terça-feira, 11 de março de 2014

FARRAPO HUMANO

MUDANDO O RÓTULO

A vida desesperada de um escritor em crise criativa, um alcoólatra crônico que chega ao fundo do poço. Vencedor de quatro Oscar.


Já estava mais do que na hora de mudarem o “rótulo” do bêbado no cinema. Antes, um retrato cômico com figuras caricatas, bufões atrapalhados e ou/ fazendo gags à la Chaplin. FARRAPO HUMANO mudou tudo isso. Foi um inesperado sucesso e levou quatro Oscars: Filme (Charles Brackett, produtor e co-roteirista), Diretor (Wilder), Roteiro e Ator, RAY MILLAND (1905-1986). Foi indicado ainda para; Fotografia (John F. Seitz), Edição e Música, MIKLÓS RÓZSA (1907-1995), que faz uso magistral de um antigo instrumento eletrônico chamado teremin que evoca perfeitamente o constante assombro descontrolado do protagonista numa oscilante variação musical. Ganhou também o Globo de Ouro (Filme, Diretor e Ator) e a Palma de Ouro em Cannes para BILLY WILDER (1906-2002), grande prêmio do Júri e ator para Milland (e creio que ainda é o único filme a ganhar no mesmo ano tanto o Oscar quanto a Palma de Ouro em principais categorias).

Valeu a pena toda a ousadia do roteirista CHARLES BRACKETT (1892-1969), parceiro de longa data de Wilder, e mesmo do jovem cineasta, aclamado por outras obras-primas: Quanto Mais Quente Melhor” (1959), “Crepúsculo Dos Deuses” (1950), “Pacto de Sangue” (1944), “Se Meu Apartamento Falasse” (1960), “O Pecado Mora Ao Lado” (1955), “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), “Águia Solitária” (1957), dentre outros, passando lindamente pela comédia, drama, romance, thriller e cinema-noir, Wilder dirige a primeira abordagem séria, de fato impiedosa, e sempre com um inteligente script, sobre o alcoolismo e da inevitável degradação humana. 

Uma Companhia de bebida, com medo da reação do público, chegou a oferecer 5 milhões de dólares para o estúdio, no caso a Paramount, para não produzi-lo. Mesmo assim, eles arriscaram. José Ferrer e Cary Grant eram candidatos para o papel. Curiosamente o The Screen Guild Theater, fez uma transmissão de 30 minutos ao vivo no rádio adaptando a trama do filme no dia 7 de janeiro de 1946. Assim sendo, Milland, JANE WYMAN (1917-2007) e FRANK FAYLEN (1905-1985) reprisaram os seus papéis. As filmagens ocorreram ao ar livre no verão nova-iorquino, porém, os interiores foram filmados no estúdio e para parecer realista, um dos bares da 3rd Avenue teve uma recriação homônima, até mesmo o telefone público e um gato de pelúcia empoeirado tiveram cópias idênticas para as filmagens internas. Milland, disse uma vez que, durante uma semana, todas as tardes, às cinco horas, caminhava até o bar local (mesmo se as filmagens estivessem acontecendo ou não), pedia uma dose de bourbon, batia um papinho e tirava do bolso um dólar e cinqüenta centavos. Ele adorava passear e estava com muita saudade de Nova York...


O projeto nasceu depois de uma viagem de trem, em 1944, feita pelo diretor Wilder. Ele viajava de Nova York para Los Angeles e, durante uma parada na estação de Chicago, para comprar algum material de leitura para se distrair durante o percurso, avistou um livro intitulado: “The Lost Weekend”, literalmente O Fim de Semana Perdido, do autor CHARLES R. JACKSON (1903-1968), que depois da decisão de Wilder de ser a base ideal para o seu próximo filme, ganhou do estúdio cinqüenta mil dólares pelos direitos autorais.

Cruel em todos os sentidos, Wilder faz com que a gente caia no abismo com o farrapo herói, um escritor talentoso, Don Birmam (Milland), além de muito galante, mas que sofre do mal do alcoolismo. Eis um sujeito que esta vivendo um final de semana infernal pela sua crise de abstinência ao ser proibido de degustar os prazeres que o álcool lhe proporciona, sendo vigiado tanto pelo irmão, Wick Birman (Phillip Terry – 1909-1993) quanto pela namorada, Helen (Jane Wyman, linda, e que ainda não tinha ganhado o seu Oscar de Melhor Atriz por “Belinda”, 1948. Também conhecida pelo filme de Hitchcock: “Pavor Nos Bastidores”, 1950, meu predileto com ela). Ao longo da narrativa vamos acompanhando a sua falta de bom senso e de como Don vai perdendo todos os escrúpulos quando é capaz de tudo para conseguir alguns trocados para beber. Seja, roubando, mentindo, traindo até sofrer todo o horror diante de suas alucinações (delirium), representada por um morcego aterrador devorando  um ratinho vivo num buraco da parede!

Existe uma forte semelhança com o filme Pacto de Sangue na qual o personagem de Fred MacMurray também era explorado pela sua insegurança. Wilder simplesmente faz o mesmo com a figura de Milland, ou seja, não existe imparcialidade e tampouco julgamentos do que vemos, mas uma angústia por ir com ele para a sarjeta.

O filme tem diversas cenas antológicas, e também, graças ao realismo da fotografia de JOHN F. SEITZ (1892-1979), fiel colaborador de Wilder. Ambos aproveitam a apropriada condição climática urbana de uma Manhattan banhada pelo sol com suas ruas áridas o que culmina em um olhar depressivo como se nós fôssemos os olhos de Don. Com isso, sobre esse olhar, os momentos clássicos de Milland acontecem da melhor forma quando, por exemplo, Birmam se rebaixa a ponto de tentar penhorar seu único instrumento de trabalho, a máquina de escrever, para conseguir dinheiro para comprar bebida, e sai com ela pela Nova York empoeirada e descobre que todas as lojas estão fechadas. É angustiante. Ou mesmo quando tenta ser discreto e rouba a bolsa de uma mulher para pagar a conta, mas é pego e humilhado. Nem preciso dizer do momento em que ele é envergonhadamente obrigado a ouvir “Somebody Stole Her Purse” – “Alguém roubou a bolsa dela” – tirada da canção; “Somebody Stole My Gal”, de Leo Wood.

O ex-beatle, John Lennon, anos mais tarde, se referiu ao filme ao dizer sobre si mesmo e seu “fim de semana perdido” em seu exílio bêbado em Los Angeles durante os anos de 1973-75!

Durante sua estréia, o filme foi votado como um dos “25 filmes mais perigosos já realizados”. Não é para menos. A censura do Código de Produção teve que ordenar um final mais feliz e agradável como condição de liberá-lo. Muito embora, Wilder e Brackett tenham conseguido driblar tal condição, fazendo da fita um final um "tantinho" mais “animador”, mas evitando assim algo absurdamente ilógico depois de toda a crueza apresentada. O estúdio nunca imaginou que a produção seria um sucesso de crítica e público, estavam convictos de seu fracasso, ainda mais com a alarmada indústria de bebidas, e o pior, com a Lei Seca em polvorosa na época. Mas, justamente pela honestidade do filme, creio que ocorreram muitas identificações de espectadores já que foi abertamente abordado isto é, foi como se fosse um grito de socorro por tratarem com veracidade o problema da bebida.


Segundo Wilder: “Foi depois dele [The Lost Weekend] que as pessoas começaram a me levar a sério.” Pois é, um dos célebres gênios das comédias (e voltaria no gênero diversas vezes posteriormente) mudando o rótulo, sem trocadilhos, com coragem, peitando a sociedade, com uma obra-prima inigualável do cinema. Nenhum outro filme sobre vícios irá superar o avô de todos eles.

“Farrapo Humano” é um brinde a isso. Então, brindemos e bebemos, socialmente.

EUA, 101 min., P&B, ClassicLine, Drama
Farrapo Humano (1945)
"The Lost Weekend"
            
Dir.: Billy Wilder
Produção: Charles Brackett
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett
Livro: Charles R. Jackson
Fotografia: John F. Seitz
Música: Miklós Rózsa
Edição: Doane Harrison
Figurinos: Edith Head
Direção de Arte: Hans Dreier, Earl Hedrick
Estrelando: Ray Milland, Jane Wyman
Phillip Terry, Howard Da Silva
Doris Dowling, Frank Faylen
Mary Young, Anita Bolster
Lilian Fontaine, Frank Orth
Paramount Pictures ©1945

4 comentários:

M. disse...

É um desses filmes que merecem ser vistos mais de uma vez. Parabéns pelo excelente texto!

Rodrigo Mendes disse...

Qualquer um do Billy Wilder!
Obrigado M, beijos!

Anônimo disse...

Gosto do som do teremin. Mas, às vezes, dá uma irritação...

Rodrigo Mendes disse...

Não chega a me irritar, mas dá a impressão que o Miklós Rózsa fez uma trilha para um film B de ficção-científica. rs

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