EM FAMÍLIA : O ACERTO DE CONTAS
Depois de ser sequestrado e
aprisionado por 15 anos, Oh Dae-Su é
liberado, apenas para descobrir que ele deve encontrar seu captor em 5 dias.
"Seja grande
ou pequeno, tudo que você faz tem consequências, assim como na água, seja uma
pedra ou um grão de areia, ambos afundam."
"Ria e o
mundo rirá com você. Chore e você chorará sozinho"
Depois
de assistir OLDBOY (“Oldeuboi”, 2003), minha vida nunca mais foi a mesma. Que
filme! Foi o grande vencedor do Grand Prix na edição de 2004 em Cannes, e
evidentemente ganhou repercussão, também, porque foi muito elogiado por Quentin
Tarantino, então presidente do júri naquele ano. Nada de Oscar estrangeiro e
Globo de Ouro. O filme, além de muito cultuado, continua sendo elogiado pela
crítica especializada e votado como um dos dez melhores filmes já feitos no
cinema asiático.
Dirigido
por CHAN-WOOK PARK, o mesmo de SEDE DE SANGUE (2009), Mr. Vingança (2002), Lady
Vingança (2005) e do recente SEGREDOS DE SANGUE (Stoker,2013), o filme é
baseado em um quadrinho japonês – embora a produção seja Sul-Coreana - e
trata-se então de uma segunda parte de uma Trilogia de Vingança,
respectivamente filmadas por Park (Mr. e Lady Vingança!), muito embora sejam
ótimos, ambos não repetem a excelência de “Old”.
O
desfecho é inacreditável, no entanto, a trama em si desde o seu início é
entorpecente e segue a premissa de um indivíduo aparentemente comum, Oh Dae-su
(parece que ele esta usando uma peruca barata), brilhantemente interpretado por
MIN-SIK CHOI (de filmes como “Eu Vi o Diabo”, 2010, de Kim Jee-woon),
mergulhado no personagem de sua vida e o anti-herói mais aclamado e inspirador
dos últimos tempos, que fica trancafiado misteriosamente num quarto esquisito,
apesar de algum “conforto”, uma verdadeira tortura psicológica, e durante 15
anos! Sem saber o motivo, o sujeito passe a ver TV e a ficar louco naquele âmbito
claustrofóbico. Quando é finalmente libertado, também sem maiores explicações,
o filme realmente começa. Não sabemos
mais do que ele e num primeiro momento, ele se vê envolvido numa perigosa rede
de conspiração e violência e seguindo pistas do captor, que o aguarda para se
vingar. No caminho, conhece uma bela jovem que trabalha como atendente em um
restaurante, especializada em suschis e tal... e para abafar o seu ódio e
fúria, ela faz com que ele se apaixone por ela vivendo um intenso romance.
Parece um conto que terá um final feliz, mas não é.
Apesar
de ter uma crueza e cenas de lutas violentas intermináveis, com direito a muito
sangue, “Old” sabe ser poético e místico. É também um típico suspense policial,
um thriller na sua melhor forma, que se apóia em tabus edipianos e tem até
hipnotismo no meio disso tudo! É um híbrido: drama, ação, suspense, romance,
terror psicológico, uma verdadeira obra-prima revolucionária que apresentou ao
mundo um olhar diferenciado e toda a qualidade que o cinema sul-coreano
oferece, enfim, atingiu uma grande massa e é, de fato, um divisor de águas, sem
exagero.
De uma
elegíaca profunda, acompanhamos a saga deste pobre homem que literalmente pagou
com a própria língua. O ator Min. Sik- Choi dispensou dublês e treinou rigorosamente
para o papel, tanto que seu esforço é visto na tela, sem truques. Não só
fisicamente, mas mentalmente, já que sua tristeza o fez enlouquecer. E, essa é
a parte mais interessante, e que, aliás, é típico do cinema asiático, onde os
caras, ao invés de muito “mimimi ocidental”, demonstram a desgraça de forma
espontânea, e desculpe, por vezes cômica. Ou seja, toda essa loucura do
personagem é feito de uma maneira tão magistral por Choi que em muitas
passagens do filme é mais fácil rir dele do que sentir pena. Mas é claro que
ficamos na torcida de vê-lo fazer seus adversários pagarem.
É
interessante o estilo de “Conde de Monte Cristo” e mesmo de um “Charles
Bronson” enraizado no herói. O homem vira uma verdadeira máquina de luta,
impiedoso, sem remorso, quem cruzar o seu caminho, mesmo que não tenha relação
com seu sequestro, já eras! As melhores cenas, são de fato, as de luta, mas,
tem momentos antológicos (e nojentos), sobretudo quando ele resolve comer uma
lula viva.
Com
seu ritmo de ação de tirar o fôlego – com algumas pausas românticas quando
entra em cena a sushi-woman-bar (HYE-JEONG KANG) – o roteiro não quer parecer
óbvio, e embora a trama central não seja tão complexa, há uma inteligente
narrativa imbuída de uma lógica que se desdobra claramente, incorporando com
facilidade, num ótimo contexto, os flashbacks. Apesar da ação, o filme deixa
lacunas para reflexões, com ótimas frases de efeito, algumas citando
Shakespeare. Okay. Estamos falando de um filme que tem uma brutalidade
incessante (principalmente no clímax), mas que é, no fundo, uma comédia de
humor negro em um universo sombrio dos filmes de gangsteres que toma conta de
toda a direção de arte e até mesmo a fotografia evidencia isso.
Sem
escrúpulos por parte da equipe e diretor, quatro lulas foram sacrificadas para
a cena no sushi bar (embora o diretor tenha agradecido publicamente as
bichinhas por terem morrido em prol do filme quando ganhou o prêmio em Cannes).
Embora seja cultural tal prática e bastante comum na Coréia, a cena teve péssima
repercussão no exterior. As últimas cenas do filme, na neve, foram filmadas na
Nova Zelândia e o som do vento proeminente das montanhas é capturado e
preservado durante os créditos finais.
Marteladas,
tesouradas, pauladas, à parte, OLDBOY ecoa na mente para todo o sempre. Uma vez
que você assiste, jamais esquece. Certamente o melhor filme sobre vingança de
todos os tempos e, por favor, se você recomendar a fita para algum curioso e
que ainda não assistiu, não conte o seu final.
Refilmado
recentemente por Spike Lee e estrelado por Josh Brolin e Samuel L. Jackson,
exatamente dez anos após o original: “Oldboy – Dias de Vingança”. Infelizmente,
o filme é infantil e imbecil demais diante o trabalho coreano, onde a violência
e as cenas de ação é o que mais importam. Sem nenhuma profundidade ou
surpresas.
Coréia do
Sul, 120 Min. Cor, Europa Filmes
Drama,
Ação
OLDBOY
(2003)
★ ★ ★ ★ ★
Dir.:
Chan-wook Park
Produção:
Dong-ju Kim, Seung-young Lim
Roteiro:
Jo-Yun Hwang, Chun-hyeong Lim
Chan-wook
Park
Argumento:
Joon-hyung Lim
Baseado
nos Quadrinhos de: Garon Tsuchiya, Nobuaki Minegishi
Música
de: Yeong-wook Jo
Fotografia:
Chung-hoon Chung
Edição:
Sang-beom Kim
Direção
de Arte: Seong-hie Ryu
Figurinos:
Sang-gyeong-Jo
Estrelando: Min-sik Choi, Ji-tae Yu
Hye-jeong
Kang, Dae-han Ji
Dal-su
Oh, Byeong-ok Kim
Seung-Shin
Lee, Jin-seo Yoon
Egg
Films/Show East © 2003







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7 comentários:
Esse filme é fantástico. O melhor (na minha humilde opinião) da trilogia da vingança instituída por Chan-wook Park. Não vi ainda o remake de Spike Lee, mas também não vi muitas criticas elogiosas a seu respeito mesmo, então me mantenho satisfeito com o original. Excelente texto como sempre!
abraço
Grande filme, sem dúvidas. Já tinha medo do remake de Spike Lee, com seu comentário, então. O Estados Unidos tem que parar com essa mania besta de refilmar filmes que mereciam ser mais divulgados e distribuídos...
Um dos filmes mais marcantes da década passada. Seguramente! E só aqui, no Cine Rodrigo, ele pode ser recuperado com o devido status cinéfilo. Assim como o Marcelo aí em cima, tb não vi o remake de Lee, mas tb não importa. Não mudaria em nada a alta estima que tenho por essa joia sul-coreana.
Abs
Sim, tb acho o melhor da trilogia de vingança!
Valeu, Marcelo. Abrç.
Exatamente. Os americanos não se contentem em serem "passados pra trás" com produções de cunho comercial e intelectual.
Beijos.
Era o mínimo que poderia fazer, Reinaldo. Um grande clássico contemporâneo que merece todas as estrelas possíveis! Quando assistir ao filme do Lee, de fato, amará mais ainda o original, seguramente, amigo.
Grande abraço!
Um dos melhores filmes asiáticos que já assisti.
Guardo esse DVD nos meus favoritos !
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