quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O AVIADOR

O CÉU NÃO É O LIMITE

Cinebiografia de HOWARD HUGHES (1905-1976), aviador e produtor/diretor de cinema e um recorte do drama de sua vida do final dos anos de 1920 até meados da década de 40.


O céu não é o limite para mais um épico grandioso cinematográfico do mestre Martin Scorsese, mas devo dizer que não tive amores imediatos na primeira vez que assisti ao hoje ótimo O AVIADOR (The Aviator, 2004) a segunda parceria do diretor com Leonardo DiCaprio que impressiona vivendo na pele o lendário magnata Howard Hughes. A produção é caprichada e de encher os olhos e ainda (por inveja, teimosia ou burrice) não foi a hora de Marty ganhar o seu Oscar de Diretor. No entanto, as indicações foram inevitáveis: Melhor Filme do ano, Ator (DiCaprio, mais uma vez ignorado!), Ator Coadjuvante (o ótimo Alan Alda como o asqueroso senador Brewster), Direção, Roteiro (John Logan) e Mixagem de Som. Ganhou o de Melhor Atriz Coadjuvante, Cate Blanchett numa impressionante caracterização de Katherine Hepburn, Fotografia (Robert Richardson), Edição (Thelma Schoonmaker) e Direção de Arte (Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo).

Lindamente reproduzido nos mínimos detalhes em uma ambientação ambiciosa, o filme narra a premissa da vida de Howard Hughes que já era milionário aos 18 anos de idade (dono da TWA, companhia comercial aérea e dentre tantos outros negócios), uma figura lendária e importante não apenas por ter uma paixão absoluta por aeronáutica, mas também por ter se tornado um produtor e chefe de estúdio (nos anos 50 tomou conta dos estúdios falidos da RKO, mas reza a lenda que ele nunca sequer comparecia para checar o andamento das coisas). Como aviador, em território americano, foi um visionário e pioneiro e também um louco. Gastava o que fosse necessário para realizar o que almejasse. Quebrou recordes mundiais de velocidade pilotando modelos de aviões de alta tecnologia e luxuosos na época, por exemplo, em 1937 quando sobrevoou em alta velocidade ou quando deu a volta ao mundo em 1938, também fazendo novos recordes. Único herdeiro, o filme evidencia um jovem cheio de sonhos e ambições, inúmeros empregados, mas longe de ser um mimado que só mandava. Trabalhava duro e até se aventurou no cinema como diversão e negócio. Leo esta realmente fascinante como Hughes, embora não esteja literalmente parecido e o seu jeito habitual de ator fale mais alto. Mesmo assim, ele faz direitinho e suas melhores cenas são quando seu personagem sofre de uma grave doença chamada misofobia, basicamente fobia a germes. Também sofria uma grave perda auditiva! 



Hughes ajudou a carreira de vários astros de Hollywood na época lançando Jean Harlow (pontinha interessante da cantora pop/rock e estilista Gwen Stefani) em Anjos do Inferno (Hell´s Angels, 1930) um épico dramático sobre dois irmãos que se alistam na RAF durante a Primeira Guerra Mundial. Com um realismo impressionante, Scorsese mostra os bastidores deste clássico considerado o filme mais caro da história naquele tempo (mais de 3 milhões de investimento e 2 anos de produção o que era um absurdo à época). É emocionante assistir numa belíssima fotografia a cores (e Marty utilizando como deve ser o cinema digital) a reprodução do combate aéreo, mas evidente que a película original também faz saltar nossos olhos. O dinheiro gasto é visto na tela. Hughes era o James Cameron de seu tempo. Marty focaliza as dificuldades e vitórias em torno dessa primeira e audaciosa produção de Hughes em grande parte do primeiro ato de seu filme. Eu só não vi outras figuras lendárias como o também diretor Howard Hawks, além de James Whale e Edmund Goulding, que co-dirigiram a fita, mas sem receber os devidos créditos.


O filme praticamente não dá detalhes dos bastidores de SCARFACE – A Vergonha de Uma Nação (Scarface, 1932), também co-dirigido por Hawks e por Richard Rosson, outra produção polêmica de Hughes (tratou da violência nua e crua do submundo gângster e depois refilmada perfeitamente por De Palma, com Al Pacino) que desta vez foi apenas produtor. Já O PROSCRITO (The Outlaw, 1943) recebeu destaque. Lançando a carreira de Jane Russell (que não chega a ser interpretada por nenhuma atriz no filme), a fita sofreu nas mãos da censura americana, a famosa MPAA – Motion Picture Association of America do Código Hays e sua hipócrita moralidade liderado por Joseph Breen (Edward Herrmann) isso porque se discutia a polêmica dos seios quase a mostra de Russell numa cena antológica de O Proscrito e que, aliás, o sutiã dela foi pessoalmente desenhado por Hughes, pra se ter uma ideia de como ele era detalhista!


Paralelo as suas produções cinematográficas ousadas e nada habituais, o filme esta mais interessando em mostrar a vida amorosa do herói trágico. Um homem motivado a paixões turbulentas com estrelas poderosas como Hepburn e que graças a impressionante atuação de Blanchett deixa o filme ainda mais envolvente. À Primeira vista me incomodava o fato deles terem caricaturado a atriz, por exemplo, para ser fiel até demais a lendária 'Great Kate' no detalhe de seus inconfundíveis lábios, sua impactante voz e jeito de andar. Não é a toa que Blanchett ganhou o Oscar pelo seu desempenho, afinal é um papel complicado e facilmente caricato. Quando entra em cena a estonteante Ava Gardner (a linda Kate Beckinsale) a trama perde um pouco do gás e só melhora com os antagonismos políticos como a rivalidade que Hughes nutriu com Juan Trippe (Alec Baldwin), o “vilão” do filme, presidente da extinta Pan Am (hoje Pam Am Clipper Connection), empresa concorrente de Hughes que almejava mais do que tudo tomar posse do comércio aéreo. Como coadjuvante da galeria de adversários do herói aviador, entra em cena Alan Alda como o asqueroso e cínico senador Ralph Owen Brewster, o típico adversário que te convida para jantar, apoiando Trippe através de uma apresentação do Projeto de Lei que daria a Pan Am o tão sonhado monopólio de transporte aéreo.  Depois a película se estende, perpassando pelos problemas psicológicos e sua grave doença com relação aos germes (tinha mania de lavar as mãos, usar luvas, ficava nervoso quando acompanhado em jantares) chegando ao cúmulo do stress workaholic. Entra em pane total e não era um “problema nas turbinas”. Scorsese, inteligentemente, faz algumas digressões em flashbacks formidáveis quando Hughes era menino e sua mãe, que passou para o filho sua fobia por germes, banhando a criança inúmeras vezes ao dia e dizendo histórias de quarentena e doenças transmissíveis e de como era importante a higiene, etc. Aos poucos, e com uma bela montagem de Thelma Schoonmaker, vamos compreendendo e Leo brilhantemente encenando um tipo totalmente irracional, entra em um triste colapso nervoso.


As cenas com o gigantesco H4 Hércules também dão ao filme grande força.  Foi outra de suas obsessões já que os anos da Segunda Guerra Mundial assolavam o mundo nos anos 40. Essa aeronave e ou/ hidroavião era um projeto exclusivo para o exército americano e servia basicamente como avião de carga e transporte de tropas e equipamentos sob o atlântico e foi um dos maiores já construídos. Infelizmente acabou não sendo completado a tempo e quando a guerra acabou só serviu apenas para sobrevoar uma única vez em Long Beach em 1947, pilotado pelo próprio Hughes.

Suas esposas oficiais (Ella Rice e depois a atriz Jean Peters) também não são mostradas ficando apenas Hepburn e Gardner em grandes destaques, mas ele era de fato namorador e se envolveu também com Lana Turner, Terry Moore, Ginger Rogers e Bette Davis!

Em matéria de cinebiografias pela ótica de Scorsese, O Aviador não chega a ser um filme tão fundamental e extraordinário como TOURO INDOMÁVEL (Raging Bull, 1980), que trazia a vida do boxeador Jake La Motta e com um script que tinha colaboração de um gênio como Paul Schrader, mas JOHN LOGAN foi capaz de transformar a narrativa numa ode ao cinema e sem desviar do tema da aviação. Logan é um camaleão nesse ofício (Rango, 007 Skyfall, O Último Samurai, Sweeney Todd, Gladiador) e faria com Marty outro grande filme cinéfilo A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011), embora seja mais homenagem do que este.

Outro grande momento dos mais impactantes do filme é a reconstituição do trágico acidente sofrido por Hughes quando o mesmo, em seu ímpeto aventureiro, resolveu testar as facetas de um primeiro avião modelo XF-11 caindo perigosamente num bairro de classe alta em Berverly Hills. A questão da "invisibilidade" e isolamento na fase final se sua vida anciã também é ignorada. Scorsese sabe como encerrar o filme.


Inicialmente, o projeto seria dirigido por Michael Mann, mas como já tinha feito biografias como ALI (idem, 2001) e O Informante (The Insider, 1999), resolveu passar a batuta para Scorsese com o interesse em produzir a fita, apenas.

Tecnicamente primoroso como é de interesse de seu diretor, The Aviator foi alçando altos vôos em meu conceito nas revisões. Um belíssimo retrato de alguém e realizado por quem sabe o que faz.

EUA/ALEMANHA
2004
DRAMA/BIOGRAFIA
COR
170 min.
WARNER
        

MARTIN SCORSESE 
Picture
Uma Apresentação da
 WARNER BROS. PICTURES e MIRAMAX FILMS
Em associação com INITIAL ENTERTAINMENT GROUP
Uma Produção FORWARD PASS / APPIAN WAY / IMF
LEONARDO DiCAPRIO
CATE BLANCHETT    KATE BECKINSALE   JOHN C. REILLY
ALEC BALDWIN   ALAN ALDA  e JUDE LAW
Co-estrelando: IAN HOLM   DANNY HUSTON  GWEN STEFANI como Jean Harlow
ADAM SCOTT  MATT ROSS   KELLI GARNER  FRANCES CONROY
EDWARD HERRMANN  WILLEN DAFOE
Elenco ELLEN LEWIS  Co-Produção JOSEPH REIDY
Supervisão Musical RANDALL POSTER  Música de HOWARD SHORE
Figurinos SANDY POWELL  Supervisor de Efeitos Especiais BOB LEGATO
Edição de THELMA SCHOONMAKER, A.C.E.
Desenhista de Produção DANTE FERRETTI 
Diretor de Fotografia ROBERT RICHARDSON, A.S.C.
Produtores Executivos LEONARDO DiCAPRIO
CHRIS BRIGHAM   RICK YORN  HARVEY WEINSTEIN  BOB WEINSTEIN
RICK SCHARTZ  COLIN COTTER
Produzido por MICHAEL MANN 
SANDY CLIMAN  GRAHAM KING  CHARLES EVANS Jr.
Escrito por JOHN LOGAN
Direção 
MARTIN SCORSESE
THE AVIATOR © 2004 Forward Pass/ Appian Way/ IMF
Initial Entertainment Group. / Warner Bros./ Miramax Films/ Cappa Productions

9 comentários:

renatocinema disse...

Amigo você não teve amores sobre o filme no inicio e eu digo o mesmo......porém, no meu caso ainda acho o filme Bom e ponto.....

Entendo que o mestre tem trabalhos mais melhores, mais perfeitos.

Inegável que Di Caprio e Scorsese fazem uma dupla dinâmica.....com perdão do trocadilho.


abs

Paulo Telles disse...

Meu amigo Rodrigo, confesso a você que assisti este filme no cinema com minha então namorada e saímos com ponta de decepção, pois concluímos que a fita de Scorsese (por sinal muito bem produzida com fina reconstituição de época e glamour Hollywoodiana) estava mais preocupada em focalizar a personalidade de Howard Hughes, de uma maneira um tanto psicanalítica, do que uma biografia envolvendo Howard e a era de ouro do cinema.

É verdade, ficou um pouco vago, não dando mais detalhes de tantas coisas que encabeçaram a vida de Hughes na meca do cinema e suas aventuras como mega produtor. Na época que esta obra de Martin foi produzida, Jane Russel ainda era viva, e é bem provável que ela não quis receber qualquer menção (afinal, seria mais investimento para a produção), afinal, viver ou mesmo trabalhar com Hughes, não era nada fácil. Era sim um visionário, um gênio criativo, mas um homem cheio de manias.


Jean Peters, que foi casada com Howard, não foi mencionada porque com certeza os produtores e o cineasta não quiseram entrar em atritos com a família da atriz, que faleceu em 2000 (e que mais possível ainda não permitiram a menção). Jean tinha muita coisa a contar, mas morreu sem criar alvoroço sobre a vida do aviador e produtor.

Verei se revejo novamente esta obra, quem sabe não tenha um novo prisma quanto a este trabalho de Scorsese?

Abraços, um ótimo artigo!

Amanda Aouad disse...

Para quem não se empolgou a princípio, é mesmo uma bela declaração de amor, rs. Depois de seu texto preciso rever a obra com mais carinho, pois também achei um filme de pouco impacto, senão pela interpretação de DiCaprio.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Renato: Aprecio a parceria de Scorsese de DiCaprio como aconteceu com DE Niro, mas creio que um dia ela terá que acabar. Por enquanto, eles trabalham muito bem juntos. O Aviador foi uma redescoberta pessoal.

Abs.

Paulo: Justamente esse era o recorte que almejaram para o filme e que certamente não agradou a maioria. De qualquer forma, o filme não decepciona na reconstituição. Biografias sempre causam alguma polêmica.
Abs!

Amanda: Isso faz parte do show, rs! Existem filmes que não agrada a gente a princípio, mas depois damos uma nova oportunidade. Subestimei mesmo.
Bjs.

Reinaldo Glioche disse...

Se existia um filme (ok, existem vários,rsrs) que merecia ser apreciado no Cine Rodrigo, com sua vocação para a cinefilia mais essencial e laudatória, esse é filme é "O aviador". Preciso confessar que fiquei feliz de Marty perder o Oscar naquele ano."Menina de ouro", na minha concepção, é muito melhor. Mas "O aviador" é um baita filme.
Abs

Marcelo Keiser disse...

Particularmente julgo "O Aviador" uma obra fantástica. Visualmente acima de tudo. Contudo, não o vejo melhor do que outras obras nas quais seus envolvidos tiveram envolvimento durante suas carreiras. Esse longa tem o seu valor certo, mas ainda assim defasado, sem o carisma de outros filmes realizados por Scorsese e estrelados por Di Caprio por mais brilhante que seja.

abraço

Hugo disse...

Mesmo gostando dos trabalhos de Scorsese, eu não esperava muito desta biografia, mas acabei me surpreendendo positivamente.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Reinaldo:Obrigado!
Ah sim meu caro, esqueci do "Menina de Ouro", bom, certamente seria mais frustrante um Oscar para o Marty aqui, já que não ganhou em clássicos totalmente merecedores (Touro Indomável, Taxi Driver, Os Bons Companheiros, citando apenas alguns). Se já foi tardio com "Os Infiltrados", de fato, um primeiro grande prêmio com 'O Aviador' poderia gerar maiores insucessos com a Academia que já injustiçou muita gente boa e muito filme que a gente sabe por aí.

Abs.

Marcelo: Não entendi bem alguns pontos de seu comentário, bom, visualmente o filme é impecável, sim, concordo contigo e até posso entender que não seja o melhor do Scorsese para muitos fãs (até os mais xiitas) e como o Paulo acima, que disse ter se decepcionado por esperar ver um filme e acabou vendo outro quando a fita se mostrou mais psicanalítica do que histórica.

Nas revisões ele se apresentou um ótimo filme pra mim e com a qualidade de um Scorsese que entende bem os macetes do cinema.
Mas enfim, o que você quis dizer chamando de um filme ultrapassado se ao mesmo tempo diz que acha brilhante? Só isso não ficou claro.
Abs.

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: É realmente um ótimo filme!

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