segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

John Ford | Rastros de Ódio (The Searchers, 1956)

Ele tinha que encontrá-la...

Um veterano da Guerra Civil Americana depois de descobrir que os índios haviam matado seu irmão e seu cunhado e sequestrado sua sobrinha, resolve ir atrás dela. Mas, como se passam anos, sua intenção é matá-la para não se tornar uma deles. 




Não faz muito tempo que postei aqui no CineRodrigo "Vinhas da Ira", outro clássico absoluto de John Ford. Bateu aquela vontade imensa de continuar revendo sua filmografia e como não tinha muitas resenhas dele aqui no blogue eis um dos filmes mais importantes de sua obra. Indispensável e que clama por pertencer a minha vitrine cinéfila: RASTROS DE ÓDIO, e que aliás, é um título pesado que carrega um Q de vingança. Não é propriamente um Revenge Film hoje em dia muito popularizado por Quentin Tarantino. A quebra de expectativa e seu final é ainda mais surpreendente. E, segundo o próprio JOHN WAYNE (1907-1979), este era o seu filme predileto com o amigo e padrinho, Ford, dentre os vários clássicos que trabalharam juntos: NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (1939), A LONGA VIAGEM DE VOLTA (1940), FOMOS OS SACRIFICADOS (1945),  SANGUE DE HERÓIS (1948), O CÉU MANDOU ALGUÉM (1948), LEGIÃO INVENCÍVEL (1949), RIO BRAVO (1950), DEPOIS DO VENDAVAL (1952), ASAS DE ÁGUIAS (1957), MARCHA DE HERÓIS (1959), O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962), A CONQUISTA DO OESTE (1962, co-direção de Henry Hathaway),  e finalmente O AVENTUREIRO DO PACÍFICO (1963)

Wayne gostava tanto do personagem, Ethan Edwards, que batizou seu terceiro filho como John Ethan. O segundo filho, Patrick Wayne, trabalhava na fita fazendo o papel do tenente Greenhill e que mais tarde faria outros filmes como o pai numa modesta carreira de ator. Quem também se destaca é NATALIE WOOD (1938-1981), de "Juventude Transviada", como adolescente, já que sua irmã na vida real, LANA WOOD, interpreta a mesma personagem quando criança. Lana é conhecida também como Plenty O´Toole no filme de James Bond (007 - Os Diamantes São Eternos, 1971). 

Uma figura constante nos filmes de Ford era Ward Bond que por, essa época, também ficou famoso na televisão com a série "Wagon Train". Olive Carey, que faz a senhora Jorgensen, é a viúva do astro de faroeste Harry Carey - com quem Ford começou carreira - e mãe de Harry Carey Jr. (fez uma pontinha em "De Volta Para o Futuro Parte III" que era ambientado no Velho Oeste), que também trabalhou com frequência com ele, e aqui no filme vive Brad Jorgensen. Dizem que a cena final diante da porta que se fecha foi uma homenagem ao velho Carey (e podemos ver Tarantino fazer uma referência no primeiro capítulo de "Bastardos Inglórios", quando Shoshana foge da mira de Hans Landa e a câmera fica alguns minutos no mesmo plano). 

A ex-estrela do cinema mudo, Mae Marsh faz uma das mulheres do forte. 

O filme foi rodado em Monument Valley, no Estado de Utah, na chamada "Terra de John Ford", onde ele rodou nove de seus principais filmes. 

O filme, apesar de ser considerado o melhor do diretor, não obteve aclamações da Academia. Nenhum Oscar, o que é estranho. 

O Jovem galã JEFFREY HUNTER (1926-1969) - que fez mais dois filmes com Ford e estrelou "Rei dos Reis" de Nicholas Ray - morreu tragicamente num acidente caseiro, caindo de uma escada! 

Este é um filme que alguém trabalha de olhos vendados em sua boa zona de conforto. E podemos chamar Ford de mestre do gênero. Ele praticamente deu ao western seu timbre de qualidade louvável desde seus tempos de "Stagecoach", obra máxima do diretor lançada em 1939. Pois, até então, os filmes deste gênero eram produções "C" de complemento de programa. É como pensar que Stanley Kubrick fez o mesmo com a ficção-científica em '2001 - Uma Odisseia No Espaço'. Pois bem, Ford fez algo parecido com os filmes do Velho Oeste ou aqui no Brasil "Faroeste". Ele é um dos poucos cineastas de quem se pode dizer: nunca fez um filme ruim. Na categoria, posteriormente, também podemos dizer que Sam Peckinpah e Sergio Leone (até porque são outros diretores que admiro muito) deram outro upgrade, mas é John Ford o pai de tudo isso. Modesto, simples, objetivo - apresentava-se desta forma: "Meu nome é John Ford, eu dirijo westerns" - rodando sempre apenas o que sabia que ia usar; ele era um mestre da narrativa e do gênero e este talvez seja seu melhor faroeste. E digo talvez em meio a tantas obras-primas. É difícil escolher (?)



Foi justamente em seu 9º trabalho junto a John Wayne que ele lhe deu finalmente um personagem que lhe permitia crescer, mudar, transmutar-se, amadurecer e superar a quase-paródia em que caiu no fim de carreira. Parece que Ford tinha consciência de que construía uma elegia ao gênero a partir do plano que abre (e depois fecha o filme). Filmado do interior de uma casa, uma porta se abre mostrando a pradaria e o árido deserto, o exterior para onde vai a família, percebendo a proximidade de um forasteiro, que vem a ser a figura de J.Wayne, voltando da Guerra Civil para reencontrar a família. Preconceituoso, rancoroso ainda com a guerra e principalmente com os índios e aceita com má vontade o filho adotivo da família que ele ajudou a salvar, pelo fato de que o mesmo tem um quarto de sangue índio, ele percebe tarde demais que caiu numa cilada em que toda sua família será massacrada, com exceção da filha mais nova, Debbie (as irmãs Wood). Durante cinco anos, ele e o sobrinho adotivo percorrerão a região em busca da garota, o rapaz para salvá-lo; Ethan com a certeza de que ela, adolescente, tornar-se-á mulher de índio, provavelmente do chefe Scar (cicatriz, interpretado pelo ótimo HENRY BRANDON ) e então será tarde demais; terá de matá-la! 

Essa é um pouco da premissa de um filme captado inteiramente em VISTAVISION na paisagem espetacular de Utah que ele considerava sua verdadeira região e, onde não chega a haver muitos conflitos entre brancos e nativos, é mais a trajetória de um homem que aos poucos vai ficando amigo do jovem parceiro, até a aceitação da sobrinha. 

E o filme se encerra da mesma forma que se iniciou; com todos entrando pela porta aberta menos ele: para sempre um estranho, um outsider, caminhando com aquele seu andar tão particular parodiado por Nathan Lane em "A Gaiola das Loucas" (The Birdcage, 1996).

Ford também gostava de pintar um retrato da vida na fronteira, aliviando a tensão com situações humorísticas. Exemplo: a rivalidade com o reverendo, o romance do sobrinho com a namorada que dura cinco anos e ele chega justamente no momento em que ela está para se casar com outro, e a mulher índia que o rapaz "ganha" de presente. E que só aumenta a mítica. 

Este é um dos poucos westerns que sabe envolver o espectador emocionalmente, talvez pelo próprio conflito de gerações. É também um filme que hoje seria massacrado pelo politicamente correto. 

Jeffrey Hunter e seus olhos azuis brilhantes são de impressionante sinceridade e ainda temos a presença ilustre de VERA MILES (quase ia me esquecendo dela...) que nunca aproveitou a sorte de ser a favorita de Ford e Hitchcock, ora pela sua simples humanidade. Um filme para todo o sempre. 



EUA
DRAMA - WESTERN - AVENTURA
WARNER
1h 59min
★★★★



JOHN WAYNE

UM FILME
JOHN FORD – THE C.V. WHITNEY

THE SEARCHERS
Colorido por TECHNICOLOR
© copyright 1956 by The C. V. Whitney Pictures, inc.

Co-estrelando:
JEFFREY HUNTER
VERA MILES
WARD BOND
NATALIE WOOD

Com:
John Qualen  Olive Carey  Henry Brandon  Harry Carey Jr.  
Lana Wood   Antonio Moreno  Ken Curtis

Roteiro FRANK S. NUGENT
Baseado no Romance de ALAN LeMAY

Fotografado por WINTON C. HOACH, A.S.C.
(em VistaVision)

Música de MAX STEINER
Canção “The Searchers” de Stan Jones

Direção de arte ....... Frank Hotaling e James Basevi
Montagem ....... Jack Murray

Produtor Executivo MERIAN C. COOPER
Produtor Associado PATRICK FORD

Dirigido por
JOHN FORD

2 comentários:

Hugo disse...

Muitos filmes antigos seriam massacrados pelo terrível politicamente correto se fossem produzidos hoje.

Este é um dos grandes filmes de John Ford, que como você bem citou, vai além do western normal, explorando também o conflito de gerações.

Além de ter sido Cristo em "Rei dos Reis", Jeffrey Hunter também protagonizou uma espécie de piloto da série "Jornada nas Estrelas", que não tenho certeza, mas acredito que nem chegou a passar na tv na época, sendo lançado apenas muitos anos depois em DVD.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo - tem razão! Hunter fez o piloto de Star Trek, mas recusou a continuar na série e logo substituído por William Shatner. Certamente um dos maiores equívocos de sua carreira. Esses dias mesmo eu revi o piloto depois que a Netflix liberou as três temporadas clássicas. E, sim, passou na TV na época.

Abraço