sábado, 26 de novembro de 2016

Francis Ford Coppola | "O Poderoso Chefão" - A Trilogia (The Godfather - Trilogy, 1972, 1974, 1990)

Negócio de Família 



"Faça uma oferta que ele não possa recusar".  
"Mantenha os seus amigos por perto, mas os seus inimigos ainda mais perto".



A saga da família siciliana dos Corleones que emigram para a América e o "chefe" deles acaba por torna-se capo mafioso. 

Na primeira parte, Don Corleone (Marlon Brando) está velho e preocupado com a sucessão de seu império entre os filhos. Na segunda, Michael Corleone (Al Pacino) assumiu os negócios com a morte do irmão, mas tem problemas com a abertura para o tráfico de drogas; enquanto, simultaneamente, também conta-se a história da chegada do pai à América (Corleone jovem - Robert De Niro) e seu primeiro envolvimento com a organização.  E, finalmente, na terceira parte, agora é Michael que pensa na sucessão familiar, retornando para sua terra na Sicília e pensando num sobrinho (Andy Garcia) como herdeiro



"Chefão" - THE GODFATHER é uma obra-prima do cinema. Incontestável e fundamental para quem se interessa por teoria cinematográfica e afins. Uma aula de roteiro, fotografia, montagem e direção. E certamente o trabalho de uma vida de um dos cineastas mais importantes e interessantes da Nova Hollywood - FRANCIS FORD COPPOLA que repetiu o êxito de trabalho em grande escala apenas em outra fita: "Apocalypse Now", de 1979 e que também é, dentre sua obra, o filme mais discutido. Todo cinéfilo é suspeito para falar de "O Poderoso Chefão". E, por mais que eu discorde de uma teoria, não posso deixar de citá-la. Há quem diga e concorde de que existem filmes de meninos e filmes de meninas. E, segundo tal teoria, mulher gosta de filme romântico e homem gosta de faroeste, ação e fita de máfia. Portanto, de acordo com a lógica, "Chefão" é o filme preferido da maior parte de nós, homens. Em geral o primeiro filme da trilogia, mas, com frequência, todos apreciam a saga completa. Ao menos pra mim, o cinema não deveria ter preferência de gêneros. E gosto deveria ser medido apenas se a trama lhe é agradável ou não. Eu conheço algumas mulheres que amam Poderoso Chefão. Aliás, eles foram os primeiros filmes do cinema moderno a utilizar o "Segunda Parte", Terceira Parte". Não, obviamente, o primeiro porque não se sabia se a fita faria sucesso e teria continuações, mas é certo de que Coppola e o autor MARIO PUZO (1920-1999) que também assina o roteiro, planejaram em três partes. Antes eram usados recursos como A Volta ou O Retorno de... 



Quanto ao título nacional? Bom, eu adoro e soa legal. Até me acostumei com ele! Mas também aprecio o título original e compreendo de que ele é fundamental e creio veemente, mesmo curtindo a tradução do mesmo, tenha sido um problema sério. O correto mesmo seria chamar-se "O Padrinho", que é a tradução literal de The Godfather - o nome do livro original de Puzo. Mas se popularizou "O Chefão" aqui no Brasil. O que deve incomodar alguns fãs é o fato de tudo ter acabado virando O Poderoso Chefão; quando, pela própria sequência final, só faz sentido o nome no momento em que: o herói é realmente padrinho num batismo e em relação a sua posição perante a máfia. 

Como todo clássico do cinema que continua a impressionar gerações, é fato que o filme é protagonista de várias histórias por trás das câmeras. As pressões que Coppola sofreu por parte do produtor executivo Robert Evans, que não desejava aceitar suas escolhas de elenco. Al Pacino era um desconhecido, James Caan (soberbo no papel do irmão mais velho, Sonny, encrenqueiro e mulherengo) por demais judeu para interpretar um italiano (era uma das reclamações de Evans) e a carreira de Marlon Brando (1924-2004), à época, estava em plena decadência. Mas ele queria tanto o papel que aceitou fazer um teste, colocando algodão nas bochechas e convencendo todo mundo de que ele era a pessoa ideal para encarnar Don Corleone, o grande capo. É sem sombra de dúvida a caracterização mais genial da história do cinema (perdendo apenas para o mestre no quesito; Lon Chaney). 

Outra controvérsia foi a fotografia de Gordon Willis (1931-2014) um dos maiores gênios que o cinema já teve e o mesmo trabalhou em obras de Woody Allen, fotografou; "Annie Hall", "A Rosa Púrpura do Cairo", "Manhattan", "Memórias", "Zelig", dentre outras, e de outros diretores nas décadas de 1970-80 e meados dos 90, e que merecidamente foi honrado com o Oscar Honorário justamente pela sua marca registrada, o noir. Mas, para algumas pessoas, seu trabalho na fotografia era considerada tão escura, que nem sequer foi indicada ao Oscar. Mas Coppola sempre teve uma personalidade de chefão - sem trocadilhos -  e assim sendo foi capaz de impor suas vontades, inclusive em casos flagrantes de nepotismo. 

E, como seria de praxe, "Chefão" é mesmo um negócio de família. Coppola, contrariando ainda mais a questão do cast, no papel da filha de Corleone, está a irmã do diretor, Talia Shire (conhecida também pelo papel principal em Rocky), uma das personagens mais interessantes do núcleo feminino que evoluí ao longo da saga. Uma espécie de sobrevivente à la Carol de The Walking Dead e Talia a faz humanamente e lindamente.  Na trilha musical assinada pelo Felliniano Nino Rota (1911-1979) houve ainda a ajuda do pai maestro de Francis, Carmine Coppola (1910-1991), que no segundo filme já assumiu toda a responsabilidade. E no terceiro filme, quando Winona Ryder ficou doente (provavelmente o mais profundo pesar de sua carreira de atriz o que compensou com sua participação em outra obra-prima do diretor: "Drácula de Bram Stoker", 1992) ele escalou no papel da filha do segundo chefão, a própria filha, Sofia Coppola (que já participou do primeiro como um bebê recém-nascido na cena do batismo, ela tinha meses de vida e não dava para notar que era uma menininha). E eis um dos pontos fracos do último filme o que gerou polêmica. Péssima atriz, Sofia consegue destruir todo um enredo e que praticamente derrubou o filme. Em compensação, ela demonstrou uma carreira brilhante como diretora, produtora e roteirista. Fico aqui imaginando Winona no filme e de como ela seria perfeita na ocasião. 


O primeiro chefão ganhou apenas Oscars de: filme, roteiro, e ator para Brando (e a cerimônia de entrega do prêmio também se tornou célebre pela ausência do ator e presença de uma indígena [na verdade uma atriz] que negou a estatueta em seu nome...). O mais interessante, e o que realmente se fez história foi quando dois anos depois fizeram uma continuação tão excelente quanto o original e que também levou o Oscar de filme, caso único na história até outra saga, parte de uma trilogia, no caso "O Senhor dos Anéis", repetir a dose!  Além, novamente, dos Oscar de: roteiro (realmente acima de qualquer suspeita o melhor dos três), direção, trilha musical e ator coadjuvante para Robert De Niro, que está maravilhoso fazendo o mesmo papel de Marlon Brando jovem, copiando seu jeitão, falando muito italiano, sem nunca cair em caricatura. Toda vez que revejo e olho a atuação de De Niro fico boquiaberto. Meu Deus, como pode? E, curiosamente, foi a única vez em que dois atores ganharam Oscar fazendo o mesmo personagem. 

O que também é sensacional do roteiro de Coppola e Puzo é ter mostrado a máfia como uma grande empresa familiar que tem de transformar-se de tempos em tempos como em qualquer grande corporação com os seus CEO´s. Ele tinha uma tese: todo big business, todo capitalismo, é uma espécie de máfia. O que, a meu ver, fazendo um comparativo e citando Paul Verhoeven e "Showgirls" de que tudo é, no fundo, uma grande prostituição. Isto é, o que se está subtendido no filme é a intenção de criar uma grande alegoria do capitalismo selvagem norte-americano, que é capaz de tudo: até mesmo de matar para ganhar dinheiro e ficar por cima. Todos almejam safar-se de crimes que são necessários para se manter no negócio e não epenas por questão de respeito. 

É uma tese sem dúvida discutível, mas fascinante que fez com que todo homem de negócios visse ao filme com outros olhos. 
No primeiro capítulo, o que impressiona é que para os excessos de Brando, existe a descrição de Pacino. A sequência clássica do tiroteio no restaurante é realmente espetacular. É de um suspense agonizante. E mesmo com sua violência gráfica, tudo parece justificado. Compramos a ideia que motiva os Corleone como em todo bom filme de gangster. A diferença é que Puzo e Coppola nos levam para dentro da cúpula familiar de um jeito nunca antes mostrado, ao menos tão abertamente. O segundo filme contava as duas tramas paralelas, a da chegada do jovem Don Vito Corleone à América (que também daria como um único filme) e como Michael consolidou seu poder. O estupendo é de como ambas preenchem um mesmo filme com força total sem distrair o público. Um dos atores que fazia o irmão dele, o ótimo John Cazale (1935-1978), que é na verdade o típico traidor playboy, naquela altura já sofria de um caso avançado de câncer que logo o mataria. Coincidências ou não, seu personagem tem fundamento num dos melhores plot twist da narrativa (quiçá da história do cinema...). Já o terceiro Chefão não foi tão brilhante e veio mais tarde. A sensação que se tem ao assistir ao terceiro filme (e é o que menos revi comparado aos dois anteriores) é de um filme soturno demais, sem alma e, obviamente, tardio. Além, é claro, da já citada Sofia, que, repito, péssima atriz e abastadamente apática. Quem segura as pontas no final das contas é o seu protagonista. Pacino, realmente mais velho como seu personagem, um patriarca cansado, separado da esposa - a sempre ótima Diane Keaton - e passando o poder, mesmo que com desconfiança, para o sobrinho, Andy Garcia, e que até tem uma atuação boa. Mas nada comparado a sua participação no filme que o tornou astro, "Os Intocáveis"(1987). Apesar das agruras, o filme contou com a mesma equipe e obteve assustadoras várias indicações ao Oscar, mas sabiamente não levou nenhum. Foi o final apenas mediano de uma trilogia fascinante, que transcende as meras convenções do gênero policial. A sua explanação mítica dos laços familiares, ainda quando amaldiçoados pelo sangue e ambição, O Poderoso Chefão continuará atraindo espectadores a amantes da sétima arte em sessões e rodas de discussões para sempre.  



Parte I
2h 55 min
EUA
Paramount
★★★★★


Parte II
3h 22 min
EUA
Paramount
★★★★★

Parte III
2h 42 min
EUA 
Paramount 
★★★☆☆

Paramount Pictures Apresenta

de
Mario Puzo

“The Godfather” 

“The Godfather Part II” 

“The Godfather Part III”

Estrelando: 
Marlon Brando  Al Pacino  
Robert De Niro
James Caan  Richard Castellano
Robert Duvall
Sterling Hayden  
John Marley   Richard Conte 
Diane Keaton   Talia Shire   
Morgana King   John Cazale   
Mariana Hill    Lee Strasberg
Andy Garcia  Elli Wallach  
Joe Mantegna  George Hamilton 
Bridget Fonda   Sofia Coppola

Trilha Musical 
Nino Rota  Carmine Coppola 

Roteiro 
Mario Puzo 
e 
Francis Ford Coppola
Baseado no romance de Mario Puzo

"The Godfather" produzido por 
Albert S. Ruddy 
e 
Francis Ford Coppola

diretor de Fotografia Gordon Willis

"The Godfather Part II" - "The Godfather Part III"
produzido e dirigido por
Francis Ford Coppola
© 1972 / 1974/ 1990 Paramount Pictures - Alfran - Coppola - American Zoetrope











3 comentários:

Hugo disse...

Os dois primeiros são sensacionais, clássico absolutos.

O terceiro é um ótimo filme, fecha de forma inteligente a trilogia, mas infelizmente sempre ficará na sombra dos outros longas.

Coppola conseguiu impor suas escolhas no primeiro filme por ser uma época em que a força dos diretores era enorme em Hollywood. A situação funcionou até o maluco do Michael Cimino gastar uma fortuna em "O Portal do Paraíso".

Hoje os diretores que tem domínio completo sobre um filme são aqueles que ao mesmo tempo são produtores.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Cimino, que Deus o tenha, mitou com este filme, rs

Os anos 1960 foram absolutos para a Nova Hollywood e a indústria estava em boas mãos sendo Coppola um membro da cúpula Lucas, Spielberg, Scorsese e De Palma.

Abraço.

Amanda Aouad disse...

Talvez o fato do terceiro ter vindo tanto tempo depois tenha prejudicado o ritmo. É indiscutível que é o mais frágil da trilogia, ainda assim funciona no contexto geral. Para mim o primeiro se bastava, mas com o segundo, o terceiro de alguma maneira se tornou necessário.

bjs