terça-feira, 22 de outubro de 2013

UIVO ATERRADOR: A HORDA DE LOBISOMENS

 OUTUBRO DAS BRUXAS
 
TERCEIRA TEMPORADA
CINE-DOC. TERROR : Capítulo 3
Continuando com a série especial desta temporada do mês das bruxas, o folclórico lobisomem jamais poderia estar de fora. O bando animalesco mais aterrador da sétima arte em filmes dos mais variados. Há uma lista interminável de fitas que narram a trágica sina do homem que em noites de lua cheia, devido a inúmeras interpretações da tal maldição, se transforma numa fera incontrolável espalhando sangue, medo e terror. 


A estréia deste famoso monstro peludo, creio, aconteceu nas telas do cinema oficialmente no ano de 1935, num filme até moderno em seu tempo, chamado, O LOBISOMEM DE LONDRES (The Werewolf of London), do estúdio Universal, óbvio. A direção ficou a cargo de STUART WALKER (diretor de Os Dragões da Noite, 33 e a da primeira versão de Great Expectations, obra de Charles Dickens, 1934) e trazia o ótimo (e assustador) HENRY HULL (1890-1977) como o homem azarado que é mordido pela misteriosa criatura e que nas noites apropriadas se transforma e mata! Assim como Drácula, Frankenstein e a Múmia, esse personagem foi um sucesso de público. A maquiagem inicial, apesar de ingênua, ainda é aterradora, mas deixa a desejar em comparação com as próximas produções que irão caracterizar o carpete ambulante que uiva assustadoramente. Ambientar o filme em Londres foi uma estratégia do estúdio, um recurso inteligente para tornar a premissa um tanto mais convincente. Poderia ficar estranho, por exemplo, situá-lo nos Estados Unidos, onde a lenda do homem lobo não era tão presente e lembrada como na Europa ou mesmo na América Latina.

A clássica transformação do lobisomem em O Lobisomem de Londres com Henry Hull

O monstro voltaria a ser filmado pela Universal seis anos depois, só que desta vez com um toque mais medieval, de época, e com uma extraordinária atmosfera de sonho e com elaborados cenários que sabem combinar lindamente terror e romance e com uma assustadora trilha musical. Bom, evidente que estou falando do filme mais popular sobre lobisomem, o único THE WOLF MAN – O LOBISOMEM (LEIA AQUI), de 1941, produzido e dirigido por GEORGE WAGGNER (1894-1984) a partir de um script original do alemão CURT SIODMAK (1902-2000), que depois deste trabalho se tornou roteirista carimbado de dezenas de filmes de terror do estúdio e episódios para TV. Estrelado por um elenco de peso: Claude Rains (que já havia estreado com O Homem Invisível, também da Universal, de 1933), Ralph Bellamy, Bela Lugosi (em pontinha especial), Warren William, Maria Ouspenskaya (a famosa cigana Maleva), Patrick Knowles e o filho do “Homem das Mil Faces”, Lon Chaney o famoso ator do cinema mudo, LON CHANEY JR. (1906-1973), como o playboy amaldiçoado, Talbot. Apesar de ter estrelado mais de 200 produções, é como o Wolf Man, nas inúmeras continuações e principalmente neste original, a marca registrada do ator. Trabalho na qual é mais reconhecido. 


A trama se passa no País de Gales, onde Lon Chaney Jr., Larry Talbot, um jovem rico que retorna ao castelo do pai (Rains) e se apaixona por uma linda moça, Jenny (a bela Evelyn Ankers), cujo trágico destino lhe é revelado numa quermesse, por uma cigana vidente: no seu caminho está a fera, o Lobisomem. A trama é das mais influentes, gerando imitações e homenagens em filmes como UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (An American Werewolf In London, 1981) terrir do diretor americano JOHN LANDIS (diretor do videoclipe Thriller), um filme cult por excelência.  Pelo fato de ser tão idolatrado, a Universal aceitou produzir uma refilmagem lançada em 2010 dirigida por JOE JOHNSTON, apesar da ótima direção de arte austera e tudo o mais, o roteiro não tem o mesmo brilho, embora seja quase uma cópia do de Siodmak, escrito por Andrew Kevin Walker (de A Lenda do Caveleiro sem Cabeça, de Tim Burton) e David Self (de A Casa Amaldiçoada, outro remake, The Haunting, de Jan de Bont) e ainda produzido e estrelado pelo vencedor do Oscar, o ator BENICIO DEL TORO como Talbot e que infelizmente é o papel menos inspirado do galante porto-riquenho. E mesmo ao lado de uma grande e ilustre personalidade como Anthony Hopkins, Del Toro não engrena como deveria. Por outro lado, efeitos especiais é uma habilidade do diretor Johnston e a maquiagem do grande mestre da caracterização (e vencedor de vários Oscar) RICK BAKER, embora fantástica, é mais substituída (quando não deveria) por sequências realizadas por computador. Erro de Johnston por permitir tamanha grosseria. Foi mais feliz dirigindo Jumanji, Capitão América e Jurassic Park III.

LON CHANEY JR. é praticamente o Lobisomem oficial do cinema. The Wolf Man (1941)
Chaney com o maquiador JACK PIERCE

A universal continuou a produzir mais e mais filmes sobre o assunto, até mesmo uma irônica versão que trazia uma mulher se transformando na besta! Sim, acreditem. O resultado? Um filme tosco (nem prazer culposo é) e provou que mulheres que se transformam em "Wolfwoman" não dá muito certo, nem feminino é, vide aquela bobagem com a bela Julie Delpy, uma espécie de continuidade da obra de Landis: “Um Lobisomem Americano em Paris” (de 1997 dirigido por Anthony Waller). Bom, aqui o filme em questão é o terceiro do estúdio na época, A MULHER-LOBO DE LONDRES (She-wolf of London, 1946), de Jean Yarbrough. Mesmo não apreciando, esta fita mostrou uma das primeiras mulheres a sofrer metamorfose. A "monstra" ataca em um parque londrino, onde várias pessoas aparecem mortas. Não muito longe dali, vive Phyllis Allenby, interpretada por June Lockhart, que traz no sangue a maldição que levou seus pais à morte. Será ela a assassina procurada pela Scotland Yard? Deu pra notar o tipo de filme?

Não apenas os americanos, mas o cinema britânico, no caso a Hammer, também demonstrou apreciar Lobisomem e fazer dele sucesso em filmes colorizados o que já era de praxe ocorrer depois de Drácula e Frankenstein. O filme, novamente dirigido por Terence Fisher, A MALDIÇÃO DO LOBISOMEM (The Curse of the Werewolf, 1961) é outro aperitivo para os fãs. É um filme, apesar de B, muito caprichado e elegante e ainda estrelado pelo galã OLIVER REED (1938-1999). As cenas iniciais são um tanto lentas, mas depois o filme da uma engrenadinha. Teve um outro lobisomem da década de 1950, apesar do período ter sido o menos popular, dirigido por Fred F. Sears, THE WEREWOLF (Idem, 1956) com um elenco totalmente desconhecido. Os italianos também aproveitaram a ocasião e ainda nos anos 60 filmes como A FACE DO MONSTRO (The Lycanthropus, 1961), realizado por Paolo Heusch eram lançados, porém, mal vistos. Na verdade, as produções desta época eram mais trash do que outra coisa e tem uma lista de títulos que ainda preciso conferir, como o curioso O LOBISOMEM DE WASHINGTON (The Werewolf of Washington, 1973) um filme que certamente é bem exploitation, de Milton Moses Ginsberg, uma atração apresentada no programa de TV da querida ELVIRA, a Rainha das Trevas de Cassandra Peterson em seu programa “Movie Macabre” que foi ao ar em 1981. Curioso.

Cartaz do Lobisomem inglês, outra produção in color de Terence Fisher


Na comédia, o lobisomem também fez sucesso, principalmente no universo adolescente. Quem não se lembra daquele filme da sessão da tarde com Michael J. Fox, O GAROTO DO FUTURO (Teen Wolf, 1985), de Rod Daniel? Tanto que o adolescente Scott conseguiu até mesmo ganhar uma série de TV no século XXI estrelada por Tyler Posey, suspiro das menininhas. Sem contar numa continuação da fita de Fox, com Jason Bateman, (O Garoto do Futuro 2) lançada em 1987 e numa fórmula de sucesso que parece não se esgotar. É bacaninha, mas sinceramente? Prefiro as tramas macabras e mais viscerais. Por exemplo, voltando mais atrás, em 1957, com I WAS A TEENAGE WEREWOLF de Gene Fowler Jr., na onda de filmes de terror protagonizados por jovens. Dessa vez, um agressivo e hipersensível rapaz procura por tratamento médico a fim de curar seu temperamento. O médico, no entanto, com propósitos mórbidos, faz uso de seus experimentos de regressão para transformá-lo num cruel lobisomem.

Já nos anos 1980, esses bichos entrariam numa nova era, assim como nas comédias leves e familiares e no já citado filme de Landis, modernos efeitos especiais e de maquiagem permitiram mais realismo, deixando os oitentistas lobisomens com aparência mais convincente e assustadora. Óbvio que o filme de Landis com maquiagem de Baker impressionou nesse quesito (até Oscar levou), quando a transformação se revelou tão fantástica e como Landis adora descrever: “eu queria que fosse como na puberdade onde o jovem sofre pelas transformações”, de fato, um trabalho inovador, influente e revolucionário, apesar do filme não se levar tão a sério com sua comédia de humor negro bastante adulta.

Lobisomens e zumbis na comédia-terror de JOHN LANDIS 



A  COMPANHIA DOS LOBOS (The Company of Wolves, 1984), também merece uma citação. Filme do mesmo diretor de “Entrevista com o Vampiro”, NEIL JORDAN, apresenta um lobisomem invadindo o sonho adolescente de uma menina (qualquer semelhança com A Hora do Pesadelo de Wes Craven, também de 84, é mera coincidência), depois de ela ouvir as histórias da avó. Destaque para a presença de outro monstro, o próprio diabo, personificado pelo ótimo Terence Stamp. E ainda estrelado pela veterana Angela Lansbury e com, David Warner e Stephen Rea.

Os anos 90 continuaram a aperfeiçoar os efeitos, com trucagens ainda mais sanguinolentas e com filmes com ótima dosagem dramática. Sou fã da adaptação do livro Thor (favor não confundir com o super herói) escrito por Wayne Smith, sobre um cachorro de mesmo nome, um pastor alemão, que heroicamente defende seus donos, isolados numa casa de campo, da ameaça eminente de um lobisomem, o ótimo MICHAEL PARÉ (de Ruas de Fogo,84), que na trama é atacado pelo monstro em um acampamento enquanto fazia amor com a namorada excursionista. Este é o ótimo e impressionante, LUA NEGRA (Bad Moon, 1996), dirigido por ERIC RED e co-estrelado por MARION HEMINGWAY e o garotinho (que fez o Dennis, o pimentinha) MASON GAMBLE. Mas quem rouba todas as cenas e emociona é o cachorro domesticado e lindamente interpretado por PRIMO, que tinha a mesma ousadia de um Rin Tin Tin.

Capa do DVD de LUA NEGRA 


O astro JACK NICHOLSON (de O Iluminado, 1980), também atuou em um interessante filme desta temática e o desafio foi aceitar (Jack sempre tira de letra qualquer papel) se transformar e suportar as horas de maquiagem num sombrio e sofisticado lobisomem no excelente LOBO (Wolf, 1994), mais um ambicioso projeto do diretor MIKE NICHOLS, estreando no gênero. Co-estrelado pela sensual MICHELLE PFEIFFER, que no final também se transforma, mas de forma lírica e não debochada. O filme, além de suspense e terror, mescla cenas erotizadas com o casal de astros em ótima química e forma física.  Com trilha animalesca do mestre ENNIO MORRICONE e fotografia impactante do italiano GIUSEPPE ROTUNNO (de filmes de Fellini: Amarcord,1973 e Viscont: O Leopardo, 1963), deixa o filme bem servido. É de muito bom gosto, até porque Nichols é um baita diretor. Sessão que merece revisitas, sempre.

Erotismo e sangue

Jack O LOBO!

Eis algumas das transformações desta tribo de lobisomens. Em qualquer geração, das inúmeras luas cheias, o uivo continua a soar o mesmo.

O CINE-DOC. continua...

O Lobisomem (2010): puro efeito especial




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