MUDANDO O RÓTULO
A
vida desesperada de um escritor em crise criativa, um alcoólatra crônico que
chega ao fundo do poço. Vencedor de quatro Oscar.
Já estava mais do que na hora
de mudarem o “rótulo” do bêbado no cinema. Antes, um retrato cômico com figuras
caricatas, bufões atrapalhados e ou/ fazendo gags à la Chaplin. FARRAPO
HUMANO mudou tudo
isso. Foi um inesperado sucesso e levou quatro Oscars: Filme (Charles Brackett,
produtor e co-roteirista), Diretor (Wilder), Roteiro e Ator, RAY
MILLAND (1905-1986).
Foi indicado ainda para; Fotografia (John F. Seitz), Edição e Música, MIKLÓS
RÓZSA (1907-1995),
que faz uso magistral de um antigo instrumento eletrônico chamado teremin que evoca perfeitamente o
constante assombro descontrolado do protagonista numa oscilante variação
musical. Ganhou também o Globo de Ouro (Filme, Diretor e Ator) e a Palma de
Ouro em Cannes para BILLY WILDER (1906-2002), grande prêmio do Júri e ator
para Milland (e creio que ainda é o único filme a ganhar no mesmo ano tanto o Oscar
quanto a Palma de Ouro em principais categorias).
Valeu a pena toda a ousadia do
roteirista CHARLES BRACKETT (1892-1969), parceiro de longa data de
Wilder, e mesmo do jovem cineasta, aclamado por outras obras-primas: “Quanto
Mais Quente Melhor” (1959), “Crepúsculo Dos Deuses” (1950), “Pacto de Sangue”
(1944), “Se Meu Apartamento Falasse” (1960), “O Pecado Mora Ao Lado” (1955), “A
Montanha dos Sete Abutres” (1951), “Águia Solitária” (1957), dentre outros, passando
lindamente pela comédia, drama, romance,
thriller e cinema-noir, Wilder dirige a primeira abordagem séria, de fato impiedosa, e sempre com um inteligente script, sobre o alcoolismo
e da inevitável degradação humana.
Uma
Companhia de bebida, com medo da reação do público, chegou a oferecer 5 milhões
de dólares para o estúdio, no caso a Paramount, para não produzi-lo. Mesmo assim, eles arriscaram. José Ferrer e Cary Grant eram
candidatos para o papel. Curiosamente o The
Screen Guild Theater, fez uma transmissão de 30 minutos ao vivo no rádio
adaptando a trama do filme no dia 7 de janeiro de 1946. Assim sendo, Milland, JANE
WYMAN (1917-2007)
e FRANK
FAYLEN (1905-1985)
reprisaram os seus papéis. As filmagens ocorreram ao ar livre no verão nova-iorquino,
porém, os interiores foram filmados no estúdio e para parecer realista, um dos
bares da 3rd Avenue teve uma recriação homônima, até mesmo o telefone público e
um gato de pelúcia empoeirado tiveram cópias idênticas para as filmagens
internas. Milland, disse uma vez que, durante uma semana, todas as tardes, às
cinco horas, caminhava até o bar local (mesmo se as filmagens estivessem
acontecendo ou não), pedia uma dose de bourbon,
batia um papinho e tirava do bolso um dólar e cinqüenta centavos. Ele adorava
passear e estava com muita saudade de Nova York...
O projeto nasceu depois de uma
viagem de trem, em 1944, feita pelo diretor Wilder. Ele viajava de Nova York
para Los Angeles e, durante uma parada na estação de Chicago, para comprar
algum material de leitura para se distrair durante o percurso, avistou um livro
intitulado: “The Lost Weekend”, literalmente O Fim de Semana Perdido, do autor CHARLES R. JACKSON (1903-1968), que depois da decisão de
Wilder de ser a base ideal para o seu próximo filme, ganhou do estúdio cinqüenta
mil dólares pelos direitos autorais.
Cruel em todos os sentidos,
Wilder faz com que a gente caia no abismo com o farrapo herói, um escritor
talentoso, Don Birmam (Milland),
além de muito galante, mas que sofre do mal do alcoolismo. Eis um sujeito que
esta vivendo um final de semana infernal pela sua crise de abstinência ao ser
proibido de degustar os prazeres que o álcool lhe proporciona, sendo vigiado
tanto pelo irmão, Wick Birman (Phillip Terry – 1909-1993) quanto pela
namorada, Helen (Jane Wyman, linda, e que ainda não tinha
ganhado o seu Oscar de Melhor Atriz por “Belinda”, 1948. Também conhecida pelo
filme de Hitchcock: “Pavor Nos Bastidores”, 1950, meu predileto com ela). Ao
longo da narrativa vamos acompanhando a sua falta de bom senso e de como Don
vai perdendo todos os escrúpulos quando é capaz de tudo para conseguir alguns
trocados para beber. Seja, roubando, mentindo, traindo até sofrer todo o horror
diante de suas alucinações (delirium),
representada por um morcego aterrador devorando um ratinho vivo num buraco da
parede!
Existe uma forte semelhança com
o filme Pacto de Sangue
na qual o personagem de Fred MacMurray
também era explorado pela sua insegurança. Wilder simplesmente faz o mesmo com
a figura de Milland, ou seja, não existe imparcialidade e tampouco julgamentos do
que vemos, mas uma angústia por ir com ele para a sarjeta.
O filme tem diversas cenas
antológicas, e também, graças ao realismo da fotografia de JOHN
F. SEITZ (1892-1979),
fiel colaborador de Wilder. Ambos aproveitam a apropriada condição climática urbana de
uma Manhattan banhada pelo sol com suas ruas áridas o que culmina em um olhar
depressivo como se nós fôssemos os olhos de Don. Com isso, sobre esse olhar, os
momentos clássicos de Milland acontecem da melhor forma quando, por exemplo, Birmam se rebaixa a ponto de
tentar penhorar seu único instrumento de trabalho, a máquina de escrever, para
conseguir dinheiro para comprar bebida, e sai com ela pela Nova York empoeirada e
descobre que todas as lojas estão fechadas. É angustiante. Ou mesmo quando
tenta ser discreto e rouba a bolsa de uma mulher para pagar a conta, mas é pego
e humilhado. Nem preciso dizer do momento em que ele é envergonhadamente
obrigado a ouvir “Somebody Stole Her Purse” – “Alguém roubou a bolsa dela” –
tirada da canção; “Somebody Stole My Gal”, de Leo Wood.
O ex-beatle, John Lennon, anos mais tarde, se
referiu ao filme ao dizer sobre si mesmo e seu “fim de semana perdido” em seu
exílio bêbado em Los Angeles durante os anos de 1973-75!
Durante sua estréia, o filme
foi votado como um dos “25 filmes mais perigosos já realizados”. Não é para
menos. A censura do Código de Produção teve que ordenar um final mais feliz e
agradável como condição de liberá-lo. Muito embora, Wilder e
Brackett tenham conseguido driblar tal condição, fazendo da fita um final um "tantinho" mais “animador”, mas evitando assim algo absurdamente ilógico depois
de toda a crueza apresentada. O estúdio nunca imaginou que a produção seria um
sucesso de crítica e público, estavam convictos de seu fracasso, ainda mais com
a alarmada indústria de bebidas, e o pior, com a Lei Seca em polvorosa na
época. Mas, justamente pela honestidade do filme, creio que ocorreram muitas
identificações de espectadores já que foi abertamente abordado isto é, foi como se fosse
um grito de socorro por tratarem com veracidade o problema da bebida.
Segundo Wilder: “Foi depois dele [The Lost Weekend] que as
pessoas começaram a me levar a sério.” Pois é, um dos célebres gênios das comédias (e voltaria no gênero diversas vezes posteriormente)
mudando o rótulo, sem trocadilhos, com coragem, peitando a sociedade, com uma
obra-prima inigualável do cinema. Nenhum outro filme sobre vícios irá superar o
avô de todos eles.
“Farrapo Humano” é um brinde a
isso. Então, brindemos e bebemos, socialmente.
EUA, 101 min., P&B,
ClassicLine, Drama
Farrapo Humano (1945)
"The Lost Weekend"
★ ★ ★ ★ ★
★ ★ ★ ★ ★
Dir.: Billy Wilder
Produção: Charles Brackett
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett
Livro: Charles R. Jackson
Fotografia: John F. Seitz
Música: Miklós Rózsa
Edição: Doane Harrison
Figurinos: Edith Head
Direção de Arte: Hans Dreier, Earl Hedrick
Estrelando: Ray Milland, Jane Wyman
Phillip Terry, Howard Da Silva
Doris Dowling, Frank Faylen
Mary Young, Anita Bolster
Lilian Fontaine, Frank Orth
Paramount Pictures ©1945








4 comentários:
É um desses filmes que merecem ser vistos mais de uma vez. Parabéns pelo excelente texto!
Qualquer um do Billy Wilder!
Obrigado M, beijos!
Gosto do som do teremin. Mas, às vezes, dá uma irritação...
Não chega a me irritar, mas dá a impressão que o Miklós Rózsa fez uma trilha para um film B de ficção-científica. rs
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