quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CORRA LOLA, CORRA

CORRIDA CONTRA O (s) DESTINO(s)


Uma jovem mulher alemã tem 20 minutos para encontrar e trazer 100 mil marcos em dinheiro vivo para seu namorado antes que ele cometa um assalto.


Favor não confundir com o clássico de Richard C. Sarafian de 1971 estrelado por Barry Newman, “Corrida Contra O Destino” (Vanishing Point) devido ao título que dei a postagem. E se por acaso ainda não assistiu a LOLA RENNT (1998), não vá pensando que se trata de um filme de ação sobre corridas de automóveis, aliás, o que não falta ao filme do jovem diretor alemão TOM TYKWER (pronuncia-se “Tick-ver”) é criatividade. Longe do óbvio. Eis uma fita cult e aclamada por cinéfilos de uma nova geração pós-moderna. Foi o primeiro trabalho na qual conheci o diretor, já aclamado em Festivais em filmes como MORTALMENTE MARIA (Die Tödliche Maria, 1993) e INVERNO QUENTE (Winter Sleepers, 1997). Em “Lola”, o filme que ainda é o maior marco do diretor, ele acentua o ritmo vertiginoso (certamente alguma inspiração no clássico de Hitchcock, Um Corpo Que Cai, Vertigo, 1958, para criar alguns efeitos) na edição de imagens freneticamente empolgantes, usando muita música eletrônica, um de seus talentos, aliás, também compõe as trilhas de seus filmes (e alheios), enfim, tudo é cineticamente envolvente e mantêm o espectador curioso com sua inventividade visual. 

Tykwer propõe um exercício repleto de surpresas desde as titulagens iniciais (quando mostra uma multidão de pessoas formando o título do filme). O modo como ele conta a premissa é sensacional e para isso, a trama deveria ser simples: Lola, a ótima FRANKA POTENTE, é uma jovem apaixonada e desesperada, com um visual inesquecível (seus cabelos vermelhos), recebe um telefonema de última hora do namorado, Manni (o ótimo MORITZ BLEIBTREU, de filmes como “Munique”, 2005, de Spielberg e “A Experiência”, 2001, de Oliver Hirschbiegel) que está desesperado, pois perdeu uma grana preta (em dinheiro vivo, 100 mil marcos) em um metrô, o mesmo dinheiro que ele tem que entregar para uns gangsteres em exatos 20 minutos. Ou então, eles o matam. Seu plano desesperador é praticar um assalto local, de frente a uma cabine telefônica que o mesmo se encontra. Lola pensa de outra forma. Ela precisa correr depressa e ver de que maneira será possível conseguir uma quantidade absurda em apenas poucos minutos! Assim, acompanhamos a toda velocidade as aventuras de Lola, correndo como um foguete para salvar seu amado custe o que custar...


O modo como Tykwer mostra a missão de Lola me surpreendeu na época quando assisti pela primeira vez já que a narrativa é contada três vezes, e em cada versão, existe uma diferença sutil, culminando em três finais alternativos. Drama. Comédia. Romance. Em cada uma delas. E não só isso. Os artifícios são inúmeros: animação (minha parte predileta), truques e movimentos de câmera dos mais variados, filme a cores e em preto-e-branco, efeitos de vídeo (sobretudo videoclipe ao estilo MTV, eis um sucesso entre os jovens que descobriram o filme) e ainda replays instantâneos.



Apesar de tecnicamente e visualmente chamativo, “Lola” se destaca, principalmente, pelo desempenho de sua protagonista (que na época era casada com o diretor), a atriz Franka Potente e que com o seu inconfundível cabelo, acabou virando uma febre na Europa e até mudou o nome do prêmio do Cinema Alemão para Lolas. Potente se revelaria mais tarde em blockbusters americanos como nos dois primeiros filmes da série Jason Bourne (2002) com Matt Damon. No entanto, sua imagem correndo pelas escadas, ruas, calçadas e avenidas, movendo os braços vigorosamente (em câmera lenta deveria tocar o clássico de Vangelis para o filme “Carruagens de Fogo” que se tornou hino das Corridas de São Silvestre) e com aqueles cabelos é muito mais marcante. Não só isso, além de ter um desempenho físico impressionante, suas cenas mais profundas e “paradinhas” acontecem quando, por exemplo, ela procura o pai para pedir dinheiro (feito pelo ator alemão HERBERT KNAUP) e que é de uma sensibilidade (e fúria) tocante.

Ela também foi responsável por gravar e compor algumas músicas da trilha sonora. O filme custou apenas dois milhões, mas arrecadou em torno de 14 milhões só na Alemanha. Curiosamente não teve nenhuma indicação ao Oscar, mesmo arrecadando em solo americano mais de 100 mil em sua semana de estréia – em míseras 5 salas – e que depois de algumas semanas ultrapassou 1 milhão. Ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e outro de audiência no Festival de Sundance de Robert Redford. No Brasil, recebeu uma indicação ao Grande Prêmio Cinema Brasil, também na categoria Melhor Filme Estrangeiro e provavelmente o mais significativo seja sua indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza para Tykwer. Curiosamente nenhuma indicação a Palma de Ouro em Cannes.


Vale ressaltar outros trabalhos do diretor: os ótimos; PARAÍSO (Heaven, 2002. Que foi um projeto baseado em um roteiro do cineasta KRZYSTOF KIESLOWSKI), com Cate Blanchett, que causou polêmica pelo fato de que na trama uma mulher colocava uma bomba em um edifício, num período marcado pelo atentado as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, e PERFUME – A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (PERFUME : The Story of a Murderer, 2006), baseado no famoso livro “infilmável” , Das Parfum, de Patrick Süskind e estrelado pela revelação, o ator Ben Whishaw. Aliás, tornou-se o meu filme favorito do diretor (mesmo amando “Lola”). Depois do tropeço de TRAMA INTERNACIONAL – The International – 2009, escrito por Eric Warren Singer (do recente TRAPAÇA, 2013, de David O. Russell, indicado ao Oscar) e estrelado por Naomi Watts e Clive Owen, voltou com tudo ao lado dos irmãos WACHOWSKI (Matrix) com o maravilhoso (e subestimado) A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012), da obra de David Mitchell, com um elenco internacional de astros e uma ousada trama no tempo que mistura passado, presente e futuro. Antes, voltou para a Alemanha onde rodou “3” – TRIÂNGULO AMAROSO (2010), uma bem intencionada dramédia com romance.





Cheio de vida. CORRA LOLA, CORRA é vibrante do início ao fim, com pequenas pausas, diferente do próximo filme do diretor e sua musa: A PRINCESA E O GUERREIRO (Der Krieger Und Die Kaiserin, 2000), tão poético quanto, só que menos acelerado. 


ALEMANHA
1998
DRAMA/AÇÃO/SUSPENSE/ROMANCE
COR/P&B/ANIMAÇÃO
81 min.
SONY
              





LOLA RENNT
UM FILME DE TOM TYKWER
Com: FRANKA POTENTE  MORITZ BLEIBTREU
HERBERT KNAUP  NINA PETRI  ARMIN ROHDE
JOACHIM KRÖL  LUDGER PISTOR  SUZANNE VON BORSODY
SEBASTIAN SCHIPPER  JULIA LINDING  LARS RUDOLPH
ANDREAS PETRI  KLAUS MÜLLER  UTZ KRAUSE  BEATE FINCKH
MÚSICA
REINHOLD  HEIL   JOHNNY KLIMEK  TOM TYKWER   FRANKA POTENTE
Fotografado por FRANK GRIEBE  
Direção de Arte ALEXANDER MANASSE
Figurinos MONIKA JACOBS  Edição MATHILDE  BONNEFOY
Produção Executiva/produtor de linha MARIA KÖPF
Produzido por STEFAN ARNDT
ANDREAS SCHREITMÜLLER    GEBHARD HENKE
ESCRITO E DIRIGIDO POR TOM TYKWER
 Lola Rennt © 1998  X-Filme Creative Pool / WDR/ Arte Bavaria Film/ German Independents

11 comentários:

M. disse...

Realmente Rodrigo, um grande filme! Vale a penar ver mais vezes! Maravilhoso texto.

Patricia Baleeira disse...

Ro,
excelente crítica!!! Gosto do filme, da trilha e sou fã da Franka.
Gosto dela em Princesa e o Gerreiro também.

besos

Fabiane Bastos disse...

Olá!
É aquela época do ano outra vez. E volto a te convidar para participar do Bolão do Oscar do "DVD, Sofá e Pipoca". (http://goo.gl/pZrkOf)

Te esperamos lá, e boa sorte!

Maxwell Soares disse...

Faz tempo que vi este. Preciso revê-lo. Valeu pela lembrança.

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado M.!
Eu já perdi as contas de quantas vezes revi... #FeitiçodoTempoFeelings

Bjs.

Rodrigo Mendes disse...

A Franka é linda demais! ;)

Besos, querida.

Rodrigo Mendes disse...

Olá querida...putz, estou meio off da blogosfera, né? E atualizando meu blog com pouca frequência. Espero retornar com mais fôlego.
Obrigado pelo convite.

Bjs.

Rodrigo Mendes disse...

Valeu, Max.
Reveja sim!
Abrç.

Anônimo disse...

Ah, não tem nada a ver com Velozes e Furiosos? Então não assisto.

Brincadeira, mas é assim que o grande público pensa.

Vi essa filme quando de seu lançamento em DVD. Estou como o colega acima, precisando revê-lo. Mesmo assim, recordo bem quase todo o filme. Foi meu primeiro contato com Potente!!!

Anônimo disse...

Postei um comentário aqui, mas acho que deu erro e não foi. :-)

Fernando Terroso disse...

Um dos filmes mais divertidos que já vi. Criatividade é muito mais importante que US$ para filmar.

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