quinta-feira, 13 de março de 2014

OLDBOY

EM FAMÍLIA : O ACERTO DE CONTAS

Depois de ser sequestrado e aprisionado por 15 anos, Oh Dae-Su é liberado, apenas para descobrir que ele deve encontrar seu captor em 5 dias.

"Seja grande ou pequeno, tudo que você faz tem consequências, assim como na água, seja uma pedra ou um grão de areia, ambos afundam."


"Ria e o mundo rirá com você. Chore e você chorará sozinho"

Depois de assistir OLDBOY (“Oldeuboi”, 2003), minha vida nunca mais foi a mesma. Que filme! Foi o grande vencedor do Grand Prix na edição de 2004 em Cannes, e evidentemente ganhou repercussão, também, porque foi muito elogiado por Quentin Tarantino, então presidente do júri naquele ano. Nada de Oscar estrangeiro e Globo de Ouro. O filme, além de muito cultuado, continua sendo elogiado pela crítica especializada e votado como um dos dez melhores filmes já feitos no cinema asiático. 

Dirigido por CHAN-WOOK PARK, o mesmo de SEDE DE SANGUE (2009), Mr. Vingança (2002), Lady Vingança (2005) e do recente SEGREDOS DE SANGUE (Stoker,2013), o filme é baseado em um quadrinho japonês – embora a produção seja Sul-Coreana - e trata-se então de uma segunda parte de uma Trilogia de Vingança, respectivamente filmadas por Park (Mr. e Lady Vingança!), muito embora sejam ótimos, ambos não repetem a excelência de “Old”.


 O desfecho é inacreditável, no entanto, a trama em si desde o seu início é entorpecente e segue a premissa de um indivíduo aparentemente comum, Oh Dae-su (parece que ele esta usando uma peruca barata), brilhantemente interpretado por MIN-SIK CHOI (de filmes como “Eu Vi o Diabo”, 2010, de Kim Jee-woon), mergulhado no personagem de sua vida e o anti-herói mais aclamado e inspirador dos últimos tempos, que fica trancafiado misteriosamente num quarto esquisito, apesar de algum “conforto”, uma verdadeira tortura psicológica, e durante 15 anos! Sem saber o motivo, o sujeito passe a ver TV e a ficar louco naquele âmbito claustrofóbico. Quando é finalmente libertado, também sem maiores explicações, o filme realmente começa.  Não sabemos mais do que ele e num primeiro momento, ele se vê envolvido numa perigosa rede de conspiração e violência e seguindo pistas do captor, que o aguarda para se vingar. No caminho, conhece uma bela jovem que trabalha como atendente em um restaurante, especializada em suschis e tal... e para abafar o seu ódio e fúria, ela faz com que ele se apaixone por ela vivendo um intenso romance. Parece um conto que terá um final feliz, mas não é.


Apesar de ter uma crueza e cenas de lutas violentas intermináveis, com direito a muito sangue, “Old” sabe ser poético e místico. É também um típico suspense policial, um thriller na sua melhor forma, que se apóia em tabus edipianos e tem até hipnotismo no meio disso tudo! É um híbrido: drama, ação, suspense, romance, terror psicológico, uma verdadeira obra-prima revolucionária que apresentou ao mundo um olhar diferenciado e toda a qualidade que o cinema sul-coreano oferece, enfim, atingiu uma grande massa e é, de fato, um divisor de águas, sem exagero.

De uma elegíaca profunda, acompanhamos a saga deste pobre homem que literalmente pagou com a própria língua. O ator Min. Sik- Choi dispensou dublês e treinou rigorosamente para o papel, tanto que seu esforço é visto na tela, sem truques. Não só fisicamente, mas mentalmente, já que sua tristeza o fez enlouquecer. E, essa é a parte mais interessante, e que, aliás, é típico do cinema asiático, onde os caras, ao invés de muito “mimimi ocidental”, demonstram a desgraça de forma espontânea, e desculpe, por vezes cômica. Ou seja, toda essa loucura do personagem é feito de uma maneira tão magistral por Choi que em muitas passagens do filme é mais fácil rir dele do que sentir pena. Mas é claro que ficamos na torcida de vê-lo fazer seus adversários pagarem.


É interessante o estilo de “Conde de Monte Cristo” e mesmo de um “Charles Bronson” enraizado no herói. O homem vira uma verdadeira máquina de luta, impiedoso, sem remorso, quem cruzar o seu caminho, mesmo que não tenha relação com seu sequestro, já eras! As melhores cenas, são de fato, as de luta, mas, tem momentos antológicos (e nojentos), sobretudo quando ele resolve comer uma lula viva.

Com seu ritmo de ação de tirar o fôlego – com algumas pausas românticas quando entra em cena a sushi-woman-bar (HYE-JEONG KANG) – o roteiro não quer parecer óbvio, e embora a trama central não seja tão complexa, há uma inteligente narrativa imbuída de uma lógica que se desdobra claramente, incorporando com facilidade, num ótimo contexto, os flashbacks. Apesar da ação, o filme deixa lacunas para reflexões, com ótimas frases de efeito, algumas citando Shakespeare. Okay. Estamos falando de um filme que tem uma brutalidade incessante (principalmente no clímax), mas que é, no fundo, uma comédia de humor negro em um universo sombrio dos filmes de gangsteres que toma conta de toda a direção de arte e até mesmo a fotografia evidencia isso.

Sem escrúpulos por parte da equipe e diretor, quatro lulas foram sacrificadas para a cena no sushi bar (embora o diretor tenha agradecido publicamente as bichinhas por terem morrido em prol do filme quando ganhou o prêmio em Cannes). Embora seja cultural tal prática e bastante comum na Coréia, a cena teve péssima repercussão no exterior. As últimas cenas do filme, na neve, foram filmadas na Nova Zelândia e o som do vento proeminente das montanhas é capturado e preservado durante os créditos finais.

Marteladas, tesouradas, pauladas, à parte, OLDBOY ecoa na mente para todo o sempre. Uma vez que você assiste, jamais esquece. Certamente o melhor filme sobre vingança de todos os tempos e, por favor, se você recomendar a fita para algum curioso e que ainda não assistiu, não conte o seu final.


Refilmado recentemente por Spike Lee e estrelado por Josh Brolin e Samuel L. Jackson, exatamente dez anos após o original: “Oldboy – Dias de Vingança”. Infelizmente, o filme é infantil e imbecil demais diante o trabalho coreano, onde a violência e as cenas de ação é o que mais importam. Sem nenhuma profundidade ou surpresas.

Coréia do Sul, 120 Min. Cor, Europa Filmes
Drama, Ação
OLDBOY (2003)
           
Dir.: Chan-wook Park
Produção: Dong-ju Kim, Seung-young Lim
Roteiro: Jo-Yun Hwang, Chun-hyeong Lim
Chan-wook Park
Argumento: Joon-hyung Lim
Baseado nos Quadrinhos de: Garon Tsuchiya, Nobuaki Minegishi
Música de: Yeong-wook Jo
Fotografia: Chung-hoon Chung
Edição: Sang-beom Kim
 Direção de Arte: Seong-hie Ryu
Figurinos: Sang-gyeong-Jo
    Estrelando: Min-sik Choi, Ji-tae Yu
Hye-jeong Kang, Dae-han Ji
Dal-su Oh, Byeong-ok Kim
Seung-Shin Lee, Jin-seo Yoon

Egg Films/Show East © 2003

7 comentários:

Marcelo Keiser disse...

Esse filme é fantástico. O melhor (na minha humilde opinião) da trilogia da vingança instituída por Chan-wook Park. Não vi ainda o remake de Spike Lee, mas também não vi muitas criticas elogiosas a seu respeito mesmo, então me mantenho satisfeito com o original. Excelente texto como sempre!

abraço

Amanda Aouad disse...

Grande filme, sem dúvidas. Já tinha medo do remake de Spike Lee, com seu comentário, então. O Estados Unidos tem que parar com essa mania besta de refilmar filmes que mereciam ser mais divulgados e distribuídos...

Reinaldo Glioche disse...

Um dos filmes mais marcantes da década passada. Seguramente! E só aqui, no Cine Rodrigo, ele pode ser recuperado com o devido status cinéfilo. Assim como o Marcelo aí em cima, tb não vi o remake de Lee, mas tb não importa. Não mudaria em nada a alta estima que tenho por essa joia sul-coreana.
Abs

Rodrigo Mendes disse...

Sim, tb acho o melhor da trilogia de vingança!

Valeu, Marcelo. Abrç.

Rodrigo Mendes disse...

Exatamente. Os americanos não se contentem em serem "passados pra trás" com produções de cunho comercial e intelectual.

Beijos.

Rodrigo Mendes disse...

Era o mínimo que poderia fazer, Reinaldo. Um grande clássico contemporâneo que merece todas as estrelas possíveis! Quando assistir ao filme do Lee, de fato, amará mais ainda o original, seguramente, amigo.

Grande abraço!

Filme Lixo disse...

Um dos melhores filmes asiáticos que já assisti.
Guardo esse DVD nos meus favoritos !

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