. Criado como uma leitura romântica gótica pela escritora inglesa MARY SHELLEY (1797-1851) O Moderno Prometeu como também é conhecido, ficou icônico graças a imaginação de dois grandes homens: o diretor JAMES WHALE (1889-1957) e o ator BORIS KARLOFF (1887-1969). “We Belong Dead!” é uma das frases mais famosas do cinema de horror, mas o incompreendido monstro (inicialmente karloff não foi creditado e uma interrogação aparecia no lugar de seu nome nas titulagens de abertura, mantendo o mistério da figura do monstro) só aprendeu a se expressar depois de muito tempo, antes, apenas os gestuais - sobretudo o andar aterrador - e os gritos de sofrimento e raiva eram transmitidos pelo coitado, um ser criado a partir de restos cadavéricos.


Poster do filme mudo de 1910
Muito antes do famoso filme da Universal Pictures de 1931 uma das obras mais influentes de todos os tempos, o personagem é oficialmente apresentado na história da sétima arte em um curta-metragem datado de 1910, realizado pela companhia de Thomas Edison, sendo assim considerado o primeiro filme com o monstro como o personagem principal. A direção era de J. SEARLE DAWLEY (1877-1949), um pioneiro desconhecido que dirigiu cerca de 180 filmes mudos. Apesar dos meros 16 minutos de projeção, a película é sobrecarregada pelos trejeitos cênicos teatrais típicos e a caracterização do monstro é uma das mais exageradas. O maior barato é que partes do filme são colorizadas por um tom sépia e como nesse tempo não existia nada do que se tem hoje em dia, foi mais um experimento filmado às pressas, no caso, 3 míseros dias na cidade do Bronx em Nova York. Ainda assim, conseguiu sobreviver ao tempo só que não é nem um pouco assustador, aliás, se tem um monstro que nunca me assustou é Frank, um dos mais simpáticos seres do além túmulo. Existe toda uma mitologia do personagem, vários estudos de sua personalidade, e é aquele negócio, ele tem mais medo da gente do que a gente dele. É também uma crítica sobre as aparências, do medo, preconceito, de uma sociedade que não permite conviver com aquilo que não compreende. Frank, além de carregar a maldição da solidão, vive incompleto e sua inocência é tão óbvia que seus atos são facilmente compreendidos pelo espectador e muito embora ele pareça querer ferir em uma sucessão de descontrole furioso, a explicação se dá na legítima defesa. Ele também não compreende as atitudes irracionais humanas.

Cartaz original de FRANKENSTEIN
O mito de Frankenstein é assumidamente um humor negro sobre a morte. E o filme de Whale capta com maestria essa intenção. Aliás, o estúdio fez muito bem em contratá-lo para essa adaptação. Dono de um refinamento particular, autoral, Whale dirigiu uma fita tão marcante e especial que acabou dando tão certo, tanto para ele, para o estúdio, quanto para Karloff, que já sabia-se de que se tratava do início de uma série de filmes e releituras. No entanto, nenhuma versão conseguiu criar cenas tão antológicas como o filme de 1931. Tenho que concordar que na época, era complicado levar o projeto a sério, facilmente um motivo para promover risadas, e outra coisa, tenho que admitir, também, que a versão produzida por Edison, o inventor da lâmpada (e que também se dizia o pai do cinema) tende mais para o lado cômico do que sério. Nem tem um terço do drama, elegância, romance e terror que Whale proporciona. É é claro, é injusto medir comparações técnicas, posicionamento de câmera, fotografia, som, trilha musical e mise-en scène, pelo hiato entre as produções e evolução do cinema como arte nesse ínterim  E outra coisa: a direção de Whale é tão primorosa, de uma marca registrada (é assistindo pra crer) que é por isso que o elenco arrasa e mesmo que o projeto causasse algum constrangimento de início, é aquilo que mencionei na postagem do Conde Drácula, o truque da universal era deixar claro para seus cineastas, equipe técnica e atores, acreditarem no que estavam fazendo, já que naquele tempo era incomum e mal visto os filmes de horror, com alcunhas do tipo: filme B, trash e de nenhum valor artístico, o que já é totalmente desmistificado nos dias atuais.

James Whale
É verdade que Whale cuidou pessoalmente de cada detalhe do filme, inclusive da maquiagem de Karloff, uma criação monstruosa das mais icônicas feita pelo mestre do ramo, o maquiador JACK PIERCE (1889-1968) que só depois de muito tempo recebeu o reconhecimento (naquela época não se creditava toda a equipe técnica). O ponto alto de tudo é o ator Karloff – que sofreu durante o processo de make-up – e ele é a chave do sucesso do filme. Karloff se dedicou no personagem com impressionante paixão e profissionalismo. Sua interpretação é considerada uma das melhores em todos os tempos. É muito mais pantomima (mesmo na era do som) do que qualquer outra coisa e foi também um trabalho fisicamente exaustivo.

Karloff e MAE CLARKE (no papel de Elizabeth) quando o monstro se aproxima e apavora a donzela que grita desesperadamente no filme de 1931

Uma das cenas mais memoráveis da película de Whale. Polêmica e censurada na época. O diretor procura criar uma oposição entre monstruosidade e inocência num cenário bucólico na beira do lago. Grande interpretação da atriz mirim MARYLIN HARRIS como Maria

O mesmo diretor voltaria ao monstro quatro anos depois, com uma continuação rara, tão boa quanto o original (provavelmente o primeiro filme a ter tamanha importância no quesito continuação), com A NOIVA DE FRANKENSTEIN (THE BRIDE OF FRANKENSTEIN, 1935), ainda com Karloff (agora mundialmente conhecido apenas pelo seu sobrenome artístico. Seu nome verdadeiro é William Henry Pratt!) e COLIN CLIVE (1900-1937) totalmente marcado pelo papel do Dr. Frankenstein. A novidade é a participação de uma nova integrante, a atriz Elsa Lanchester como a “Noiva” (falarei dela nos próximos capítulos...). Nessa segunda parte, Whale deita e rola e recria o universo da autora com o seu  inconfundível estilo glamouroso e ainda recria um prólogo original divertido trazendo a própria Mary Shelley vivida por Lanchester!

Colin Clive, Elsa Lanchester, Karloff e o ótimo ERNEST THESIGER como o malvado
Dr. Pretorius no clímax final de "A Noiva"


Nos próximos nove anos seguintes, a criatura rendeu mais quatro produções, sob o comando de outros diretores: O FILHO DE FRANKENSTEIN (Son Of Frankenstein, 1939 – ainda estrelado por Karloff, seu último filme como Frank), de Rowland V. Lee e ainda com Basil Rathbone no papel do Barão Frankenstein e Lugosi em um personagem novo, Ygor, aliás, Karloff e Lugosi já haviam se encontrado antes pela primeira vez em O Gato Preto (leia aqui); O FANTASMA DE FRANKENSTEIN (The Ghost of Frankenstein, 1942), de Erle C. Kenton; FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolfman, 1943), de Roy William Neill, aqui Lugosi faz o papel do monstro e Lon Chaney Jr. o lobisomem oficial. Alias, ele fez o monstro em “Fantasma de Frank”; e A CASA e ou/ MANSÃO DE FRANKENSTEIN (House of Frankenstein, 1944) , também direção de Kenton, e foi nesse aqui, que marcou a volta de Karloff, mas não como o monstro, e sim no papel de um médico. Tem ainda a participação de Chaney, novamente como Talbot / Lobisomem e JOHN CARRADINE (1906-1988) como o Drácula (o monstro foi feito por dublê!). 

Cartaz original de Frankenstein Encontra o Lobisomem. A ideia não
poderia ser mais feliz: como seria o embate entre duas das mais
poderosas criaturas do cinema?

Assim como aconteceu com Drácula, depois de um longo jejum, Frank voltou às telas pela londrina Hammer, em 1957, em A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (The Curse of Frankenstein) com direção de Terence Fisher que lindamente ressuscita a história original do monstro e assim como faria com O Vampiro Da Noite no ano seguinte, traz seu elenco carimbado: Peter Cushing (como o Barão Victor Frankenstein) e Christopher Lee (como a Criatura)  e teve ainda várias continuações por Fisher, cito a minha predileta: A VINGANÇA DE FRANKENSTEIN (The Revenge of Frankenstein, 1958).

Frankenstein de CHRISTOPHER LEE

Na década de 70, foi a vez do roteirista JIMMY SANGSTER (1927-2011) estrear na direção com O HORROR DE FRANKENSTEIN (The Horror of Frankenstein, 1970) , com a premissa do jovem Victor Frankenstein, que retorna da Faculdade de Medicina disposto a colocar em prática seu projeto de criar uma nova vida a partir de pedaços de corpos de falecidos. Enredo idêntico ao original, só que menos ornamentado, mais colorido e visceral. Outra versão surgiu em forma de paródia pelo ótimo ator, produtor, diretor e roteirista  MEL BROOKS, com O JOVEM FRANKENSTEIN ( Young Frankenstein, 1974), considerada a maior sátira já feita (até mais elogiada do que as aventuras de Abbott e Costello, personagens cômicos da Universal), estrelada por Gene Wilder e Peter Boyle.


Seis décadas depois do primeiro filme, a sombria e incompreendida criatura continuou a despertar interesse. De um jeito mais sério, diretores como ROGER CORMAN (famoso produtor de filmes baratos de terror e ficção-científica, revelando nomes importantes como Jack Nicholson, James Cameron, Jonathan Demme...) realiza aquele que seria seu último filme oficial como diretor, em 1990, com FRANKENSTEIN – O MONSTRO DAS TREVAS (Frankenstein Unbound) , narrado por John Hurt e estrelado por Raul Julia, Briget Fonda, Jason Patrick e Nick Brimble. Mas, fiel ao texto original, é o filme de 1994 estrelado e dirigido por KENNETH BRANAGH e produzido por Coppola e mesma equipe de Drácula de Bram Stoker (1992), com a intenção de repetir uma dobradinha. Branagh dirige uma adaptação crua e romântica, com movimentos de câmera interessantíssimos, um visual arrebatador e timing perfeito. FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY traz um elenco de primeira linha: ROBERT DE NIRO como o monstro e ainda; Helena Bonham Carter, Tom Hulce, Aidan Quinn, John Cleese, Ian Holm e obviamente Branagh como Victor Frankenstein.

O Frankenstein de ROBERT DE NIRO


“ELE ESTA VIVO! ” E viverá para sempre e sem a necessidade de raios e a ousadia do homem de brincar com a vida e a morte. Frank é simplesmente o monstro mais querido do cinema.
O CINE-DOC. continua...

O Frankenstein icônico de BORIS KARLOFF




3 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Rodrigo.

Bem, não sou grande fã do monstro. Mas recordo de quando era guri e não perdia nenhum episódio de The Munster! Aquilo era muito legal.

Já vi O Filho e A Noiva de Frankenstein e tb gostei muito, até porque sou interessado na estética P&B.

E uma das melhores comédias que já vi foi justamente a parodia de Mel Brooks.

Já DeNiro não conseguiu me agradar tanto "nas peles" (rs) do monstro, embora eu tenha gostando da produção, em geral.

No final das contas, como disse acima, não sou grande fã do monstro, mas sempre convivi com ele em meus momentos de lazer! Até em antigos gibis de horror.

Abraços!

Hugo disse...

É uma personagem clássico que já rendeu diversos filmes, sendo várias versões interessantes, como vc bem citou.

Tenho curiosidade em assistir "Deuses e Monstros", o filme sobre parte da vida do diretor James Whale.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Kleiton: Obrigado pelos comentários. Se for medir comparação com Karloff, realmente, De Niro impressiona menos, mas nem por isso ele deixa de ser interessante na pela do monstro e ainda imprimi a sua trademark de ator no personagem. Tenho gosto pela produção de 1994 que assim como Drácula do Coppola tentou se manter fiel ao romance original.

"The Munster" eu nunca assisti, é uma espécie de Família Adams é isso mesmo? Ouvi vagamente....

Impossível a gente não conviver com Frank, não é? Gostando ou não é o mais famoso. Bom, eu o adoro e tenho dó dele.

Abraço.


Hugo: Ótimo adendo. O filme Deuses e Monstros é genial. Sir. Ian McKellen esta simplesmente sensacional como James Whale.

Abs.


Obrigado.

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