FADA MADRINHA
Amélie,
uma garota inocente e ingênua, que vive em Paris e, com o seu próprio senso de
justiça, decide ajudar aqueles ao seu redor e ao longo do caminho, descobre o
amor.
Provavelmente, Leo
Tolstoi
iluminou esse filme, já que ele é autor de duas lindas frases que irei citar a
seguir. A primeira: “O bem do homem é o amor, como o
da planta é a luz.”
E a segunda: “A Alegria de fazer o bem é a
única felicidade verdadeira.”
O
FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (LE FABULEUX DESTIN D´AMÉLIE POULAIN, 2001), é um dos mais célebres cults do moderno cinema francês já
lançado em anos. Um grande sucesso. Creio que muita gente o ama de paixão. Por
exemplo, é o meu filme de cabeceira e posso parecer suspeito na crítica, já que
escancarei meu amor e predileção pelo longa-metragem de JEAN-PIERRE
JEUNET. Aliás, Jeunet é um cineasta interessante.
Autoral. Cometeu o erro de passar por Hollywood e dirigir o pior filme da
franquia Alien
(A Ressurreição, Alien: Resurrection,
1997, com Sigourney Weaver).
Nem por isso, afundou com a carreira quando,
de volta à França, realiza este belo e magnífico exemplo em sua filmografia. Revelado
em filmes talentosos com toques surreais e de realismo mágico, recriando mundos
repletos dos detalhes que já lhe são típicos e plasticamente com marca
registrada própria (assim como Tim Burton e Michel Gondry, por exemplo). O
primeiro filme que assisti foi DELICATESSEN, de 1991, uma Black Comedy em parceria com outro
diretor MARC CARO e com ele fez alguns curtas-metragens e mais um longa: LADRÃO
DE SONHOS (La
Cité Des Enfants Perdus,
1995). Um filme que mostrava um mundo alternativo, onde crianças tinham sonhos
que eram capturados por um cientista decrépito que tinha dificuldades de
sonhar. Recentemente filmou UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA (L´extravagant Voyage Du
Jeune Et Prodigieux T. S. Spivet,
2013), uma co-produção francesa/canadense, mas falada em inglês, com Helena
Bonham Carter e Judy Davis.
“Amélie”, um tantinho diferente
dos demais acima citados (exceto “Uma Viagem Extraordinária”, por hora, preciso
conferir), tem características mais próximas do mundo real. Muito embora, os
belíssimos efeitos especiais e trucagens fazem da França contemporânea de
Jeunet um belo quadro surreal, mas com reflexos da realidade na qual podemos
nos identificar com mais facilidade. A começar pela heroína/protagonista da
trama. A ingênua e idealista Amélie. Com jeito de menininha, com seus olhos
arregalados, e que resolve espalhar o amor na vida de pessoas amarguradas e
frustradas. É o papel da vida da incrível AUDREY TATOU, (a Audrey Hepburn de sua
geração) que ainda faria com o mesmo diretor o ótimo ETERNO
AMOR (Un
Long Dimanche De Fiançailles,
2004). Simplesmente amo-a! Tatou faz esse papel com uma precisão impressionante
de uma criança ingênua, porém levada da breca e até mesmo safadinha, mas que
emociona quando decide mudar as vidas dos que necessitam. Extremamente inteligente
Amélie encontra maneiras fabulosas de espalhar a felicidade por onde esta
habituada a viver, até que um dia descobre o seu verdadeiro amor.
Na premissa, ela cresceu
isolada das demais crianças, pelo fato de que seu pai achava que a menina tinha
uma rara anomalia cardíaca, já que este batia muito depressa. No entanto, a
causa não era exatamente clínica e de maneira original (e a narração nem chega a irritação na voz de André Dussollier), vamos descobrindo ao
longo do filme, que, aliás, traz uma narrativa absurdamente fora do comum
(talvez como o coração de Amélie). Por isso, seus pais, a privaram de ter
contato com o mundo externo. Sua mãe, que era professora, foi quem a
alfabetizou até no dia que, inesperadamente, morre. A morte prematura da mãe é
um marco em sua vida e deixou cicatrizes em seu desenvolvimento. Seu pai foi
quem a criou, interpretado por Jacques Narcy,
aka: RUFUS.
Não será fácil a jornada de Amélie na fase adulta. Em sua maioridade, evidente
que não ficaria mais presa, então se muda do subúrbio para o coração parisiense
(em Montmartre), onde começa a trabalhar como garçonete. De forma brincalhona,
Jeunet vai desenvolvendo sua estória, tanto que o plot de virada do filme é uma caixinha misteriosa com brinquedos e
figurinhas que pertenciam a um antigo morador local. E, ao descobrir a caixa,
Amélie começa a viver as suas, digamos, aventuras. Decide procurar Dominique Bretodeau, o dono da caixinha
e sem desistir finalmente o encontra, mas, pratica a boa ação anonimamente (um
dos pontos altos do filme gerando até mesmo certo suspense). Com isso, ao
perceber a alegria de Bretodeau ao reaver sua relíquia de infância, Amélie tem
uma epifania e começa a ter uma visão diferente do mundo. Totalmente engajada
nas boas causas, faz pequenos gestos que mudam as vidas de todos ao seu redor
(gosto principalmente quando ela ajuda um deficiente mental que trabalha numa
quitandinha e é interpretado por Jamel Debbouze). E, nessas ações de bondade, ela encontra um
homem, interpretado pelo também diretor (de Rios
Vermelhos, Les Rivières Pourpres,
2000) MATHIEU KASSOVITZ, e juntos viveram uma intensa
e bonitinha história de amor.
O dito popular não espere nada em troca, é brilhantemente encenado
aqui. E, não apenas a Love Story, o ingrediente mágico do filme, mas, a plena
bondade e ingenuidade (até certo limite) da protagonista. Amélie virou febre mundial com cinco indicações ao Oscar: Filme Estrangeiro,
Som, Fotografia (esplêndido trabalho de Bruno
Delbonnel), Direção de Arte e Roteiro Original (que inclusive é baseado em
relatos de memória que Jeunet começou a selecionar desde 1974!).
Originalmente, seria a ótima EMILY WATSON (de Ondas
Do Destino)
que interpretaria Amélie, tanto que o papel foi escrito especialmente para ela
e teria cenas rodadas na Inglaterra, mas, durante a produção, a atriz (que não
falava bem o idioma francês) preferiu deixar o projeto e trabalhar no filme de Robert Altman: ASSASSINATO
EM GOSFORD PARK
(Gosford
Park, 2001),
que inclusive competiu com Amélie na
categoria Roteiro no Oscar e acabou ganhando!
O artista brasileiro Juarez Machado serviu de grande
inspiração para o filme. Segundo Jeunet, as cores; vermelho e amarelo que
brilham na fotografia em grande destaque, são as principais de uma paleta de
cores vivas presentes em obras de Machado. Algumas cenas do filme foram rodadas
em locações reais. O lugar onde Amélie trabalha é uma cafeteria chamada Les 2 Moulins. O estabelecimento evidentemente
virou um ponto turístico e os fãs adoram tirar fotografias com o gnomo que foi
mantido no local.
Magicamente envolvente “Amélie”
é uma das mais originais comédias românticas já realizadas. Sua mistura de
fantasia, realidade, ingenuidade e irreverência - sobretudo as pitadas sexuais
deliciosas que culmina num famoso orgasmo francês - fazem deste filme um acervo
especial. Gosto principalmente da sua mensagem otimista e humana. Não tem como
não amar a nossa fadinha madrinha, que também se transforma em Cinderela com o
seu príncipe encantado. É o que não se pode prever. É o fabuloso destino que um
dia baterá em nossa porta.
FRANÇA/ALEMANHA, 122 min. COR/P&B
IMAGEM FILMES/COMÉDIA-ROMANCE
O
FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (2001)
“LE
FABULEUX DESTIN D´AMÉLIE POULAIN”
★ ★ ★ ★ ★
Dir.: JEAN-PIERRE JEUNET
Roteiro: Guillaume Laurent,
Jean-Pierre Jeunet
Produção: Jean-Marc Deschamps
Anne Meerkamp Van Embden
Produtor Executivo: Claudie
Ossard
Música de: Yann Tiersen
Fotografia: Bruno Delbonnel
Edição: Hervé Schneid
Direção de Arte: Aline Bonetto, Volker Schäfer
Narração: André Dussollier
Estrelando: AUDREY TATOU
Mathieu Kassovitz, Rufus, Yolande Moreau
Artus de Penguern, Urbain Cancelier
Dominique Pinon, Maurice Bénichou
Claude Perron, Michel Robin
E Jamel Debbouze
UCG/ Claudie Ossard/
Victoires Productions/ Tapioca Films
France 3 Cinéma/MMC Independent
Sofinergie 5/ Filmstiftung/ Canal +
©
2001










8 comentários:
É um ótimo filme com uma bela história e uma magnífica direção de arte, este ponto por sinal especialidade do diretor Jeunet.
Abraço
É aquele tipo de filme que pode ser classificado como "mágico". Fiquei impressionado com ele, e foi inevitável não sorrir, pois você acaba se encantando totalmente pelo filme.
Abraço.
Ah, a cinefilia... Acho "Amelie Poulain" um bom filme, mas sou daqueles que não foi cativado por essa transcendência. Ainda que sua apropriação de Tolstoi me faça parecer mal na fita... rsrs.
Ótimo texto, as usual!
Abs
Um dos melhores filmes que eu vi! Impossível não se encantar com a Amélie, ou com o filme em si! E fico feliz que a Watson tenha desistido, afinal, sem a Tautou não seria o mesmo encanto, acho... rs
Também não imagino outra pessoa no papel!
Adoro essa cinefilia, rs!
Abraço meu caro e obrigado!
Envolvente do início ao fim. Contagia mesmo! Sinto o mesmo, André.
abrç.
Sim Hugo! Jeunet trás uma plasticidade incrível em seus filmes.
Abrç.
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