Streets of Philadelphia
Homem processa empresa que o demitiu por justa causa ao saber que seu futuro e brilhante funcionário contraiu o vírus da AIDS.
Ao falar do filme Filadélfia (Philadelphia, 1993) sempre vem a mente a bela canção de Bruce Springsteen (vencedora do Oscar) que toca nos créditos iniciais mostrando todos os principais pontos da cidade evidenciando as diferentes classes sociais. Isso porque a primeira vez que assisti ao filme tinha a impressão que veria mais uma fita sobre a explosão dos núcleos urbanos que já tinha visto nas películas de Spike Lee. Posteriormente, (e depois ao traduzir a letra e interpretar nas entrelinhas) me emocionei e me surpreendi com a temática e, de fato, este é o primeiro filme do cinemão de Hollywood sobre a AIDS e, ao menos pra mim, o primeiro e significativo filme do Cinema LGBT, embora o assunto já tenha sido tratado em outros filmes, tanto no cenário independente, como, por exemplo, em "Garotos de Programa", dirigido por Gus Van Sant (1991) e produções para a TV e filmes europeus.
É praticamente um pedido de desculpas do diretor Jonathan Demme depois do seu aclamado sucesso anterior, "O Silêncio dos Inocentes" (leia a crítica AQUI) dar uma imagem negativa dos homossexuais. E, numa dobradinha, Demme realiza mais um exemplar de sucesso, aliás, o diretor esteve por um longo período no Brasil, chegando a adotar em seus filmes nos letreiros finais a frase simbólica: "E a luta continua" (assim mesmo em português). Isso talvez explique seu sucesso.
Tom Hanks, no papel que lhe valeu o primeiro Oscar de Melhor Ator, estrela como Andrew Beckett, um advogado homossexual da Filadélfia que é demitido por incompetência no trabalho, o que o faz contratar um outro advogado para defender seu caso. A priori, Beckett se vê em um dilema na busca pelos seus direitos, já que o homem que ele procura, Joe Miller, interpretado magistralmente por Denzel Washington, é homofóbico e tem vários preconceitos contra a doença (que era estigmatizada na época. As pessoas imaginavam que era contraída pelo ar como gripe), mas ao longo da batalha aprende com Andrew e passa a respeitá-lo. E é perfeito a escalação de Denzel ao papel principal ao lado de Hanks. Ele faz esse homem, ignorante por ter tido uma educação conservadora, mas ao tempo, e mesmo em suas contradições, alguém que respeita a dignidade humana acima de tudo e faz lindamente o típico patriarca que mais teme do que odeia. Ótimo também porque o filme acaba explorando outro tema intrínseco que são as classes étnicas. Há momentos de descontração quando o personagem de Denzel se refere aos gays ou mesmo a postura de Hanks em algumas cenas, mas o filme pretende dramatizar seriamente e conforme a história se desenrola o clima realmente vai ficando pesado, sobretudo nas cenas do tribunal.
Este é realmente um trabalho fisicamente intenso para Hanks (que se repetiu em Náufrago...) já que foi necessário perder 12 quilos quando seu personagem aparentava o estágio avançado da doença. Demme queria que as pessoas ainda não familiarizadas com o assunto fossem assistir ao filme, por isso, a impressão que me dá nas revisões é de um filme datado e didaticamente inferior com o que se existe de informação e avanço da medicina hoje em dia, mas nada que retire sua importância, afinal, é preciso contextualizar, também. Certamente o maior trunfo é Bruce Springsteen com "Streets of Philadelphia" que também colaborou por trazer uma audiência significativa ao filme desde sua campanha de marketing. A música é praticamente uma ode à cidade, embora sua letra que, mesmo triste, ajuda no contraste quanto ao lema local: "amor fraternal", algo que deixa os cidadãos de uma das mais antigas e populosas cidades norte-americanas envolvidos com o filme e obviamente mais conscientes com relação ao assunto.
Demme filmou tudo minuciosamente em continuidade seguindo o roteiro de Ron Nyswaner
- também indicado ao Oscar - e de filmes como "O Príncipe da Pensilvânia"(1988) e "O Despertar de Uma Paixão" (2006), justamente para que Hanks pudesse perder peso. Apesar da cidade Filadélfia ter sido praticamente mais um personagem importante do filme, houve grande discussão com relação ao título. Os produtores pensaram em diversos nomes. De "People Like Us" - Pessoas como Nós -, passando por "Probable Cause" (Causa Provável) até o ridículo "Em Risco"; At Risk!
O filme também mostra os gays da vida real em situações reais (o que faz da fita um trabalho entre as fronteiras do documental). Segundo fonte do IMDB, 53 homens gays apareceram em várias cenas (hospitais, protestos). No ano seguinte, tragicamente 43 deles morreram de HIV.
O estúdio ofereceu o papel para Daniel Day-Lewis, Andy Garcia e Michael Keaton, mas quando eu penso naquela cena de apreciação de ópera que outros atores teriam estragado, vejo o quanto Hanks foi de fato a escolha ideal, aliás, o momento mais sincero e emocionante de sua carreira como ator dramático (irônico pensar que o mesmo iniciou a carreira em comédias), talvez algo parecido se repetiu somente em "Forrest Gump", de Robert Zemeckis e "O Resgate do Soldado Ryan", de Spielberg. Outro dado curioso é que Demme, originalmente, queria um ator cômico como Bill Murray ou Robin Williams para viver Joe Miller, pois imaginou que seria uma ótima forma de balancear o clima de drama do personagem de Hanks. Na verdade foi Denzel quem procurou Demme, o que fez o mesmo desistir da ideia imediatamente. Antes da chegada de Denzel, seu personagem era descrito no script como um homem conservador ítalo-americano de nome Joe Martino.
Não há dúvidas de que "Filadélfia" foi o divisor de águas em relação à forma que os gays e lésbicas eram retratados no cinema (e mudando também a imagem dos transsexuais que foi visto de forma torpe em "Silêncio..."mesmo que não tenha sido intencional). Mais interessante ainda é pensar que um grande estúdio de Hollywood (que convenhamos sempre foi conservador) um dia pudesse financiar um projeto como Filadélfia, um filme que fala abertamente ao público sem marginalizar os homossexuais como era antes no passado. Certamente Demme abriu portas para outros filmes que se tornariam célebres como o ótimo "O Segredo de Brokeback Mountain", de Ang Lee. Em contrapartida, houve críticas ( e assino embaixo) quanto ao incômodo de não ver Hanks e Antonio Banderas (que interpreta o namorado e bastante calejado em filmes do tipo, vide algumas fitas de Almodóvar como "A Lei do Desejo", 1987) em cenas de intimidade, afinal eles nem sequer se beijam durante o filme. Okay, é até bonito ver a demonstração de amor que Banderas e Hanks não evitam com seus personagens, mas a comunidade LGBT já almejava ser representada sem medos e esteriótipos. Hanks, numa entrevista ao documentário "The Celluloid Closet" [O Celuloide Secreto], de 1996, afirmou que algumas cenas entre ele e Banderas (como a de ambos dividindo uma cama) foram consideradas fortes e picantes. Assim sendo, cortadas da edição final. A cena em questão não seguia os tais padrões de classificação indicativa para 13 anos. Mais tarde, no laçamento do filme em DVD, a cena é apresentada.
Polêmicas à parte, Demme realiza um drama sincero com um elenco maravilhoso que ainda incluem o veterano Jason Robards (1922-2000) de obras-primas como "Era Uma Vez no Oeste" (1968) e "Todos Os Homens do Presidente" (1976), Joanne Woodward (vencedora do Oscar por "As Três Máscaras de Eva", 1957), como a mãe de Beckett e Mary Steenburgen como a advogada de defesa que no final sente-se perturbada e enojada com a situação na qual se comprometeu envolvendo-se emocionalmente mesmo com as perguntas difíceis que aborda no tribunal e que, aliás, é outro momento magistral de Hanks. Além, é claro, do diretor Roger Corman em típicas participações como ator nos filmes de seu protegido.
É um filme que não sanitiza a devastação que a Aids inflige ao ser humano. É a direção honesta de Demme e o desempenho simpático e apaixonado de Hanks que acabam por compensar qualquer tentativa de amenizar um assunto polêmico e doloroso para o grande público. Não somente da Filadélfia, mas, do mundo.
Estados Unidos
Drama
2h 5 min.
Sony
★★★★☆
A
Jonathan Demme
Picture
TriStar Apresenta
Uma
Produção
Clinica
Estetico
Tom Hanks
Denzel Washington
Philadelphia
Jason Robards
Mary Steenburgen
Antonio Banderas
Ron Vauter
Robert Ridgely
Charles Napier
Lisa Summerour
Roger Corman
Tracey Walter
E Joanne Woodward
Música
Instrumental Howard Shore
Direção
de Arte
Kristi Zea
Montagem Craig McKay a.c.e.
Diretor
de Fotografia Tak Fugimoto
Roteiro Ron Nyswaner
Produzido
Por
Edward Saxon e
Jonathan Demme
Dirigido
por
Jonathan Demme
Philadelphia © 1993 Clinica Estetico - TriStar








4 comentários:
Um filme que preciso rever. E seu texto só me deixou com mais certeza disso. Lembro de cenas em detalhes, mas outras faltam. E tem a questão da memória afetiva. Mas, foi um filme que marcou uma época. A trilha sonora também é destaque, tenho o CD aqui em casa.
bjs
Amanda: de fato Filadélfia foi um filme marcante na época de seu lançamento e ainda emociona, funciona, nos dias de hoje, mesmo que algumas coisas soem datadas. A atuação de Tom Hanks é um brinde a parte. Me falta a trilha sonora em minha coleção e olha que eu coleciono. Tenho a de "Forrest Gump" que tbm é sensacional.
Beijos.
Filadélfia, desde sua estreia, teve de conviver com as mencionadas críticas de que é edulcorado e por demais comercial, apesar de seu tema doloroso, mas acho que Demme filma de um jeito tal que o filme ao mesmo tempo assusta e comove. Nem todo filme precisa de sexo e descrições gráficas de sofrimento para parecerem genuínos.
Cumps.
Gustavo: concordo que nem todo filme precisa de descrições gráficas, mas aqui faltou pelo menos uma demonstração mais acalorada entre Banderas e Hanks. Claro que não necessariamente uma cena de sexo. A cena cortada em questão era bonita e também condizia com o filme. Apesar das críticas, Demme e o estúdio apostaram no lado comercial o que foi bom. O tema precisava ser debatido com urgência.
Abraço.
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