quinta-feira, 3 de abril de 2014

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN

FADA MADRINHA

Amélie, uma garota inocente e ingênua, que vive em Paris e, com o seu próprio senso de justiça, decide ajudar aqueles ao seu redor e ao longo do caminho, descobre o amor.


Provavelmente, Leo Tolstoi iluminou esse filme, já que ele é autor de duas lindas frases que irei citar a seguir. A primeira: “O bem do homem é o amor, como o da planta é a luz.” E a segunda: “A Alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira.” O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (LE FABULEUX DESTIN D´AMÉLIE POULAIN, 2001), é um dos mais célebres cults do moderno cinema francês já lançado em anos. Um grande sucesso. Creio que muita gente o ama de paixão. Por exemplo, é o meu filme de cabeceira e posso parecer suspeito na crítica, já que escancarei meu amor e predileção pelo longa-metragem de JEAN-PIERRE JEUNET.  Aliás, Jeunet é um cineasta interessante. Autoral. Cometeu o erro de passar por Hollywood e dirigir o pior filme da franquia Alien (A Ressurreição, Alien: Resurrection, 1997, com Sigourney Weaver). 

Nem por isso, afundou com a carreira quando, de volta à França, realiza este belo e magnífico exemplo em sua filmografia. Revelado em filmes talentosos com toques surreais e de realismo mágico, recriando mundos repletos dos detalhes que já lhe são típicos e plasticamente com marca registrada própria (assim como Tim Burton e Michel Gondry, por exemplo). O primeiro filme que assisti foi DELICATESSEN, de 1991, uma Black Comedy em parceria com outro diretor MARC CARO e com ele fez alguns curtas-metragens e mais um longa: LADRÃO DE SONHOS (La Cité Des Enfants Perdus, 1995). Um filme que mostrava um mundo alternativo, onde crianças tinham sonhos que eram capturados por um cientista decrépito que tinha dificuldades de sonhar. Recentemente filmou UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA (L´extravagant Voyage Du Jeune Et Prodigieux T. S. Spivet, 2013), uma co-produção francesa/canadense, mas falada em inglês, com Helena Bonham Carter e Judy Davis.


“Amélie”, um tantinho diferente dos demais acima citados (exceto “Uma Viagem Extraordinária”, por hora, preciso conferir), tem características mais próximas do mundo real. Muito embora, os belíssimos efeitos especiais e trucagens fazem da França contemporânea de Jeunet um belo quadro surreal, mas com reflexos da realidade na qual podemos nos identificar com mais facilidade. A começar pela heroína/protagonista da trama. A ingênua e idealista Amélie. Com jeito de menininha, com seus olhos arregalados, e que resolve espalhar o amor na vida de pessoas amarguradas e frustradas. É o papel da vida da incrível AUDREY TATOU, (a Audrey Hepburn de sua geração) que ainda faria com o mesmo diretor o ótimo ETERNO AMOR (Un Long Dimanche De Fiançailles, 2004). Simplesmente amo-a! Tatou faz esse papel com uma precisão impressionante de uma criança ingênua, porém levada da breca e até mesmo safadinha, mas que emociona quando decide mudar as vidas dos que necessitam. Extremamente inteligente Amélie encontra maneiras fabulosas de espalhar a felicidade por onde esta habituada a viver, até que um dia descobre o seu verdadeiro amor.



Na premissa, ela cresceu isolada das demais crianças, pelo fato de que seu pai achava que a menina tinha uma rara anomalia cardíaca, já que este batia muito depressa. No entanto, a causa não era exatamente clínica e de maneira original (e a narração nem chega a irritação na voz de André Dussollier), vamos descobrindo ao longo do filme, que, aliás, traz uma narrativa absurdamente fora do comum (talvez como o coração de Amélie). Por isso, seus pais, a privaram de ter contato com o mundo externo. Sua mãe, que era professora, foi quem a alfabetizou até no dia que, inesperadamente, morre. A morte prematura da mãe é um marco em sua vida e deixou cicatrizes em seu desenvolvimento. Seu pai foi quem a criou, interpretado por Jacques Narcy, aka: RUFUS

Não será fácil a jornada de Amélie na fase adulta. Em sua maioridade, evidente que não ficaria mais presa, então se muda do subúrbio para o coração parisiense (em Montmartre), onde começa a trabalhar como garçonete. De forma brincalhona, Jeunet vai desenvolvendo sua estória, tanto que o plot de virada do filme é uma caixinha misteriosa com brinquedos e figurinhas que pertenciam a um antigo morador local. E, ao descobrir a caixa, Amélie começa a viver as suas, digamos, aventuras. Decide procurar Dominique Bretodeau, o dono da caixinha e sem desistir finalmente o encontra, mas, pratica a boa ação anonimamente (um dos pontos altos do filme gerando até mesmo certo suspense). Com isso, ao perceber a alegria de Bretodeau ao reaver sua relíquia de infância, Amélie tem uma epifania e começa a ter uma visão diferente do mundo. Totalmente engajada nas boas causas, faz pequenos gestos que mudam as vidas de todos ao seu redor (gosto principalmente quando ela ajuda um deficiente mental que trabalha numa quitandinha e é interpretado por Jamel Debbouze). E, nessas ações de bondade, ela encontra um homem, interpretado pelo também diretor (de Rios Vermelhos, Les Rivières Pourpres, 2000) MATHIEU KASSOVITZ, e juntos viveram uma intensa e bonitinha história de amor.



O dito popular não espere nada em troca, é  brilhantemente encenado aqui. E, não apenas a Love Story, o ingrediente mágico do filme, mas, a plena bondade e ingenuidade (até certo limite) da protagonista. Amélie virou febre mundial com cinco indicações ao Oscar: Filme Estrangeiro, Som, Fotografia (esplêndido trabalho de Bruno Delbonnel), Direção de Arte e Roteiro Original (que inclusive é baseado em relatos de memória que Jeunet começou a selecionar desde 1974!).

Originalmente, seria a ótima EMILY WATSON (de Ondas Do Destino) que interpretaria Amélie, tanto que o papel foi escrito especialmente para ela e teria cenas rodadas na Inglaterra, mas, durante a produção, a atriz (que não falava bem o idioma francês) preferiu deixar o projeto e trabalhar no filme de Robert Altman: ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001), que inclusive competiu com Amélie na categoria Roteiro no Oscar e acabou ganhando!

O artista brasileiro Juarez Machado serviu de grande inspiração para o filme. Segundo Jeunet, as cores; vermelho e amarelo que brilham na fotografia em grande destaque, são as principais de uma paleta de cores vivas presentes em obras de Machado. Algumas cenas do filme foram rodadas em locações reais. O lugar onde Amélie trabalha é uma cafeteria chamada Les 2 Moulins. O estabelecimento evidentemente virou um ponto turístico e os fãs adoram tirar fotografias com o gnomo que foi mantido no local.


Magicamente envolvente “Amélie” é uma das mais originais comédias românticas já realizadas. Sua mistura de fantasia, realidade, ingenuidade e irreverência - sobretudo as pitadas sexuais deliciosas que culmina num famoso orgasmo francês - fazem deste filme um acervo especial. Gosto principalmente da sua mensagem otimista e humana. Não tem como não amar a nossa fadinha madrinha, que também se transforma em Cinderela com o seu príncipe encantado. É o que não se pode prever. É o fabuloso destino que um dia baterá em nossa porta.

FRANÇA/ALEMANHA, 122 min. COR/P&B 
IMAGEM FILMES/COMÉDIA-ROMANCE
O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (2001)
“LE FABULEUX DESTIN D´AMÉLIE POULAIN”
           
Dir.: JEAN-PIERRE JEUNET
Roteiro: Guillaume Laurent, Jean-Pierre Jeunet
Produção: Jean-Marc Deschamps 
Anne Meerkamp Van Embden
Produtor Executivo: Claudie Ossard
Música de: Yann Tiersen
Fotografia: Bruno Delbonnel
Edição: Hervé Schneid
Direção de Arte: Aline Bonetto, Volker Schäfer
Narração: André Dussollier
Estrelando: AUDREY TATOU
Mathieu Kassovitz, Rufus, Yolande Moreau
Artus de Penguern, Urbain Cancelier
Dominique Pinon, Maurice Bénichou
Claude Perron, Michel Robin
E Jamel Debbouze
UCG/ Claudie Ossard/
Victoires Productions/ Tapioca Films
France 3 Cinéma/MMC Independent
Sofinergie 5/ Filmstiftung/ Canal +
© 2001


8 comentários:

Hugo disse...

É um ótimo filme com uma bela história e uma magnífica direção de arte, este ponto por sinal especialidade do diretor Jeunet.

Abraço

Unknown disse...

É aquele tipo de filme que pode ser classificado como "mágico". Fiquei impressionado com ele, e foi inevitável não sorrir, pois você acaba se encantando totalmente pelo filme.

Abraço.

Reinaldo Glioche disse...

Ah, a cinefilia... Acho "Amelie Poulain" um bom filme, mas sou daqueles que não foi cativado por essa transcendência. Ainda que sua apropriação de Tolstoi me faça parecer mal na fita... rsrs.
Ótimo texto, as usual!
Abs

Alan Raspante disse...

Um dos melhores filmes que eu vi! Impossível não se encantar com a Amélie, ou com o filme em si! E fico feliz que a Watson tenha desistido, afinal, sem a Tautou não seria o mesmo encanto, acho... rs

Rodrigo Mendes disse...

Também não imagino outra pessoa no papel!

Rodrigo Mendes disse...

Adoro essa cinefilia, rs!

Abraço meu caro e obrigado!

Rodrigo Mendes disse...

Envolvente do início ao fim. Contagia mesmo! Sinto o mesmo, André.
abrç.

Rodrigo Mendes disse...

Sim Hugo! Jeunet trás uma plasticidade incrível em seus filmes.

Abrç.

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